Arquivo da categoria: Portugal

As contrapartidas eram só a brincar…

550

Dizia o Expresso que Álvaro Santos Pereira, ex-ministro da Economia declarou na comissão parlamentar de inquérito à compra de material militar que, enquanto foi ministro (entre 2011 e 2013) terá sido aconselhado a “não mexer no dossiê” das contrapartidas, porque se tratava de um assunto com um “grande passivo reputacional” e descreveu alguns contractos de contrapartidas celebrados por anteriores governos como “contrapartidas imaginárias.”

O modelo das contrapartidas foi desenvolvido para convencer a opinião pública de que a compra de material militar era neutra.

Perante a gravidade de tais declarações o que faz a Procuradoria? E o Tribunal de Contas? Não há ninguém que tire isto a limpo? Já vale tudo, incluindo a corrupção ao mais alto nível do Estado? Depois dos tribunais alemães condenarem cidadãos seus como corruptores dos decisores portugueses, no caso dos submarinos, continua a não haver corrompidos cá deste lado?

 

 

Palavras perdidas (1374)

“Ed Miliband é um político preparadíssimo, desde a escola (Oxford, London School of Economics, Harvard…) até cargos governamentais e parlamentares – falha-lhe, ao que diz o atual debate, é a empatia. Sorte a dos socialistas britânicos. O líder da oposição portuguesa, o socialista António José Seguro, a quem falha quase tudo, tem um problema mais grave: quer ter empatia a mais. Confunde-a com uma sobredose de afetos (tirados a ferrinhos) que incomoda quem lhe sofre as intervenções públicas. É urgente que lhe encontrem um guru.”

(Ferreira Fernandes, DN)

Palavras perdidas (1373)

“Para onde quer que nos voltemos, os sinais de que Portugal é hoje um país à deriva são manifestos. Com a saída da troika tornou-se ainda mais evidente que o Governo não tinha qualquer agenda que não fosse fazer a dobragem para português, por vezes com erros dolosos de tradução, das exigências dos nossos credores. Confundindo os efeitos com as causas, a austeridade falhou. Depois de três anos de destruição da economia, do emprego, dos direitos sociais, depois de a própria troika, através do FMI e da Comissão Europeia, ter admitido erros de conceção no memorando (algo que o Governo nunca fez com seriedade e de forma escrita), o País mergulha em cheio num novo turbilhão, que destrói ainda mais a confiança no sistema financeiro.”

(Viriato Soromenho Marques, DN)

Palavras perdidas (1372)

“O discurso dos centros de decisão nacional sempre foi essencialmente um discurso de poder, e de manutenção desse poder pelo regime vigente. Hoje é um anacronismo ridículo. O investidor estrangeiro já tomou conta. A EDP e a Ren são hoje chinesas, a Ana é francesa, o BCP, BIC, Zon e Optimus são angolanos, o BPI é hispano-angolano, o BES há de ser de quem o quiser, a Cimpor é brasileira, a PT quer sê-lo, a Galp é apátrida e há dezenas de grandes empresas à venda, incluindo hotéis, seguros, saúde e imobiliário do Grupo Espírito Santo, a TAP ou os resíduos do Estado.

O sistema mudou porque estava falido. O novo regime fala estrangeiro. Precisa de reguladores fortes, para que produza em vez de extrair riqueza de Portugal. Mas essa é a maior mudança a que assistimos. Não foi a troika que a trouxe, foi a dívida. O triste fim do Grupo Espírito Santo não é senão uma forma dramática e espetacular de o percebermos. Como diria José Sócrates, o mundo mudou.”

(Pedro Santos Guerreiro, Expresso)

 

Coisas que não entendo (4)…

filhos_671731441

O governo continua a sua sacanagem governativa. Explico. A ideia luminosa de dividir para reinar prossegue. Ou seja, colocar portugueses contra portugueses. Novos contra velhos, funcionários públicos contra trabalhadores do privado, etc. Agora é na fiscalidade. Para se beneficiar as famílias com mais filhos, o projecto pretende agravar a carga tributária das outras. E essas outras ainda são 3,7 milhões de famílias…

Coisas que não entendo (3)… Governo decreta “eutanásia profissional”

EUTANASIA

Esta ideia peregrina de lançar uma lei que impede os reformados de trabalhar pro bono, sob risco de perder o direito à sua pensão, é pior do que estúpida.  É particularmente grave nas universidades, onde, de acordo com este aborto legislativo, nenhum professor jubilado pode dar uma aula que seja ou fazer uma conferência gratuitamente e em sossego.

