Texto 22: O VOTO EVANGÉLICO
Brissos Lino
Setembro de 2009
“Uma das mais bizarras misturas de religião e governo é a fortíssima influência que alguns fundamentalistas cristãos têm na formulação da política dos Estados Unidos para o Médio Oriente.”
(Jimmy Carter, Os Valores em Perigo – a crise moral americana, Quidnovi, 2006)
Lamento se desiludo, mas para mim não há essa coisa de “voto evangélico”, nem “voto cristão”. Há voto individual e em consciência, ponto final.
Bem sei que temos exemplos (a meu ver negativos) como o dos Estados Unidos, onde os neocons (neoconservadores) se colaram à direita religiosa americana, na sequência do reaganismo, tendo assim ganho força política para produzir o ambiente que abriu caminho ao controverso consulado de George W. Bush, de triste memória.
Também sei que o Brasil nos revela em cada esquina os piores exemplos da mistura entre Igreja e política. Desde os pastores-candidatos que fazem campanha política entre os fiéis, ao atropelo de todos os princípios de ética pastoral, passando pelos pastores-senadores, pastores-vereadores, pastores-deputados, que desenvolvem a sua actividade política no meio de grande promiscuidade, sem que tenham o discernimento de optar entre o exercício do ministério espiritual ou de uma carreira política, até aos tristemente famosos “currais eleitorais”, que passam pela invasão da mais baixa política dentro das estruturas denominacionais e pela manipulação eleitoral dos fiéis. Uma náusea.
Mas também devo dizer que não acredito em partidos cristãos ou de matriz cristã por um conjunto de razões.
Desde logo porque Jesus Cristo nunca nos enviou a criar organizações políticas de conquista do poder, que é a natureza das formações partidárias. Com efeito, o que nos exortou a fazer foi dar seguimento ao seu ministério público, e proclamação do reino às nações.
Depois porque o poder democrático não se conquista senão através da demagogia e manipulação, em prejuízo do “sim, sim e não, não”, a verdade e transparência que são a marca cristã. Não esqueçamos que o nosso guia é o “espírito de verdade”. Como é evidente, o modelo do homem político de sucesso é aquele que não diz o que pensa, mas diz o que as pessoas gostariam de ouvir.
E finalmente porque os cristãos não são uma massa amorfa homogénea, mas uma faixa da sociedade, com interesses profissionais, pessoais, culturais, sociais e políticos muito heterogéneos. Daí ser impossível estabelecer uma plataforma comum, por exemplo, em matéria de política económica, que agrade a todos.
A tentação de criar ou apoiar uma formação partidária cujas bases programáticas se estribem em meia dúzia de princípios inspirados na chamada moral cristã, nunca pode dar bom resultado. Não só porque um partido que se pretenda apresentar aos eleitores tem que ter uma ideia para o país, e isso implica políticas para todas as áreas da governação, mas também porque acabam por conotar os cristãos com um conjunto de propostas específicas, com desprezo ou menos atenção a outras igualmente importantes, e acantoná-los num autêntico getto social, aos olhos da população, retirando-lhes credibilidade.
A vida é uma complexidade muito vasta, não é só uma agenda moral, ainda por cima com ênfase na vertente da sexualidade, e está muito para além de temas como o aborto, a eutanásia, ou o casamento de homossexuais. A forma como lidamos com os pobres, por exemplo, é tão ou mais importante do que tudo isso, a crer na atenção que a Bíblia lhes reserva.
Além do mais, do ponto de vista estritamente cristão, trata-se de uma estratégia errada. Os cristãos devem estar presentes nos diversos sectores da sociedade. Também na vida política, mas em diversos partidos, que representem diferentes sectores da população. E aí sim, serem luz, darem-se a conhecer e levarem a sua influência.
Em quem iremos votar, então? A meu ver a resposta é muito simples. Votaremos naquele partido que apresente as melhores ideias e equipas para o país, sabendo nós que não há nenhum perfeito ou que nos encha completamente as medidas. O acto de votar é uma escolha, uma opção entre diversas respostas, todas elas inacabadas.
Por outro lado, é importante ter presente que nas eleições legislativas não estamos a votar representantes dos evangélicos, mas do povo em geral. A Assembleia da República é constituída por deputados nacionais. Não estamos a falar de uma espécie de câmara corporativa, com representantes de interesses sectoriais.
