Posted by: A Ovelha Perdida | Março 25, 2008

Reformas: paradoxo democrático

Introduzir reformas no país, quaisquer que sejam, é o caminho mais curto para a contestação e o conflito social, em regime democrático. Quanto mais profundas elas forem maior será a conflitualidade. Parece um paradoxo. Toda a gente clama por reformas mas depois quase ninguém as aceita.
Não sejamos ingénuos. As reformas fazem-se sempre contra alguém, mas em princípio para beneficiar muitos mais.

O regime democrático (sendo o melhor que se conhece) tem destas coisas, abre a porta à hipocrisia política, pois os partidos da oposição tentarão sempre cavalgar o descontentamento daqueles que são directamente prejudicados pelas reformas em questão, ou o medo e a ignorância de tantos outros.

É por isso que muitos clamam contra as maiorias absolutas, porque sabem que um governo minoritário não tem capacidade nem força políticas para reformar e afrontar tantas vezes interesses instalados. É também por isso que vemos sindicatos a agir como partidos políticos disfarçados, a pretexto dos “interesses dos trabalhadores”, muitas vezes numa atitude corporativa e conservadora que só prejudica aqueles que dizem defender. Recentemente um sindicato decidiu fazer greve, apenas porque uma grande empresa reduziu o número exagerado dos seus trabalhadores destacados para as tarefas sindicais e pagos pela mesma empresa…

Quer isto dizer que todas as reformas encetadas pelo governo são bem concebidas e aplicadas? Longe disso. Quer dizer apenas e só que infelizmente nunca se discute a substância das coisas.

Aos partidos da oposição exige-se mais do que criticar o que o governo faz ou deixa de fazer. Exige-se igualmente que apresente propostas concretas e alternativas para as políticas que está a desenvolver. Aos sindicatos a mesma coisa. Não basta dizer que está mal. Seria bom que dissessem qual é a sua alternativa.

Sobre a reforma do ensino, os sindicatos não apresentaram qualquer alternativa a não ser a suspensão da avaliação dos professores, o que significaria matar a reforma e porventura adiá-la por outros trinta anos, se o sistema ainda os aguentasse.

Jogaram na movimentação de rua (bem), mas com o fim de fazer cair a ministra (mal) e não de apresentar um sistema de avaliação alternativo.
Jogaram também no recurso à Justiça (providência cautelar) para tentar travar a avaliação e falharam. Tentaram mover conselhos executivos de escolas de uma região para pressionar em bloco o Ministério da Educação a ceder aos sindicatos e congelar a avaliação, mas a resposta da ministra foi sempre a mesma.

A verdade é que a escola pública precisa urgentemente de mudar de rumo, e a solução não é despejar lá mais dinheiro e professores, é alterando aquilo que está mal, e é muito, desde o centralismo do Ministério, a forma de gestão da escola, o experimentalismo, a desresponsabilização dos pais, a infantilização dos alunos, o facilitismo do sistema, e a falta de autoridade dos professores perante os alunos.

Custa dizê-lo, mas a escola pública está falida (como bem ilustra o episódio da Carolina Michaelis), e está cada vez mais claro que estes trinta anos constituíram um tempo perdido. O mal é estrutural. Está quase tudo por fazer.

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