Crónicas

Algumas das minhas crónicas publicadas em jornais, em suporte de papel ou digital,estão disponibilizadas nesta página:

PARÁBOLA DO PIRILAMPO

Conta-se que certa vez uma cobra começou a perseguir um pirilampo. Ele, coitado, fugia com medo da predadora, mas a cobra não desistia. Um dia, já sem forças, o pirilampo parou e disse à cobra:
– Posso fazer-te três perguntas?
– Podes. Não costumo abrir precedentes, mas já que te vou comer, podes perguntar.
– Pertenço à tua cadeia alimentar?
– Não.
– Fiz-te algum mal?
– Não.
– Então porque é que me queres comer?
– Porque não suporto ver-te brilhar!…
Esta deliciosa metáfora ilustra de forma exemplar a inveja social que envenena demasiadas vezes as relações humanas.
É da natureza dos pirilampos brilhar do mesmo modo como é da natureza das cobras rastejar.
Quando as diferenças de competências, características e capacidades entre seres humanos não são percebidas, o mais natural é estabelecerem-se comparações desajustadas, injustas, inúteis e normalmente frustrantes para quem sai desfavorecido.
Há coisas que, por mais que se tente mudar, não há como. Há uns milhares de anos, o sábio Salomão perguntava, de forma claramente retórica: “Pode o leopardo apagar as suas manchas?”
O igualitarismo social é utópico e contranatura porque as pessoas são intrinsecamente diferentes e complexas.
O importante é assegurar a igualdade dos seres humanos em termos de dignidade, o que, desafortunadamente, está muito longe (cada vez mais!) de acontecer. Depois, cada um faz com o que tem e é aquilo que quer e pode, sujeito ainda às vicissitudes da vida.
Até lá, ainda andamos a tropeçar em cobras quase todos os dias. Cobras que não suportam o nosso brilho e que nos querem “apagar”.
Daí termos um mundo cada vez mais cinzento, triste e sombrio.
(O Setubalense, 8/5/09)

AS AFORTUNADAS ÉGUAS LUSITANAS

“Ninguém ignora que na Lusitânea, nas proximidades de Olisipo (Lisboa) e das margens do Tejo, as éguas voltam a cabeça para o vento ocidental e ficam fecundadas por ele; os potros assim gerados possuem uma admirável ligeireza, mas morrem antes dos três anos.”
(Plínio, VIII, 67)

Para os antigos, a península hispânica situava-se num extremo do extenso universo imperial romano. E sobre aquilo que é longínquo e menos conhecido temos normalmente muitas estórias para contar, quase sempre fantásticas e inventadas.

Tanto Virgílio (Geórgicas, III) como Plínio fizeram eco da fábula das éguas dos arredores de Lisboa, provavelmente devido à hipérbole “filhos do vento” aplicada aos cavalos mais velozes.

O velho princípio de vida que reza sobre o equilíbrio entre as vantagens e os inconvenientes está aqui bem explicitado. Como diz a sabedoria popular portuguesa, não se pode ter sol na eira e chuva no nabal. Se as éguas de Lisboa eram fecundadas apenas pelo soprar do vento ocidental (vindo do vasto e desconhecido mar atlântico), e os potros assim gerados se distinguiam pela sua velocidade, havia que encontrar uma característica negativa, para que a estória fosse minimamente credível. Sendo assim, os “filhos do vento” não podiam viver durante muito tempo.

Por outro lado, quem passa pela vida assim com tanta pressa acaba inevitavelmente por morrer cedo, como ilustram alguns mitos pop da era moderna como James Dean e Marilyn Monroe, ou os heróis trágicos da ficção literária.

Diz o povo que, quando a esmola é muita o pobre desconfia. Por isso nos tornámos cínicos, estribados na face lunar de uma experiência de vida, sobrevalorizando os episódios negativos, e aprendemos a jogar à defesa, de modo a evitar decepções futuras e o sofrimento a elas associado. Como se não fosse possível ou viável ser feliz.

Alguns, que transportam para a vida sentimental esta filosofia de vida, acabam acantonados num extremo solitário e infeliz, e a amaldiçoar o mundo e as pessoas.

Mas hoje toda a gente quer viver nos limites do risco e morrer tarde. Trabalhar pouco e ganhar muito. Estudar pouco e mal e pretender dispor de competências adequadas aos desafios profissionais emergentes. Criticar quem serve a coisa pública e ficar de fora a assistir e a gozar o pratinho com as dificuldades e os insucessos dos outros.

O estilo de vida assente em expedientes de vária ordem, na cunha como instituição, nas portas abertas pelo cartão partidário, no nepotismo, na concorrência desleal e na corrupção tornou-se moeda corrente entre nós, como sinal de uma sociedade que cada vez premeia menos o mérito, o esforço pessoal e o trabalho, mas onde a chico-espertice abunda.

Tornámo-nos filhos fáceis das éguas lusitanas (sem ofensa!), corremos muito depressa. Tão depressa que nunca mais paramos para pensar que um dia, mais cedo ou mais tarde, havemos de cortar a meta. Temos medo de pensar na inevitabilidade da morte. Incomoda-nos o tema.

No fundo, nem as éguas concebem assim tão facilmente, como que por artes mágicas, nem os potros têm o destino marcado, como se o favor dos deuses estivesse sempre associado a um alto preço.

A verdade é que a vida (e a morte) depende muito das opções que se tomam a cada momento. E depois há ainda que contar com a significativa faixa do imponderável.

(Setúbal na Rede, 28/4/09)
APARÊNCIAS QUE ILUDEM

Há dias uma mulher concorreu a uma competição televisiva de procura de talentos, muito popular na Grã-Bretanha.

Tratava-se de uma mulher desempregada, de 48 anos, uma fraca figura, mal vestida, cabelo maltratado, sobrancelhas tipo homem das cavernas, penteada sem gosto, e com um sentido de humor, digamos, estranho. Tinha tudo para sair do palco vaiada e humilhada. Não seria a primeira.

Quando a plateia e o júri se preparavam para uma vaia monumental, mal ela abrisse a boca para cantar as primeiras notas, aconteceu o inimaginável: brotou de dentro dela uma voz notável, bem timbrada, colocada, afinada e expressiva que deixou incrédulos os presentes durante uns segundos decisivos. Depois a plateia rompeu em aplausos, tendo aclamado de pé a candidata a artista, que interpretou um tema não muito fácil: “I Dreamed a Dream” (Sonhei um Sonho), do musical Les Misérables.

O passo determinado e firme com que entrou no palco parecia não se conjugar com o aspecto da senhora, mas era o único elemento que deveria ter feito desconfiar a assistência. Desconfiar da sua aparência rústica e quase boçal, e que, como bem sabemos mas quase sempre esquecemos, nem sempre o que parece é.

O preconceito (pré-conceito) foi assim destruído, desta forma violenta, frontal e decisiva, num meio de comunicação de massas como a televisão, onde quase tudo é artificial, e numa época em que se avaliam as artistas da música não pelos dotes vocais mas pelo corpo e a forma ousada como o expõem.

Susan Boyle centrou-se em cantar e secundarizou o resto. Acreditou que o júri estava ali para avaliar os seus dotes como cantora e não como modelo. O seu passo firme pode querer dizer que, quanto a isso, estava à vontade. Sabia o que valia, de modo que nem pareceu surpreendida pela reacção inicial de quase desprezo do público, nem pela reacção subsequente, quando teve a oportunidade de a ouvir cantar, esta extremamente positiva. Um dos cronistas da nossa praça classificou-a como “velha, feia e com sucesso; feia a conquistar um mundo de glamour, velha insistindo num sonho”. Não sei se Susan Boyle tem mesmo o sonho de vir a ser cantora profissional, mas pelo menos leva a satisfação de ter levado um júri, uma audiência física, e milhões através dos ecrãs, a engolir o seu preconceito.

O vídeo deste acontecimento, no Youtube, já passou os 26 milhões de visionamentos. É obra. É muito preconceituoso junto neste nosso mundo de Deus.

(O Setubalense, 24/4/09)


FANATISMOS
O fanatismo assume diversos rostos. Arrisco, porém, a afirmar que o pior de todos será o fanatismo de tipo religioso.
É claro que o fanatismo político tem regado a História com o sangue de muitos inocentes, que o fanatismo desportivo (clubístico-futebolístico) tem alimentado ódios e contendas permanentes, e que o fanatismo aplicado a outras dimensões humanas como o racismo e a xenofobia tem semeado a destruição um pouco por todo o lado.
Mas a verdade é que o fanatismo religioso é o que representa um escândalo maior, já que é alimentado em nome de Deus, um Deus que devia traduzir-se em manifestações de compaixão, misericórdia, amor e caridade, em consonância com a revelação do carácter divino.
O fanatismo (de fanum, templo) representa, antes de mais, uma rigidez de pensamento e uma fixidez de conceitos, um facciosismo, uma obstinação, mas acima de tudo configura medo.
O medo do fanático é o medo da mudança, o medo de vir a descobrir ter sido enganado, o medo de ter que alterar os seus esquemas conceptuais e a sua cosmovisão, o medo de reconhecer que passou parte da vida a percorrer os caminhos do erro e a divulgá-lo aos outros. Quanto mais rígida é uma pessoa mais dolorosa é a mudança e mais difícil a sua reconversão.
Uma boa forma de evitar os fanatismos é ser capaz de, a cada momento, vestir a pele do Outro, esforçar-se por entender o seu ponto de vista, penetrar o seu mundo, tentar perceber como ele chegou ali.
O fanatismo é cego. Cego para a razão, para o bom senso e a razoabilidade. O fanatismo age sem compaixão. Para o fanático, as ideias são mais importantes do que as pessoas, e os objectivos mais elevados do que os meios para os alcançar.
O fanatismo é um extremismo, um fundamentalismo, uma forma de estar permanentemente tensa e crispada. Responde a palavras e frases-chave com uma reacção pavloviana, automática e não-pensante.
O fanático não é feliz, não pode ser feliz. Apenas finge sê-lo, por conveniência. Este mundo está infestado de fanáticos, da política à religião, passando pelo futebol.
E pensar que todas estas áreas da actividade humana foram concebidas na óptica da libertação do corpo, da mente e da alma…
(O Setubalense, 17/4/09)

PAIS QUE AJUDAM A CAVAR A COVA DOS FILHOS

O presidente do Instituto da Droga e Toxicodependência (IDT) acusou recentemente os pais de se “demitirem das responsabilidades enquanto educadores” ao permitirem que os filhos saiam à noite e bebam em excesso.

Para João Goulão não faz sentido que os progenitores desconheçam o que fazem os filhos: “Os pais têm de saber que os filhos bebem quando saem à noite”, e quando não sabem o que acontece estão a “demitir-se das suas responsabilidades enquanto educadores”, já que muitos desses adolescentes, quando saem, “bebem álcool e também bebem o juízo”.

O presidente do Instituto da Droga e Toxicodependência alertou para os perigos indirectos do consumo excessivo de bebidas alcoólicas, como as gravidezes não desejadas, o contágio de doenças sexualmente transmissíveis, e o envolvimento em actos de violência e acidentes de viação, além de apresentarem, com mais frequência, e de acordo com o Plano Nacional para a Redução dos Problemas Ligados ao Álcool, do IDT, “envolvimento com experimentação e consumo de tabaco e substâncias ilícitas e envolvimento em lutas e situações de violência na escola.”

Segundo os estudos a que se reporta o referido Plano, “os jovens começam a beber cada vez mais novos e em cada vez mais quantidades: o início do consumo de álcool está a aumentar entre os 15 e os 17 anos, tendo passado dos 30 por cento em 2001 para os 40 por cento em 2007.” E os mais novos começam a imitar os padrões de consumo dos povos nórdicos de grande exagero aos fins-de-semana: “bebem rapidamente muitas quantidades com o intuito claro de alterar o seu estado de consciência e depois é que vão para a rua.”

Antes de mais há que constatar o óbvio: muitos pais, hoje em dia, demitem-se em absoluto da sua responsabilidade parental, ou porque nunca entenderam o que é ser pai e mãe, ou porque acham que os filhos crescem sozinhos como certos arbustos selvagens (até os animais necessitam de apoio dos progenitores durante algum tempo), ou porque pensam que se eles próprios não desfrutaram, no seu tempo, de tal tipo de suporte, os filhos também não precisarão, ignorando que isso não serve de desculpa e que o mundo de hoje é radicalmente diferente – mais perigoso – do que há uma geração atrás.

Mas a grande questão por detrás deste tipo de comportamento é mais grave. Os pais não se querem incomodar muito com os filhos, rendidos que estão à cultura do individualismo, do materialismo exacerbado (que desvaloriza tudo o resto), e à lei do menor esforço.

Já os filhos sentem necessidade de se embriagar para atingir rapidamente estados alterados de consciência. Associam a ideia de prazer, de aventura e de bem-estar, à fuga do seu estado normal de controlo, de consciência. Como se fugissem, sempre que podem, para um país diferente, que só visitam durante umas horas, mas que querem aproveitar ao máximo, antes de regressar à “vã e vil tristeza” da realidade.

A verdade nua e crua é que o álcool causa todos os anos cerca de 200 mil mortes na Europa, com maior incidência na faixa etária dos 15 aos 29 anos. O instituto dirigido por João Goulão está a propor ao Ministério da Saúde que altere a permissão de venda e consumo de álcool dos actuais 16 para os 18 anos e a “promoção da fiscalização sistemática nos locais de consumo e venda”. Só que a coisa não vai lá apenas com leis e regulamentos ou fiscalização.

Pode ser uma afirmação lapalissiana, mas convirá repetir que a educação não é conferida pela escola nem pelo Estado. A escola dá instrução, mas é à família – e só a esta – que compete educar os seus filhos. E enquanto os pais não se dispuserem a assumir de facto a sua responsabilidade parental veremos os adolescentes e jovens de mal a pior.

