Arquivo da Categoria: Portugal

Palavras perdidas (1330)

“O problema (do SNS) está nos recursos humanos. É preciso criar condições para contratar bem e trabalhar. O sistema público não se pode pôr em paralelo com o sistema privado porque sai mais barato. Enquanto o SNS quer prevenir a doença, o privado vive da doença. Estão em conflito e é muito difícil serem parceiros. O privado é hospitalocêntrico, é uma oficina que vive de haver carros avariados.”

(Alexandre Castro Caldas, Jornal I)

Palavras perdidas (1329)

“Quando a juventude emigra por necessidade, está a dizer que não acredita no presente.[...] Os da minha geração também não acreditam no País. A unidade nacional não se mantém com este nível de desemprego, miséria e pobreza que não se entende”.

(Ramalho Eanes, Colóquio Expresso)

Palavras perdidas (1328)

O que interessa é que a Casa da Democracia, onde todas as semanas ouvimos disparates eleitoralmente mandatados, mostrou que tem medo de ouvir, em cerimonial, uma reprimenda, eventualmente idiota, possivelmente acertada, dada por um militar reformado com mais de 70 anos. O primeiro problema da Assembleia da República com os Militares de Abril, portanto, é ter medo do que eles dizem. Os deputados são cobardes.”

(Pedro Tadeu, DN)

A inconseguida

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Assunção Esteves chegou a presidente da Assembleia da República depois do erro de casting que foi a escolha de Fernando Nobre. A sua indicação, por parte do PSD, foi bem recebida pelos restantes partidos. Não havia como não ser: jurista brilhante, tornou-se a primeira mulher a chegar ao cargo. O pior foi depois. Desde que tomou posse, Assunção Esteves acumulou uma série de polémicas e tomou inúmeras atitutes que não se limitam a colocá-la em causa: desprestigiam o cargo que ocupa. A declaração infeliz sobre os militares de Abril é apenas a último dos casos. De memória houve os episódios sobre o acesso às galerias do parlamento, as declarações sobre a transladação para o Panteão Nacional, etc.

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Claro que o problema é nosso…

 

 

 

Acabo de ouvir na rádio a resposta dada por Assunção Esteves relativamente à pretensão dos militares de Abril poderem usar a palavra na sessão evocativa dos 40 anos do 25 de Abril a realizar proximamente na Assembleia da República. “O problema é deles!”, foi o que disse a dama do “inconseguimento”.  Mais pela manhã, também já tinha ouvido que a maioria CDS e PSD tinha chumbado essa mesma pretensão. Os militares queriam estar presentes e usar a palavra. Nada que o regimento da Assembleia não preveja em situações especiais, como é o caso da dita  sessão evocativa.

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Palavras perdidas (1327)

“Porém, a inopinada entrevista de Durão Barroso ao Expresso da semana passada parece destinada a fazer pensar três vezes as pessoas que se recusam a reduzir os problemas que vivemos à fraqueza dos atuais líderes. Olha-se para aquilo – não consigo encontrar outro termo – e a pergunta surge imediatamente: tem sido este homem que tem estado à frente da Comissão Europeia na altura da sua mais grave crise? Não chegava ter cuspido no mandato que os portugueses lhe deram num momento muito importante para Portugal, ter assistido impávido e sereno ao esvaziamento dos seus poderes na Europa, ser suficiente ter-se tornado um capacho da chanceler alemã e um apoiante feroz das políticas que estão a ajudar a destruir o seu próprio país, vem, ainda em pleno exercício de funções, interferir no processo político português, caluniar pessoas e tentar umas manobras politiqueiras incompreensíveis.”

(Pedro Marques Lopes, DN)

Ou mente ou é cumplice

 

A síntese de Daniel Oliveira:

Começo de avisos de Barroso a Constâncio sobre o que se passava BPN: 2002.

Ano em que Barroso escolhe Dias Loureiro como presidente da Mesa do Congresso do PSD: 2004. (cortesia de Pedro Sales)

Conclusão: ou Barroso afinal não sabia o que passava no BPN e está a mentir, ou sabia e foi conivente. Fica sempre mal.

