Posted by: A Ovelha Perdida | Outubro 4, 2007

A “Fórmula” de José Rodrigues dos Santos

Sempre desconfiei dos actores de televisão que começaram na passerelle, das figuras do jet-set que se tornaram apresentadores de televisão, ou de figuras mediáticas, mesmo jornalistas de televisão, que de repente desataram a escrever romances. Nalguns casos esta percepção (ou será preconceito?) tem-me enganado, como aconteceu com o caso eloquente da obra “Equador”, de Miguel Sousa Tavares.
Devia esta introdução à minha honestidade pessoal, na forma de confissão pública, para passar a falar do último romance de José Rodrigues dos Santos (JRS), “A Fórmula de Deus”.

Por princípio nem sequer compraria um livro como este, mas foi-me oferecido. E não compraria porque o título, logo à partida, fazia suspeitar que se inscreveria na linha da exploração comercial dos códigos, cabalas, graals, e outras chinesices que têm constituído um autêntico e, ao que parece, ainda não saturado filão comercial das editoras nos últimos tempos.
Mas não.

Percebi que “A Fórmula de Deus”, acima de tudo, pretende levar os leitores a pensar, com alguma profundidade, em termos de Física, Matemática e Astronomia, à volta do tema da origem do universo, mas também sobre o sentido da vida e a natureza de Deus.

A preocupação do autor, da primeira à última página, é explicar que, apesar de nos apresentar uma obra de ficção, todos os dados científicos apresentados são verdadeiros, e que as teorias científicas abordadas pelas personagens do romance são “defendidas por físicos e matemáticos”. Talvez para se demarcar do autor de “O Código da Vinci”, que ilude os leitores misturando dados históricos verdadeiros com inexactidões e falsidades históricas grosseiras.

Em nota final, JRS reforça a sua preocupação e interesse com o ambiente científico da obra, ao clarificar a tese sobre o futuro do universo, reportando-se a uma série de obras científicas em que se inspirou, e com a revelação de que terá sido assessorado por professores de Física e Matemática da Universidade de Coimbra. Só que o suposto aconselhamento técnico-científico terá surtido pouco efeito, e a obra é alvo de crítica cerrada, por parte de cientistas, que alegam estar o texto cheio de disparates, dando para perceber que o autor não sabe do que fala quando pretende falar ciência.

Relativamente aos aspectos literários da obra também não me pronuncio, por não ser autoridade na matéria, mas o autor é igualmente acusado de vários crimes, como a falta de consistência e a prática da técnica paraliterária de “patching”.

Einstein e a Criação

Ao longo de quase toda a obra, JRS vai defendendo a tese de que o universo não é eterno, isto é, que teve um princípio e terá um fim. Esse princípio, afinal, encontra-se no Deus da Bíblia.

Einstein, como judeu que era, terá recorrido ao livro de Génesis para tentar entender o processo da origem do universo, e terá descodificado a divina obra criadora em seis dias, interpretando-a à luz das suas teorias da Relatividade, através da comparação entre o relato genésico e os acontecimentos que ocorreram simultaneamente no universo. Daí resulta que, de facto, os seis dias não foram solares, mas sim períodos de tempo necessariamente longos, do ponto de vista humano, alguns milhões de anos, o que estará de acordo com os cálculos científicos actuais, e justifica tudo o que se conhece, inclusive o surgimento dos dinossauros.

Mas a parte mais surpreendente do livro é aquela em que JRS, através dos seus personagens, nos pretende apresentar uma mão cheia de argumentos científicos irrefutáveis, que sugerem ter havido uma claríssima intencionalidade criadora, no sentido de permitir a existência de vida na terra.

Tropeção no antropomorfismo e no carácter de Deus

Apesar de tudo, a verdade é que o romance termina a defender uma tese sobre Deus que roça o panteísmo. Mas fá-lo partindo do pressuposto de que o Deus da Bíblia é “um velho de longas barbas brancas”. Recusando este antropomorfismo (e muito bem), falha aqui, porém, a imaginação de JRS para pensar um Deus Criador, não antropomorfizado, como causa última da Criação.

Outra dificuldade em compreender a natureza de Deus aparece na boca de uma personagem do livro, um monge budista: “Einstein não acreditava no Deus da Bíblia, não acreditava num Deus mesquinho, ciumento e vaidoso, que exige adoração e fidelidade. Ele achava que o Deus da Bíblia era uma construção humana.” Aqui entra a habitual dificuldade em interpretar os textos bíblicos, mas também a construção humana de um Deus à imagem do homem, com as mesmas virtudes, paixões e falhas de carácter, na linha da mitologia grega e dos cultos pagãos.

É pena que JRS não consiga ver o Deus que se revela na Sua Palavra, devido a filtros culturais como o antropomorfismo, ou uma exegese bíblica infelizmente muito comum, mas que não deixa de ser feita “à martelada”.

O Deus da Bíblia revela-se plenamente na figura de Jesus Cristo, Seu filho unigénito: “Eu e o Pai somos um” (João 10:30), e: “Quem me vê a mim, vê aquele que me enviou” (João 12:45). Tão simples como isto.

Basta crer.


“A Fórmula de Deus”, de José Rodrigues dos Santos, 2006, Ed. Gradiva.

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