Por último, se até aqui não conseguimos que as nossas organizações nacionais nos confiram a relevância que julgamos merecer, não pensemos que tal desiderato se alcançará através de um partido político feito à pressa. Mais a mais quando, afinal, acabamos a fazer fretes a outros, mais influentes e espertos, que assim se utilizam de nós para os seus próprios fins…
Texto 21: EQUÍVOCOS INDENOMINACIONAIS
Brissos Lino
Setembro de 2009
Vivi grande parte da minha vida numa denominação evangélica em Portugal, desde a mais tenra infância. Primeiro como crente comum, depois como membro activo da igreja, que sempre fui, e finalmente como ministro do Evangelho, durante vários anos, tendo desempenhado cargos de elevada responsabilidade nas suas estruturas. Conheço, portanto, os aspectos mais constrangedores e controversos do denominacionalismo evangélico português.
Acresce que a minha experiência em lidar com outras denominações, no âmbito de responsabilidades que fui assumindo no meio cristão, ao longo dos anos, permite-me ter hoje uma perspectiva geral das coisas.
Mas a maior parte do meu ministério pastoral, de quase um quarto de século, tem sido passada numa igreja independente, mas de origem denominacional. A presente reflexão evidencia sobretudo alguns equívocos, erros ou fraquezas, consoante o ponto de vista, do percurso histórico das chamadas igrejas ou ministérios independentes, e vem na sequência de outro texto que escrevi, recentemente, sobre aquilo a que chamei os “Equívocos Denominacionais”. Deste modo, completa-se assim uma espécie de perspectiva geral nesta matéria. Eis alguns deles:
1. Falta de coerência e estrutura doutrinárias. A tarefa de construção teológica requer um elemento essencial que não se fabrica nem compra ou vende. Chama-se tempo. É necessário tempo para reflexão, estudo, comparação, questionamento, interiorização.
Não é por acaso que a Igreja Primitiva tinha menos de meia dúzia de pilares doutrinários, a saber, a identidade messiânica de Cristo, a sua ressurreição corporal, e a convicção da sua segunda vinda. Tudo o resto estava em aberto. Entre os séculos IV e VIII discutiu-se o mistério da identidade de Cristo, isto é, a doutrina de que ele era perfeitamente Deus e perfeitamente Homem, conciliando assim ambas as naturezas. Foram necessários cerca de quatro séculos para estabelecer uma das bases mais importantes da fé cristã.
Grande parte das igrejas independentes é muito recente e, caso não tenham saído de uma denominação histórica, e portanto recebido de herança todo um património teológico que preservem, estão como um barco sem leme no mar alto, num mundo de crescente confusão religiosa.
2. Primado da mediocridade. Um ministério isolado cai facilmente na mediocridade. Um bom exemplo é a designação de alguns ministérios independentes, que chega a ser ridícula ou vulgar. Há nomes de igrejas de bradar aos céus. Deixo apenas um, como amostra: Associação Evangélica Fiel Até Debaixo D’água (Brasil)…
Se a rigidez não é criativa, nem inovadora nem adaptativa, a liberdade irresponsável, preguiçosa e pouco lúcida também não é melhor.
3. Mimetismo. Uma boa parte dos pastores de igrejas independentes não dispõe de estrutura própria, pessoal e ministerial, para desenvolver um trabalho espiritual sem o apoio do contexto de uma denominação. Falta-lhes sentido crítico, exigência e auto-disciplina, capacidade de renovação permanente, competências em matéria de sensibilidade espiritual e de estabelecimento de um corpo próprio de doutrina.
Como resultado disso gastam a vida a imitar o que outros ministérios fazem, e a importar modelos estrangeiros, correndo o risco evidente de passar ao lado dos desígnios de Deus para aquela comunidade específica, naquele tempo concreto.
Embora Deus se mova hoje essencialmente através de relacionamentos e não tanto das estruturas denominacionais, a verdade é que uma liderança a la carte não augura um futuro risonho.
4. Isolamento. É verdade que há muito líderes efectivamente isolados ou com a sensação de isolamento nas denominações, mas a verdade é que quando se está mesmo sozinho, do ponto de vista organizacional, os perigos decorrentes do isolamento são muitíssimo maiores.