Isabel Jonet e o Desemprego: nem sensibilidade nem bom senso

 

Isabel Jonet afirmou que os desempregados passam demasiado tempo nas redes sociais em vez de procurarem emprego. A afirmação carece de bom senso, mas sobretudo é falsa. Se os desempregados fossem todos à procura de emprego haveria na mesma 1 milhão e 400 mil pessoas desempregados. Os mesmos que há com os desempregados “a passar o tempo nas redes sociais”.

Há 1 milhão e 400 mil desempregados porque há 1 milhão e 400 mil postos de trabalho que não estão a ser utlizados de propósito. O Governo decidiu uma política recessiva que permita recuperar as taxas médias de lucro na produção e que o Governo definiu no próprio Orçamento de Estado: fazer cair o PIB, encerrar fábricas e empresas e criar ainda mais desemprego (cito o Relatório do Orçamento de Estado 2013).  Isto faz-se desempregando pessoas, aumentando a jornada de trabalho para que um faça o trabalho de dois, intensificando tarefas (dando cada vez mais trabalho à mesma pessoa), aumentando impostos para fazer falir pequenas empresas (restaurantes, cabeleireiros, cafés, lojas), regulando a existência de estágios para exercer profissões (não obrigando à sua remuneração, por exemplo). A consequência disto é a médio prazo quebras na produtividade, os que trabalham estão exaustos e o número de esgotamentos duplicou e aumentou o número de acidentes de trabalho.

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A acrobata gorda

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A política portuguesa está transformada numa espécie de show de uma acrobata gorda no circo.

O governo vai fazendo desajeitadas acrobacias com a indefinição da saída do programa da troika. Quanto mais tarde disser o que pensa fazer, melhor. Menos se põe a jeito.

O mesmo acontece com os cortes provisórios/definitivos das pensões. Manda um desgraçado dum secretário de estado desconhecido lançar o balão ao ar, para ensaiar a coisa, e depois toda a gente tira o cavalinho da chuva, da ministra ao primeiro.

A oposição socialista vai fazendo um pouco o mesmo. Contorcionismo. De modo a não se comprometer no caminho demasiado estreito que tem de percorrer, entre a sensibilidade social e os acordos assinados.

Durão Barroso veio fazer prova de vida entre os tugas com a entrevista ao Expresso, onde dá a entender que estará disponível na altura própria para a corrida a Belém, negando que esteja a pensar nisso agora. Como não lhe interessa pôr-se a jeito para já, diz que não, mas dá a entender que sim.

Entretanto, a maioria tenta desesperadamente desacreditar o documento dos 70, como se fosse terrível heresia, fazendo crer que diz o que não diz (travestindo “reestruturação” em “perdão”) e tentando explorar a natural heterogeneidade política dos subscritores, que está, de resto, na base da força do documento.

Paulo Rangel ainda não passou uma semana, desde que foi nomeado cabeça de lista às europeias, pela coligação de direita, sem fazer da tónica do seu discurso o maldizer do adversário directo. Apresentar ideias próprias é que não. A ideia – retorcida, é certo – é que eles não prestam (o PS), por isso resta-vos a vós, pobres eleitores, votar em nós.

Nuno Melo tenta lançar mais uma vez o labéu do BPN sobre o antigo governador do Banco de Portugal, para desviar as atenções da tralha cavaquista que está enterrada nele até ao pescoço. Puro contorcionismo. Mas desta vez deu-se mal, face ao documento de cinco respeitados ex-responsáveis do banco central que vieram recolocar a questão nos seus exactos termos.

Eu disse que isto era o show de uma contorcionista gorda. Pois. É uma contradição nos termos. Tal e qual como o discurso e os actos destes senhores. É que por muito que se tentem dobrar e contorcer ninguém os leva a sério.

Além da falta de beleza estética dos movimentos.

TC alemão: as reformas são intocáveis

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Os juízes da segunda secção do Tribunal Constitucional alemão.

