Arquivo da categoria: Arte, Educação, Cultura

À procura do pássaro dourado

 

67Paradiesvogel400

“ (…) não está longe de cada um de nós” (Actos 17:27)

 

Venho lá do fim do tempo

trago os olhos cheios de mar

viajo há muitas luas por entre rostos e olhares

de quem procura o lendário pássaro dourado

por toda a floresta desencantada. Mas nem sempre

reconhecem o seu estranho cantar

e continuam sempre e sempre

esforçadamente nessa busca

infinita

até ao suspiro derradeiro.

 

© José Brissos-Lino

9/8/14

 

 

Elogio da amada no Cântico dos Cânticos (inédito de J.T.Parreira)

mediano234_11_05_39emirados-arabes01[2]

 

“Quem é esta que sobe do deserto, como colunas de fumo,

perfumada de mirra” (Cântico dos Cânticos).

 

 

Ela vem como ilusão de óptica no deserto

as faces rodeadas de uma água solar, a luz

do seu rosto se derrama, a cor dos seus lábios

sufoca os meus olhos

 

Ela vem como algodão de nuvens

as minhas mãos são rudes indignas da seda

dos lírios que florescem nos seus dedos

 

A minha amada vem ágil como o vento

a dançar nos véus do seu cabelo

 

Vem esplêndida, a minha amada vem como um alvo

de beleza para todos os olhares.

 

 

01-08-2014

©  J.T.Parreira

O discurso de Babel: inédito de J.T.Parreira, no dia em que o “Ovelha” atinge de 1 milhão de visitas

jtpJ.T.Parreira, algures no rio Sado.

 

Ninguém queria estar só, nem disperso

Isto era apenas o começo.

 

Nenhum ouvido estranhava o que as bocas diziam

Em todos os ouvidos

Cabia uma língua apenas, todos sabiam de onde

Vinham e como ficariam, jamais frágeis

Sob o céu em peso.

 

Seria uma torre uma estátua inalcançável

Nenhuma água em tumulto

Deveria subir ao topo da torre

Nem afrouxar a firmeza dos tijolos

Isto é só o começo, no céu as estrelas

Serão os nossos únicos deuses

As nossas janelas acesas.

 

2013

© J.T.Parreira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os auto-retratos do séc. XXI

Rembrandt

As selfies tornaram-se uma autêntica praga universal. Mas já Rembrandt, o grande pintor do século XVII, realizou mais de sessenta auto-retratos (ver imagem). E, como bem nota Ben Dreyfuss no site Mother Jones, a diferença entre uns e outras é mais de tecnologia do que outra coisa.

Apenas os auto-retratos são produções cuidadas, que visam favorecer a imagem do retratado. Já as selfies implicam um elemento de ridículo calculado (no sentido da quebra das convenções sociais) ou de humor, sem cuidar da preservação da imagem pessoal dos “apanhados”.

Já dizia Salomão que não há nada novo debaixo do sol…

Que bom é saltar nas poças

Puddles of Fun

 

 

 

Que bom é saltar nas poças passada a chuva

na preservação das galochas. Falar a linguagem da água

sem risco de afogamento

fazê-la pular connosco

em pequenas gotas de felicidade

mesmo num dia de cinza

antes da mãe chamar para o lanche

que a gente mais gosta.

 

© José Brissos-Lino

14/7/14

Na rua dos livros

487496_536964176329077_141931555_n

 

 

Na rua dos livros há casas diferentes

onde se jogam humanas paixões

há janelas amplas como o horizonte

altaneiras e estreitas como a fome

cortinados brancos

vasos de flores vermelhas

na rua dos livros não há casas duplicadas

porque não moram lá clones. E em certos dias

as portas da rua levam-nos pela mão

a pátios solarengos

onde o verde é um grito de liberdade

por abafar

e a luz do dia canta livre

sobre os muros dos quintais.

 

 

© José Brissos-Lino

8/7/14

 

O regresso de Ulisses (inédito de J.T.Parreira)

penelope-esperando-ulises

 

Regressa Ulisses

como proa do seu barco, corta

não as águas, mas o voluptuoso mistério

que passa pelo vento, ainda

que as sereias estejam longe

Ulisses está de pé, de costas

para Nausícaa, para o sol lento que soltava

ouro dos cabelos de Nausícaa

Outra mulher o espera

a fiar e a desfiar o tempo.

 

 

12-05-2014

© J.T.Parreira

 

 

Sento-me num livro

 

sento-me num livro

 

 

Sento-me num livro e espero as contingências

do sol da manhã

percorro-lhe a alma vagarosamente

com a gentileza de um piscar de olhos

ao virar da página

e depois custo a despegar os olhos

e o sentido

da corrente de vida

até que desague

na última capa.

 

 

© José Brissos-Lino (publicado como inédito em Poeta Salutor)

7/7/14

Casa desabitada

article-2316987-198AAD96000005DC-780_964x629

 

 

Um lençol de silêncio sobre o piano

Os móveis ofuscados sob as mantas, o móvel contador

Com embutidos florais da Índia envolto em linho

Dos tectos como pendentes cabeleiras

Os lençóis guardam os lustres

E cadeirões hão-de sugerir as ósseas tessituras

Sob a descrição dos panos

Os quadros exibem o pudor da arte

Cobertos com tecidos, o brazão e as armas

Da família, é o tempo interdito, a casa

A exumar respirações de todos os fantasmas.