5. Auto-deslumbramento. O perigo de acharmos que somos os maiores, por falta de termo de comparação, é uma perigosa realidade, da qual a História nos fornece abundantes e tristes exemplos.
6. Falta de prestação de contas. No reino de Deus todos devem prestar contas a alguém, e quando isso não sucede está aberta a porta para toda a sorte de abusos. Quando os ministérios independentes não estão devidamente estruturados, ou seja, quando não estão organizados de forma a salvaguardar este princípio sagrado, tudo pode acontecer.
No reino de Deus não pode haver homens ou mulheres que apenas prestam contas a si próprios, pois tal prática, além de não ser bíblica nem saudável, é altamente perigosa, por razões óbvias.
7. Empobrecimento “genético”. A falta de interacção e partilha com a diversidade do Corpo de Cristo empobrece o pedigree da igreja local. (Note-se que este pode ser igualmente um perigo de algumas igrejas enquadradas nas denominações.)
8. Perda do princípio dos vasos comunicantes. Quando um ministério permanece isolado, não sofre apenas o empobrecimento que resulta da ausência de comunhão, corre também o risco de passar ao lado da forma como Deus se está a mover no mundo, e de uma revelação renovada.
9. Falta de massa crítica. A reduzida dimensão de uma realidade eclesial determina a falta de massa crítica, isto é, do surgimento de diferentes propostas, métodos e perspectivas sobre um mesmo problema ou tarefa, já que, como disse Salomão, na multidão dos conselheiros há segurança (Provérbios 11:14) e vitória (24:6).
10. Falta de pastorais específicas. Num ministério independente, as respostas às diversas necessidades das diferentes faixas etárias pode ficar comprometida, em meios mais pequenos e com menos recursos, humanos e outros.
11. Dificuldade acrescida na formação de lideranças. Não havendo escolas de formação teológica independentes a que recorrer, a tendência é não investir na formação. A factura paga-se a prazo.
12. Monarquismo. A tentação de “passar o poder” dos pais para os filhos tende a ser mais comum nas igrejas independentes, num rito de tipo quase monárquico. Quem levanta é o Espírito Santo, mas é a igreja local que reconhece os dons de ministério. A tentação monarquista é mais presente nas igrejas independentes, por razões práticas. Um filho pode vir a suceder ao seu pai, mas só se for essa a orientação do Espírito Santo e o sentimento da comunidade local de fé.
13. Confusão entre autonomia e independência. Temos usado neste texto o termo “independente” por comodidade e por ser um termo corrente, mas seria mais correcto utilizar a designação “igrejas e ministérios autónomos”. De facto, no reino de Deus não há “independência”. Todos fazermos parte de um só Corpo. Quando se perde esta noção, e parafraseando o apóstolo Paulo, é como se um membro dissesse ao restante corpo “não preciso de ti!” Ou seja, um verdadeiro disparate.
14. Impacto regional e nacional limitado. Para produzir impacte na região onde está implantado, o ministério independente tem que ter uma determinada dimensão e dispor de suficientes recursos de diverso tipo. Caso contrário, o mais certo é passar despercebido e tornar-se inócuo no meio em que se encontra, isto é, não passa de uma espécie de clube fechado.
15. Falta de apoio (disciplinar) externo em caso de necessidade interna. Embora o sistema de resolução de conflitos nas denominações deixe muito a desejar, em boa parte dos casos, a verdade é que se um ministério independente não tem a quem recorrer, num momento de dificuldade deste género, já está em perda.
Graças a Deus por todas as igrejas ou ministérios independentes que proclamam o reino de Deus com paixão, eficácia e fidelidade a Cristo e Sua Palavra.
Graças a Deus por todas as igrejas denominacionais que também o fazem. Será bom termos presente que a organização da igreja, local, regional, nacional ou mundial é um assunto humano e não divino. A Bíblia fornece um modelo espiritual para a Igreja, mas não qualquer figurino sistémico, do ponto de vista organizativo.
Por si só, e atendendo à sua organização, nem as igrejas denominacionais são melhores do que as independentes nem o contrário. Ambas têm os seus perigos, vantagens e inconvenientes.