(Setúbal na Rede, 31/3/09)

O ERRO DE LUCÍLIO

A clubite doentia que caracteriza o futebol português teve esta semana pano para mangas devido aos acontecimentos da final da Taça da Liga, no Estádio do Algarve, no passado sábado.
O árbitro avaliou mal um lance, marcou uma grande penalidade a favor do Benfica, sem motivo, quando Sporting estava a ganhar por 1-0. Apesar de erros destes estarem a acontecer constantemente, desta vez a casa veio abaixo. Porquê? Ansiedade da recta final do campeonato?
Afinal o que aconteceu diferente desta vez que não tenha sucedido antes, com tantos outros prejudicados? O árbitro equivocou-se, o juiz de linha também, e marcou uma grande penalidade que se veio a verificar posteriormente, pelo visionamento do vídeo, não ter existido.
Dois dias depois o árbitro assumiu o erro publicamente e justificou-o na televisão (“fui traído pela trajectória da bola”), embora entendesse não ter que pedir desculpa aos sportinguistas pelo mesmo. Apesar disso o clube acha que “o árbitro não está tão ressentido (?) como possa parecer”, e não aceitou as explicações, tendo abandonado a direcção da Liga de Clubes.
Francamente, o que parece é que o clube está a tentar desviar as atenções do comportamento lamentável do treinador (chamou ladrão ao árbitro por gestos), do jogador Pedro Silva (agrediu o árbitro e atirou fora a medalha da Liga que recebeu no final do jogo), e do presidente do SCP, de modo a evitar os castigos prováveis inerentes a esta grave demonstração de indisciplina. Até agora, o único que pediu desculpa pelo seu comportamento foi o jogador, o que torna ainda mais grave, por contraste, a posição do treinador e do presidente. Se alguém acha normal que os agentes do futebol aticem a fogueira do sectarismo e da irracionalidade, então deve achar normal, também, as ameaças de morte que Lucílio Baptista recebeu esta semana.
Mas quem garante que o Benfica não empataria o jogo, mesmo não havendo penaltie? E penaltie é igual a golo? E se é, porque razão não se queixa o Sporting de si próprio, uma vez que perdeu o jogo precisamente nas grandes penalidades, onde falhou mais do que o adversário?
É curioso ver como se dá aos dirigentes o direito de fazerem as maiores barbaridades nos clubes, aos treinadores e jogadores o direito de falharem e serem incompetentes, mas os árbitros não podem ser… humanos. Têm que ser Deus!
De uma coisa estou certo. Se o mesmo acontecesse com um clube pequeno, como o Vitória, por exemplo, aposto que não daria um décimo da polémica, nem teria o mesmo impacto na comunicação social, mas a injustiça seria a mesma. Ou não?

(O Setubalense, 27/3/09)

DEPOIS NÃO SE QUEIXEM…

Na noite do passado sábado um larápio, agindo sozinho, entrou num prédio do centro da cidade de Setúbal, de madrugada e rebentou literalmente com a porta do primeiro andar, onde funcionam diversos escritórios. Ouvindo um barulho estranho, um vizinho chamou a polícia, a qual deteve o criminoso em flagrante delito. Note-se que o referido prédio já foi assaltado por diversas vezes.
Num país normal, este elemento estaria em prisão preventiva, acusado de destruição de propriedade privada, de invasão de propriedade privada e de furto, pelo menos. Mas como isto não é um país normal, pelos vistos, o criminoso foi enviado em liberdade pelo procurador de serviço, com ordens para se apresentar à PSP na segunda-feira seguinte. Claro que não compareceu…
Recapitulando. O vizinho fez o que lhe competia, chamar as autoridades de segurança. A polícia fez o que lhe competia, deter o criminoso no local. Quanto ao procurador, ou provavelmente não terá feito o que devia, ou o legislador devia estar distraído, já que a lei actual deve estar muito mal feita.
Como já se percebeu, este episódio tem tanto de triste como de revoltante. Como é possível a um magistrado deixar um criminoso à solta, em especial nesta fase de aumento exponencial de criminalidade? Teria o senhor procurador as mãos atadas pela própria lei? Será que a lei não permite aplicar a prisão preventiva a um criminoso apanhado no próprio acto pela polícia? Para que serve uma lei dessas, então? Se foi opção do magistrado, para que serve um magistrado destes?
É assim que se estimulam os agentes policiais a cumprirem a sua missão de segurança pública e prevenção da criminalidade, muitas vezes com risco da integridade física e da própria vida?
Vale a pena a um cidadão chamar a polícia quando se apercebe de um assalto? Para quê, se o criminoso sai logo a seguir em liberdade?
De que é estão à espera? Que os cidadãos se decidam a fazer justiça pelas próprias mãos? As coisas são o que são por mais que o senhor ministro da Administração Interna ou o governo simulem o contrário. Há uma sensação geral de insegurança.
E se não queremos que Portugal entre numa deriva securitária, pela mão da extrema-direita, se não queremos um qualquer saudosismo salazarista, há que repensar no que andamos a fazer. Assim não vamos lá.

(O Setubalense, 20/3/09)

O EQUÍVOCO ALEGRE

“O que os participantes no Fórum das Esquerdas almejam, por mais que Manuel Alegre fale em ‘alternativa de poder’, é uma nesga de influência no rumo da governação”.
(Paulo Martins, “Jornal de Notícias”, 15-12-2008)

Manuel Alegre pode estar destinado ao papel de ingénuo útil. Qualquer pessoa vê que alguém estará interessado em explorar a sua vaidade pessoal, fazendo dele a figura de cartaz de uma tentativa de ressuscitar a ideia do POUS, o famigerado Partido Operário de Unidade Socialista que nunca passou do vão de escada. Mas agora com a estrutura (por pequena que seja) do Bloco de Esquerda, dos comunistas descontentes com o PCP e dos socialistas descontentes com o governo, temos um caldo de cultura de oposição. Claro que todos querem influenciar o governo, até porque todos sabem que dificilmente poderão governar.
Quais são as figuras gradas deste movimento? Alegre, que os socialistas rejeitaram como líder, e que nunca governou nem uma junta de freguesia, Carvalho da Silva, sindicalista comunista em processo de desalinhamento, e Francisco Louçã, o líder da extrema-esquerda. Que é que pode sair daqui, desta cultura de contra-poder? Nada de bom, já se vê.
Sendo Alegre um homem mais das letras e da agitação do que da realização, mais do lúdico (da caça e da pesca) do que do trabalho, quem é que vai manipular a imagem que ele poderá emprestar a um projecto político de ruptura com o seu partido? Louçã, como é óbvio.
Já não há pachorra para suportar o ar de prima-dona, o estilo sobranceiro e ressabiado que o deputado Alegre coloca perante as câmaras de televisão. À parte os excessos verbais de Lello, se Manuel Alegre tivesse uma atitude coerente abandonaria o PS, depois de ter andado a “esticar a corda até ao limite”, como confessou, e depois de ter afirmado que se candidataria como independente se a lei o permitisse, contra o “seu” PS…
Entendamo-nos. Em devido tempo Alegre foi a votos pela liderança do seu partido. Perdeu. Deve respeitar agora a opção dos militantes socialistas. Se não está satisfeito e quer fundar um partido, faça-o, mas defina-se de uma vez por todas. O facto de ser um grande poeta não faz dele automaticamente um grande político, e menos ainda um estadista. E não vale a pena iludir-se com os votos que teve nas presidenciais. São como o vento que passa, vêm e vão.

(O Setubalense, 13/3/09)

INSEGURANÇA E IMPUNIDADE

A sociedade portuguesa começou a revelar sentimentos de ordem diferente dos que durante anos a fio a animaram, no tocante à segurança.
Hoje, mercê das alterações sociais ocorridas nos últimos anos, existe em Portugal uma sensação geral de insegurança, que deriva tanto dos crimes de assalto à mão armada a habitações e estabelecimentos comerciais, em plena luz do dia, como do denominado “carjacking” e de algum tipo de homicídios, mas também da forma exuberante como são hoje tratados esses fenómenos por alguma comunicação social.
Associado a este sentimento perigoso, porque potenciador de reacções irracionais e imprevisíveis, tem vindo a desenvolver-se, paralelamente, um sentimento de impunidade. Os criminosos são detidos pela polícia e soltos logo a seguir, o que provoca, também, picos emocionais nas populações mais próximas e espectadoras destes acontecimentos, que comportam uma revolta profunda contra o sistema de segurança/sistema de justiça.
No limite, as pessoas começarão a comprar armas e a fazer rondas de autoprotecção, à semelhança da tentativa de criação de milícias de auto-defesa já ensaiada por comerciantes de Ermesinde.
Segundo o relatório da Procuradoria-Geral da República relativo ao ano de 2007, um total de 52% dos inquéritos-crime que deram entrada nos serviços do Ministério Público foram arquivados, o que corresponde a mais de 365 mil crimes. Embora se justifique que “há muitas participações sem fundamento”, mas o facto é que outras são contra desconhecidos cuja identidade posteriormente não se consegue apurar, existindo ainda outros casos em que as investigações não conseguem recolher indícios bastantes para acusar.
Em 2008 o crime violento aumentou entre 8 e 12 por cento, tendo registado a maior subida dos últimos anos. Pode-se dizer que é apenas um sinal dos tempos, que não será um fenómeno exclusivamente nacional ou que noutros países da Europa e do mundo será bem pior. Mas a verdade é que, no nosso caso, esta viragem está a mudar a essência do ser português.
O governo está ainda na fase da negação, e o país não demonstra estar minimamente preparado para o recrudescimento do crime violento. Nem estão as polícias, que coxeiam entre a permissividade e a resposta excessiva, nem o sistema de Justiça, que está no estado que se sabe, nem as leis criminais, que não respondem às reais necessidades da nossa dinâmica social.
Ao menos o ministro da Administração Interna fez bem em passar a estar calado. Tentar tapar o sol com a peneira é trabalho inglório.

(O Setubalense, 6/3/09)

REFLEXÕES SOBRE A JUSTIÇA E OS SEUS SEGREDOS

Mário Soares repetiu na imprensa o que toda a gente já percebeu há uns anos a esta parte, que o segredo de justiça em Portugal se tornou definitivamente uma farsa.

Os jornais têm acesso livre e directo às investigações judiciais. No “Expresso” do passado dia 21 ficou a saber-se, tintim por tintim, o teor das perguntas dirigidas a Júlio Monteiro, e respectivas respostas. A manchete, orgulhosa, dizia “Tudo o que o MP perguntou ao tio de Sócrates”. E tudo isto acontece com a maior desfaçatez.
Claro que aos jornalistas compete descobrir as suas fontes e lhes pertence o direito de guardar delas a devida reserva, mas não deixa de ser lamentável que algumas figuras ligadas ao sistema judicial ou próximas dele se comportem como prostitutas baratas que se vendem por meia dúzia de tostões ou (quem sabe?) trocas de favores. Doutra forma como se compreende que os jornais tenham acesso a matéria reservada?

O ex-presidente da república escrevia no DN: “(…) uma justiça independente, justa e célere é um dos pilares essenciais para o bom funcionamento da democracia. Não é isso, infelizmente, o que acontece. Magistrados, procuradores do Ministério Público, advogados, etc., têm de ter a consciência disso. Há fugas de informação, que não se sabe donde e como vêm nem por que razão não se investiga donde surgem. Mas a verdade é que chegam rápida e lamentavelmente aos meios de comunicação social, que, por sua vez, fazem inquéritos e organizam verdadeiros “julgamentos na praça pública”, arrasando reputações, sem que as pessoas visadas se possam defender.”

A ideia abstrusa suscitada pelo PGR de propor o levantamento do segredo de justiça no caso Freeport é lamentável. Lamentável porque capitulacionista. Como Pinto Monteiro não consegue evitar os atropelos à quebra do segredo de justiça, neste caso, propõe o seu fim. Desta forma deixa de haver crime. Pois. Se os crimes deixassem de ser assim tipificados no Código Penal, então deixaria de haver crimes. Certo? Está descoberto o ovo de Colombo de Pinto Monteiro para fazer descer os níveis da criminalidade no nosso país.

Em tempos já alguém se tinha lembrado de fazer o mesmo com as seringas nas prisões. Não se conseguindo evitar a entrada de droga lá dentro, então forneçam-se seringas descartáveis, em nome do controle sanitário. Por enquanto não resultou. Mas apenas porque são os próprios presos, toxicodependentes, que parecem ter mais juízo do que quem toma tais medidas, e não se querem expor…

Caso Bragaparques

O administrador da Bragaparques, Domingos Névoa, foi condenado no Tribunal da Boa Hora, em Lisboa. A pena, uma multa no valor de cinco mil euros (!), foi aplicada pela tentativa de suborno do vereador da câmara de Lisboa, José Sá Fernandes, para que este desistisse de uma acção popular, tendo em vista interesses imobiliários ligados ao negócio de permuta dos terrenos do Parque Mayer, pertencentes à Bragaparques, com os terrenos municipais da antiga Feira Popular.

Por mais voltas que se dêem como é possível compreender uma sentença destas? Não será mais uma prova de que certo tipo de crimes em Portugal, compensam o risco? Uma multa de cinco mil euros aplicada a um administrador de uma empresa de construção civil não passa de uma brincadeira.

Dir-me-ão que o juiz se terá limitado a aplicar a lei dentro dos seus estritos limites. Direi então que, nesse caso, temos um quadro legal vergonhoso, que não promove a dissuasão deste tipo de criminalidade. A um corrupto valerá bem a pena correr o risco de pagar uma multa destas, perante a forte hipótese de ganhar milhões no caso de não ser denunciado, descoberto e condenado por uma Justiça que é conhecida pela sua lentidão, e que suscita muitas apreensões quanto à sua competência.

Caso Casa Pia

Ao fim de cinco longos anos de julgamento do caso Casa Pia, o Ministério Público decidiu agora alterar as circunstâncias de dezenas de alegados crimes de que Carlos Cruz estará acusado. Se não foi no dia xis, em tal sítio, terá sido no dia ípsilon em outro local qualquer. Parece a fábula do lobo que culpa o cordeiro por lhe ter sujado a água. Se não foi mais abaixo foi mais acima, se não foi hoje foi ontem, se não foste tu… foi a tua mãe.

Estes três casos, que são do conhecimento público, ilustram o estado lamentável do nosso sistema judicial.
Quando o segredo de justiça não é respeitado, o resultado só pode ser, inevitavelmente, a perturbação das investigações, e o assassinato moral dos suspeitos ou arguidos.

Quando as leis são inadequadas à realidade social ou mal aplicadas por quem de direito, o efeito dissuasor e preventivo do enquadramento legal da sociedade simplesmente não funciona.

Quando o MP parece andar a lidar com as acusações casuisticamente, mudando as circunstâncias dos crimes desta forma ligeira, ao fim de cinco anos de um processo altamente mediático e das refutações da defesa, no final de um longo julgamento, é de duvidar que seja possível fazer verdadeira justiça.

Não conheço pessoalmente Carlos Cruz, nem tenho nada a ver com ele, mas a verdade é que já foi condenado há muito como pedófilo por uma opinião pública intoxicada pelas constantes, intencionais e assassinas quebras do segredo de justiça.
Pode até ser culpado, mas num estado de Direito só os tribunais o poderiam determinar, tendo ele o direito inalienável de se poder defender, o que, dadas as circunstâncias, não aconteceu de todo.

Como é que os cidadãos podem então confiar neste sistema judicial?