 

O Tribunal Constitucional alemão considera que as reformas são um direito dos trabalhadores idêntico à detenção de uma propriedade privada, cujo valor não pode ser alterado. O Tribunal Europeu dos Direitos do Homem segue a mesma linha.

O Tribunal Constitucional alemão equiparou as pensões à propriedade, pelos que os governos não podem alterá-las retroactivamente. A Constituição alemã, aprovada em 1949, não tem qualquer referência aos direitos sociais, pelo que os juízes acabaram por integrá-los na figura jurídica do direito à propriedade. A tese alemã considera que o direito à pensão e ao seu montante são idênticos a uma propriedade privada que foi construída ao longo dos anos pela entrega ao Estado de valores que depois têm direito a receber quando se reformam. Como tal, não se trata de um subsídio nem de uma benesse, e se o Estado quiser reduzir ou eliminar este direito está a restringir o direito à propriedade. Este entendimento acabou por ser acolhido pelo Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.

Seguindo esta filosofia, taxar de forma continuada uma pensão, de forma a reduzi-la, de facto, para além de ser uma habilidade própria da chico-espertice lusitana, configura uma imoral e desumana violação dos direitos humanos.

Tal e qual como em Portugal, não é?…

Congresso: importa replicar boas práticas e responder criativamente aos novos desafios

 

Realizou-se ontem o congresso internacional “Novas Perspectivas em Gerontologia”, promovido pela RUTIS e pelo ISLA, no CNEMA, Santarém, onde moderei o painel “Desafios Intergeracionais”.

O referido painel incluiu as participações de Fernando Alvim (radialista da Antena 1), que dissertou sobre o amor nos seniores, Sara Fonseca (da Associação Nacional de Gerontologia Social), que abordou o papel crescente dos avós e dos netos, e Artur Rego (deputado do CDS na AR), que elencou temáticas prementes sobre a terceira idade.

O congresso apresentou exemplos de excelência e boas práticas na intervenção gerontológica e reflectiu sobre o sentido do cuidar e os novos desafios intergeracionais.

Palavras perdidas (1325)

“O menino Mexia faz o que quer e sobra-lhe tempo”, criticou o antigo governador do Banco de Portugal, apontando que se não fossem dadas tantas facilidades à empresa de energia, “que tem rendas excessivas”, “já não iam (cortar) às pensões de sobrevivência das viúvas”.

(Jacinto Nunes, J. Negócios)

Palavras perdidas (1324)

“Estamos a poucos meses do nosso glorioso 1640, ainda sem saber quem é que vai pela janela fora e quem é proclamado rei. Há demasiada política de faz de conta e muito pouca política a sério. E não se pode discutir nada. Ou melhor, pode-se discutir se for num colóquio académico, num obscuro fórum de empresários, desde que não haja qualquer consequência política, desde que o que se discuta não dê origem a propostas políticas e muito menos se essas propostas são “alternativas”, a coisa mais temida dos nossos dias pelo poder. Claro que este diktat de silêncio só funciona para o comum dos mortais, porque nos gabinetes ministeriais, nas salas da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu, no FMI em Washington, nas consultoras financeiras, nos bancos, nos meios económicos e financeiros próximos do poder político, tudo está a ser discutido e decidido. Mas decidido pelos que podem e não pelos que devem, porque, sem informação e sem escrutínio, nada assusta mais do que a “irresponsabilidade” de querer saber o que se passa, discutir o que se passa e, extremo absoluto de irresponsabilidade, levar a votos o que se vai passar. “

(José Pacheco Pereira, Sábado)

A chicoespertice de Rodrigues dos Santos

José Sócrates entrevistado por Rodrigues dos Santos

José Rodrigues dos Santos presenteou ontem à noite os espectadores da RTP com uma mistificação grave. Era suposto que o jornalista estivesse ali na condição de parceiro de um comentador político, que é o papel que José Sócrates desempenha (bem ou mal) naquele espaço televisivo. Mas JRS optou por uma originalidade manhosa. Tentou vender gato por lebre e portou-se como alguém que entrevista um ex-primeiro-ministro. Sócrates não gostou (e com razão), todavia esteve sempre à altura das provocações de JRS, que ainda por cima utilizou ainda aquela táctica irritante de colocar uma questão e depois não deixar responder à mesma, atalhando logo de seguida com outras pelo meio, a fim de tentar desorientar o “entrevistado”, destruindo-lhe o fio do raciocínio, o que não conseguiu.

