Logos, Pathos, Ethos: a dança da Retórica

Está definido desde a antiguidade clássica que a retórica é composta por estes três pilares fundamentais: Logos, Pathos e Ethos.
Pode, aliás, fazer-se uma história das civilizações através do peso extra que cada povo, em cada altura, atribui a cada um dos três pilares em detrimento dos outros.

De uma forma muito resumida, o Ethos consiste na credibilidade do orador. Na sua magnificiência, cultura, estado social, capacidade intelectual e em como se poderá usar estas qualidades intrínsecas para levar um auditório a acreditar numa verdade.

O Pathos representa o jogo com as paixões e emoções dos ouvintes. A forma como o orador se dispõe a conquistar os corações do seu público, fazendo-o prescindir do controle racional das opiniões.

O Logos representa o raciocínio lógico através do qual se convence o público de uma verdade.

Cícero, por exemplo, era acusado de utilizar abusivamente o seu Ethos e ser um exímio orador na utilização do Pathos, em detrimento do Logos. Como a retórica em geral nos afiança que não existe uma verdade apenas mas algumas verdades com boas probabilidades de serem aceites como tal pelo auditório, de facto o Logos pode perder a importância hegemónica que, à primeira vista, se lhe atribui.
Se, a priori, pensamos que o veículo mais rápido de convencer alguém de alguma coisa é demonstrar a sua inevitabilidade lógica, vemos depois que a verdade não é um ponto; é um intervalo fechado dentro do qual há zonas mais verosímeis e menos verosímeis.
Cícero nunca foi, no entanto, acusado de demagogia. O Logos pode ser um instrumento poderoso mas, para gente inteligente, nada vale sem o Ethos.
E na época em que vivemos qual o peso que os nossos oradores dão, de uma forma inconsciente, a cada um destes pilares?

Fonte: Palácio dos Balcões.

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2 pensamentos em “Logos, Pathos, Ethos: a dança da Retórica”

  1. Tratámos de assuntos como estes no meu curso de Retórica. No entendimento de Aristóteles, deveria haver equilíbrio dos três factores, através do discurso. Toda a comunicação humana que visa um efeito vive necessariamente dessa tensão. Há que assumi-lo. Discordo por isso da afirmação “A forma como o orador se dispõe a conquistar os corações do seu público, fazendo-o prescindir do controle racional das opiniões.” enquanto princípio. É um risco, e um facto em muitos casos, não o princípio. Foi o exagero dos sofistas, não a condição fatal da retórica.
    Aristóteles escreveu (Retórica 3.1): “Na verdade, há discursos escritos que obtêm mais efeito pelo enunciado do que pelas ideias”.
    Um dia destes (quando tiver tempo) coloco no meu blog coisas sobre retórica.

  2. E uma coisa mais: em Retórica não se fala na categoria da “verdade”, desde o sofista Górgias. Aristóteles assumiu-o. Mas de “probabilidade”, de “verosimilhança”. Porque não é do domínio da verdade, da essência, da ciência ou da teologia, mas da opinião. O que não diminui a dignidade nem a ética da Retórica, mas coloca-a na perspectiva correcta.

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