A terceira vaga

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Podemos talvez dividir em três grandes fases a governação do país, desde a normalização democrática no pós-25 de Abril.

De início tivemos um período cavaquista, em que o senhor de Boliqueime ganhou o partido, depois da morte de Sá-Carneiro, impondo respeito aos barões laranja, e depois o país, face à falta de jeito de Mário Soares para o executivo. Governou durante uma década, sempre a cavalo dos generosos fundos europeus de coesão, que lhe garantiram milhões para fazer auto-estradas, mas também para rebentar com a agricultura e as pescas, política da qual estamos hoje a pagar a factura.

Foi aí que começou a corrupção em grande escala. Veja-se o BPN, um banco criado por cavaquistas para lavar dinheiro e comprar favores políticos.

A crispação natural de Cavaco – um político muito especial, que diz a toda a gente que não é político, mas sendo o político que há mais tempo está no poder em Portugal – marcou os últimos dias do seu consulado no governo, que abandonou a mastigar bolo-rei de boca aberta e a desmaiar na passagem da pasta a Guterres.

Depois veio o peéssismo. Primeiro protagonizado por um Guterres de boa vontade, mas que exagerou no chamado diálogo, tanto que se queria distinguir da crispação do anterior primeiro-ministro. Apesar das boas intenções como ponto de partida (“no jobs for the boys”) acabou por não resistir à pressão dos interesses partidários que conspurcam os partidos do chamado arco da governabilidade e saiu do executivo sem glória, empurrado de um lado para o outro pelos diferentes interesses em presença (veja-se a famosa manifestação do garrafão, a propósito da taxa legal de alcoolemia e seus avanços e recuos).

Depois de Durão Barroso, que usou o país como trampolim para outros voos e que promoveu a triste cimeira de guerra nos Açores, onde diz ter visto provas (inexistentes) das tais armas de destruição maciça, que só existiam na propaganda bushista, veio o não-eleito Santana Lopes e as suas trapalhadas que levaram à demissão do seu executivo por Sampaio.

Este breve interregno deu lugar a novo executivo PS, pela mão de José Sócrates, a quem a direita não sabia com fazer oposição, nos primeiros tempos, comentando à boca pequena que este primeiro-ministro estava a governar através das políticas que eles mesmo preconizavam.

Sócrates, no afã de apresentar trabalho e deixar obra feita, endividou o país como nunca antes se vira, e depois teve o azar de bater de frente com a maior crise de que há memória na Europa, em tempo de paz. Os mercados apearam-no do poder com uma ajudinha decisiva e sinistra de Cavaco em Belém.

Neste momento estamos em plena era do relvismo. A sensação que dá é que o valor do pessoal político se tem vindo a degradar de dia para dia e de governo para governo, tendo acabado por cair num buraco escuro. Mas, muito pior do que isso, este período relvista já é o da corrupção à vista de todos, sem vergonha. Ou seja, quem manda no governo é de facto o ministro das Finanças mas quem mexe os cordelinhos é o ministro Relvas, amigo de criminosos como Dirceu, de agentes dos serviços secretos e de figuras que se movem num mundo de sombras e negócios escuros.

Esta terceira vaga representa o canto de cisne do actual regime, tal como o conhecemos? Não o fim da democracia, mas deste regime constitucional? Pode ser que sim. Há muito boa gente a querer rever a constituição, embora com motivações diferentes.

De qualquer modo muita coisa vai mudar na Europa e em Portugal também, por razões óbvias. As ideologias políticas estão ligadas à máquina e a única coisa que conta agora é o livro de cheques, as influências, as ligações e os favores. A corrupção está instalada no âmago do regime. E por isso ele está podre e não consegue renovar-se por dentro.

Não acredito em homens providenciais, mas acredito que quando o povo se levanta tudo pode acontecer. O 15 de Setembro foi ontem. Amanhã não sabemos como será.

Por isso deixo aqui os meus desejos de que 2013 seja um ano de afirmação dos Portugueses. Um ano bom, apesar das nuvens escuras que se aproximam.

Fonte: Brissos Lino, Setúbal na Rede, 30/12/12.