(Setúbal na Rede, 3/3/09)

CARNAVAL E IMITAÇÕES

Por muito que se tente mascarar a realidade, a celebração do Entrudo em Portugal, na maior parte dos casos, não passa de uma aberração cultural.

O que se vê por esse país fora é uma espécie de imitação barata do carnaval do Rio de Janeiro, o mais mediático do mundo. Mas até mesmo o Brasil respeita as suas tradições culturais. Veja-se a forma como o carnaval é celebrado na Baía, por exemplo, para entender que o Rio não é modelo único ou obrigatório nem mesmo em terras de Vera Cruz.

A Europa tem outras tradições carnavalescas, como o conhecido carnaval de Veneza, que comporta ainda ecos do Renascimento.

Mesmo em Portugal, o carnaval genuinamente português tem mais a ver com as “matrafonas” de Torres Vedras, por exemplo, do que com as meninas em biquíni a dançarem (mal) o samba e a tremer de frio na rua, em pleno mês de Fevereiro, a tentarem imitar as cariocas, essas sim, verdadeiras sambistas, no calor da “cidade maravilhosa” a desfilar no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, ao serviço da representação de um samba-enredo cuidadosamente concebido e ensaiado.

Mas por cá não há verdadeiras escolas de samba. As colectividades que desempenham o papel de ícones da rivalidade bairrista são as que concorrem às marchas populares no mês de Junho. Essas sim, genuinamente portuguesas. Outra cultura, outra realidade.

À custa de copiar um modelo exógeno à nossa cultura, os interesses turísticos sobrepõem-se assim a essas minudências. Veja-se os investimentos publicitários de quase todas as cidades que promovem programas de carnaval. O que se pretende, afinal, é atrair turistas com uma imitação barata do carnaval do Rio.

O problema é que este é apenas um dentre muitos exemplos da forma como se encara a cultura portuguesa em geral. Não passa por investir nas idiossincrasias locais mas sim no plágio daquilo que enche o olho e que pode garantir algum retorno imediato, mesmo que nada tenha que ver com a nossa realidade local.

Um dos elementos mais interessantes da cultura popular setubalense é as cegadas. Pois não se vê que alguém as tente promover de forma organizada, como factor distintivo e identificativo de raiz bem popular, ao contrário do que fazem com este carnaval estrangeirado.

(O Setubalense, 27/02/09)

O ANTI-VOLUNTÁRIO

Saldanha Sanches espalhou-se mais uma vez (já não é a primeira) ao falar publicamente de temas que desconhece, como notou muito bem Duarte Caldeira, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses.

O fiscalista sugeriu recentemente, aos microfones de uma rádio, a profissionalização dos bombeiros e o fim do regime de voluntariado, afirmando que este “é oneroso para os contribuintes e dispensável”.

Se o autor de tal disparate se informasse ficaria a saber que a Câmara Municipal de Lisboa, por exemplo, gasta mais com o seu corpo de bombeiros sapadores (profissionais) do que o Estado gasta com as larguíssimas centenas de corpos de bombeiros voluntários espalhados por todo o país.

Se o comentador se informasse, ficaria a saber que as pouquíssimas cidades portuguesas que dispõem de um corpo de bombeiros profissionais só não desistem dele, como em tempos fez o município de Braga, porque não têm coragem de pagar o preço político de tal medida, pois são muito mais onerosos do que os voluntários.

Se ele se informasse convenientemente ficaria a saber que as companhias de bombeiros voluntários são uma escola de vida e de formação cívica para os jovens, no sentido de despertar o interesse pelo serviço desinteressado aos outros e à sociedade, perante a qual todos os cidadãos conscientes têm uma responsabilidade.

Se ao menos se informasse entenderia que a qualidade de um bombeiro não está na circunstância de ser profissional ou voluntário, ao contrário do que afirma, mas sim na formação que tem e na dedicação, brio e entrega à causa que revela.

Em declarações ao Rádio Clube, na rubrica “Uma ideia para o país”, Saldanha Sanches criticou o facto de haver bombeiros voluntários pagos, mas a razão é, obviamente, porque os voluntários não são suficientes para as necessidades, e mesmo estes ficam menos caros do que os profissionais.

Se a ideia de acabar com os voluntários é criar postos de trabalho artificiais, para combater o desemprego, ou dar uma machadada no espírito de voluntariado que ajuda a manter este país mais coeso e solidário, talvez a ideia não seja assim tão peregrina. Mas então assumam-se claramente os objectivos.

Segundo notícia da Lusa, os bombeiros constituem o grupo profissional em que mais confiam os portugueses. Talvez esta seja a melhor resposta a dar ao infeliz comentarista Saldanha Sanches…

(O Setubalense, 20/2/09)

A CAÇA À MULTA

Os portugueses estão conscientes de que 2009 será um ano difícil e muito exigente. Só não estarão preparados para a extorsão que o Estado se prepara para fazer aos cidadãos e contribuintes, manifestada de muitas e variadas formas.

Um dos exemplos mais evidentes é a comprovada caça à multa que parece ser o desporto preferido da polícia.

As nossas cidades sofrem de graves problemas estruturais. Os governos nunca criaram legislação que obrigasse os construtores a fazer os prédios de apartamentos com estacionamento interior obrigatório para os condóminos, de modo a tirar as viaturas da rua. Quando constroem garagens, muitas vezes são vendidas à parte, e apenas com o fito do negócio. As câmaras municipais, tantas vezes em conluio com os construtores, passam por cima da justiça e do bom senso, com toda a sorte de abusos urbanísticos…

No centro das cidades as autarquias são prontas a limitar fisicamente o estacionamento, com pilaretes, ou a taxá-lo, com parquímetros, numa das formas de extorsão mais comuns para o automobilista, quando estes não têm alternativa de parqueamento e os transportes públicos não respondem minimamente às necessidades. Claro que os autarcas (e os amigos) não têm problemas de estacionamento, já se vê. Os parquímetros passaram assim a ser considerados não uma forma de disciplinar o estacionamento, mas uma fonte de receita como qualquer outra.

A polícia, por sua vez, demonstra por vezes a maior das insensibilidades ao ser tão pronta a passar multas de estacionamento, a bloquear e rebocar carros que muitas vezes até nem incomodam ninguém, esquecendo que a sua principal função é a segurança pública, essa sim, que anda pelas ruas da amargura, e não se vê que a polícia se esforce por mudar as coisas.

Quem necessita de se deslocar de automóvel para o centro da cidade dificilmente encontra estacionamento, nem mesmo a pagar… A isto as câmaras municipais não respondem.

Quem trabalha no centro da cidade e todos os dias tem que estacionar lá, já sabe que tem um calvário pela frente. Mesmo que esse trabalho seja de carácter social e voluntário. Não pode passar o dia a meter moedas no parquímetro, nem há resposta para o problema. A não ser que seja amigo político de alguém que manda nestas coisas. Aí sempre se consegue arranjar um estacionamentozinho privativo…

(O Setubalense, 13/2/09)

 

 

DE FACTO OS PORTUGUESES NÃO GOSTAM DE SI MESMOS

A grande caldeirada futebol/construção civil/autarquias não será talvez a mais grave de Portugal. Pior é a promiscuidade comunicação social/sistema de Justiça, essa sim, é a mais preocupante. Já todos percebemos há muito que o segredo de Justiça não passa de uma brincadeira, já que não há processo que implique figuras mediáticas que não sofra fugas inevitáveis, oportunistas e selectivas para os jornais.

A histeria mediática à volta do primeiro-ministro, a propósito do caso Freeport, mete nojo. Quando um canal de televisão dedica mais de um terço do tempo do seu principal bloco informativo ao caso, logo na abertura, apenas para repetir até à exaustão o que já foi dito e redito quinhentas mil vezes, e sempre na base da insinuação da culpa de Sócrates, e faz isto dias e dias a fio, já não é de um possível escândalo de corrupção no Freeport que falamos, mas sim de um verdadeiro escândalo jornalístico.

Apesar da Procuradoria-Geral da República e da principal investigadora do Ministério Público vir dizer categoricamente ao país que José Sócrates não é suspeito (pelo menos até agora), e de nem sequer estar a ser investigado, o que fazem os jornalistas? Continuam a alimentar o clima se suspeição sobre ele como se quisessem substituir-se à Justiça e fossem donos da verdade. Mas como não podem afirmar preto no branco o que gostariam, lançam-nos a suspeita para cima, todos os dias, nas entrelinhas. Lamento, mas isto não é jornalismo, nem sequer “jornalismo de investigação”, isto é apenas mercantilismo e baixaria.

Estranhamente (ou talvez não) os partidos da oposição têm procurado manter uma postura digna nesta matéria, talvez mais por receio da vitimização de Sócrates, que reforçaria a sua base de apoio político, do que por princípio.

Ficou-se a saber, pela entrevista de Cândida Almeida à RTP, onde a directora do DCIAP explica que o termo “suspeito” aplicado pelos ingleses a José Sócrates nada mais é do que uma cópia do termo usado na carta rogatória portuguesa enviada para Inglaterra em 2004, e nada acrescenta aos dados que já se conheciam. Apesar disso a comunicação social continua a atirar-nos areia para os olhos como se houvesse material novo no processo de investigação, o qual, a existir, estaria naturalmente e de igual modo resguardado pelo segredo de justiça.

Pacheco Pereira, na sua conhecida cruzada contra o governo, chegou ao ponto de tentar, de forma ridícula, justificar a inexistência de atropelos ao segredo de justiça neste caso, no programa “Quadratura do Círculo”. Pois bem, Cândida Almeida explicou que se verificou de facto este crime, e que irá instaurar um processo contra desconhecidos.

Não é a José Sócrates que compete provar a sua inocência, apenas disponibilizar-se para todas as diligências da Justiça.

Condenar nos jornais um primeiro-ministro, que foi eleito democraticamente – goste-se ou não dele, e concorde-se ou não com as suas políticas – é condenar a essência do próprio regime democrático. E a razão é muito simples: sem governantes eleitos livremente não há governo democrático.

Imagine-se que este governo não dispunha de maioria absoluta. Provavelmente já teria caído, independentemente de Sócrates estar ou não inocente. Ou que o actual primeiro-ministro seria uma pessoa menos firme e determinada do que é. A questão que se impõe é se alguém acredita que teríamos um governo melhor e politicamente mais forte, nestes tempos de profunda crise mundial, depois deste episódio.

Mas como continuamos a viver no reino da inveja, pelo menos desde os tempos de Camões, as revistas cor-de-rosa continuam a vender em barda, para as pessoas se rirem discretamente dos azares e das quedas em desgraça dos famosos.

E em termos de governo, como dizia o outro, se há governo… somos contra!

(Setúbal na Rede, 10/2/09)

A EDP E A SUA FALTA DE RESPEITO PELOS CLIENTES

Empresas como a EDP existem para prestar serviços à população e supõe-se que, na relação com os clientes, manifeste um mínimo de respeito por eles.

Passo a descrever um caso do meu conhecimento. Durante cerca de vinte e cinco anos consecutivos a EDP enviou sempre as facturas de electricidade a pagar para o endereço de um apartamento localizado em Setúbal, e em nome de um determinado cliente.

Agora, a EDP, por incompetência, irresponsabilidade ou má fé, que lhes terão que ser inteira e exclusivamente imputadas, terá enviado as facturas referentes a este cliente e local, para outro endereço, no Pinhal Novo, e no nome de outro cliente, que é completamente estranho ao primeiro e por ele desconhecido.

Não satisfeita com isso, a EDP, e sem qualquer aviso prévio, cortou o fornecimento de energia eléctrica ao primeiro cliente no passado dia 29 de Janeiro, a meio da manhã. Perante a estranheza e a inquirição do mesmo, uma vez que não existia qualquer factura por pagar, a EDP informou-o que teria de liquidar o referido valor em falta, mais os custos de ligação, no total de mais de cento e vinte euros, senão a empresa recusava-se a restabelecer o abastecimento de energia…

O cliente foi ainda confrontado com outros endereços que constavam no seu nome, no sistema informático (até em Lisboa), tendo esclarecido de imediato que lhe eram estranhos e alheios, mas o funcionário não quis saber e agiu sempre como se o cliente não fosse pessoa séria e de bem, duvidando da sua palavra.

No momento do corte de corrente que a EDP executou abusivamente e sem aviso, estava uma equipa de três operários a trabalhar na remodelação do apartamento, os quais ficaram parados até ao fim da tarde, altura em que se restabeleceu a ligação, horas depois de a empresa ter obrigado compulsivamente o cliente a pagar um serviço que não lhe forneceu.

O cliente está disposto a exigir à EDP algumas respostas. Quem paga os óbvios prejuízos? Com que direito a EDP obriga um cliente a pagar o serviço prestado a outro cliente? Com que direito interrompe o fornecimento de energia a um cliente que nada lhe deve, sem aviso e sem motivo? Que garantias dá a EDP de não voltar a praticar, de futuro, outro acto abusivo do género?

Esta atitude da empresa é prepotente e inadmissível, e exige, no mínimo, um pedido de desculpas formal.

(O Setubalense, 6/2/09)

A LIÇÃO DA AMÉRICA

Os Estados Unidos da América acabaram de provar que são um grande país. Mas isso não significa que não deva, ou não possa, ser criticado quando for caso disso, e o consulado anterior deu ao mundo muitas e variadas oportunidades de crítica justa. George W. Bush cometeu demasiadas gaffes, e sobretudo imensos erros de palmatória, com repercussões graves em todo o mundo.

Desde logo a evidente e comprovada cedência a interesses económicos ligados às indústrias petrolífera, militar, de construção e de segurança, ao decidir unilateralmente invadir o Iraque, com base em falsas provas da existência de armas de destruição maciça, e depois com a ignomínia de Guantànamo, e o branqueamento da tortura. Deixou o país num caos económico e financeiro, a imagem nacional pelas ruas da amargura, e destruiu toda a pujança económica que recebeu das mãos da administração Clinton. Para não falar na chapelada eleitoral que o levou à Casa Branca, mas cuja responsabilidade terá que ser assacada ao seu irmão e a um Supremo Tribunal de predominância republicana.

A verdade é que este é o mesmo país que, de forma surpreendente, elegeu Barack Obama, um jovem político afro-americano, de nome esquisito, com familiares muçulmanos, e com base numa ideia política de corte radical com a anterior liderança.

Este é o mesmo país que ainda há poucas décadas tinha escolas, assentos de autocarro e igrejas só para negros, que estimulava o racismo à saciedade, com organizações cuja finalidade era o extermínio dos negros, como o famigerado Ku Klux Klan. O mesmo país onde poucos acreditavam ser impossível eleger um presidente de pele escura, eis senão quando Obama não só se elege a grande distância do seu oponente, como ainda se tornou moda e granjeou a simpatia do mundo.