 

©  J.T.Parreira

04-07-2014

 

As palavras não se atiram como pedras

PEDRAS~1

 

“Porque lhes dei as palavras que tu me deste.” (Evangelho S. João 17:8)

 

As palavras não se atiram como pedras

entregam-se em bom estado

como pão ao faminto

e água ao sedento. As palavras são embriões

de vida longa

clarões que iluminam a treva

dos silêncios.

 

© José Brissos-Lino (publicado como inédito em Papéis na Gaveta)

2/7/14

 

 

 

 

A passo de boi (inédito de J.T.Parreira, no aniversário do “Ovelha”)

Carro_de_boi

 

 

“A passo de boi, vai-se apalpando o pulso às coisas”. (Henry Michaux)

 

Já não vamos a passo de boi, os nossos sapatos

São rápidos, confortáveis e alguns competem

Com o equilíbrio nas alturas, os abismos

Estão fatigados de tanta pressa, a passo de boi

Chegamos até aqui, o que temos agora

De fazer exige rapidez, o lodo

Que nos aperta os pés com os ardis

Do tempo exige passos apressados

Se possível deixar a sombra para trás.

 

©  J.T.Parreira 

 

Transumaram hoje a mulher-poema

sophia_uma_vida_de_poeta11

 

No dia da trasladação de Sophia de Mello Breyner Andresen para o Panteão.

 

Transumaram hoje a mulher-poema

mas ela já não estava lá

a menina do mar partiu há muito

em busca do tesouro

com o cavaleiro da Dinamarca

deixou para trás o rapaz de bronze

aventurou-se na floresta até encontrar

a fada Oriana

deu com o mar novo. À vista das ilhas

e do búzio de Cós mudou

o nome das coisas.

 

 

© José Brissos-Lino

2/7/14

“A Batalha do Viso e a Revolta da Patuleia em Setúbal”

livro Patuleia

 

Morreram mais de 500 pessoas na Batalha do Viso, durante o séc. XIX.

O investigador Álvaro Arranja, em obra editada pelo Centro de Estudos Bocageanos, afirma que este período da então Vila de Setúbal é quase desconhecido: “mesmo o Forte de São Luís Gonzaga (Castelo Velho) está ali em ruínas e muita gente não sabe sequer onde é, passam por elas e não as ligam à história”.

Na sequência da “Maria da Fonte” e revoltado com o aumento de impostos para financiar companhias privadas, o povo destruiu os arquivos tributários do país. Setúbal torna-se a capital das forças patuleias em 1847 e congrega quase 4.000 pessoas vindas de todo o país, para se defender do exército de D. Maria II.

A História repete-se?

 

Carlos do Carmo: um prémio merecido

carlosdocarmoeosp.640x420

 

Carlos do Carmo é um homem de convicções. Nasceu fadista mas soube percorrer outros caminhos com uma profunda inteligência – sem nunca renegar as suas origens – promovendo assim o Fado e contribuindo para derrubar barreiras culturais e de preconceito, em relação a essa forma de expressão artística que procede da alma portuguesa.

Recebe agora o Grammy que distingue toda uma carreira artística de meio século (“Lifetime Achievment”), sendo o primeiro português galardoado.

Foi uma personalidade incontornável na campanha que levou à inscrição do Fado, enquanto forma artística, como Património Imaterial da Humanidade, da qual o fadista foi um dos embaixadores, e que venceu há três anos.

Multum fallitur qui imperat (muito erra quem manda)

Latim

O ensino do Latim tende a morrer em Portugal. Falta de interesse dos alunos? Parece que não. O problema é antes a ignorância e o desconhecimento da importância desta língua, por parte de quem decide.

Foi com o Latim que desenvolvemos toda a nossa ciência, filosofia e religião, até ao século dezoito. Ele contempla mais de dois mil anos de cultura, de Vergílio à Vulgata Latina, passando pelos poetas latinos e outros clássicos.

Constituindo a matriz de todas as línguas românicas, e com impactos relevantes tanto no inglês como no alemão, a cultura milenar do Latim garante o acesso à civilização que fundou – juntamente com o Grego – o mundo ocidental, percorrendo todas as áreas científicas, desde as ciências jurídicas às educativas, da biologia à medicina, da matemática ao ensino linguístico, da literatura à tenologia.

Países como Espanha, Alemanha ou Inglaterra seguem a via contrária, integrando nos seus curricula o ensino do Latim, por perceberem a sua relevância, a partir do 5º. ano de escolaridade, ao contrário da nossa política educativa, que atira para o 10º. ano e apenas como opcional, enquadrada com Geografia, algumas línguas modernas e Literatura Portuguesa, mas só acessível aos alunos de humanidades. Os cursos de ciências não têm acesso.

Serão os nossos alunos menos dotados do que os outros europeus? Não se interessarão pelo mundo antigo?

Susana Marta Pereira, professora de Português e Latim, põe o dedo na ferida: “Num país onde se aplica um acordo ortográfico que renega a matriz do português, não é de espantar que se olhe para o latim como uma língua menor”. A lenta agonia do ensino desta língua em Portugal deve-se, antes de qualquer outra coisa, à ignorância e ao desconhecimento da importância desta língua por parte de quem decide.

Duas escolas públicas de Lisboa e Porto decidiram lutar contra esta cegueira, abrindo o acesso a todos os alunos das suas escolas à aprendizagem do Latim, a partir do 7º. ano, em regime de frequência livre, fazendo uso da metodologia desenvolvida pela Universidade de Cambridge. Resultado: muito interesse e absentismo quase nulo.