Arquivo da categoria: Portugal

Palavras perdidas (1395)

“Um dos piores dos meus anátemas contra este Governo é exactamente a destruição dessa boa-fé, como se fosse o acto mais normal do mundo, como quem respira, sem pensar duas vezes, até sem atenção, nem sequer preocupação pelos efeitos não apenas nas vítimas dos seus actos, mas no tecido social e nos laços que unem as pessoas numa sociedade civilizada e numa democracia em que todos somos proprietários e penhores do mesmo poder. Este à-vontade e esta indiferença pelo que é e significa a boa-fé vai ficar como uma mancha para o presente e para o futuro no tónus moral destes tempos.”

(José Pacheco Pereira, Público)

Palavras perdidas (1394)

“Perante uma mulher que viu, depois de uma operação, a sua vida sexual seriamente limitada, o Supremo Tribunal Administrativo recordou que a senhora tinha 50 anos, “uma idade em que a sexualidade não tem a importância que assume em idades mais jovens, importância essa que vai diminuindo à medida que a idade avança.” O relator deste acórdão tem 64 anos. E é acompanhada por uma juíza com 59 e um juiz com 56. Todos fora de jogo. A muitos juízes, conhecedores da lei, falta-lhes o bom senso. Estudaram muito. Mas falta-lhes tudo resto. Ao que parece, até o essencial.

Por automatismo tendemos a acreditar que as nossas instituições são dirigidas por pessoas razoavelmente sensatas. Que ao topo chegam os melhores, os mais preparados, os mais razoáveis. Não acreditamos nisso quando falamos em políticos porque eles estão muito expostos. Mas em relação aos juízes, que, na função de julgar, precisam, mais do que quaisquer outros, de bom senso, esperamos que ao topo chegue quem tempere a inteligência e a preparação técnica com um pouco de saber da vida.Não há, na realidade, grande razão para ainda acreditarmos nisto.”

(Daniel Oliveira, Expresso)

 

Palavras perdidas (1393)

“O dr. Passos Coelho e os seus fiéis julgam que fizeram uma grande obra. Já se esqueceram que a troika os forçou a fazer o que fizeram. Como se esqueceram, com certeza por intervenção do Altíssimo, que não cumpriram o programa (aliás, duvidoso) a que se tinham comprometido. Aumentaram a receita do Estado, sem inteligência ou perícia; e fugiram de reformas substanciais com vigarices, com pretextos e com uma insondável indolência. Quando o dr. Passos Coelho, lá para Outubro, for delicadamente posto na rua, o Governo seguinte com um bocado de papel e uma caneta arrasará numa hora tudo ou quase tudo o que ele deixou. Entrou provavelmente na cabeça do primeiro-ministro a ideia perigosa de “deixar um exemplo”. E deixou. Deixou um exemplo de trapalhada, de superficialidade e de ignorância. Ou seja, nada de original.”

(Vasco Pulido Valente, Público)