Vem agora o governo emendar a mão – dada a bronca que a notícia gerou, a partir do momento em que Bagão Félix alertou o país para a existência da nova lei – prometendo criar uma outra para clarificar aquela…

Não consigo compreender.

CPLP: o nosso albergue espanhol

prostituição

A diplomacia portuguesa comporta-se hoje como uma velha prostituta de rua. Vende-se a quem queira pagar.

Ele é os vistos gold, para atrair estrangeiros  – sobretudo chineses – que metam cá o dinheirinho (não importa se são criminosos), ele é o dobrar a espinha à cleptocracia de Luanda, ele é o promover a integração na CPLP de uma ditadura que nem sequer fala a língua de Camões, mas é famosa pelo narcotráfico e, sobretudo, por ter aberto os cordões à bolsa a um banco cá do burgo em necessidade.

Sabemos que – como dizia o general De Gaulle – “os países não têm amigos, têm interesses”. Tudo bem, mas uma coisa é ter interesses, outra é vender a alma ao diabo…

Palavras perdidas (1368)

“O Governo já veio dizer que o saque do BES é oficial, e os comentadores andam a repeti-lo como se fosse normal. Por miúdos: diz o Governo que o dinheiro da troika para ser usado para recapitalizar a Banca ainda existe e vai usado no caso. Pois, mas o dinheiro da troika era para recapitalizar a Banca, isto é, aumentar o ratio de capitais próprios e era um empréstimo do Estado à Banca. No BES ele vai ser usado para tapar um buraco e por isso não vai aumentar o ratio nem ser devolvido ao Estado, vai recair sobre a dívida pública e a dívida pública é paga com despedimentos, fecho de maternidades, escolas, privatizações, ou seja, trata-se de facto – e só na parte conhecida e assumida – de trocar papel sem valor do património falido dos accionistas pelo valor real dos salários e pensões, salários directos ou salário em forma de Estado Social (o que pagamos para receber do Estado serviços públicos). Esta é a parte conhecida e que corresponde já a mais de 1% do PIB, quase 20% do Serviço Nacional de Saúde. Este desfalque, já garantido, está aí. E é a parte em que o Governo diz “não se preocupem está tudo bem, temos já o valor para tapar esse buraco”.

(Raquel Varela, Facebook)

Palavras perdidas (1367)

“As recentes nomeações de Vítor Bento (Presidente do SIBS e membro do Conselho de Estado) para Presidente Executivo do BES e João Moreira Rato (Presidente do IGCP) para Administrador Financeiro, a somar a Paulo Mota Pinto (Deputado do PSD) para o Conselho de Administração, revelam a enorme promiscuidade entre o grande capital e o poder político, nomeadamente os partidos que em cada momento estão no Governo.

Não é por acaso que a nossa Constituição estabelece que o poder económico deve estar subordinado ao poder político mas, mais uma vez, está bem patente quem domina e ao serviço de quem e de que interesses estão os partidos que se vão alternando no Governo.

É óbvio que esta promiscuidade resulta num empobrecimento do nosso regime democrático”.

(Paula Santos, Expresso)

Palavras perdidas (1366)

“É por isto tudo que não aceito a culpabilização sistemática dos mais pobres e mais fracos e da classe média, por terem vivido “acima das suas posses”, mesmo quando não o fizeram. E mesmo quando havia uma casa a mais, um carro a mais, um ecrã plano a mais, um sofá a mais, um vestido ou um fato a mais, umas férias a mais, uma viagem a mais, recuso-me a colocar estes “excessos” no mesmo plano moral dos “outros”. Algum moralismo salomónico, que coloca no mesmo plano a corrupção dos poderosos e dos de cima com os pequenos vícios dos de baixo e do meio, tem como objectivo legitimar sempre a penalização punitiva de milhões para desculpar as dezenas. É por isto que esta crise corrompe a sociedade e vai deixar muitas marcas, mesmo quando ninguém se lembre de Portas e de Passos.”

