O jogo rasteiro

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Há coisas que ainda nos conseguem surpreender, apesar de tudo, no jogo político.

A concelhia do PSD de Setúbal veio exigir a demolição de uma superfície comercial em Azeitão (LIDL), baseado numa decisão do Tribunal Central Administrativo do Sul, alertando que a autarquia, se não cumprisse tal decisão estaria à margem da lei.

Acresce que os sociais-democratas nesta sua iniciativa política deixavam subentender claramente uma certa satisfação com tal desfecho, dados os potenciais embaraços daí decorrentes para o executivo da câmara setubalense.

Mas afinal do que se trata o caso LIDL de Azeitão? Ao que parece apenas de uma mera formalidade administrativa que falhou, tendo inviabilizado em primeira mão a legalização da construção, mas cujo processo já foi retomado, desta vez cumprindo todas as formalidades exigidas.

Estaria prevista anteriormente, além dos lotes para construção, um estacionamento de carros e camiões, que depois terá sido substituído por uma licença para construção de superfície comercial, a qual, a atentar nos testemunhos dos moradores na área, faz muita falta e pratica preços acessíveis.

O executivo da junta de freguesia, por sua vez, considera que o supermercado serve efectivamente as populações e está contra a sua supressão, além do facto de esta já ter efectuado melhoramentos nos espaços exteriores da área onde está implantada.

Mas alguém consegue ver mais vantagens em ter ali um estacionamento de camiões em vez dum supermercado, sendo que o primeiro seria do interesse exclusivo de uma empresa privada, e o segundo do interesse público, uma vez que serve toda a população?

Este caso concreto exemplifica o divórcio actualmente existente entre o interesse das populações e os dos partidos políticos em geral, que sacrificam as aspirações daqueles que pretendem servir, em nome de estratégias políticas próprias, que apenas procuram ganhos a curto prazo. Estou certo de que o PSD não ganhou um único voto com esta atitude, e terá perdido provavelmente mais uns quantos.

Esta forma de fazer política será cada vez mais condenada pelos eleitores. Os partidos que, em vez de serem capazes de interpretar os sentimentos, as aspirações e as necessidades dos que pretendem representar, se limitarem a manobras de baixa política serão cada vez mais penalizados nas urnas, tanto pelo voto de protesto como pela abstenção. Mas importa referir que o PSD não é o único. Todos eles caem no mesmo vício, duma forma ou doutra.

Mas a democracia representativa não é isto.

 

 Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 17/10/14.

 

 

 

 

 

Era uma vez um forte que dava para o mar

naom_53f31f103674fFoto: Michal e Hania Mackowiak.

 

Era uma vez um forte que dava para o mar

como que a querer escapar do continente

mas não muito. Sempre restava uma ténue e sinuosa

ligação a Finisterra

que exigia perícia e vontade

e uns postigos minúsculos que recusavam a ideia

de alguém o querer transformar

em jangada de pedra. Tão longe e tão perto

como amantes apaixonados

sem saber o que fazer

com aquela loucura breve

saída do lápis dos deuses.

 

 

© José Brissos-Lino

10/10/14

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6); “Ovelhas perdidas foram o meu povo, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

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