
O maior tropeção que o regime salazarista experimentou terá sido a campanha presidencial de 1958, com Humberto Delgado.
Fez anteontem cinquenta anos que o general Humberto Delgado foi recebido por uma multidão imensa no Porto. Faz hoje cinquenta anos que o general, regressado do Porto, chegou a Lisboa, tendo sido fisicamente impedido de fazer campanha livremente, e os lisboetas foram brutalmente reprimidos pelas chamadas forças da ordem.
O denominado “General Sem Medo” foi efectivamente eleito presidente da república pelos eleitores portugueses, após uma campanha eleitoral nunca vista por estas bandas, mas uma fraude monumental acabou por lhe roubar uma vitória que era sua, clara e merecida.
Foi talvez a maior partida que a História pregou ao povo português no século vinte.
Visivelmente incómodo para um regime decrépito e ultrapassado, Delgado, que tinha apoio dos americanos, da NATO e sobretudo do seu povo, constituía uma pedra demasiado grande no sapato do governo, e uma verdadeira ameaça para a Situação, ele que tinha justamente saído das suas fileiras. Havia que o aniquilar de qualquer forma. A voz do homem que tivera o destemor de declarar que, uma vez eleito, demitiria o ditador, presidente do Conselho, tinha que ser calada de vez.
A ditadura acabou por organizar uma armadilha, atraindo-o à fronteira com o único intuito de o assassinar, o que veio a acontecer. As investigações entretanto realizadas permitem saber hoje que o homicídio terá sido efectuado com muito mais selvajaria do que até aqui se supunha.
Toda a gente em Portugal soube que fora a Pide que o matara. Lembro-me que em minha casa se falava, à boca pequena do tema, sempre na perspectiva do assassínio perpetrado pela polícia política. Não havia qualquer dúvida.
Com essa brincadeira, Portugal entrou no pântano do qual só veio a libertar-se em 1974. Do general sem medo aos capitães sem sono, ainda decorreu uma longa noite de dezasseis anos. Podíamos ter acedido à modernidade mais cedo, acertado o passo com os nossos parceiros europeus. Ainda hoje estamos a pagar o atraso daí decorrente.
Publicado em Actualidade, Memória, Portugal
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