(José Pacheco Pereira, Abrupto)

Já vão tarde

pes_peq

 

Pode o PSD vir agora preocupar-se muito com a natalidade portuguesa. E PS e CDS também. Durante muitos anos as políticas governativas foram claramente anti-família.  E não é certamente com esta orientação de austeridade pura e dura que será possível reverter o suicídio colectivo e lento do país, que chegou ao ponto de nem sequer conseguir renovar as gerações.  Até porque os nossos jovens estão a ir fazer filhos “lá fora” e os que os têm pequenos a levá-los com eles para os destinos de emigração, onde se irão aculturar e fixar no futuro.

Palavras perdidas (1365)

“Fechou-se completamente um ciclo da história económica portuguesa. O último dos banqueiros portugueses caiu. Sem honra nem glória. A última das famílias tradicionais, nascida no século XIX, afunda-se em dívidas. Depois de Champalimaud e dos Mello foi a vez dos Espírito Santo. Perderam o banco e não sabemos ainda quem o ganhou. Resta à família, mesmo zangada entre si, gerir as dívidas de um império não financeiro que, afinal, tinha pés de barro. Da Comporta ao Tivoli, tudo está agora nas mãos dos credores.”

(Helena Garrido, J. Negócios)

Palavras perdidas (1364)

“Agora que Ricardo Salgado arrisca afundar-se, quem são os primeiros a pôr-se na fila para o empurrar borda fora? Os mesmos senhores e as mesmas senhoras que ainda há dois meses corriam ao beija-mão, agitados e agitadas, de cabeça quase na alcatifa, coluna em arco, embevecidos e embevecidas por algum mensageiro do monarca – “o dono disto tudo” – ter comunicado a benesse de uma audiência exclusiva, de um almocinho discreto, de uma partida de golfe esperançosa, de uns 30 segundos de atenção. Se fossem de espécie canina, abanariam o rabito de felicidade, tal era o frenesim…

Quantos jornalistas, analistas, empresários, políticos, magistrados e outros satélites do poder contribuíram para um silêncio comprometedor, anos e anos a fio? Quem aceitou, por exemplo, o silenciamento generalizado do crime, a troco de coimas, que foi o resultado final da gigantesca Operação Furacão? Quem aceitou a normalidade de um esquecimento de oito milhões de euros numa declaração de IRS? Quem impediu que notícias desagradáveis ao BES fossem publicadas? Quem alguma vez analisou seriamente as contas da teia empresarial montada pelo Grupo Espírito Santo? E como é que a troika, que vasculhou tudo e todos, não deu por nada aqui?

Esta gente vai safar-se. Passada a tempestade no BES, se calhar dominada com dinheiros públicos, a elite nacional que se curvava a Salgado reconfigurará as “amizades”, “as relações” e continuará a servir e a servir-se de um qualquer novo dono do País… Até ter de o cuspir.”

(Pedro Tadeu, DN)

Palavras perdidas (1362)

“Se em abril de 2011 o BCE tivesse já em aberto a possibilidade do OMT (anunciada apenas em setembro de 2012), Portugal teria, com forte probabilidade, evitado o resgate nos termos onerosos em que ele ocorreu. Concluindo: a dívida que nos oprime tem uma componente nacional e outra europeia. Até agora, só os portugueses cumpriram a sua dolorosa parte.”

(Viriato Soromenho Marques, DN)

Os reguladores não regulam nada

ft-5e38

Não entendo os elogios da imprensa doméstica ao regulador bancário no caso BES. Mais uma vez deixou de fazer o trabalho de casa. Tal e qual como o anterior, com o caso BPN, que tão criticado foi. O escândalo já anda nas bocas do mundo, lá fora. Desconfio que vamos todos pagar outra vez pelos roubos de colarinho branco.