Dir-se-á que Obama não é um político negro qualquer mas um grande político. Reconhecido como orador excepcional, começou por se colocar acima da tentadora mas perniciosa perspectiva racial, conseguindo comunicar com negros, brancos, hispânicos, asiáticos, e tutti quanti, passando uma mesma mensagem de esperança, e considerando-os a todos como “americanos”, indistintamente. Conseguiu, para já, ressuscitar a alma da nação e a esperança colectiva com um discurso agregador e apaziguador, isento das paranóias a que fomos habituados nos últimos anos.

Digam os cépticos o que disserem, a verdade é que o que o novo presidente dos EUA acabou de fazer já não é nada pouco.

(O Setubalense, 30/1/09)

FRUTA PARA TODOS

Sócrates destapou finalmente um pouco do véu sobre a proposta política socialista para a próxima legislatura.

Para já, a moção apresentada contempla quatro questões de forma clara: reforço do direito dos emigrantes, casamento de pessoas do mesmo sexo, novo referendo à regionalização, executivos autárquicos homogéneos, e não tocar em nada de fundamental na constituição em próxima revisão.

A piscadela de olhos à esquerda é por demais evidente, mas não deixa de se verificar, paralelamente, uma operação de sedução àquela metade do PSD que quer mesmo a regionalização, e que, juntamente com os boys do PS aspiram há muito a um “tacho” nas estruturas intermédias a criar e a alimentar com os dinheiros públicos.

Quanto ao reforço do direito dos imigrantes, Sócrates é muito vago. Pode caber aqui muita coisa. Mas a verdade é que parece estranho que o primeiro-ministro se interesse tanto pelo “reforço da participação cívica e política dos imigrantes” que vêm para o país, quanto está a tentar retirar direito de voto aos emigrantes portugueses espalhados pelo mundo.

Os executivos autárquicos homogéneos, que aliás defendemos há muito, serão sempre de pouco agrado para os partidos mais pequenos, mas iriam facilitar e responsabilizar politicamente a gestão autárquica, desde que as assembleias municipais reforçassem os seus poderes de fiscalização, com o consequente reforço do papel político dos deputados municipais.

O não querer aproveitar a oportunidade de uma possível revisão constitucional para mudar alguma coisa de significativo na constituição revela que o regime tem dificuldade em regenerar-se e reinventar-se.

Já quanto à adopção da agenda fracturante dos bloquistas a coisa fia mais fino, pois a pretensa modernidade pode ainda causar-lhe amargos de boca.

Agora só faltava assumir a intenção de querer uma revisão constitucional profunda, de forma a aliviar a nossa lei fundamental do seu pendor esquerdista, por exemplo em matéria de flexibilização das relações de trabalho, e aí sim, teríamos um verdadeiro ovo de Colombo, com a distribuição de propostas interessantes para os sectores mais representativos do espectro político português.

(O Setubalense, 23/1/09)

JUSTIÇA: O VERDADEIRO ESCÂNDALO

O caso Esmeralda tem sido tratado pela justiça portuguesa com os pés, desde o seu início. Por muita técnica ou ciência jurídica em que advogados ou magistrados se apoiem, têm esquecido um elemento fundamental. É que a Justiça digna desse nome está ao serviço dos cidadãos e não o contrário. No caso vertente, por muitas voltas que se dêem, a Justiça persiste em ignorar o interesse da criança, e está a querer roubar-lhe o seu referencial de vida – os pais que ela conhece desde sempre, e que são, segundo a sua mente e o seu coração, os únicos e verdadeiros pais.

O que o tribunal está a fazer a esta criança é atentar contra os seus direitos fundamentais, e contra os Direitos da Criança, internacionalmente reconhecidos. Ou seja, a Esmeralda não está a ser respeitada, e sendo uma criança pequena, que não tem como se defender perante esta violação da sua vontade, o país assiste, impotente.

Ao que parece, o tribunal nem sequer respeita o parecer técnico sobre os perigos para a saúde mental da criança. Desde o princípio do processo que os tribunais trataram mal o assunto. Depois, foram caindo em erros sucessivos, cada um para tapar o outro, de modo a tentar salvar a face, embora sem sucesso, porque já toda a gente percebeu a forma canhestra como um assunto desta delicadeza foi tratado. Os juízes, que por vezes se parecem considerar donos e senhores dos tribunais, ignoraram olimpicamente os relatórios da pedopsiquiatria ao longo do processo na hora de tomar decisões.

Segundo o DN, no relatório entregue pelo Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital de Santarém (que por ordem do tribunal segue a menor) a 18 de Dezembro, no qual, com base em cinco consultas entre 16 de Outubro e 18 de Dezembro, apontam-se os riscos de aparecimento de sintomatologia depressiva geralmente ligado às disrupções afectivas, diagnosticam-se “alterações comportamentais” à “exacerbação da ameaça da perda das figuras que considera ser seus verdadeiros pais”, o que significa uma “perda inconcebivelmente dolorosa para qualquer pessoa”, em especial uma menina que passa por uma etapa de desenvolvimento de marcada importância no que diz respeito à sua identidade e identificação (…), o que intensifica ainda mais o sofrimento (…)”.

(O Setubalense, 16/1/09)

UM DIA DE CADA VEZ

A percepção de que a vida é construída por ciclos vem de tempos imemoriais, devido à observação empírica das leis da natureza. É transversal a civilizações e culturas, mas também é bíblica. As noites sucedem-se aos dias, e vice-versa, fenómenos como o nascer, o zénite e o pôr-do-sol também, as estações do ano seguem o seu curso normal dentro da ordem estabelecida e os seres vivos nascem, crescem, reproduzem-se e morrem.

Sendo toda a vida enquadrada por um sistema de ciclos recorrentes, isso significa que, se há fins, há também começos. E de cada vez que uma nova etapa é encetada abrem-se perspectivas, e sobretudo esperanças de que ela traga resultados mais satisfatórios, de acordo com os nossos desejos mais profundos.

Talvez por isso o início de cada ano sempre carregue consigo todas as expectativas, que costumamos converter em votos para o novo ano, a nova etapa universal que agora começa.

Porém, rapidamente os cuidados da vida fazem esquecer votos e expectativas, e passada uma semana ou nem tanto já a existência retomou o seu fluir normal e tudo voltou a ser como antes do esgotar do ano velho. Propósitos como deixar de fumar, por exemplo, dificilmente resultam, quando são estabelecidos com base na ideia mágica de que o início do novo ciclo, só por si, é capaz de mudar comportamentos. Mas nestas coisas – como em nada sério na vida – não há mágicas.

As decisões importantes da vida radicam na força da vontade que é construída no dia-a-dia. O conceito de viver um dia de cada vez não nasceu nos círculos da auto-ajuda, nem tão pouco nos anais da psicologia, são ensinamentos com origem no célebre Sermão do Monte, proferido por Jesus Cristo, há dois mil anos atrás.

No referido discurso de Jesus, somos convidados a pedir a Deus o pão de cada dia (S. Mateus 6:11), a não nos preocuparmos com o mal do dia que ainda não chegou, pois basta a cada dia as suas próprias dificuldades (6:34), a não andarmos ansiosos com a provisão diária, pois isso, só por si, nada resolve (6:27), e sobretudo a confiar em Deus (6:32).

Mas claro que só se pode confiar em alguém que se conhece. E uma boa parte dos que se denominam cristãos tem Deus como um completo desconhecido. Uma espécie de ser longínquo, quase sempre mal-humorado, egoísta e imprevisível. Além disso desconhece a Sua Palavra, daí a dificuldade em confiar n’Ele.

(O Setubalense, 9/1/09)

AÇORES: O QUE CORREU MAL?

Da última novela do ano em Portugal, o estatuto político-administrativo dos Açores, ninguém saiu bem na fotografia. Nem o governo do PS, nem a oposição, nem o governo regional, e nem mesmo o presidente da República.

A discussão do novo estatuto caiu em cima das eleições regionais, e por isso quer Carlos César quer o PSD do arquipélago (e não só) sentiram a pressão de pugnar por uma maior autonomia, mesmo nos artigos eventualmente feridos de inconstitucionalidade.

Sócrates sai-se mal porque não ganha nada com esta guerra inútil com o PR, à qual, aliás, o país prestou pouca atenção, uma vez que a preocupação da maioria dos portugueses é a crise, e não quem tem que ser ouvido no processo de dissolução da Assembleia Regional dos Açores…

O PSD sai-se mal porque mais uma vez navega nas águas da falta de seriedade política, comprometendo seriamente a imagem da sua liderança. Quer sol na eira e chuva no nabal. Vota a favor da lei (e deixa passar a sua confirmação), mas depois vem querer colocar no PS o possível ónus da situação, e pedir a verificação sucessiva da constitucionalidade do diploma.

Mas Cavaco também esteve mal, desde o princípio do processo, com as suas dramáticas intervenções públicas, dando a ideia de que estaria mesmo interessado em obrigar a Assembleia da República a um recuo.

Ora, o Parlamento não possui menos legitimidade política do que o PR, já que ambos os órgãos de soberania são igualmente eleitos por voto universal.

Assim, a assembleia fez o que lhe competia, apreciou as reservas de Belém e decidiu confirmar a sua posição anterior. Tecnicamente nem se poderia falar em conflito institucional se não fosse a forma e o teor das duas comunicações presidenciais ao país a este propósito.

Esta matéria, como é público e notório, dividiu os partidos, pois o seu ramo açoriano apostava tudo na aprovação da lei, pois ninguém quer ser visto por lá como “travão da autonomia”.

A realidade é que este assunto foi mal tratado desde o princípio. O PR, que habitualmente até aprecia a reserva no desempenho das suas funções de Estado, poderia ter-se entendido com o governo e encontrado uma solução para a divergência de opiniões, sem vir de imediato para a praça pública dramatizar. Poderia ter enviado a lei para o Tribunal Constitucional. Porque não o fez e preferiu vir a público dramatizar? Apenas para puxar o tema do plano jurídico-constitucional para o plano político, como diz o “explicador” Pacheco Pereira? Não parece razoável num homem que sempre teve má relação com a política.

Estranha-se, sobretudo, que o presidente tenha sido tão duro com a Assembleia da República, e tão permissivo com a Assembleia Regional da Madeira, por exemplo, que simplesmente decidiu não o receber em sessão solene, aquando da sua visita à ilha, como é das normas da sã convivência e respeito democrático. O que será então mais grave? Ter que ouvir mais alguém do que até aqui antes de dissolver a Assembleia Legislativa dos Açores ou não o deixarem entrar na da Madeira?

Na altura não disse uma palavra sobre o assunto… Agora terá falado demais. Influência da amiga Manuela Ferreira Leite e do seu não fala – fala?

Depois ainda deixou, durante uns dias, que se especulasse sobre a possível não promulgação do Orçamento de Estado de 2009, o que aparenta constituir uma forma de pressão pouco saudável sobre o governo.

Bem se entende que esta oposição é fraca, e que o governo de Sócrates bem necessitado está de uma oposição a sério, mas seria bom que o PR resistisse à tentação de a querer substituir, ou de se deixar empurrar para esse caminho.

Já o discurso de Ano Novo foi equilibrado. Chamou a atenção para os perigos e as exigências da governação, deixando algumas críticas ao governo nas entrelinhas, mas sobretudo procurou inocular um suplemento de ânimo e esperança na população portuguesa, como compete ao mais alto magistrado da nação.

(Setúbal na Rede, 6/1/09)

 

 

A RESPOSTA GLOBAL

Perante um mundo em convulsão torna-se mais notória a falta de um Salvador.

A crise global que estamos a viver começou por ser de carácter financeiro, depois passou à chamada economia real, e agora já se temem convulsões sociais significativas, como consequência do aumento do desemprego, da recessão, e das perdas de poder de compra, se entretanto os governos não souberem agirem correcta e atempadamente.

Mas a substância das coisas é bem mais profunda.

Porque razão explodiu uma crise financeira de proporções gigantescas? Falta de regulação adequada? Pecado original do sistema capitalista? Muito pior do que isso. Trata-se, antes de mais, de uma crise moral.

Nunca se falou tanto como nos últimos tempos em corrupção e crimes de colarinho branco. Desde há muitas décadas que não se via aumentar, de modo tão abrupto, o fosso entre ricos e pobres. Nunca se viu uma tal crise de liderança política. Nunca se viveu um período da história, em tempo de estabilidade e paz, no qual se verificasse tanta falta de respeito por figuras de autoridade.

As respostas e possíveis soluções tendem para uma dimensão global. Já não é cada um por si pois vivemos em economias abertas, em espaços sem fronteiras, num mundo de internet e comunicações globais.

Num tempo como este a mensagem cristã assume especial relevância. O Deus que se fez Homem e habitou entre nós, o Emanuel, Deus connosco, veio constituir-se como resposta global a uma humanidade em crise, que consegue imensos avanços tecnológicos e científicos mas ainda não conseguiu o maior dos feitos: respeitar o seu semelhante. Daí a actualidade da mensagem do Natal: paz na terra, boa vontade entre os homens.

Quando celebrar o Natal pense nisso. Bom Natal.

(O Setubalense, 19/12/08)

SER DEPUTADO

Ser deputado da nação é hoje uma brincadeira. Uma espécie de compasso de espera para alguma coisa. Para um lugar no governo, nalgum cargo de nomeação, nacional ou internacional, ou para a administração de alguma empresa ou banco. E entretanto vai-se tratando da vidinha profissional, ao mesmo tempo, já que, como alguém disse, o vencimento de parlamentar não dá quase para o tabaco.

Deputado (do Lat.  deputatu) é aquele que é “comissionado para tratar de negócios de outrem junto de.” Logo, um deputado é eleito para defender os interesses dos seus eleitores junto das instâncias governativas e das instituições internacionais, nas questões em que é chamado a opinar e votar, e para participar nas missões parlamentares. É o representante dos cidadãos eleitores, a sua voz.

É natural, portanto, que o mínimo que se pode esperar de um deputado é que esteja lá, na Assembleia da República, nas reuniões do hemiciclo, nas reuniões de trabalho das comissões parlamentares a que pertença, no seu gabinete, e em trabalho político geral junto dos eleitores, de modo a conhecer as suas necessidades e melhor defender os seus direitos.

João Miguel Tavares escreveu no DN, sobre a famosa balda dos deputados do PSD: «um partido cujos deputados passam o tempo todo a fazer figura de corpo presente nas votações e logo na única vez em que podiam ser relevantes não aparecem no hemiciclo». Refere-se ao episódio da falta de uns quantos parlamentares do PS na votação da moção do CDS que pretendia suspender o actual processo de avaliação dos professores.

