Posted by: A Ovelha Perdida | Março 14, 2008

Os excessos da ASAE

A tendência dos extremos é má conselheira, e em política acaba por deixar um rasto de destruição ou permissividade.
Explico. Quem governa não pode mudar o registo abruptamente entre o oito e o oitenta. Tem que deixar respirar o país, Guterres ficou conhecido como o homem do diálogo. Tentou aliviar a crispação dos últimos tempos do primeiro-ministro Cavaco.
Afinal, Sócrates, a quem precipitadamente os adversários políticos chamaram um Guterres em segunda mão, veio a revelar-se a sua antítese. Revela firmeza, capacidade de decisão e é pouco dado a diálogos para empatar.
É claro que uma maioria absoluta ajuda a manter este estilo, mas governar implica sensibilidade. Não para preservar os interesses sectoriais, os lobbies ou as atitudes corporativas, mas para não vir a perder a razão devido aos pormenores.
O caso da actuação da ASAE é paradigmático. É claro que ninguém fala das toneladas de carne, peixe e outros alimentos, apreendidos por estarem podres e prestes a entrar na cadeia alimentar dos portugueses. Também não se ouve falar dos produtos contrafeitos que destroem a economia, não pagam impostos nem direitos de autor, e, sendo gato, são vendidos como lebre. Apenas se ouve falar dos excessos, do aparato da intervenção musculada nas feiras da província, da ameaça aos produtos típicos e tradicionais, da cigarrada do director no casino, em atropelo da nova lei do tabaco, e de umas quantas falsidades sobre pastéis de nata, colheres de pau e bicas em copos de plástico.
O CDS quer levar o tema ao Parlamento. Que a ASAE actue mas com conta, peso e medida. Porque não aceita o governo a ideia, até porque deputados do PS já reconheceram que tem havido excessos.
Não é bom nem para os consumidores nem para os operadores económicos encararem a ASAE como inimiga. O seu papel é justamente proteger a economia e a saúde pública, e já não é nada pouco. Dir-se-á que o PP não tem moral para falar porque, enquanto estava no governo pouco ou nada fez nesta matéria. Mas isso não será motivo para lhe negar a razão quando a tem. Neste caso específico, pode não ter moral mas tem razão.

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