Palavras perdidas (1360)

“A ideologia confusa e híbrida que caracteriza os actuais dirigentes do PSD tem sido descrita como “liberal” ou “neoliberal”. Tenho-me sempre manifestado contra esta classificação que dá demasiada dignidade ideológica a uma mescla de ideias e posições que nada têm de liberal. Se quisermos fazer a distinção sem sentido entre “liberalismo económico” e liberalismo político, rapidamente compreenderíamos que o “liberalismo económico”, a que correntemente se chama “neoliberalismo”, não é liberalismo. O liberalismo, com o seu amor pela liberdade, a sua valorização do indivíduo, a percepção da relação entre a propriedade e a liberdade, a pulsão pela privacidade e pelo direito de cada um definir os objectivos da sua vida, tem muito pouco a ver com a redução do homem ao “homo economicus”, a ditadura estatal do fisco, a burocratização de toda a actividade social para aumentar o controlo do Estado, o desrespeito pelo primado da lei, o encosto aos mais fortes e culpabilização dos mais fracos.”

(José Pacheco Pereira, Público)

E os outros?

Alem-do-horizonte--196751_1024x768

 

Sei que isto vai ser considerado politicamente incorrecto, mas não é esse o farol que me guia.

Ninguém me ouviu uma palavra no coro de lamentações à volta da morte trágica do filho da jornalista Judite de Sousa. Coro que tem sido ensurdecedor, nos últimos dias, em termos de mensagem informativa, nas televisões e nos jornais do país.

E a razão é só uma: não quero ser injusto nem faltar ao respeito por tratamento tão exageradamente desigual para com todas as pessoas que morreram tragicamente nestes dias, sobretudo crianças, e cuja memória ninguém parece interessado em invocar.

Para mim, que não conhecia pessoalmente nem uns nem outros, todos os falecidos têm a mesma dignidade enquanto seres humanos. E tenho a certeza de que para Deus também.

Carlos do Carmo: um prémio merecido

carlosdocarmoeosp.640x420

 

Carlos do Carmo é um homem de convicções. Nasceu fadista mas soube percorrer outros caminhos com uma profunda inteligência – sem nunca renegar as suas origens – promovendo assim o Fado e contribuindo para derrubar barreiras culturais e de preconceito, em relação a essa forma de expressão artística que procede da alma portuguesa.

Recebe agora o Grammy que distingue toda uma carreira artística de meio século (“Lifetime Achievment”), sendo o primeiro português galardoado.

Foi uma personalidade incontornável na campanha que levou à inscrição do Fado, enquanto forma artística, como Património Imaterial da Humanidade, da qual o fadista foi um dos embaixadores, e que venceu há três anos.

Venha a nós o vosso dinheiro

emigrar_nao

 

Isto às vezes parece mais um bordel do que um país.  Primeiro o governo convida (e obriga, na prática) os portugueses a emigrar. Depois quer captar estrangeiros. Estudantes, para encher as universidades públicas deficitárias. Reformados, para dinamizar um mercado imobiliário quase parado. E empresários, para investirem na nossa depauperada economia. Grandes estadistas que nos calharam na rifa…

Palavras perdidas (1357)

“A completa desresponsabilização sobre a crise dos últimos anos, desencadeada pelo sistema financeiro, mas de que no fim este veio a beneficiar, marca moralmente como uma doença a sociedade da crise em que vivemos. O que choca as pessoas comuns e é uma fonte enorme de descrença da democracia e de sentimento de injustiça propício a todos os populismos, é que ninguém imagina que um ministro, primeiro-ministro ou Presidente se fosse sentar à mesa com alguém que tivesse desviado uns poucos milhares dos seus impostos ou tivesse um restaurante, uma barbearia, ou uma oficina de automóveis em modo de “economia paralela”, enquanto todos os viram nos últimos anos, em plena crise, conviver agradecidos e obrigados com estes homens que aparecem agora nos jornais como se tendo “esquecido” de declarar milhões de euros ao fisco ou estando à frente de instituições bancárias que emprestaram a amigos e familiares muitos milhões de que não se sabe o rastro, e tinham contabilidades paralelas.