Mas o seu sucesso espiritual depende da sua visão, e do que fazem com aquilo que são, que têm e do contexto em que se enquadram.
Texto 20: A ALMA HUMANA: ESSA DESCONHECIDA
Brissos Lino
Setembro de 2009
“Somos apenas pó e trevas.” (Horácio)
A alma humana tem desafiado a imaginação e o pensamento de filósofos, teólogos e poetas ao longo dos séculos.
Antes de mais pela dificuldade em encontrar uma definição racional e satisfatória para aquilo a que chamamos alma. E depois pela extrema dificuldade em entender o âmago das pessoas.
Mas há pelo menos uma conclusão consensual sobre a alma humana: como alguém disse, o homem é capaz da atitude mais nobre e da mais vil. O ser humano tanto pode ser uma Madre Teresa de Calcutá como um Hitler, um Gandi como um Estaline, um Fernando Nobre como um Pol Pot. Tanto se lhes pode agradecer pela dignificação e salvação de milhares de pessoas como pelo assassínio em massa de milhões.
Há, também, reiterados exemplos de seres humanos com uma alma enegrecida, que acabaram por sofrer uma metanoia regeneradora.
Segundo o comentário ao texto bíblico de Mateus 3:2, da Bíblia de Jerusalém: “A metanoia, etim., mudança de sentimentos, designa a renúncia ao pecado, o ‘arrependimento’. Esse pesar que se refere ao passado, vem normalmente acompanhado de uma ‘conversão’ (verbo grego epistrephein), pela qual o homem se volta para Deus e empreende uma vida nova. Esses dois aspectos complementares de um mesmo impulso da alma não se distinguem sempre no vocabulário (cf. At 2,38). Arrependimento e conversão constituem a condição necessária para receber a salvação trazida pelo Reino de Deus. O apelo ao arrependimento, proclamado por João Batista (cf. ainda At 13,24; 19,4) foi retomado por Jesus (Mt 4,17p; Lc 5,32; 13,3.5), pelos seus discípulos (Mc 6,12; Lc 24,47) e por Paulo (At 20,21; 26,20)”.
Ora isto significa que uma pessoa pode mudar radicalmente os seus valores, princípios, praxis e filosofia de vida, através de um fenómeno de natureza espiritual-religioso, para o qual, aparentemente, o indivíduo apenas contribui com a sua sinceridade e vontade de mudança.
Os avanços sobre o estudo das perturbações de personalidade ou patologias de carácter psiquiátrico vieram também trazer luz sobre alguns aspectos mais preocupantes do comportamento humano, até aí impossíveis de compreender.
Todavia há aspectos que parecem ser de pacífica interpretação:
Cada pessoa é única e irrepetível
A singularidade do ser humano é um dado adquirido e cada vez mais evidente, seja à luz da História, da Teologia ou da Medicina.
A medicação psicotrópica funciona de forma diversa em diferentes indivíduos, independentemente da idade, sexo, instrução, etnia ou cultura. Os psiquiatras afinam a medicação, pois o que funciona bem numa pessoa pode não resultar noutra, mesmo quando o princípio activo aplicado é o mesmo.
A identidade única do indivíduo é um dado adquirido na fé cristã, face à actual cultura de massificação. Deus ama a cada um, conhece cada um, importa-se com cada um e tem um propósito para cada um. O sueco Lewi Pethrus, grande figura do movimento pentecostal do século vinte, enfatizou a importância de alcançar as pessoas individualmente, numa época que já era de clara massificação.
Por seu lado, a História comprova que, apesar de serem as massas que fazem passar as páginas do percurso dos povos, a verdade é que são sempre os indivíduos, alguns indivíduos específicos e com nome, que fazem despoletar esses movimentos sociais de mudança.
Daí a importância de se ter consciência do valor intrínseco de cada indivíduo.
As pessoas não se conhecem a si próprias
Somos uns eternos desconhecidos de nós mesmos. Há muito boa gente nas cadeias, pessoas que cometeram crimes violentos num dado momento em que perderam o auto-controle, e alguns nem se conseguem lembrar bem do que aconteceu.
Nós mudamos todos os dias e a maior parte das vezes nem sequer nos apercebemos que alguma coisa mudou em nós. Só quando somos postos à prova entendemos finalmente que a nossa reacção no momento, e perante dada circunstância, foi estranha e inesperada.