Um jornalista com a visibilidade de JRS, que ganha balúrdios na estação pública, devia revelar um pouco mais de responsabilidade e deixar-se de chicoespertices. Se queria entrevistar o antigo governante só tinha que propor a iniciativa à Direcção de Informação e não perverter abusivamente um espaço de comentário político.

Este populismo do “tiro ao Sócrates” deve ter agradado aos que vêem a vida política a preto e branco. Se é que não foi pior. Possivelmente para agradar ao governo.

Mas para quem já não espera nada de relevante do pivot que nos pisca o olho todos os dias, nem sequer decepcionou.

Palavras perdidas (1323)

“A maioria dos portugueses não deve nada ao Estado, suporta todas as funções sociais, é responsável pelo pagamento de 75% de todos os impostos e é, por isso, legítima credora do Estado: o Estado deve-lhes os salários, as reformas, a educação de qualidade, saúde digna, cultura e lazer. “

(Raquel Varela, Rubra)

Palavras perdidas (1321)

“O que perturbou Passos Coelho foi a capacidade de gente dos mais diversos quadrantes políticos, das mais diversas origens profissionais, de representantes dos trabalhadores, dos patrões, conseguirem construir pontes para que se possam encontrar soluções fundamentais para o destino da comunidade. E ele prefere barricadas. Não foi sempre o primeiro-ministro a dizer que só aceita dialogar com quem não negue a realidade, a sua realidade?

O que ficou transparente é que Passos Coelho nunca esteve interessado em qualquer tipo de consenso: queria apenas que mais pessoas acreditassem na verdade dele. Foi o cair da máscara.

O que ficou também à vista de todos é que há uma alternativa quando o discurso oficial é que o único pensamento é o do Governo e o da troika. Que depois deste tempo todo à frente do Governo, é claro que nunca foi capaz de juntar pessoas para um propósito comum e cavou, sim, profundas trincheiras. Foi a exibição clara de que é possível construir compromissos na sociedade portuguesa sobre assuntos vitais para o nosso futuro comum, e que ele e o seu governo estão completamente isolados.

Não há nada que amedronte mais um fundamentalista do que o consenso.”

(Pedro Marques Lopes, DN)

Um conceito muito particular de… consenso

A nuvem de palavras do manifesto dos 70

 

Um grupo de setenta personalidades da vida pública portuguesa, desde académicos a economistas, de antigos governantes a constitucionalistas, lançou um manifesto a propor a reestruturação da dívida, por manifesta incapacidade de o país a pagar, mesmo sob pena de aprofundar a actual rota de empobrecimento persistente da sua população e a destruição, que está em curso, dos serviços do Estado.

A avaliar pela reacção nervosa, indignada e retaliadora do presidente da república e do primeiro-ministro ficamos agora a saber o que eles entendem por consenso, esse termo a que se têm referido obsessivamente nos últimos tempos. Consenso, para eles, é obrigar os que não pensam como eles a pensar e a assinar de cruz as opções que têm na cabeça.

Já disse aqui que a síndrome cavaquista do “bom aluno europeu” está viva e de saúde. Continuamos a vergar a espinha aos alemães e outros que, em vez de solidariedade, interesse comum e coesão europeia, apenas pensam nos ganhos pessoais que vão tendo com esta situação.

 

Dívida pública: aqui não há inocentes

No prefácio dos seus Roteiros, o senhor que ocupa o cargo de presidente da república portuguesa insistiu na importância de um programa cautelar, a partir de Maio, e na necessidade imperiosa de um consenso entre a actual maioria e o PS.  Se assim não for, Cavaco teme que os mercados nos venham a castigar e preconiza que Portugal venha a persistir “sob protectorado”, como diria o irrevogável Paulo Portas, por mais uns bons vinte anos.