É por isto tudo que não aceito a culpabilização sistemática dos mais pobres e mais fracos e da classe média, por terem vivido “acima das suas posses”, mesmo quando não o fizeram. E mesmo quando havia uma casa a mais, um carro a mais, um ecrã plano a mais, um sofá a mais, um vestido ou um fato a mais, umas férias a mais, uma viagem a mais, recuso-me a colocar estes “excessos” no mesmo plano moral dos “outros”. Algum moralismo salomónico, que coloca no mesmo plano a corrupção dos poderosos e dos de cima com os pequenos vícios dos de baixo e do meio, tem como objectivo legitimar sempre a penalização punitiva de milhões para desculpar as dezenas. É por isto que esta crise corrompe a sociedade e vai deixar muitas marcas, mesmo quando ninguém se lembre de Portas e de Passos.”

(Pacheco Pereira, Público)

 

Nem bestiais nem bestas, apenas seres humanos

tratamento-natural-para-controlar-a-raiva2

 

Uma coisa é avaliar realisticamente o desempenho da selecção portuguesa, outra é insultar jogadores e equipa técnica. Aqueles que os insultam agora parecem mais vítimas da inveja social (que já o velho Camões denunciava), ou quem precisa de um bode expiatório para libertar a sua frustração pessoal. No primeiro caso é feio. No segundo, pode até funcionar como catarse e ser libertador, mas continua a ser muito feio.

Uma selecção de futebol não pode carregar o país às costas. Por outro lado a comunicação social explora o fenómeno da paixão por este desporto como lhe convém. Compreensível. Já não se compreende é a tentação do poder político cavalgar esta janela de possível sucesso. É caso para perguntar porque razão Cavaco recebeu a selecção em Belém, com pompa e circunstância,  à partida para  a Copa (com direito a selfies, almoço e tudo) e não fez o mesmo, por exemplo, com Rui Costa, o nosso campeão do ciclismo, nem sequer uma referenciazinha no seu querido Facebook, a não ser depois de consumado o feito inédito, depois do rapaz ter ganho pela terceira vez (consecutiva) a Volta à Suiça.

Pelos vistos os terços religiosos (!!!) do senhor Evangelista (Sindicato dos jogadores) não surtiram efeito. Da próxima vez fazem o quê? Pagam-lhes uma ida à bruxa?

Palavras perdidas (1356)

“Trago a dialética aqui para louvar a iniciativa do Governo em tentar elevar o debate, fazê-lo filosófico até, em tempos em que as atenções populares estão tão junto à relva. Poucos perceberam o que fez Poiares Maduro, tipo inteligente e culto, ao dizer, anteontem: “Ai houve funcionários que já receberam as férias?! Tramaram-se, agora a devolução dos cortes não é para eles.” Julgou-se que Poiares estava a criar uma nova categoria de funcionários, de segunda. Mas não, ele estava a participar num diálogo dialético. A prova é que, logo depois, ontem, um ministro mais alto do que Maduro trouxe a contradição: que não. Que, afinal, todos os funcionários são iguais e não se pensa pôr avisos nos urinóis da administração pública: “Proibido a funcionários apressadinhos que fazem férias primaveris.” Não, repito: era só dialética: um murro nos dentes, um beijo na boca. E assim, pela contradição, avançamos. Aliás, não é nada de novo neste Governo. Ainda no ano passado, um ministro apareceu e disse: “Demito-me!” E dias depois: “Tarã! Voltei!” Só que essa contradição, protagonizada pelo mesmo, soou um bocado a esquizofrenia. Agora, é mais elaborada. É dialética.”

(Ferreira Fernandes, DN)

Palavras perdidas (1354)

“Há uma empresa em Felgueiras que fez o contrário do que a troika exigiu: não desceu salários, subiu; não despediu pessoas, contratou; não parou de investir para se desendividar, gastou em mais e em melhor tecnologia, não parou de trabalhar as suas marcas, gastou dinheiro a pensar no assunto e a posicionar–se nos mercados internacionais. E subiu os preços, não os baixou.

Hoje, esta empresa, a J. Moreira Lda., chegou onde a troika queria – dizia querer – que o País chegasse: ganhou quota de mercado, vende para o mundo inteiro (só os italianos conseguem vender sapatos mais caros que os portugueses). A J. Moreira Lda. é um êxito no meio de muito fracasso. Não é a única assim, embora seja um bom exemplo. Em 2013, as empresas de calçado venderam 1,7 mil milhões de euros para o exterior e, desde 2010, a indústria tem mais 10% de pessoas a trabalhar. Cresceu no meio da crise.”