Para o cristão, a melhor maneira de se conhecer é colocar-se diante do espelho da Palavra de Deus e contemplar “ao espelho o seu rosto natural” (Tiago 1:23).
As pessoas em geral têm medo das mudanças
Os ritos pessoais são estruturantes, ajudam a conferir um sentimento de segurança e de pertença, no caso dos ritos de grupo.
Para a generalidade das pessoas a mudança é percebida como desconfortável e ameaçadora. Por isso gostam de manter o quadro de vida o mais possível, com receio de que as alterações tragam à luz realidades com as quais não sabem lidar.
Daí que, muitas vezes, se opte por manter situações que não trazem satisfação mas com as quais a pessoa já sabe como lidar, sendo essa, por consequência, a razão das imensas dificuldades em fazer rupturas.
Conclusão
Se a alma humana é a sede da mente, da vontade e dos sentimentos ou emoções, podemos compará-la a uma espécie de gruta interior, sem luz natural e mergulhada na escuridão.
Quando nos dispomos a explorar esse espaço racional e emocional vamos iluminando aos poucos a gruta, artificialmente, e tomando consciência gradual do verdadeiro aspecto do nosso ser interior.
A tarefa do Espírito Santo revela-nos não apenas o carácter e coração do Pai e a pessoa do Filho, mas também a nossa própria realidade interior, por menos atraente que seja.
Nesse exercício de autoconhecimento e de procura da nossa verdade, há coisas de que gostamos mas outras nem tanto, e o desafio é mudar aquilo de que não se gosta dentro de nós.
Para o cristão, todo o desiderato de mudança é desenvolvido não na solidão mas na companhia e com o apoio gentil e seguro do “espírito de verdade” que nos “guia em toda a verdade” (João 16:13a), e se constitui nosso companheiro de peregrinação.
Texto 19: EQUÍVOCOS DENOMINACIONAIS
Brissos Lino
Agosto de 2009
“O elemento curador (na igreja primitiva) foi a compreensão de que aproximar-se de Cristo reduzia a importância das diferenças humanas e aproximava também as pessoas umas das outras.”
(Jimmy Carter, Os Valores em Perigo – a crise moral americana, Quidnovi, 2006)
Vivi grande parte da minha vida numa denominação evangélica em Portugal, desde a mais tenra infância. Primeiro como crente comum, depois como membro activo da igreja que sempre fui, e finalmente como ministro do Evangelho, durante vários anos, tendo desempenhado cargos de elevada responsabilidade nas suas estruturas. Conheço, portanto, os aspectos mais constrangedores e controversos do denominacionalismo evangélico português.
Acresce que a minha experiência em lidar com outras denominações, no âmbito de responsabilidades que fui assumindo no meio cristão, ao longo dos anos, permite-me ter hoje uma perspectiva geral das coisas.
A presente reflexão evidencia sobretudo alguns equívocos, erros ou fraquezas, consoante o ponto de vista, do percurso histórico das denominações, e que, nalguns casos, se prolongaram até à actualidade.
Eis alguns deles:
1. Confusão entre ortodoxia e rigidez doutrinária. Ao contrário do que se pensa, quanto mais inseguro o ser humano é, quanto às suas convicções religiosas, mais se agarra a um sistema rígido de doutrina e prática. Circunstância essa que, levada ao extremo, desemboca num fanatismo militante, em nome da “sã doutrina”. Pelo contrário, quanto mais seguros estamos do que somos e daquilo em que cremos, mais liberdade pessoal desfrutamos para reflectir, indagar, questionar, pôr em causa e lidar com as dúvidas, que não só são legítimas como normais e naturais.
2. Primado da mediocridade. Este equívoco decorre do anterior. Os mais inseguros, e portanto mais rígidos, acabam por gerar um sistema de poder, onde os mais capazes, mais indagadores e mais livres são sistematicamente marginalizados, já que assustam os inseguros com as suas indagações. É desse tipo de comportamento que procede a mediocridade, já que a rigidez não é criativa, nem inovadora nem adaptativa.