Este é mais um dos muitos episódios pouco dignificantes oferecidos pelos deputados ao país. Já estávamos habituados a toda a sorte de insinuações, insultos e faltas de respeito recorrentes, que não diferenciam o ambiente da nossa casa da democracia de um vulgar bar de alterne, e a deputados que dormem nas sessões do hemiciclo, passam o tempo ao telefone, a conversar ou a ler o jornal com displicência.

Sabe-se que as faltas dos deputados às reuniões plenárias de sexta-feira, no Parlamento, atingem quase o dobro das ausências registadas nos outros dias. E de facto, na sessão plenária da última sexta-feira, na hora da votação, não estavam no hemiciclo 13 deputados do PS e 35 da oposição, 30 dos quais do PSD. Conclusão: o PS apanhou um susto, Manuela Ferreira Leite atirou-se ao ar, Marcelo Rebelo de Sousa criticou, Paulo Rangel encolheu-se e Santana Lopes (que também faltou à sessão) picou-se.

Está na hora de alterar o sistema político, para que os parlamentares passem a ser efectivamente deputados, responsáveis perante o seu eleitorado, e não meros funcionários dos partidos como acontece hoje.

(O Setubalense, 12/12/08)

O PAPEL DOS CIDADÃOS IDOSOS

Em Abril passado o Presidente da República, Cavaco Silva, recusou que o envelhecimento da população possa ser olhado como “uma ameaça” ou “um fardo” para a sociedade, e sugeriu que esta deve considerar a pessoa idosa como parte das soluções sociais de que o país necessita, e não como “um custo ou encargo”.

Simultaneamente, e pela primeira vez, um alto dirigente político português exortou o tecido empresarial a repensar a sua política tradicional de recursos humanos, em que a juventude é sobrevalorizada, em detrimento dos ganhos de eficiência, rentabilidade, identidade e cultura de organização.

A profunda alteração demográfica que se está a verificar à escala mundial, segundo Cavaco Silva, “exige das próximas gerações novas formas de encarar o envelhecimento”, novos estilos de vida e criatividade para encontrar soluções novas para os novos desafios, visto que as do século XX já não servem. E fez questão de manifestar as suas dúvidas de que “a opinião pública e os cidadãos portugueses estejam suficientemente informados e conscientes das dimensões desse desafio, dos problemas que levanta, dos processos de mudança que exige”.

Com efeito, os diferentes governos do mundo estão a começar a tomar consciência deste problema e a tentar encontrar soluções para a nova realidade. Por exemplo, empresas americanas estão a recrutar antigos funcionários, em especial os que acumulam maior experiência, em regime de tempo parcial, de modo a transmitirem os seus conhecimentos aos trabalhadores mais novos. Desta forma os seniores sentem-se úteis, produtivos e reconhecidos, mas sem a pressão do trabalhador activo. As empresas ganham com essa partilha e os mais novos aprendem da forma mais segura.

Do ponto de vista cívico, as pessoas idosas poderiam prestar um contributo precioso à comunidade onde se inserem, em pequenas acções práticas mas muito necessárias, mas tal só poderá suceder quando a cultura ocidental modificar radicalmente o seu olhar preconceituoso sobre as pessoas idosas, sobre o seu valor, competências e capacidades, de modo a perceber que, ao descartá-las, está a cair na tolice de desprezar um capital humano de valor incalculável e incomparável.

Por outro lado, as autoridades precisam de abrir os olhos para a mesma realidade, em vez de se limitarem a entreter os “velhotes” com umas coisinhas.

Ao chamar à atenção do país para esta realidade, o presidente prestou um serviço incalculável à sociedade portuguesa.

Nos últimos anos a sociedade portuguesa tem vindo a tomar consciência de uma espécie de revolução que constituem as chamadas universidades seniores ou da terceira idade. Por todo o país têm surgido iniciativas locais, conjugação de esforços, com base no discernimento da necessidade de encontrar respostas sociais para o aumento da qualidade de vida e da longevidade da população, mas também com base no voluntariado dos professores.

Para lá dos óbvios e já reconhecidos efeitos positivos, em termos de saúde pública, que tais organizações promovem nos seus alunos (e professores), como o combate ao isolamento, à depressão e à baixa auto-estima, não é de desprezar o trabalho de investigação que algumas dessas UTI’s têm vindo a desenvolver, essencialmente em benefício da história e cultura locais, onde muitos deles são simultaneamente protagonistas, dada a sua idade e história de vida.

Se o trabalho do menino é pouco, mas quem não o aproveita é louco, como diz o ditado, o trabalho dos idosos pode não ser muito, mas é único, e a sociedade que não o aproveita é louca, disfuncional e suicida.

(Setúbal na Rede, 9/12/08)

APRENDIZES DE FEITICEIRO

“Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita.”

(S. Mateus 6: 2,3)

A falta de princípios e de vergonha dos aprendizes de feiticeiro (perdão, de político) é enorme. Como se sabe as juventudes partidárias têm funcionado frequentemente como alfobres de carreiristas políticos, uma das chagas da nossa democracia, em vez de servirem para a educação cívica, treino democrático e formação de quadros. Outras vezes servem para um partido dizer mais abertamente o que não pode (defender medidas fracturantes) com a desculpa de que “são jovens”.

A JSD tentou “comprar” o apoio político enviesado do Banco Alimentar. Garantiria a presença oficial da instituição no seu congresso, em troca de recolher uns quantos alimentos para a mesma.

Bem esteve Isabel Jonet que recusou liminarmente tal hipótese, apesar de pressões também internas, justificando com a posição apolítica do BA. Seria a morte do Banco Alimentar, pelo menos tal como o conhecemos.

Os partidos políticos (e também as suas organizações juvenis) não podem continuar a olhar para o sector da Solidariedade apenas como instrumento da luta política, mas como aquilo que é, uma questão de justiça, de humanização e de socorro aos mais pobres e socialmente desprotegidos.

Nesse sentido o Estado já deveria ter parado para pensar um pouco sobre o trabalho destas organizações de solidariedade social, e em vez de beneficiar aquelas que estão ligadas a grandes organizações ou que têm poder reivindicativo público, esquecendo a maioria dos que lutam todos os dias contra a pobreza e a exclusão social por esse país fora.

É por isso que a proposta da JSD, de recolher no seu congresso de Penafiel, em finais de Novembro, dois quilos de bens alimentares por pessoa e «doá-los ao Banco Alimentar a troco da sua presença no congresso» é vergonhosa e obscena. Quem quer dar não exige. Quem quer dar aos pobres não usa a sensibilidade das pessoas para ganhos políticos. Quem se preocupa com a pobreza não usa os que estão na mó de baixo da vida com segundas intenções. Quem pensa assim precisa de reeducação urgente. Não esqueçamos que estes indivíduos são os que nos estarão a governar e a representar o país daqui a uns anos.

Pelos vistos estamos bem servidos…

(O Setubalense, 5/12/08)

A REFORMA NA EDUCAÇÃO

A escola pública tornou-se mais uma vez palco de luta político-partidária, e agora também de luta pelo poder sindical. E para isso todos os meios servem, como a manipulação dos alunos, crianças e adolescentes, para não falar da opinião pública.

Mas pior do que isso, e depois de trinta anos de experimentalismo pedagógico, é hoje cenário de um combate patético pela sobrevivência de um modelo centralista, baseado na ideia da “escola democrática”, inclusiva mas fechada sobre si própria.

Um ensino participado por todos os intervenientes, professores, pais e alunos, e ligado à comunidade humana onde se insere não é só necessário como indispensável, nos tempos que correm. Ora isso exige que se dê alguma autonomia às escolas, o que não significa ausência de regras.

Os sindicatos têm vindo a demonstrar até agora que não aceitam de facto qualquer avaliação dos professores. Por outro lado, o ministério, esse monstro ingovernável, continua a querer impor à força orientações de cima para baixo. O resultado só pode ser negativo, mas as responsabilidades são de ambas as partes.

Para agravar a situação, algumas intervenções públicas caracterizam-se pelo puro oportunismo político, como a da presidente do PSD, que enquanto militante sem responsabilidades defendeu a reforma em curso, e passados poucos meses, agora que é candidata a primeira-ministra, vem dar o dito por não dito e exigir a suspensão da avaliação. E nenhum outro partido da oposição se revela suficientemente sério e responsável para ousar denunciar o que realmente se passa, tendo em vista a forte mobilização dos docentes e em mente as próximas eleições.

O que o cidadão comum entende é que os professores não pairam acima dos outros servidores públicos, que podem e devem ser avaliados como eles, que a escola tem que ser mais eficaz de modo a responder melhor às necessidades de formação e aprendizagem dos alunos, que saem do secundário com uma preparação escolar manifestamente deficiente. A responsabilidade não será dos professores, mas do mau sistema de ensino em vigor.

O que o cidadão comum não entende é por que razão, se o ministério e os professores estão de boa fé, não encontram uma plataforma de entendimento, porque não trabalham em conjunto no aperfeiçoamento do actual modelo de avaliação de desempenho, ou num modelo alternativo, porventura mais eficaz e adequado à realidade, em vez de responder com a inflexibilidade, a confusão, os insultos, o caos e a queda da ministra.

(O Setubalense, 28/11/08)

O PARTIDO DO FUTURO

Cada vez mais se torna claro que o futuro político do país está assegurado por um notável conjunto de figuras públicas de importância indiscutível.

Portugal já não tem que temer a conhecida crise de liderança mundial, já que pode contar, na sua vida pública, com uma galeria de nomes ilustres como Fátima Felgueiras (presidente da CM Felgueiras), Valentim Loureiro (presidente da CM Gondomar), Isaltino de Morais (presidente da CM Oeiras), Vale e Azevedo (ex-presidente do Benfica), Oliveira e Costa (ex-presidente do BPN), Pinto da Costa (presidente do FC Porto), Jardim Gonçalves (ex-presidente do BCP), entre muitos outros com provas dadas.

Como também é óbvio que as actuais formações políticas estão afastadas dos cidadãos e necessitam ser reinventadas, prestamos aqui o nosso humilde contributo a esta causa.

Porque não juntar então toda esta gente que anda por aí desgarrada pelas câmaras municipais, clubes de futebol, bancos e empresas? Como se sabe, a união faz a força. O ideal seria juntá-los num grande partido político a formar, o qual contaria decerto com amplo apoio dos autarcas, construtores civis e homens do futebol em geral.

Já estou a ver Fátima Felgueiras como ministra da Justiça e do Turismo. Trata-se da figura ideal para o cargo, uma vez que conseguiu meter na algibeira o tribunal que a condenou por vários crimes, e ainda se deu ao luxo de promover um comício à porta do mesmo, e outro em directo no telejornal da RTP no mesmo dia. Além disso conhece o Brasil (promissor destino turístico) como ninguém.

O Isaltino ia para as Obras Públicas e Emigração, uma vez que nem toda a gente é capaz de tratar tão carinhosamente os sobrinhos emigrados na Suíça. O major Valentim Loureiro para a Defesa e Comércio (já que sabe lidar bem com electrodomésticos), Oliveira e Costa para a importante pasta das Finanças, Pinto da Costa como ministro do Desporto e Administração Interna (a tutelar as casas de alterne), Jardim Gonçalves na Economia, alguém da Bragaparques no Ministério das Cidades, Vale e Azevedo no cargo de procurador-geral da república, ou José Maria Martins (advogado de Bibi) para Bastonário da Ordem dos Advogados.

Falta, porém, a cereja no topo do bolo. O cargo de primeiro-ministro, claro, só poderia ser entregue a Alberto João Jardim.

Caro leitor, antes de se afligir, e no caso de ainda não ter entendido, saiba que o autor não ensandeceu. Trata-se apenas de um texto de sátira política, onde se fala de coisas muito sérias mas em jeito de ironia.

(O Setubalense, 21/11/2008)

 

 

ALMEIDA, O DESCONHECIDO

Setúbal está a receber uma exposição alusiva à vida e obra de João Ferreira de Almeida, o primeiro tradutor da Bíblia na língua de Camões, organizada pela Sociedade Bíblica de Portugal, em parceria com a Câmara Municipal de Setúbal e o apoio de igrejas cristãs da cidade.

João Ferreira Annes d’Almeida continua a ser um ilustre desconhecido na cultura portuguesa apesar do decisivo contributo que prestou, do ponto de vista cultural, para a fixação da língua lusa, a ponto de nem sequer ser mencionado em qualquer livro oficial de história da língua nacional.

Ferreira de Almeida entregou inteiramente a sua vida a uma tarefa hercúlea para a época: a tradução da Escrituras na língua materna. E fê-lo contra o poder político-religioso do seu tempo. Por essa razão só teve tal oportunidade longe de Portugal, no Extremo-Oriente, de certo modo protegido pelo poder holandês, e o apoio da igreja reformada da Holanda. Apesar disso chegou a ser chamuscado pela fogueira da Inquisição, no sul da Índia, mas em efígie, apenas pelo “crime” de ousar verter a Bíblia na língua do povo, e de pregar também em Português.

Nascido em Mangualde e tendo ficado órfão muito cedo, viveu a adolescência em Lisboa, junto de um tio que era sacerdote católico-romano, mas aos catorze anos surge na Holanda protestante, antes de rumar ao Oriente, sem que se saiba exactamente porquê e como. Aventura?

Ferreira de Almeida, por alguns considerado o grande reformador português, estaria objectivamente impedido de reformar o que quer que fosse no sul da Europa, dada a Inquisição e a Contra-reforma em geral que por cá campeava.

É na Holanda que se converte à fé reformada e tal circunstância muda-lhe o rumo da vida por inteiro. A partir daí faz estudos teológicos, prepara-se para ser pastor protestante e, paralelamente, sendo já um poliglota, aprofunda-se no grego e no hebraico de modo a poder entregar-se à tarefa de traduzir o texto bíblico directamente das línguas em que foi originalmente escrito.

João Ferreira de Almeida é uma daquelas personagens da nossa História a quem nunca se reconheceu o seu imenso contributo para a Cultura e a quem nunca se fez justiça. Com esta pequena exposição (que de resto está a percorrer o país) dá-se um sinal da necessidade imperiosa de olhar para alguma da nossa história com mais rigor.

(O Setubalense, 14/11/08)

 

 

SARAMAGO: UMA MÃO CHEIA DE PROBLEMAS

José Saramago escreveu recentemente no seu blogue um texto que intitulou “Deus como problema”, onde reafirma a sua conhecida posição ateísta. Na realidade o problema está mais em Saramago (ou nos seus conceitos) do que em Deus.

