Posted by: A Ovelha Perdida | Fevereiro 22, 2008

Quando toca a meter água

Foto: José Luís

Como muito bem dizia o arquitecto Ribeiro Teles, as desgraças recentes em Setúbal e na Grande Lisboa devem-se à acção humana, porque tempestades e intempéries sempre houve. A questão é o ordenamento do território e os termos em que é feita a sua ocupação humana.
A zona baixa de Setúbal está construída em leito de cheia, e por isso foi a mais atingida pelos efeitos materiais do temporal de segunda-feira passada. Trata-se de um problema urbanístico muito antigo e estrutural a que é difícil dar hoje uma resposta satisfatória.
Quanto às responsabilidades, não há dúvida que a tendência geral é sacudir a água do capote. O ministro do Ambiente deu a entender que a responsabilidade do sucedido pertencia às autarquias por inteiro. Embora tenha desmentido no dia seguinte, a verdade é que foi deselegante e não disfarça as responsabilidades do governo, tanto em relação à manutenção da limpeza das ribeiras a assegurar pelo Instituto Nacional da Água, como à eventual falta de alerta à população pela Protecção Civil. Claro que algumas autarquias também não podem eximir-se às suas responsabilidades na matéria, pela falta de limpeza de sarjetas, túneis rodoviários e outras formas de escoamento de águas pluviais, ou pelas obras de prevenção que são de imprescindível execução em certos locais.
A verdade é que a Natureza tem muita força, e quando a razão está do seu lado ninguém a segura. Dizia Goethe: “Do rio que tudo arrasta, dizemos que é violento, só não dizemos que são violentas as margens que o comprimem”.
A construção em cima de linhas de água e a impermeabilização excessiva dos solos são dois dos problemas urbanísticos mais graves que se verificam em Portugal, mas que estão na mão de quem decide prevenir, para mais tarde não ter que remediar.
A verdade é que o país não está devidamente preparado para acorrer a situações de emergência deste género. No caso particular de Setúbal é necessário que governo civil, autarquias, autoridade de protecção civil, universidades e especialistas se juntem para pensar como resolver de vez o problema da zona baixa da cidade. Cada vez mais, com as alterações climáticas à escala global, vamos ter que lidar com situações dramáticas como a desta semana ou mesmo piores.

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