3. Confusão entre humildade, ignorância e cretinice. A defesa acérrima e acéfala de normas humanas obsoletas, sem suporte bíblico sério, e racionalmente indefensáveis não é uma atitude inteligente nem séria. Confunde-se facilmente humildade com ignorância ou patetice. Ser humilde não é ser parvo ou descartável, é escolher rejeitar o orgulho e sujeitarmo-nos à vontade de Deus.
4. Confusão entre santificação e farisaísmo. Constituindo este uma atitude religiosa de que resultam sempre posturas eivadas de hipocrisia. Ou seja, dito de outra forma, o farisaísmo defende o primado da aparência em detrimento da autenticidade e da essência. Como se vê, a natureza da atitude farisaica é radicalmente oposta ao cristianismo bíblico.
5. Sectarismo denominacional. O espírito de seita ronda o denominacionalismo sempre que o espírito da exclusividade ortodoxa supera o espírito da unidade em Cristo, cegando as pessoas para a realidade espiritual a que o apóstolo Paulo denomina como “a multiforme graça de Deus” (1 Pedro 4:10). Todos têm o direito de crer, valorizar e defender pontos de vista estruturantes da sua denominação, e de defender um património histórico, desde que isso não os cegue para a evidência de que o Corpo de Cristo não se esgota nesses estritos limites.
6. Discriminação de género nos ministérios espirituais. A contínua desvalorização das mulheres no ministério é uma das fraquezas de algum denominacionalismo. Argumentos estafados, descontextualizados histórica, escriturística e teologicamente, obviamente procedentes de um machismo obsoleto, coartam assim o acesso de muitos dos melhores e mais preparados elementos da Igreja ao cabal desempenho dos dons, ministérios e vocações a que foram chamados por Deus. Há excepções, que apenas confirmam a regra (como é o caso da The Foursquare Church, Igreja do Evangelho Quadrangular, denominação pentecostal histórica, que foi fundada por uma mulher, a canadiana Aimee Semple McPherson, no ano de 1927, em Los Angeles). Mas este caso histórico ainda continua a constituir uma excepção.
7. Confusão entre doutrina e usos ou costumes. As tradições e influências culturais misturam-se ainda com demasiada frequência com a vertente doutrinária, originando conflitos desnecessários. Alguns ainda não compreenderam que a doutrina é universal e eterna, mas a cultura (usos, costumes) é local e temporal, e que nem sempre o abraçar uma nova doutrina implica a adopção de uma nova cultura.
8. Confusão entre proselitismo e evangelismo. Julgando que a função da Igreja é apenas arrebanhar acólitos, multiplicar os números, fazer prosélitos, despreza-se a influência dos cristãos na sociedade, e promove-se uma cidadania mitigada, ao desencorajar o envolvimento dos convertidos nas diversas dimensões da cidadania terrena, a par da sua edificação espiritual. Quando se fala de intervenção cultural, desportiva ou política então…
9. Ênfase doutrinária exagerada em aspectos distintivos. Cada denominação tem a tendência para focar, de forma porventura menos equilibrada, os seus aspectos doutrinários distintivos, isto é, os aspectos doutrinários que a distinguem das outras. Como se o valor de uma igreja estivesse na sua origem e percurso histórico e não na Pessoa de Jesus Cristo enquanto sua centralidade. As igrejas não podem comportar-se como empresas que apostam na exclusividade ou nas características distintivas dos seus produtos a fim de conquistar o mercado.
10. Da falta de formação à formatação das lideranças. Receio que se tenha passado da pura falta de formação da futura liderança para a sua formatação. As lideranças espirituais devem preparar-se o melhor possível para um mundo altamente desafiador, mas não é com cartilhas rígidas que o farão.
11. Luta pelo poder. Qualquer organização cria as condições para que nela se venham a verificar atitudes de luta pelo poder, mais cedo ou mais tarde. Talvez por isso determinadas denominações auto-designam-se preventivamente como “movimentos do Espírito” e não denominações, ou recusam chamar pastores aos seus líderes. Mas o que conta não são as designações mas sim a postura.