O primeiro problema de Saramago é que, à boleia dos fundamentalismos religiosos e extremistas de todos os tempos, afirma categoricamente que “Deus, sendo desde sempre um problema, é, agora, o problema.” Lendo-o com atenção, tenho que admitir que, apesar de ser cristão (e sobretudo por isso), por estranho que pareça até concordo com ele nesta matéria.

Saramago conclui: “Portanto, quer se queira, quer não, Deus como problema, Deus como pedra no meio do caminho, Deus como pretexto para o ódio, Deus como agente de desunião.”

Não posso estar mais de acordo com o escândalo que esmaga o Nobel da Literatura. Este deus (com d pequeno) é mesmo um problema, uma pedra de tropeço, um catalisador de ódio, um agente de desunião. A questão é que este deus não é o meu, nem é o Deus da Bíblia. Este deus é uma divindade imaginada à escala humana, um pouco como os gregos e os romanos que se entretinham a construir deuses à sua imagem e semelhança, com os vícios e fraquezas dos homens. O Deus da Bíblia não concita ao ódio, mas ao amor e misericórdia. E também não promove a desunião mas sim a unidade e a tolerância na aceitação da diferença.

O segundo problema de Saramago é que, partindo da sua posição de escândalo com o que o extremismo religioso faz em nome de Deus, e revoltado pelos seus efeitos, parte numa corrida desvairada, tentando negar um Deus Criador com dois tipos de argumentos.

Primeiro invoca a grandiosidade e infinitude do universo para defender a impossibilidade de um Ser inteligente estar por detrás do seu surgimento: “Se eu dissesse a um cristão ou a um muçulmano que no universo há mais de 400 mil milhões de galáxias e que cada uma delas contém mais de 400 mil milhões de estrelas, e que Deus, seja ele Alá ou o outro, não poderia ter feito isto (…)”. Aqui o escritor deixa-se atraiçoar pela perspectiva. A criatura olha para a Criação e, deslumbrada com ela, nega que alguém fosse capaz de a produzir. Na mesma linha de pensamento, e ressalvadas as devidas distâncias, também poderíamos dizer que Miguel Ângelo, Da Vinci, Rembrandt ou as pirâmides do Egipto nunca existiram…

Saramago está a imaginar um deus à medida da dimensão humana. E aqui cai no mesmo erro dos extremistas que tanto verbera, a projecção mental de um deus imaginário, demasiado parecido com os humanos, em especial nas suas limitações.

Em segundo lugar, Saramago invoca a falta de uma razão lógica na origem da Criação: “(…) melhor ainda, não teria nenhum motivo para fazê-lo (…)”. Saramago quer ser psicólogo de Deus, sondar as suas intenções profundas, conhecer as suas motivações, avaliar o que o move. Ou pior, arvora-se em escrutinador das razões divinas. Se conhecesse as Escrituras, ou por elas tivesse algum respeito, deveria bastar-lhe o que está escrito: “o que eu faço não o sabes tu agora” (Evangelho de S. João 13:7).

O terceiro problema de Saramago decorre dos anteriores. “ (…) a Deus, seja ele Alá ou o outro, nada é impossível. Excepto, pelos vistos, diria eu, fazer a paz entre o islão e o cristianismo, e, de caminho, conciliar a mais desgraçada das espécies animais que se diz terem nascido da sua vontade (e à sua semelhança), a espécie humana, precisamente.”

Depois de projectar mentalmente um deus imaginário limitado aos conceitos humanos, e de tentar negar-lhe a capacidade e a motivação para a Criação do universo, o escritor culpa Deus por não fazer a paz entre Islão e Cristianismo, e, mesmo num âmbito mais lato, entre todos os seres humanos. Como se as guerras não fossem devidas à cegueira, teimosia e egoísmo dos homens.

Para quem escreveu o “Ensaio sobre a cegueira”, é preciso ser cego…

Daí resulta o fechar do ciclo lógico, com a inevitável conclusão: nós é que “inventámos Deus”. Saramago começa por condenar os crimes cometidos em nome de Deus (e bem), mas de seguida cai na ratoeira de conceber um deus à boa maneira desses mesmos extremistas, terminando com o tradicional apontar do dedo: se os irmãos andam à pancada só pode ser porque são órfãos. E se não fossem, a culpa das desavenças seria sempre do pai…

Há um bom par de anos, em entrevista à revista “Visão” (25/3/2004), José Saramago desabafava: “Dói-me profundamente saber que não terei outra vida e sair desta m… de mundo sem nenhuma esperança.”

O que o escritor talvez não saiba é que a Esperança é uma das principais virtudes cristãs, e por isso, sobrenatural, pelo que transcende toda a lógica e a racionalidade.

Mas isso, provavelmente, é demais para um ateu como ele.

(Setúbal na Rede, 11/11/08)

PODEMOS VOLTAR A ACREDITAR NA AMÉRICA?

Depois do pesadelo que foi a Administração Bush, a América voltou a sonhar pela mão do seu primeiro presidente afro-americano.

A massa de votantes, na ordem dos 66%,  foi a maior dos últimos cem anos, e a disparidade dos números diz tudo. Obama ultrapassou largamente os 270 grandes eleitores de que necessitava para obter a vitória eleitoral, chegando aos 349, e deixando o adversário nos 163. Dobrou o score de McCain.

O grande derrotado foi o “bushismo”, que tanto mal trouxe ao mundo, agora morto e enterrado. O ainda presidente atingiu as cotações de popularidade mais baixas de sempre.

Os eleitores americanos entenderam que já não estamos em tempo de aturar as coboiadas de um qualquer texano ignorante, e que os EUA necessitavam de um líder mais culto e consistente, mais humilde, com maior consciência social e visão do mundo global em que vivemos. De certa forma pode-se dizer que acabou uma certa América de pendor imperialista que pensa ser dona do mundo.

Passada a euforia e o momento histórico vamos ver como é que Obama irá enfrentar as resistências dos grandes interesses que estiveram por detrás da invasão do Iraque. Petrolíferas, empresas de segurança, construtoras, indústria do armamento, todas vão resistir ao regresso dos soldados a casa, e à perda dos imensos negócios caucionados pelo ouro negro.

A verdade é que, até agora o senador Obama já fez mais pelo seu país, com esta sua brilhante vitória eleitoral, do que George W. Bush em oito anos de desgoverno na Casa Branca. Devolveu a esperança e o sonho à sociedade americana. E como diz o poeta, sempre que um homem sonha o mundo pula e avança.

Mas a grande questão é se podemos voltar a acreditar na América como pessoa de bem. Espero que sim, apesar de todos os obstáculos que o presidente eleito tem pela frente: sair de duas guerras no exterior, enfrentar a pior crise económica dos últimos cem anos, e voltar a merecer o respeito do mundo, que foi desbaratado pelo seu antecessor. Para já, o seu discurso não é trauliteiro (como o de Bush) nem triunfalista (como poderia ser tentado a fazer), mas moderado, sensato e inteligente.

Parece que temos homem.

(O Setubalense, 7/11/08)

A FUNÇÃO DO PODER LOCAL

A função dos órgãos do poder que mais de perto gerem a vida das comunidades locais deve ser discutida pelos cidadãos.

Há quem encare as autarquias como uma espécie de pai que dá a mesada aos meninos para fazerem as suas brincadeiras. Esta mentalidade, casada com a velha dependência cultural do subsídio, revela bem a tradicional falta de iniciativa de grande parte da sociedade portuguesa contemporânea (salvo raras e honrosas excepções). É a velha história do “não se faz porque não há verba”.

Apesar de tudo a prática do associativismo, com bastante tradição entre nós, revela uma compulsão profunda que procede da consciência e responsabilidade cívica dos cidadãos.

Há casos, porém, em que o poder local decide usar os recursos públicos e os instrumentos que tem ao seu dispor apenas para seduzir eleitoralmente os munícipes, desvirtuando por completo a sua função. Em vez de enquadrar a sociedade civil e lhe dar espaço e condições para o exercício da sua actividade, por vezes parece que pretende manipular e controlar a mesma.

Pior. Há casos concretos em que as autarquias se substituem mesmo às associações e instituições cívicas que há muito estão no terreno, a fazer um excelente trabalho, muitas vezes num esforço desinteressado de solidariedade e cidadania. E fazem-no não só com a clara intenção de apresentar serviço e se fazerem ao voto, por um lado, mas também para tentar boicotar e “apagar” instituições independentes que não controlam politicamente, o que é manifestamente criminoso do ponto de vista político e social.

A Constituição da República Portuguesa determina que as autarquias locais «visam a prossecução de interesses próprios das populações respectivas» (art.º 235, ponto 2). Porém, a grande questão é saber quem define quais são os referidos interesses. Serão os elementos eleitos ou as forças vivas das populações? Serão os políticos profissionais, que muitas vezes estão de passagem por ali, ou as vozes das comunidades, isto é, as instituições ali arreigadas? Serão os directórios partidários ou o povo?

A qualidade da nossa Democracia passa por aqui. Pela reflexão sobre a natureza do exercício do poder a todos os níveis, incluindo o importante Poder Local.

(O Setubalense, 31/10/08)

O MUNDO ESTÁ A MUDAR

Três acontecimentos recentes parecem ter decidido definitivamente a eleição presidencial americana.

O primeiro deles foi uma imagem que correu mundo. No último debate televisivo entre os candidatos, uma foto revela McCain a caminhar atrás de Obama (este erecto e com ar sereno), curvado, com as mãos abertas e a fazer um esgar, ao tomar consciência de que se tinha enganado no caminho. Uma imagem vale por mil palavras, como se sabe, e a imagem que passa é a de um homem derrotado, que sabe que já foi derrotado. E a imagem foi amplamente difundida por todo o mundo. Fez lembrar a queda do candidato republicano, também muito idoso, na segunda eleição de Clinton.

O segundo acontecimento foi o fraco desempenho de Sarah Palin (logo após uma entrada triunfante), amplamente glosado por uma actriz nos meios de comunicação. McCain cedeu à tentação mediática, ao escolher a figura, esquecendo que algum conteúdo tinha que ter, até porque iria ser impiedosamente exposta ao circo mediático. E a sua evidente impreparação não resistiu às luzes da ribalta político-mediática.

O último dos três acontecimentos foi a declaração pública de apoio do prestigiado Colin Powell (antigo secretário de Estado de George W. Bush) a Obama, assim como de três importantes jornais americanos. Recorde-se que Powell chegou a ser dado como presidenciável pelos republicanos, antes de ter sido enganado com a situação no Iraque.

Por tudo isto, e a menos que surja um cataclismo inesperado, os EUA estão prestes a eleger como presidente o primeiro afro-americano da sua história. E isso também dirá muito do que é aquele grande país.

A provável eleição de Barak Obama marcará o fim do sistema WASP (branco, anglo-saxónico e protestante) em terras do Tio Sam. Negros, hispânicos e asiáticos representam uma fatia cada vez maior do melting pot USA e acabarão por conquistar o relevo social a que têm direito na complexa sociedade norte-americana.

Mas o que é que isso interessa para a Europa? Muito. Mais cedo ou mais tarde os europeus trilharão o mesmo caminho. O mundo está a fazer up-grade para a versão “século 21”, e os países (não apenas as economias) emergentes darão cartas neste mundo globalizado, pós-guerra fria. Mudará a composição fixa do Conselho de Segurança da ONU, mudará o G8 (a Espanha já está a bater à porta), mudará o sistema financeiro, depois da presente crise, e muito mais.

Já o poeta dizia que o mundo é feito de mudança.

(O Setubalense, 24/10/2008)

O AR QUE SE NOS DEU

O ar de Setúbal está perigoso. Não, não se trata de metáfora. Falo mesmo da qualidade do ar que respiramos dentro das nossas casas, no sentido literal do termo. De acordo com um estudo divulgado esta semana pela Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica, que analisou mais de 600 casas, a qualidade do ar no interior das habitações é pior nos distritos de Setúbal e Aveiro.

Após seis meses de investigação, durante os quais se mediu sistematicamente os níveis de dióxido e monóxido de carbono, além dos níveis de compostos orgânicos voláteis, concluiu-se que, em mais de metade das habitações, há problemas que podem ter influência no sistema respiratório. Os níveis de humidade, por exemplo, são preocupantes, já que potenciam um possível aumento das doenças do foro respiratório. A pesquisa concentrou-se apenas na análise de casas particulares, localizadas em zonas urbanas e rurais.

A importância do meio ambiente há-de ser cada vez mais relevante na coisa pública e na agenda política, seja por iniciativa dos governantes ou por reacção dos cidadãos, porque cada vez mais as pessoas terão a noção de que os recursos naturais não são ilimitados e que se está a hipotecar a qualidade de vida das próximas gerações, as dos nossos filhos e netos.

Mas não há nada pior do que os fundamentalismos ou os interesses político-partidários envolvidos nesta matéria. Os primeiros porque retiram o foco dos problemas realmente importantes e aborrecem os cidadãos com o seu folclore. Os segundos porque, quando são as agendas partidárias a marcar o ritmo da acção política, descredibilizam os seus agentes. Para alguns o ar é importante mas a preservação dos sobreiros já não. Mas porque razão os fundamentalistas do ambiente se empenham tanto em preservar sobreiros podres, caminhos para ratos e cágados, mesmo quando prejudicam o desenvolvimento humano?

Sinceramente, gostava de compreender porque razão os paladinos locais da luta contra a co-incineração não manifestam idêntico empenho contra uma situação tão gravosa como esta, a do ar que respiramos, provavelmente de efeitos negativos na saúde pública muito mais nefastos do que a dita. Talvez não o façam porque tinham que passar a apontar o dedo contra si próprios e uns aos outros, porque se permitiram casas construídas em cima de linhas de água, em leitos de cheia, desordenamento urbanístico, persistentes problemas de higiene e limpeza públicas, praias sem bandeira azul, e anormalidades do género.

(O Setubalense, 17/10/2008)

A POBREZA É CRIME

O mundo está transformado numa coisa volátil. Ainda há pouco o preço do petróleo chegou quase aos cento e cinquenta dólares, agora está a ser negociado na casa dos setenta. A taxa da Euribor subiu como nunca, nas últimas semanas, para depois descer como há muito não se via.

A culpa é da crise, dizem. Da globalização, segundo outros. Do capitalismo, afirmam alguns. Todavia parece-me que a verdadeira origem da crise é muito mais profunda, radica no próprio ser humano.

Os amanhãs que cantam já não conseguem entusiasmar mais do que um punhado de apaniguados, e a fé humanista está cada vez mais desacreditada. As ideologias estão em crise, como se vê.