(André Macedo, DN)

Palavras perdidas (1351)

“O Orçamento para 2014 tinha uma reserva chamada de dotação provisional: 570 e tal milhões de euros. Onde está esse dinheiro? Para onde foi? Onde está a ser aplicado? Não é para ter uma reserva? A dotação provisional é isso mesmo. A ministra das Finanças dizia que os serviços não têm dinheiro, mas ela pode fazer um despacho e tem delegação de competências para fazer um reforço dos ministérios, o que pode acontecer em 10 minutos (…) Em vez de o primeiro-ministro não ir ao futebol, eu acho que ele devia dizer à ministra das Finanças que utilizasse as reservas que tem lá para tapar estas situações. Para onde é que ele foi? Não é para ter uma reserva? A dotação provisional é para isso mesmo. Há um ponto em relação ao qual não consigo conformar-me, que é não saber qual o destino daquele dinheiro. Se não houver nenhum esclarecimento público sobre essa matéria, eu própria farei um requerimento à Assembleia da República a pedir aos deputados que me esclareçam sobre essa matéria, porque eles são obrigados a responder”.

(Manuela Ferreira Leite, Expresso)

Legitimidades

justica

 

Só para esclarecer. O governo não tem nem mais um milímetro de legitimidade democrática do que o Tribunal Constitucional (TC). Ao ouvir falar Passos Coelho até parece que o TC carece de legitimidade.

A legitimidade do governo procede da Assembleia da República. A do TC também, já que a maioria dos seus membros é escolhida pelos partidos e os restantes cooptados.

Mais. Se alguém começa a carecer de legitimidade é o próprio governo. Primeiro porque já não corresponde a uma maioria eleitoral.

Depois porque já devia ter sido demitido, após três anos consecutivos de Orçamentos de Estado à margem da lei, se nós tivéssemos presidente da república.

E ainda porque está a promover uma guerra institucional contra o TC que se limitou a fazer o seu trabalho, procurando assim sabotar a separação e o equilíbrio de poderes que a Constituição consagra.

Ah, e é bom não esquecer que acima do parlamento e de todos os órgãos de soberania (Belém incluído) está a Constituição. Se o governo não concorda com ela proponha a sua revisão em sede própria. Deslegitimar a Constituição é deslegitimar-se a si próprio.

Ou seja, um tiro não no pé mas na cabeça.

 

Palavras perdidas (1350)

“Paremos um pouco neste dia 5 de Junho de 2014 e olhemos à nossa volta. Temos um governo que fingiu que a troika se tinha ido embora a 17 de Maio, só para poder festejar o acontecimento antes das eleições europeias, quando ainda nem sequer conseguiu fechar a 12.ª avaliação, e não se sabe quando o fará. Tretas e mentiras. Temos um líder da oposição que inventou umas eleições primárias à pressa, com um formato do qual discordava abertamente há três anos, só para conseguir arrastar-se mais uns meses à frente do PS. Mentiras e tretas. E temos um acórdão do Tribunal Constitucional que, pela segunda vez em três anos, decreta uma inconstitucionalidade em suspensão: o Orçamento de 2014 é inconstitucional, mas só de Julho a Dezembro. O Palácio Ratton entrou em saldos – vende inconstitucionalidades com 50% de desconto. Seria interessante averiguar se meia-inconstitucionalidade não é, ela própria, inconstitucional, mas se calhar é melhor esquecer isso, que já temos problemas que cheguem.”

(João Miguel Tavares, Público)

Governo ensaia eleições antecipadas?

ng172AAD99-0C33-49D2-8A95-2A22A280AC19

 

Tudo leva a crer que o governo começa a ensaiar uma dramatização política de modo a fazer o papel de vítima face ao Tribunal Constitucional e ir dizer ao presidente da república que não tem condições para continuar a governar.

Só posso interpretar assim a guerra progressiva que o governo tem feito constantemente contra aquele órgão de soberania (TC), procurando arrastar o seu nome na lama todos os dias.