Entretanto, 70 figuras nacionais, desde a área do CDS/PP ao Bloco de Esquerda, passando pelo PSD, PS e independentes, subscreveram um documento sobre a indispensabilidade da reestruturação da dívida do país.  Entre eles estão antigos ministros das finanças, da economia e vice-primeiros-ministros. Sabem do que falam. Sugerem que, assim como está, a dívida é impagável, além de arrastar o país na pobreza e regressão. A proposta de reestruturação da dívida pública prende-se, no entender dos autores, com a intenção de pagar integralmente a mesma, mas através da única via possível, sustentável e justa, o crescimento económico.

Lamento dizer, mas ambos têm razão, da mesma forma como uns dizem que o copo está meio cheio e outros meio vazio.

Cavaco realça os riscos de uma saída à irlandesa (como parece que o governo se prepara para fazer), ou seja, à herói, pois tal vai traduzir-se inevitavelmente em maiores e prolongados sacrifícios sobre a população, em especial os mais desfavorecidos, como é costume. Recorde-se que, só em 2003, dois milhões (!) de contribuintes portugueses foram penhorados no seu salário ou bens, por via da crise e desta política de austeridade iníqua, que deixa escapar os Jardins Gonçalves, os BPNs e BPPs, mas castiga os pequenos, os reformados e pensionistas sem dó nem piedade…

Acresce que o governo tem vindo a “reestruturar” a dívida às escondidas, com as últimas operações financeiras, de modo a empurrar para diante no tempo as obrigações, de modo a serem os próximos executivos a lidar com o problema.

Em suma, provavelmente seria bom que ambas as partes se sentassem à mesa para discutir o problema. Nem presidente, nem governo, nem oposição têm o direito de falar de cátedra, até porque todos eles meteram o país neste buraco. Aqui não há inocentes. A começar pelo senhor que ocupa o gabinete de Belém, que gosta muito de falar como se pairasse acima da classe política, mas que é o político português com mais tempo em funções desde o 25 de Abril. Logo, nem pode falar como se não fizesse parte do filme, nem tem moral para ser figura tutelar, coisa que, talvez não saiba, mas em democracia não existe.

Tenham juízo e pensem mais na população do que nos vossos interesses pessoais e de grupo.

Actualização: dois consultores de Cavaco Silva assinam o documento.

Estas eleições são europeias, Paulo Rangel!

 

Desde que foi apresentado, no congresso do PSD,  como cabeça de lista às europeias, Paulo Rangel limitou-se a fazer uma única coisa até hoje. Não falar da Europa, não falar da relação de Portugal com a Europa, mas apenas e exclusivamente atacar Seguro e o PS. Aliás, Rangel assumiu mesmo a posição de testa de ferro no combate político ao secretário-geral socialista, o que diminui politicamente o líder do governo. Compreende-se, uma vez que são públicas as suas ambições políticas.  Mas, goste-se ou não, a verdade é que nem Seguro nem o PS vão ser avaliados nas urnas, mas sim o governo, Passos Coelho, Paulo Portas e esta maioria. Se calhar era bom falar um bocadinho das propostas políticas próprias.  Digo eu.  E Assis a mesma coisa.  Já agora.

Palavras perdidas (1319)

“Como é que designaríamos o comportamento de um cidadão que, incapaz de honrar um crédito pessoal a uma taxa de 3,35%, prestes a atingir a maturidade, contraísse um novo empréstimo a uma taxa de 5,11% para pagar o primeiro (“troca de dívida”)? Sem dúvida, tratar-se-ia de um comportamento pouco recomendável. E como seria classificado esse comportamento se o cidadão em causa utilizasse parte do novo empréstimo (de 11-02-2014) para antecipar, parcialmente, o pagamento em 19,5 meses do primeiro empréstimo, pagando 102,89 euros por cada 100 euros de dívida (“recompra”)? Seria, certamente, uma atitude temerária, pois aumenta a despesa com juros para apenas empurrar a dívida para o futuro. Pois é isso que o Governo pretende fazer hoje.”