O comunismo já deu o que tinha a dar e o capitalismo atravessa uma das suas mais graves dificuldades de sempre. O mundo aspira por qualquer coisa nova e diferente, que lhe ressuscite a esperança.

Toda a gente diz que os líderes mundiais sofrem um défice de visão e competência, fala-se de corrupção à boca cheia e o desejado horizonte de calma e prosperidade parece cada vez mais longínquo.

Os números não iludem. Segundo Bono Vox, dos U2, “as estatísticas não são apenas números, têm caras, estão vivas e respiram”.

Quarenta por cento da população mundial vive com menos do que 1,50 euros por dia. Em África, a cada três segundos, morre uma criança, vítima da fome, da malária ou da tuberculose. Um terço da população mundial nunca usou o telefone. Oitocentos milhões de pessoas vão dormir sem uma refeição. Mais de mil milhões de seres humanos não têm acesso a água potável. Em Portugal uma em cada cinco pessoas vive no limiar da pobreza.

Por outro lado, uma percentagem significativa das verbas destinadas a Ajuda ao Desenvolvimento cai nas teias da corrupção. São sugadas pela máquina burocrática de algumas ONG, e muitos dirigentes africanos alimentam as suas contas bancárias com estas ajudas destinadas a combater a pobreza extrema.

É mesmo preciso mudar o mundo, e porventura a melhor momento de o fazer será agora, em plena crise, uma vez que as crises originam e facilitam sempre as mudanças profundas.

Os cristãos dizem presente nesta hora. No passado domingo começou uma Campanha Nacional Contra a Pobreza. Segundo o sítio do “Desafio Miqueias (http://www.desafiomiqueias.com/www.desafiomiqueias.com/Desafio_MIQUEIAS.html): “Sala cheia. Muito entusiasmo. Grande vontade de ajudar quem mais precisa. Foi assim o arranque da Campanha, na Igreja do Jubileu, em Setúbal. Com a presença de representantes das 8 organizações patronos do Desafio MIQUEIAS, que através de uma exposição expressamente realizada para o efeito apresentaram o trabalho que estão a realizar em benefício das populações mais pobres e vulneráveis, e o grande incentivo da Igreja do Jubileu que já apoia 500 famílias através do Banco Alimentar Contra a Fome.

Um pouco por todo o pais igrejas evangélicas aproveitaram o culto de Domingo para falar sobre pobreza e missão integral desafiando os cristãos a amar o próximo e a defender a causa dos mais necessitados através de uma participação cívica mais activa e mais trabalho no terreno.

Deus ama os pobres e Portugal pode contar com a comunidade evangélica na luta contra a pobreza e a desigualdade”.

(Setúbal na Rede, 14/10/2008)

A MODERNA

A Universidade Moderna estava condenada a fechar. Vai ser mais uma a pagar pelos seus próprios erros, mas também pelo laxismo dos sucessivos governos em matéria de escrutínio da actividade administrativa e académica das privadas ao longo dos anos.

Mas é pena que uma instituição do ensino superior, que experimentou verdadeiros tempos de glória no passado, termine desta forma degradante.

Acima de tudo porque Setúbal fica sem ensino universitário, para já, com todos os inconvenientes daí derivados em termos de desenvolvimento sustentado.

Compreende-se a luta (embora inglória) da presidente da câmara por manter o pólo de Setúbal com as portas abertas, mas a verdade é que não parece haver garantias mínimas de que a instituição viesse a ter condições objectivas para levantar a cabeça nos tempos mais próximos.

São públicas as razões porque a Moderna chegou ao caos. Má gestão e abusos de toda a ordem, levaram a universidade a funcionar tempo demais em roda livre, debaixo do nariz do governo, que nada fez, em tempo útil, para corrigir os excessos.

Claro que muitas das figuras da nossa classe política, fauna política de diversa proveniência partidária, eram contratadas para dar lá aulas, de modo a facilitar os favores do poder, e assim se conseguiu um fechar de olhos de quem os devia ter mantido sempre bem abertos: a tutela.

Simultaneamente com a ordem de encerramento da universidade, o ministro Mariano Gago não podia ter deixado de bater a mão no peito, assumindo as responsabilidades governativas, em vez de se limitar a mostrar o seu desagrado pelo actual estado das coisas. É preciso dizer que o falhanço da Moderna é também o falhanço do governo.

A grande questão agora é fazer tudo para que a cidade volte a contar com ensino universitário. Decerto haverá outras instituições universitárias privadas no país que não vão querer desperdiçar esta oportunidade e todo o potencial aqui representado. E digo privadas uma vez que o Estado não parece interessado em assumir o seu papel nesta matéria.

Quem vier, porém, precisa de promover cursos necessários a esta região do país, articulados com o mercado de trabalho, sem nunca esquecer de se ligar ao mundo empresarial.

Setúbal e toda esta região merecem e necessitam de estudos universitários credíveis.

(O Setubalense, 10/10/2008)

O CAPITALISMO

O sistema capitalista tem sido muito falado devido à actual crise na qual a economia mundial está mergulhada, já caracterizada por alguém como a pior desde a Grande Depressão dos anos vinte.

A esquerda imputa todos os males ao sistema, chamando-lhe selvagem, de modo a que suscite repugnância ao cidadão comum. Fala de tudo sacrificar em nome do deus lucro, fala dos vencimentos e prémios de gestão (?) astronómicos auferidos pelos responsáveis do descalabro, chamando a atenção para a imoralidade de tudo isto. Fala da intervenção incaracterística do poder político americano no livre curso do mercado, no sentido de permitir a privatização dos lucros, a qualquer custo e da nacionalização dos prejuízos, com o contribuinte a pagar.

A direita limita-se a condenar apenas o que falhou, de modo a evitar idêntica situação no futuro, dada a perturbação inevitável para toda a economia mundial. Fala em aperfeiçoar o sistema através de uma regulação mais interventiva e eficaz, mas sem tocar no essencial, a liberdade dos mercados. Alguma direita não deixa de mostrar o seu desconforto pela intervenção do estado norte-americano na economia, por ser contranatura, mas aceitando que, numa situação como esta, seria difícil resolver as coisas de outra forma sem elevar os prejuízos à máxima expressão para as famílias e as empresas, numa altura em que já há cidadãos americanos da chamada classe média a dormir nos carros.

Tal como a visão de Churchill sobre a Democracia (que é um sistema político óptimo, à falta de melhor), poderíamos dizer o mesmo sobre o capitalismo, já que nem a economia planificada comprovou, nem o caudilhismo latino-americano ou africano, ou qualquer outro sistema alternativo. Talvez o regime que mais deu provas foi a social-democracia de tipo nórdico, uma variante do capitalismo, com preocupações sociais por parte do estado.

Talvez estejam agora reunidas as condições para uma ampla reflexão e um acurado debate sobre o melhor sistema político-económico, que seja socialmente mais justo, mas também economicamente mais eficaz, para uma Europa e um mundo globalizado como nunca antes se viu.

A fraqueza central do capitalismo, porém, é que ele foi pensado de modo a ser exercido  tendo por base uma ética, a protestante, como explica Max Weber, e não para ser desenvolvido como adoração ao deus Mamom, o lucro a qualquer preço. Foi concebido de modo a dar espaço ao melhor do ser humano, as suas capacidades, o espírito de iniciativa, a fé num mundo melhor, a dignificação do trabalho, em oposição a um sistema de vida baseado na dependência dos poderosos, no favor e na subserviência a terceiros.

O problema é que o capitalismo começou numa sociedade de valores, onde Deus ocupava o lugar de honra, e hoje, tendo este sido chutado para fora da História e da vida dos homens, ficaram eles sós, com o seu capitalismo.

E é muito pouco, como se vê.

(O Setubalense, 3/10/2008)

A BATALHA DA QUALIFICAÇÃO

 

Eis a dura crueza da realidade. Portugal é o segundo país da OCDE com mais empregados sem qualquer qualificação. Atrás de nós, só mesmo a Turquia.

Ainda de acordo com a OCDE, em 2006, países como o Canadá e Israel tinham apenas sete por cento da sua força laboral sem formação universitária nem qualquer especialização. Mas no nosso país, cerca de 60 por cento da mão-de-obra não tem qualquer formação específica.

Temos diante de nós o maior desafio enquanto povo e nação. Já lá vão os brasis, as áfricas e o Oriente. Retornados ao nosso pequeno rectângulo atlântico, encostados a uma Espanha pujante, integrados numa Europa competitiva e exigente, resta-nos espertar as orelhas e trabalhar a sério para a valorização dos nossos activos humanos, o melhor que temos.

Na falta do petróleo, diamantes ou riquezas naturais significativas, resta-nos a reconversão das pessoas, a qualificação dos trabalhadores, a valorização da massa cinzenta, a inteligência de percebermos como podemos fazer a diferença neste mundo globalizado, onde não há amigos mas apenas interesses.

É neste contexto que a universidade tem que aumentar o seu grau de exigência. Fechem-se as universidades que for preciso mas aumente-se a exigência académica a alunos e professores, e estabeleça-se uma aposta séria na investigação. Acabe-se com o conhecido compadrio, os negócios escuros e os favores políticos na academia.

Mesmo o ensino básico e secundário terá que afinar pelo diapasão da exigência. Os alunos andam na escola para adquirir determinadas competências para a vida, e não para passar o tempo. Os professores estão lá para encaminhar e ajudar os alunos a atingir o seu objectivo, e não apenas para cumprir horários e obrigações mínimas.

Estou de acordo com a ministra da Educação quando diz ser inadmissível que tantos alunos andem em explicações, quando só deveriam necessitar delas em casos muitíssimo especiais.

Já estou em frontal desacordo quando diz esperar que em breve os alunos do nono ano de escolaridade apresentem cem por cento de aprovações!… Como é possível articular uma prática de exigência com um discurso de facilitismo?

(O Setubalense, 26/9/2008)

MÃE, MADRASTA E AMANTE

Desde que vim para Setúbal, há cerca de trinta e cinco anos, que sempre ouvi expressar a ideia de que, no contexto geral da população, os setubalenses de origem estão em minoria, e por isso há pouco apego à terra.

Mais. Ouvi dizer, muitas vezes, que Setúbal seria má mãe e boa madrasta. Ou seja, a cidade era generosa para os de fora, mas austera para os nascidos cá. Ao mesmo tempo eram fornecidos exemplos dessa teoria, que andavam à volta de nomes de pessoas com relevância social, cultural e política, a maioria delas nascidas fora daqui.

Para lá do facto de tal pressuposto soar a desculpa ou a inveja disfarçada, há um factor sociológico determinante que não permite aceitar a tese. É que já há muito que uma grande parte da população de Setúbal deixou de ser setubalense de origem, como acontece nos centros urbanos de média e grande dimensão.

Por isso é perfeitamente natural que essa parte muito significativa de não nascidos no concelho ascenda a cargos e posições públicas de alguma relevância entre nós. O contrário é que seria estranho.

A cidade do Sado sempre foi um lugar de acolhimento. Basta pensar na colónia de pescadores das Fontainhas, com origem na região de Aveiro, ou, no outro extremo, a colónia de Tróino, constituída por marítimos vindos do Algarve. Já para não falar da imensa massa de alentejanos que elegeu a cidade de Bocage como destino de migração.

Mas o que é de contestar, acima de tudo, é a ideia de que os não nascidos cá não amam a cidade nem se interessem por ela. A realidade desmente frontalmente tal asserção. A verdade é que algumas das pessoas que mais têm dado a Setúbal são nascidos fora.

Esse bairrismo bacoco que atribui qualidades ao indivíduo apenas pelo seu local de nascimento e não pelo seu empenho e desempenho efectivos, não é mais do que uma espécie de racismo genealógico, muito mais vulgar nas disputas entre bairros de uma cidade ou entre aldeias vizinhas.

Faz lembrar a velha rivalidade entre Sines e Santiago do Cacém, ou mesmo entre Setúbal e Palmela, em tempos que já lá vão.

Deixemo-nos disso.

Mais do que nossa mãe ou madrasta, que Setúbal seja nossa amante.

(O Setubalense, 19/9/2008)

SEGURANÇA: A IMPOTÊNCIA ASSUMIDA

 

“Não há ‘uma’ solução mágica para dissuadir, prevenir ou combater a criminalidade organizada e violenta”.

(António Vitorino, “Diário de Notícias”, 05-09-2008)

Quem o diz é um especialista de Justiça, a nível europeu, que já desempenhou altas funções na área. E por isso esta declaração merece ser levada em linha de conta.

Significa isto que a sociedade deve baixar os braços no combate a este tipo de criminalidade, que ultimamente tem desencadeado algum alarme social no país? Claro que não. Significa apenas que a solução de um problema social complexo não é simples, muito menos simplista, e que não devemos ficar à espera de soluções do tipo varinha de condão, de modo a que, de um momento para o outro, tenhamos o problema resolvido.

Maria José Nogueira Pinto, em artigo de opinião no DN, põe o dedo na ferida:

“Toda a algazarra feita em torno da vaga de assaltos trouxe ao de cima uma série de lamentáveis contradições: ora a polícia não actua, ora actua com excessos; ora o Governo não faz nada, ora cria de rompante uma medida excepcional (o que será um secretário-geral de Segurança?); ora a prisão preventiva é declarada um abuso vergonhoso (o número excessivo de presos com esta medida, os prazos, as prisões a abarrotar, etc…) ora reaparece como medida salvífica; ora se assume que as polícias podem actuar eficazmente sem unidade de comando ou adequada articulação, ora afinal não podem e aí está o problema; ora as penas são adequadas, ora, vendo bem, desproporcionadas; ora o que é preciso é demitir o ministro, ora é melhor atirar pedras ao sistema judicial. Andamos há anos nesta roda viva, cíclica e sistematicamente, sem nenhuma vergonha. Quantos debates, quantos acordos parlamentares, quantas revisões do código penal e de processo penal ao longo dos últimos anos, afinal para nada…”

Está fácil de entender que a maior dificuldade para resolver a questão está em nós e no modo como não sabemos bem o que queremos. Vacilamos entre a tentação securitária de um estado policial, do género “um polícia em cada esquina”, o endurecimento generalizado das penas (com a subsequente dificuldade acrescida da posterior reinserção social dos detidos), e o regresso da pena de morte (há muitos populares que a defendem), por um lado, e o laxismo por outro (a redução das penas, o deixa andar e o fiarmo-nos que ainda somos um povo de brandos costumes, o que já não corresponde à verdade, de todo).

Há problemáticas sociais, como a da segurança e justiça, que, pela sua importância não deveriam ser palco de luta político-partidária, feita muitas vezes com a maior demagogia, sectarismo e oportunismo político.

