Os números de 2012

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2012 deste blog.

Aqui está um excerto:

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O fim de um mundo, na visão de José Mattoso

 

 
Para os primeiros cristãos, esta exclamação [“Ora vem Senhor Jesus”]pressupunha que a segunda vinda de Jesus Cristo, depois da sua morte e ressurreição, estava já próxima. O que se pedia então não era um encontro espiritual com Jesus, mas a sua vinda efectiva, visível, como juiz supremo da humanidade, para separar os bons dos maus e instaurar no mundo o Reino de Deus. A sua vinda cósmica encerraria o tempo do mundo. Seria precedida ou acompanhada de acontecimentos catastróficos que abalariam todo o Universo e permitiriam o triunfo definitivo dos justos sobre os pecadores. O “Vem Senhor Jesus” não é, portanto, na sua origem, um chamamento místico, mas um clamor apocalíptico. É um grito de apelo, da parte de quem não receia o fim do mundo, antes o deseja ardentemente. Nesse contexto, o fim do mundo invoca-se, chama-se, se possível apressa-se, mesmo que traga o sofrimento e a morte, porque a situação que faz soltar esse grito se considera pior que tudo. Contém um sentimento de que a injustiça, a crueldade e a violência que invadiram o mundo inteiro são insuportáveis. Deseja-se que o tempo da iniquidade e do terror acabe de vez e para sempre.
 
Mas para os cristãos de há quarenta anos os pressupostos eram bem diferentes. Como recordam, decerto, os mais velhos aqui presentes, eram anos cheios de esperança ( os mais cépticos dirão: cheios de ilusões ). Muitos de nós julgávamos, com toda a sinceridade, que tínhamos chegado ao limiar de um mundo mais justo e mais fraterno. Esperávamos também, simbolicamente, os que éramos cristãos, a vinda próxima do Reino de Deus, mas queríamo-lo na terra, para nela instaurar uma era liberta da opressão e da injustiça. 
 
Começo as minhas considerações de hoje a dois momentos históricos tão distantes entre si – o do princípio da era cristã e o dos anos sessenta deste século – para mostrar que, na passagem do segundo para o terceiro milénio, em que hoje nos encontramos, se perderam as ilusões acerca da proximidade de um mundo melhor ou até de ele algum dia se poder implantar na terra. Hoje ninguém mais deseja a vinda do Reino de Deus. Perdemos a esperança. Não esperamos coisa alguma depois da catástrofe irreparável que parece aproximar-se da humanidade. Os cristãos construiram uma das religiões mais espalhadas sobre a terra. O seu sentimento optimista perante o fim do mundo resultava da convicção profunda de que os males da humanidade tinham conduzido os homens a uma perversidade tal que só podia provocar a intervenção divina para eliminar o mal e purificar a terra por meio da destruição. Mas depois viria o Reino de Deus. 
 
Depois das esperanças de liberdade, de justiça, de democracia, de vitória sobre a exploração do homem sobre o homem que nos animaram nos anos sessenta, e que nos nossos dias se dissiparam, voltou para muitos o sentimento da proximidade do fim dos tempos, mas não a esperança de um mundo melhor. Assiste-se a uma proliferação de catástrofes naturais e à dissolução dos fundamentos da sociedade. Não sabemos mais como restaurar a ordem e a segurança. Não desapareceu o espectro da bomba atómica que aterrorizou tanta gente depois da Segunda Guerra Mundial, e agravou-se a ameaça, a médio ou a longo prazo, de um imenso desastre ecológico. Penetram por toda a parte, até, por vezes, no nosso espaço doméstico, dois espectro não menos pavorosos – o da Sida e o da Toxicodepedência – com o seu cortejo de  miséria e humilhação. De consequências ainda mais vastas é o agravamento do fosso que separa os pobres dos ricos, por causa da globalização da economia e da irresponsabilidade da alta finança.  Afastou-se da nossa mente a imagem  do fim do mundo como destruição física da terra pelo fogo, mas vemos acumularem-se os riscos do caos social e do descontrolo global da natureza. […] Não podemos imaginar nenhum milénio que arranque o poder discricionário aos senhores deste mundo, como pensavam outrora os milenaristas que punham nele as suas esperanças , porque sabemos pela TV e os jornais que o peso dos terramotos, tsunamis e tornados recai sobre os indefesos, os oprimidos, os excluídos e os pobres, e não sobre os ricos. O que desejamos é estar do lado destes e não daqueles. O que perguntamos é se podemos continuar a ter o nosso carro e os nossos electrodomésticos. O futuro milénio não traz a esperança, mas o medo de uma luta implacável por bens escassos ou mal repartidos: por agora o dinheiro; dentro em breve, provavelmente, a gasolina, a energia eléctrica, a água, o ar despoluído, os lugares menos ameaçados pelas cheias, a carne dos animais sem vírus, os legumes sem pesticidas, os alimentos conservados sem aditivos, as árvores poupadas pelos incêndios[…].
 