(Viriato Soromenho Marques, DN)

O segundo fôlego do relvismo

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Reacção de Assunção Esteves quando Passos Coelho lhe segredou que  tencionava apresentar Miguel Relvas à frente do Conselho Nacional do PSD

 

 

E ao terceiro dia Miguel Relvas ressuscitou do seu túmulo político, num congresso do PSD, pela mão do amigo Passos Coelho (PC), que lhe deve a presidência do partido e, de certa forma, a posição de primeiro-ministro.

Estava escrito nas estrelas que PC queria espevitar um congresso à partida sem qualquer motivo de interesse, apesar da excessiva cobertura mediática que a comunicação social sempre dá a estas coisas, em particular as televisões. Havia que quebrar a monotonia, a mesmice, o enfado de um evento vazio. E como sempre, quando um evento é vazio de conteúdo valoriza-se sempre mais a respectiva liturgia.

O choque calculado, o efeito surpresa desejado por PC havia que abanar o congresso, que o elogiaria pelo golpe de asa, pela ousadia, pela determinação, pelo gosto do risco. Seria uma espécie de Sá Carneiro em versão século vinte e um.

Pois, mas afinal parece que não contava com uma votação miserável para a lista do conselho nacional, em que PC colocou Relvas à cabeça. Os congressistas não entenderam a ideia de PC e penalizaram-no pela tontaria. Logo agora que a maioria se podia agarrar a alguns sinais ténues de recuperação económica, o regresso de Relvas caiu como a entrada súbita de um elefante numa loja de porcelanas.

Relvas saiu do governo e da cena política ainda há poucos meses e pela porta baixa. Foi forçado a sair devido ao relatório da Inspecção Geral de Educação e Ciência, a propósito das equivalências da sua pseudolicenciatura. Além disso Relvas representa o que há de pior na política portuguesa. Desde as manobras de bastidores ao chicoespertismo, desde o carreirismo à falta de transparência. Modelo que não lhe é exclusivo, e que transvasa abundantemente os limites do seu partido.

E depois não se compreende esta obsessão quase erótica entre Relvas e Coelho. Como escreveu João Miguel Tavares, “O casal Relvas-Coelho não casa, nunca casou e, no entanto, insiste em permanecer casado. O mistério adensa-se. E se os mistérios são óptimos em policiais, são péssimos em democracia”.

Às vezes tenho vergonha

 

Fernando Tordo interpreta “Estrela da Tarde” no concerto comemorativo dos 43 anos de carreira do cantor, em 2008, e transmitido pela RTP1 a 3 de Janeiro de 2011. Um concerto memorável dirigido pelo meu amigo maestro Pedro Duarte.

Sim, em certos dias tenho vergonha do meu país. Vergonha do seu funcionamento, dos vendidos que o dirigem e estão a destruir aos poucos.

Vem isto a propósito da saída de mais um emigrante português, o cantor e compositor Fernando Tordo.

Posso compreender aqueles que acham estar-se a dar uma exagerada ênfase mediática a este caso, só por ser uma figura pública. Claro que tenho ainda mais pena dos anónimos que se vão sujeitar a qualquer coisa, sabe-se lá aonde.

Muitos amigos meus, de todas as idades, foram forçados a emigrar para África, Brasil, Europa e países árabes. Apesar de tudo Fernando Tordo tinha um posto de trabalho interessante à espera, mas a maioria nem isso.

Todavia há uma diferença entre um ilustre desconhecido e uma personalidade da cultura como o cantor e compositor. É que uma parte do país parte com ele. Uma personalidade destas representa uma parte da nossa cultura e imaginário colectivo.

São dele e do Ary algumas das mais belas canções da segunda metade do século vinte. É deles também a “Tourada”, com que tourearam o antigo regime, já podre, à beira de cair. Talvez por isso se leiam umas quantas enormidades nas redes sociais, a propósito desta situação.

Ou talvez apenas devido à velha inveja social que continua a corroer a alma portuguesa.