Esta crescente dramatização passou pela desistência da viagem do PM ao Brasil, pelas declarações de Passos, Portas e sectores apoiantes deste governo, assim como da antecipação dos cortes definitivos com que se pretende também condicionar Cavaco.

A ideia é esticar a corda e ir para eleições enquanto se pode apanhar o PS com as calças na mão. Com a ajuda estratégica de Seguro (que permanece agarrado ao lugar), poderá ser ainda possível ganhar as próximas legislativas, metendo o PS segurista na algibeira com um qualquer acordo de governo.

E, como é evidente, a presente indefinição do PS só favorece tal estratégia. Com Costa certamente outro galo cantaria.

 

 

 

 

Orelhas de burro

OrelhasBurro01

A agitação no PS pela disputa da liderança entre Seguro e António Costa é coisa de meninos, comparada com a guerra pesada que o governo e a direita estão a fazer contra o Tribunal Constitucional. É que a contestação interna de um partido não ofende o princípio constitucional da separação de poderes – sagrado em democracia – mas o presente ataque do executivo contra outro órgão de soberania é outra coisa, muito mais séria.

E Belém continua mudo e quedo, entretido a sorrir nas selfies com os jogadores da selecção…

O aluno que chumba no exame três anos seguidos, devia ficar virado para a parede com orelhas de burro. A culpa não é do avaliador.

O sonho dos tiranetes

general

 

 

O sonho dos tiranetes é poderem governar em ditadura. Sem nada que os impeça de impor as leis que entenderem a cada momento.

Ou, pelo menos:

É terem uma imprensa submissa e subserviente, ligada aos interesses que eles servem.

É terem um chefe de Estado que assine de cruz e não faça perguntas incómodas.

É terem à sua disposição forças de segurança que actuem de olhos fechados, de preferência, e que ameacem, prendam e intimidem as populações.

É terem um parlamento de fantoches que façam as leis que lhes interessam, da forma que lhes interessa e com os buracos que convém, para manobras posteriores.

É terem amigos nas grandes empresas privadas, a quem facilitem a vida, com vista a assegurar o futuro quando saírem da vida política.

É poderem contar com tribunais formalmente independentes, mas que ajudem a proteger os poderosos e castiguem de forma exemplar os pilha-galinhas.

É terem uma justiça constitucional que lhes permita contornar a própria Constituição, e lhes deixem passar leis iníquas.

E o povo, pá?

 

 

 

 

 

Para que serve um Cavaco mudo?

365332

 

“PSD acusa Tribunal Constitucional de “invadir campo do legislador”

 

Este país está louco. Então o presidente da república, sempre tão cioso da divisão de poderes quando lhe convém, agora, perante este ataque institucional, não tem nada a dizer? Quando o maior partido que apoia o governo vem à praça pública atacar de forma desabrida um órgão de soberania tão importante como o Tribunal Constitucional, Cavaco Silva nada tem a dizer? Ele não jurou defender a Constituição? Então porque não a defende?

O PSD tem que entender que a legitimidade do governo não é maior do que a do TC. O poder judicial não tem menos nem mais legitimidade do que os cargos ou órgãos políticos do Estado.

E estes garotos, se não queriam ver chumbadas normas do OE, aprendessem a elaborar este tipo de documentos antes de irem para o governo.

Palavras perdidas (1349)

“Imediatamente após a apresentação do orçamento do Estado, em Outubro de 2013, os indicadores económicos começaram a degradar-se. O crescimento (em cadeia) continuou positivo até ao final do ano, mas desacelerou fortemente. E, no 1º trimestre de 2014, aconteceu o óbvio: o PIB caiu -0.7%. A retoma foi possível quando a austeridade foi travada; a retoma desapareceu quando se voltou a insistir no caminho da austeridade.

Ainda não sabemos os detalhes da austeridade que aí vem. Só sabemos que, com este governo e com as políticas que têm sido seguidas, o que aí vem não é seguramente o crescimento do PIB e do emprego. O TC pode proteger-nos de alguns excessos deste governo, mas não nos salva dele.”

(João Galamba, Expresso)