Tal como o Apocalipse de outrora, também este resulta , em última análise, de uma crise de valores. Pedimos a segurança garantida pela polícia, a qualidade dos produtos vigiada pelos inspectores económicos, a disciplina dos alunos nas escolas, mas esquecemos que o recurso à polícia, aos inspectores e aos professores resulta de se ter  generalizado o desprezo pelos valores fundamentais em que se baseia a ordem social e pelos ditames da consciência. As convicções morais são impotentes para combater os interesses das empresas destruidoras dos recursos naturais e os fabricantes de produtos industriais cuja nocividade ninguém pode controlar. Ninguém quer renunciar ao conforto e ao consumo. Nenhuma empresa que limitar os seus lucros[…]. Secularizada a moral, apela-se à ética e à cidadania, mas não se consegue restaurar o carácter absoluto dos ditames  da consciência que era garantido pelo carácter sagrado dos seus preceitos. Não falámos ainda da dissolução da família. Há um novo conceito de família, mas os antigos modelos não foram substituídos por novas células capazes de enquadrar adultos e crianças com a mesma eficácia que a família de outrora; da ausência de critérios morais na experimentação e utilização das novas tecnologias, nomeadamente na genética; do fim da moral sexual; do terrorismo urbano; da corrupção das ditaduras africanas; dos genocídios; da inoperância das deontologias profissionais; do uso alienante do marketing económico e político; das distorções do sistema educativo; da lentidão do sistema judicial; da fraude política e económica; da programação televisiva reduzida aos mais baixos patamares da vulgaridade. A lista é quase infindável.
 
O rosário das perversões tem, nos nossos dias, algo de peculiar por comparação com crises análogas de outros tempos. Nestas podia haver infracções generalizadas dos valores morais mas não a dúvida ou o desprezo pelos valores em si mesmos; houve lutas entre sistemas de valores opostos, mas não descrença na sua necessidade. Num mundo compartimentado, com poucos contactos entre povos e nações, as crises eram limitadas. Não há memória de uma crise universal. Mas a globalização não multiplicou a prosperidade. Propagou a violência implacável da oposição de interesses. Com ela, generalizou-se também o desprezo pelos códigos e referências morais socialmente aceites. Desaparecidas as doutrinas que as sustentavam, surgiu a dúvida acerca dos seus fundamentos. Quem fala, hoje, em bem, beleza, justiça, solidariedade, bem comum, autoridade, humanismo ? E se alguém fala de tais valores, quem se deixa persuadir por tais discursos ? Muito pelo contrário: julga-se que quem maios invoca esses ideais é quem menos acredita neles.
 
Prof. José Mattoso
Fonte: Ab-integro, do livro Levantar o Céu – os Labirintos da Sabedoria, págs. 26-31, edição Círculo de Leitores.

Ficção e “ficção”

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Como se vê, pela notícia do Expresso, os portugueses neste fim de ano não largam a ficção. Não só como género literário (mesmo quando não se pode falar propriamente de Literatura), mas também quando a classificação é de “não-ficção”, continuam no campo de uma “ficção” ainda mais pobre.