O filho escreve ao pai

 

O escritor João Tordo publicou no seu blogue uma carta ao pai, o músico Fernando Tordo, que aos 65 anos emigrou para o Brasil. É um testemunho comovente que aqui reproduzimos na íntegra.

Ontem, o meu pai foi-se embora. Não vem e já volta; emigrou para o Recife e deixou este país, onde nasceu e onde viveu durante 65 anos.

A sua reforma seria, por cá, de duzentos e poucos euros, mais uma pequena reforma da Sociedade Portuguesa de Autores que tem servido, durante os últimos anos, para pagar o carro onde se deslocava por Lisboa e para os concertos que foi dando pelo país. Nesses concertos teve salas cheias, meio-cheias e, por vezes, quase vazias; fê-lo sempre (era o seu trabalho) com um sorriso nos lábios e boa disposição, ganhando à bilheteira.

Ontem, quando me deitei, senti-me triste. E, ao mesmo tempo, senti-me feliz. Triste, porque o mais normal é que os filhos emigrem e não os pais (mas talvez Portugal tenha sido capaz, nos últimos anos, de conseguir baralhar essa tendência). Feliz, porque admiro-lhe a coragem de começar outra vez num país que quase desconhece (e onde quase o desconhecem), partindo animado pelas coisas novas que irá encontrar.

 

Ler o artigo completo aqui.

 

Palavras perdidas (1318)

“Os partidos têm tendência a tornar-se em prisões para os seus próprios militantes, recompensando a fidelidade com os tachos que podem. Estão muito longe de ser aquilo que se idealizava – clubes de debate, espaços de liberdade entre pessoas com visões semelhantes do mundo. A intolerância cataloga cada pessoa, cada cidadão, não pelo seu mérito, não depois de analisar e ponderar aquilo que cada um pensa, mas de um modo totalmente utilitário e totalitário: o que ele diz, o que ele faz é-nos benéfico ou prejudicial? E neste nós não está contido o país, mas apenas a pequena seita, o pequeno núcleo, o ínfimo eleitorado dos yes-men que aplaudem, ululantes, a repressão aos que ousam o delito de opinião, como dantes um pobre crente aplaudia os autos-de-fé da Inquisição.

Diz-se que quando o precursor da reforma Jan Huss, acusado de heresia pelo Concílio de Constança, foi queimado em Praga, em 1415, uma velhinha percorreu uma distância considerável para colocar, ela própria, mais galhos secos na fogueira que teimava em não arder. Foi quando Huss exclamou ‘O sancta simplicitas’ (ó santa ignorância”). Já estão a ver quem, nos nossos partidos, são hoje herdeiros daquela velhinha.”

(Henrique Monteiro, Expresso)

A cenoura e os burros

 

O governo continua a tratar os Portugueses como animais. Lembram-se da estória do burro e da cenoura? Pois é. O sorteio de um carro pelos números das facturas é o episódio mais recente desta fábula. Os parvos vão a correr pedir factura apenas pela muitíssimo remota probabilidade de lhes sair um carro.

Como se sabe que somos dos europeus que mais gastam em jogos sociais – indicador de uma sociedade subdesenvolvida – alguém no governo teve a brilhante ideia de acenar com uma cenoura à manada dos burros, a ver se o pessoal pede mais facturas e entra mais imposto nos cofres.

E depois não se trata de uma cenoura qualquer. São cenouras gigantes. Não são quaisquer carros. São viaturas de luxo. que é para luzir bem o olho aos animais.

Se este tipo de expedientes e chicoespertice não fosse risível era de lamentar.  E o pior é que até é capaz de resultar…

Mirógal

Na Christie's, a sala vazia.

 

A estória dos quadros de Miró a leiloar pela Christie’s tem muitas pontas soltas.

Antes de mais devo dizer que, por mim, despachava-se a colecção em grande velocidade, porque não aprecio este tipo de arte. Mas eu não sou especialista e quem o é diz que sim, que tem valor.

Mas há coisas que não se compreendem.