12. Perspectiva providencial e messiânica. A ideia de que nós é que estamos no caminho, enquanto todos os outros estão apenas à beira do caminho é doentia e presunçosa, mas infelizmente é corrente nalguns círculos. Tal como a ideia de que é a nossa denominação que vai converter o país e o mundo a Cristo, como se os outros cristãos e igrejas tivessem um papel meramente decorativo. Chega-se a afirmar que “o evangelho não chegou ainda” a esta ou aquela terra, mesmo quando se sabe que outras igrejas protestantes ou evangélicas lá estão radicadas e a trabalhar na promoção do reino de Deus…
13. Mentalidade imperial. Critica-se a igreja romana pela sua estrutura e mentalidade imperial, mas na prática promove-se o mesmo, quando se reivindica “somos a maior denominação mundial”, ou “somos a igreja que mais cresce em todo o mundo”, e outros tiques imperialistas do género.
14. Falta de amor e cuidado pelos fracos e caídos. É porventura a maior falha das igrejas locais. E isto em nome de uma disciplina que não visa a restauração da pessoa, mas sim o efeito de dissuasão que pode ter sobre a comunidade em geral e o reforço político da imagem da sua liderança espiritual, numa tentativa de preservação da realidade da denominação.
15. Tendência de exagero regulamentar. Ao matar grande parte da criatividade e da iniciativa em nome dos regulamentos ou tradições, está-se a matar a vida de uma comunidade local. Quando se cortam à partida todas as ideias, por melhores que sejam, só porque “nunca se fez assim”, está-se a apelar ao espírito de “macaco de imitação”. Jesus nunca disse para nos imitarmos uns aos outros, mas Paulo apelou à imitação do próprio Cristo. E isso é altamente desafiador.
Apesar de todo o respeito e gratidão que a Igreja do presente deve ter para com os seus líderes do passado, a verdade é que o tempo presente traz consigo novas exigências e requer uma nova mentalidade, ainda que os fundamentos permaneçam os mesmos. Exactamente por isso. É que os métodos, práticas e visões são temporais mas o fundamento eterno da doutrina de Cristo e dos Apóstolos nunca mudará.
Texto 18: A UNÇÃO DE ELIAS
Brissos Lino
Setembro de 2009
“Aqui há tempos visitei uma Igreja evangélica onde o pregador eufórico declarava a uma irmã que iria passar sobre ela a capa da unção de Elias… logo, logo ela teria a unção dobrada do Espírito na sua vida. Estava tão eufórico que procurou por toda a parte a tal capa (presumo que seria o seu próprio casaco). Não o tendo encontrado pegou no primeiro casaco que lhe veio à mão. Tendo encontrado um casaco declarou que a partir daquele momento a tal irmã deixaria de ter problemas, de saúde, financeiros, etc. Confesso que não acreditei muito no tal pregador… É que o casaco era meu…”
(Testemunho de um amigo meu).
É uma prática corrente de alguns pregadores do meio carismático dizerem querer transmitir a unção de Elias aos seus ouvintes, passando-lhes o seu casaco por cima.
A ideia será esta: assim como o profeta Elias terá pedido a Deus e declarado ao seu servo Eliseu, “porção dobrada” do Espírito que estava sobre ele próprio, assim também os tais pregadores querem “transmitir” a outros a porção dobrada do Espírito, para alcançar vitória pessoal. O episódio está relatado no segundo Livro de Reis, capítulo dois, do versículo um ao quinze.
Esta prática contemporânea, porém, enferma de diversos vícios de forma e de fundo, de tal modo fatais, que não passam pelo crivo mais elementar de qualquer análise séria.
Primeiro, se estamos a falar da unção de Elias, entendamos que não é a unção do António ou do José. Eu não posso passar uma unção que não é minha. Tal como acontece com os talentos naturais ou os dons e ministérios espirituais, eu não posso operar nos que me são alheios, mas apenas nos que Deus me concedeu, sabendo nós que as manifestações do Espírito Santo são distribuídas na congregação com vista a um fim útil (1 Co 12:7-11). No entanto são dadas “a cada um”, sendo, portanto, muito pessoais. E ninguém pode dar uma coisa que não lhe pertence.
Segundo, se Elias eventualmente passou a sua unção a Eliseu era porque havia um compromisso, uma aliança de ministério entre eles. Havia uma história comum. Eliseu fora servo de Elias durante anos a fio. O relato bíblico explica claramente que Eliseu nunca se quis separar de Elias.