É razoável pensar que poderia ser possível criar consensos nesta matéria, à volta de um pacote de políticas e medidas legislativas e de governo, na sociedade portuguesa, em particular entre os governantes e os titulares de cargos políticos (no poder e oposição).

É razoável pensar que os magistrados, os polícias e os sindicatos, poderiam demonstrar uma postura mais construtiva do que entrar em guerra (aberta ou surda) por motivos corporativos ou interesses profissionais, quando valores mais altos se levantam, como é o caso da segurança pública e da justiça.

É razoável pensar que seria possível aos meios de comunicação social desenvolver alguma ética cívica e não apenas mirar o lucro, de modo a que as notícias fossem apresentadas de modo mais isento, e os factos tratados com mais objectividade, não persistindo na subvalorização do que é mau ou está mal e na omissão do que é bom ou está bem.

É razoável pensar que os portugueses não são estúpidos, e entendem muito bem quando é que os políticos apenas querem cavalgar a desgraça alheia e os compreensíveis sentimentos de insegurança das populações, e não dar o seu contributo para a resolução concreta dos problemas.

Esta problemática é séria demais para brincadeiras e jogos políticos com base em interesses particulares e imediatos. E a solução tem que ser encontrada em conjunto, caso contrário o país será como aquele quadro de Goya em que dois homens se agridem mutuamente, à paulada, dentro de um pântano. Em vez de terem uma réstia de inteligência que os leve a cooperar para se salvarem, apressam a sua mútua e inevitável destruição.

(Setúbal na Rede, 16/9/2008)

CONFLITUALIDADE E EDUCAÇÃO

- “Ele que tenha muito cuidado!” ameaçou Clarence Mitchell, porta-voz de Kate e Gerry McCann, perante toda a comunicação social, em Inglaterra, adiantando que o casal iria estar atento ao que o ex-inspector da PJ Gonçalo Amaral, escreveu no livro entretanto publicado (Diário de Notícias, 23/07/2008).

- “Ele que não se meta comigo!”, foi a ameaça de Valentim Loureiro a Luís Filipe Vieira, perante os jornalistas e populares, à porta do tribunal de Gondomar, que o condenou a pena de prisão.

- “RUI RIO=BIN LADEN”. Cartaz exibido nas televisões pelos moradores do Bairro do Aleixo, frente à Câmara Municipal de Porto.

- “MENTIROSO!” Cartaz recorrente nas manifestações sindicais, contra o primeiro-ministro.

Estes são apenas quatro dos imensos exemplos veiculados pela comunicação social nos últimos tempos, reveladores não só de uma conflitualidade crescente, mas também de uma grande falta de respeito pelos outros, em especial quando esses outros são figuras públicas.

Sem dar uma de moralista, a verdade é que a sociedade portuguesa está crispada e revela hoje a falta de valores que devem pautar a convivência entre cidadãos.

Os interesses pessoais ou de grupo e as divergências políticas não justificam tudo. Não justificam a violência inopinada, a agressão gratuita, a falta de respeito e urbanidade que hoje em dia se verifica nas relações sociais. É claro quer tudo isto começa por ser um problema de educação. E não me refiro à educação escolar (instrução) mas sim à educação para a vida, que começa em casa.

Começa por não se respeitar os pais, os professores, os polícias ou quaisquer outras figuras de autoridade, e acaba-se por não respeitar os outros em geral, quem quer que eles sejam, nem as suas opiniões, a sua propriedade, integridade física e nem sequer a sua vida.

Não nos iludamos, o verdadeiro problema está aqui.

(O Setubalense, 12/09/08)

O TEMPO NÃO VOLTA ATRÁS

Um dos pressupostos habitualmente citados para justificar o atraso no desenvolvimento de Setúbal é o de que a nossa estrutura produtiva é pesada, obsoleta e inadequada.

Com efeito, o boom das conserveiras, e o incremento industrial posterior, tendo por motor a construção e reparação naval, vieram a desembocar nos anos oitenta, ainda a navegar nas ondas de choque do Prec. Foi a época das bandeiras negras da fome, com a falência do modelo até aí perseguido.

A questão que se coloca hoje é saber se é possível ficar a olhar para trás, à espera do regresso de grandes indústrias, de modo a criar empregos em quantidade e a alavancar a economia, ou se é preferível (ou mais realista) reconverter, apostando noutro tipo de tecido industrial, de pequena e média dimensão, não poluente, com tecnologias de ponta, tendo em consideração as condicionantes ambientais cada vez mais determinantes num modelo de desenvolvimento sustentado e moderno, mas sem fundamentalismos.

Como não vivemos em regime de economia planificada não será possível ao governo, nem lhe compete, criar postos de trabalho na indústria (ou noutro sector qualquer), mas apenas criar condições para que os empreendedores e empregadores se interessem pela realidade local e suas potencialidades. Sobretudo tendo em conta as vantagens inerentes a uma localização privilegiada, como o Porto de Setúbal, o futuro aeroporto em Alcochete, o acesso simplificado a Sines e a Espanha, e outras infra-estruturas rodoviárias e ferroviárias previstas, além da Plataforma Logística Multimodal do Poceirão.

Se não houver uma estratégia de captação de investimentos produtivos, industriais, para a cidade e concelho, o que se vai tornando obsoleto desaparecerá, inevitavelmente, e ficaremos reduzidos ao comércio, serviços e turismo, com a agravante de, neste último caso, nem sequer estarmos ainda devidamente apetrechados, deste lado do rio.

A resposta talvez seja privilegiar a captação de indústrias não poluentes, de ponta, que possam conviver pacificamente com as condições naturais de que dispomos, e apostar fortemente na especialização, na conquista de nichos específicos de mercado, e na qualificação das pessoas, reconvertendo as que ainda forem a tempo, na sua vida activa.

Ou seja, articular a herança recebida, que seja preservável, com uma ideia de modernidade, onde a tecnologia mais avançada terá que estar presente.

(O Setubalense, 8/09/08)

PORTUGAL DE COSTUMES MENOS BRANDOS

“São sentimentos transitórios, vagas, de grande alarmismo que depressa se desvanecem. Exemplos são os casos da doença das vacas loucas e da gripe das aves.”

(Carla Machado, doutorada em psicologia da justiça, afirmando existir uma preocupação exacerbada relativamente à recente vaga de criminalidade violenta. Jornal de Notícias, 22/08/2008)

Alguma coisa mudou, nos últimos tempos, no nosso país, em matéria de criminalidade.

Não estávamos habituados a uma onda de assaltos a tribunais, recrudescimento do “carjacking”, ataques à bomba a carrinhas de valores ou assaltos com homicídios em lojas e estações de serviço.

O director do Observatório de Segurança disse entretanto que a criminalidade violenta “chegou para ficar e conquistar terreno” em Portugal, com grande capacidade de organização e qualidade de meios, tal como já acontece no resto da Europa.

Nos primeiros seis meses deste ano, segundo o jornal Correio da Manhã, o Estado arrecadou 4,2 milhões de euros na cobrança de impostos de licenças de uso de armas. Entre 2006 e 2007 foram compradas 92 mil armas.

Segundo os números da PSP existem cerca de 1,4 milhões de armas legais no país e apesar das restrições da nova lei de 2006, existe um significativo aumento da procura de armas para defesa pessoal.

Indivíduos que assaltaram à mão armada uma bomba de gasolina na Mealhada, e suspeitos de outros crimes violentos (inclusive em Setúbal), foram mandados soltar pelo procurador de Anadia. Horas mais tarde a PJ voltou a detê-los.

Bem sabemos que a Justiça em Portugal anda pelas ruas da amargura. E a coisa não vai lá nem com congressos do sector nem com pactos políticos. Tudo tem falhado. Mas é tempo de o governo dar sinais de que está a encarar o problema de frente, e passar a ser mais proactivo nesta matéria, sem complexos de esquerda, o que passa pelo reforço dos meios na polícia de investigação, nas forças de segurança e ordem pública. Mas também por políticas de prevenção mais consistentes (ex: operações-stop frequentes, à saída dos estabelecimentos de diversão nocturna, em articulação com PSP/GNR-PJ-SEF), sem esquecer uma alteração urgente à lei, de modo a penalizar duramente quem atentar contra a vida e a integridade física dos agentes de autoridade, ou a endurecer as medidas de coacção e as penas aplicáveis a atentados contra bens e pessoas.

Está-se a ver agora no que deu a teoria do “bom selvagem”…

(O Setubalense,29/08/08)

OBAMA E MCCAIN NO CONFESSIONÁRIO

A espécie de catarse mediática a que os candidatos presidenciais americanos se aceitaram submeter, num programa televisivo nacional de carácter cristão evangélico, é simplesmente lamentável do ponto de vista político.

Este tipo de expedientes é muito “american way of life”, e tem a virtude de satisfazer os interesses de quem organiza, que assim reforça o seu estatuto e imagem pública, da audiência imediata a que se destina, que assim fica na doce ilusão de que é muito influente e relevante, e dos próprios candidatos, os quais, e cada um ao seu modo, esperavam retirar dividendos de tal performance.

A dois meses e meio das presidenciais nos Estados Unidos e quando os dois candidatos à Casa Branca se encontram praticamente empatados nas sondagens, Barack Obama e John McCain apressaram-se a confessar os seus “pecados”.

O democrata Obama revelou ter experimentado drogas e álcool durante a juventude, e o republicano McCain confessou ter falhado o seu primeiro casamento. Os americanos adoram histórias de arrependimento e redenção. Obama deve-se ter lembrado que George W. Bush fora resgatado ao alcoolismo, e por isso esta sua falha seria aceitável. McCain, pensando talvez o contrário, correu maiores riscos ao assumir a responsabilidade pelo falhanço do seu primeiro casamento, porque apesar da taxa de divórcios nos EUA ser altíssima, a verdade é que a história de McCain é mais complexa.

Ao voltar do Vietname, e enquanto a mulher tinha sofrido um acidente que a deixou desfigurada, o militar iniciou uma relação extra-conjugal com uma rica herdeira que viria a tornar-se sua actual mulher. Trata-se de um problema de carácter que envolve sexo, e a América conservadora não gosta disso. Quase crucificou Clinton pela brincadeira com a estagiária e agora como vai engolir uma conduta destas?

Álcool e drogas sugerem desvarios da juventude, e prejudicam apenas o próprio, mas a quebra de uma aliança conjugal, em idade adulta, configura uma séria dificuldade em cumprir compromissos, ainda por cima quando se troca uma mulher fragilizada por uma ricaça.

Sabendo-se que os cristãos evangélicos representam uma importante fatia do eleitorado norte-americano, cerca de 26%, não admira que ambos os candidatos alinhassem neste número. Mas é lamentável para a política.

O que se pretendia é que os EUA elegessem o candidato mais capaz de conduzir os destinos da América num tempo em que o Ocidente está a perder influência no mundo, perante as potências emergentes, e não um espectáculo mediático de stripe-tease moral, onde se é quase obrigado a inventar pecados e arrependimentos, bem ao gosto WASP (americano, anglo-saxónico e protestante).

(O Setubalense, 25/8/08)

ESTAR VIVO É MAIS DO QUE O CONTRÁRIO DE ESTAR MORTO…

 

“Eu tive que ligar a todas as pessoas de quem gostava a dizer que estava viva.”

(Teresa Paiva, neurologista e refém do assalto ao BES de Campolide, ao DN, em 13/8/08)

Ao contrário da frase que celebrizou uma patusca figura da nossa sociedade, estar vivo não é o contrário de estar morto, mas muitíssimo mais do que isso.

Pelo menos essa é a noção expendida por uma médica neurologista e professora da Faculdade de Medicina de Lisboa, na sequência da experiência traumática sofrida na qualidade de ex-refém do recente assalto ao balcão do BES em Campolide.

No seguimento da vivência traumática sofrida, Teresa Paiva não só parece ter interiorizado mais profundamente a consciência e a realidade da vida, como ainda sentiu a necessidade de o comunicar às pessoas realmente significativas do seu círculo relacional.

Este é um bom sinal e exemplo prático da razão porque a vida não pode ser encarada como simples existência, ou como a ausência da não-existência física (a morte), pois representa muito mais do que isso.

 

A vida humana tem um sentido pessoal ontológico único. Eu sou eu e não qualquer outro. Ninguém é como eu. Sou único, tendo em conta as características específicas da minha personalidade e o conjunto de experiências vividas. Outro da mesma idade, sexo, educação, cultura, religião é necessariamente diferente de mim, mesmo que seja gémeo autêntico.

É neste sentido que se diz que as pessoas, em si mesmas (como pessoas), são insubstituíveis, embora possamos sempre encontrar outras que as substituam nas suas tarefas, funções e responsabilidades. Segundo Unamuno: “Cada um de nós é único e insubstituível. Não há outro eu no mundo. Havê-los-á maiores e mais pequenos, melhores e piores, mas não outro eu. Eu, Miguel de Unamuno, sou único.”

 

A vida humana tem um sentido comunitário e relacional único. A minha pessoa não pode ser substituída por outra na interacção com terceiros. As teias relacionais que se vierem a criar com terceiros, por outro que não seja eu, serão inevitavelmente diferentes das que eu criaria. Seriam de outra natureza, substância, significado e intensidade.

A pessoa que sou, na relação com os meus amigos, por exemplo, nunca poderia vir a ser substituída por outro que não eu, sem que mudasse a essência dessas mesmas relações. Assim, o que eu represento para os meus familiares e amigos (tal como o que cada um deles representa para mim) seria completamente distinto se eu fosse um outro.

 

A vida humana tem uma sacralidade única. O sentido sagrado da vida foi estabelecido há séculos na civilização ocidental.

Aliás, terá sido por reconhecer a marca de Deus em todo o ser humano, que a cultura ocidental baniu a escravatura, a pena de morte (quase por completo), e revestiu de sacralidade a vida humana, independentemente do carácter pessoal ou merecimento específico dos indivíduos em questão. Isso acontece justamente porque a cultura ocidental, estribada em fundamentos judaico-cristãos, reconhece em todo o ser humano a imago Dei.

A vida humana tem um valor único. A necessidade sentida pela ex-refém de comunicar com os seus amigos, além do valor terapêutico no combate ao stress pós-traumático, e para lá de exaltar a importância da amizade e da comunicação na condição humana, remete acima de tudo para algo muito mais profundo: o valor da vida humana, que é única, irrepetível e irreparável.

De repente, descobrimos que estamos vivos, que esse facto, em si mesmo, se torna para nós extraordinariamente relevante, e que os nossos mais queridos precisam de o ouvir da nossa boca.

O ser humano é um ser que se descobre a si mesmo todos os dias, com espanto e sentimentos desencontrados. Celebremos a vida.

(Setúbal na Rede, 19/8/08)

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