Porque razão o tribunal indeferiu a ação, sustentando tratar-se de uma decisão empresarial, embora tenha apontado um procedimento de Barreto Xavier “manifestamente ilegal” e a expedição do acervo “ilícita”?

Porque razão a Christie’s anunciou a retirada de leilão das 85 obras de Joan Miró, por “incertezas legais”?

Porque razão os 85 quadros de Miró foram para Londres via mala diplomática, ou seja o seu transporte foi efetuado como se se tratasse de propriedade do Estado, quando o acórdão da juíza afirma tratar-se de uma acção empresarial, alheia ao Estado?

Porque razão a Direcção-Geral do Património não passou quaisquer guias de transporte para que a coleção que pertenceu ao BPN saísse do país, facto que seria indispensável caso se tratasse de propriedade privada.

Porque razão a Parvalorem pediu autorização para saída dos quadros de Miró de Portugal 20 dias antes da data agendada para o leilão da Christie’s, desrespeitando a Lei de Bases do Património Cultural, que exige um pedido com 30 dias de antecedência?

Palavras perdidas (1317)

O relatório do Banco de Portugal (BdP) não deixa dúvidas: no combate ao despesismo e ao excesso de dívida iniciado em 2010, há quatro anos, apenas as famílias – repete-se, para ficar bem gravado – apenas as famílias apertaram verdadeiramente o cinto. O Estado aumentou a dívida; as empresas idem. Os particulares cortaram 19,4 mil milhões de euros, dos quais 11,7 mil milhões em crédito ao consumo e outros fins que não habitação (segundo afirma João Silvestre na edição semanal do Expresso).

(Henrique Monteiro, Expresso)

Exaustão e apatia

 

 

Os Portugueses estão exaustos, cansados da crise. Mas os Portugueses ainda estão mais cansados desta banditagem a quem chamamos “governantes”. Trata-se de uma figura de retórica óbvia. Governar, governar, governam-se a eles mesmos.

Claro que isto cheira a populismo, não é? Pois. Mas é a mais pura das verdades, num país de corrupção envergonhada, escondida e dissimulada, como é o caso. Ou seja, a pior das corrupções.

Um país cujo programa de governo tem sido arrefecer a economia, empobrecer a população, destruir a classe média, iludir a verdadeira reforma do Estado, empurrar jovens e mais velhos para a emigração e os idosos para níveis críticos de subsistência, liquidar o investimento em Ciência, acabar com a escola e a saúde públicas, vender os anéis a eito, curvar a espinha à grande Alemanha e providenciar prebendas e lugares principescamente pagos aos governantes que saem do executivo, com empresas com as quais contrataram enquanto servidores do Estado, numa promiscuidade absurda.

Um país em que um ministro de demite de forma irrevogável, para depois voltar com mais poderes, que critica os seus adversários políticos chamando-lhes “gastadores” (porventura com alguma razão), mas esquecendo-se que ainda há uns anos tutelou um negócio de compra de submarinos envolto num denso fumo negro de corrupção.

Um país em que cada primeiro-ministro que vem tenta ser ainda mais mentiroso do que o anterior, sem qualquer pudor nem problemas de consciência.

Os Portugueses estão exaustos.

Mas o grande problema é que começam também a ficar apáticos. Em vez de apontar baterias para mostrar um cartão vermelho de vez, vão na conversa da opinião publicada, de que a Oposição não está à altura, blá, blá, blá…

É urgente correr com esta gentinha. Já chega. Se na altura própria o cartão vermelho não for mostrado, então poder-se-á dizer que o país tem o governo que merece.

Tomem e embrulhem.

 

1 de Fevereiro de 1908: quando os regimes apodrecem

 

O texto do vídeo é claramente laudatório para com a figura do rei D. Carlos, o qual, por estranho que pareça, a não ter sido rei, seria hoje reconhecido como um português relevante na nossa história das Ciências e das Artes. Mas é sobretudo um texto laudatório para com o regime monárquico, que não caiu (apenas) pelo regicídio. Caiu porque estava podre. Tal como caiu a I República, e depois o Estado Novo. Tal como o actual regime está podre e só não sabemos como nem quando cairá.