Palavras perdidas (1150)

“Das duas uma: ou Cavaco, apesar de ter pedido a fiscalização de três normas – por acaso duas delas tendo a ver com o corte do subsídio de férias a pensionistas e funcionários públicos, que ele deixara passar, em dobro e sem pedido de fiscalização, no OE 2012 -, aposta no facto de o tribunal não ter coragem para, em março/abril, declarar mais uma vez a inconstitucionalidade de confiscos que “sustentam” o Orçamento; ou perante a inevitabilidade dos pedidos de fiscalização da oposição e prevendo que a execução orçamental vai ser – de novo – um desastre, sabe que a crise política é inevitável mas quer poder dizer que fez tudo para a evitar. E emergir como quem “avisou” – talvez mesmo o salvador. Do resto, que é só Portugal, quer ele lá saber.”

(Fernanda Câncio, DN)

Os “huis clos” modernos

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Quando Jean-Paul Sartre levou pela primeira vez à cena em 1944 a peça “Huis Clos” e em 1947 a publicou, não havia “Big Brother” nem “Casa dos Segredos”, nem a menor possibilidade de haver. Assim,  sem qualquer ligação com os espaços fechados onde jovens vivem 24 horas sobre 24 horas sob o escrutínio das câmeras e dos microfones para entretenimento dos espectadores da televisão, não foi acusado de se inspirar em tais programas. Tão pouco creio que os autores dos mesmos se tenham inspirado na peça sartreana.

Em português seria “Sem Saída” e remete logo um leitor não existencialista ateu, cristão, para a parábola do Rico e de Lázaro: “ E, além de tudo, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem tão pouco os de lá passar para cá” (Lc 16, 26)

Esta peça de teatro, uma das obras-chave de Sartre não é constituída por uma multidão, tem apenas quatro personagens, um – o garçon, serve os outros. Os “outros”, as três pessoas é que são o inferno. É nesta obra que se encontra a célebre frase, climax quase final: “l’enfer, c’est les Autres”. Por isso, “não há necessidade de grelhas, o inferno são as outras pessoas”.

Toda a narrativa, isto é, toda a dialogia em que está montada a peça, os diálogos são conducentes aquela verificação e culminam com um vocábulo radical e terrível, já naquela distante data dos anos 40: alienação.

Neste inferno sartreano, as personagens (o ser humano) está completamente alienado da Realidade, de Deus e do Mundo, não há vidros, não há janelas. Na ausência dos espelhos, o rosto do outro (de cada outro) é o espelho.

O quarto em que Inès, Estelle, Garcin e Le Garçon estão encerrados, tem só uma porta e esta permanece fechada, como fechados estão uns para os outros e para si próprios até, os protagonistas. Não podem fugir de si mesmos, mas ao mesmo tempo não suportam a sua própria companhia. Estão alienados uns dos outros, portanto. Alguém escreveu, a propósito, “que poderiam transformar o inferno num paraíso se conseguissem estabelecer relações uns com os outros.”

© J.T.Parreira