Estes pregadores querem passar uma unção (que não lhes pertence) a pessoas que nunca viram na vida e sobre as quais pouco ou nada sabem…
Terceiro, Eliseu recebeu unção dobrada porque o desejou muito intensamente, e sobretudo porque o pediu. E não o pediu para resolver os seus problemas pessoais, mas para servir a Deus tal como vira fazer o profeta Elias, seu senhor.
Esta moderna “unção de Elias” funciona como mais uma forma de engodo de massas, sendo na prática uma espécie de artifício para acender um fogo, que acaba por ser estranho.
Quarto, esta unção não era para fins de benefício pessoal, para resolver problemas de saúde ou financeiros próprios, mas era, pelo contrário, uma unção de serviço, de ministério, uma capacitação especial para servir o próximo, o outro.
Quinto, a capa representa protecção ou autoridade. Do ponto de vista da Simbólica, a capa era usada para proteger o caminhante das intempéries do tempo, ou como peça de vestuário militar ou cerimonial. Não será forçado considerar um casaco de hoje como símbolo de autoridade ou mesmo de protecção?
Sexto, no Antigo Testamento o Espírito Santo visitava episodicamente os servos de Deus, mas desde o dia de Pentecostes, em Jerusalém, no 1º. século (At 2), que o divino Paracletos desceu e se encontra na Igreja, sendo todos os cristãos nascidos de novo o seu templo colectivo. Então, se o Espírito Santo está na Igreja, o que esta necessita não são unções ou toques avulsos, mas ouvir permanentemente a Sua voz e dar-lhe liberdade.
Sétimo, não está escrito em lado nenhum que a pessoa doente ou em crise financeira necessite de uma unção especial para resolver o seu problema. Quando faltaram meios de subsistência às viúvas pobres da igreja de Jerusalém, os apóstolos não lhes passaram a unção de Elias. Organizaram o serviço de diaconato para acorrer a essas necessidades (At 6). Quando, mais tarde, os cristãos de Jerusalém passaram duras necessidades, Paulo não lhes passou a unção de Elias. O que fez foi estimular os crentes de outras cidades, mais prósperas, a levantar ofertas de amor para acorrer a essas mesmas necessidades (2 Co 9), tendo ele próprio trabalhado com as suas mãos, a fim de providenciar o sustento pessoal, sempre que necessário.
Quando Job enfrentou a hora da adversidade não recebeu unção nenhuma. Quando surgiam pessoas doentes, na igreja primitiva, em vez de passar a unção de Elias os líderes das comunidades cristãs oravam por cura, com imposição de mãos, e quanto muito, ungindo-as com azeite (Tg 5:14,15).
Está escrito: “Buscai, antes, o Reino de Deus, e todas essas coisas [o comer e o vestir] vos serão acrescentadas” (Lc 12:22, 31).
“Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. Porque aquele que pede, recebe… vosso Pai dará bens aos que lhe pedirem” (Mt 7:7, 11).
Oitavo, depois de tudo ainda há o facto de que Elias nunca impôs a sua capa sobre os ombros de Eliseu com vista a que este recebesse “porção dobrada” do Espírito que estava sobre o profeta, mas apenas quando o escolheu para estar com ele. A realidade histórica da sucessão profética (se assim podemos chamar) é bem diferente. Leia o que o relato bíblico diz realmente (1 Rs 19:19-21; 2 Rs 2:9-12).
A “unção de Elias” é portanto uma prática extra bíblica, que não encontra qualquer suporte no Novo Testamento, nem na praxis conhecida dos primitivos cristãos, ou mesmo nos escritos não-canónicos da época.
Creio, todavia, que alguns o fazem sinceramente, pois julgam estar a agir bem, e querem ser bênção na vida de outros. Também sabemos que Deus olha em particular para as intenções do coração, mas…
Texto 17: A BÍBLIA DA CAÇA AO TESOURO
Brissos Lino
Agosto de 2009
“Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é mister socorrer os necessitados e recordar as palavras do próprio Senhor Jesus: Mais bem-aventurado é dar que receber” (At 20:35).
“E Jesus lhe respondeu, dizendo: Está escrito que nem só do pão viverá o homem, mas de toda a Palavra de Deus” (Lc 4:4).
Faz parte dos anais da tradição decorrente da Reforma religiosa na Europa o respeito pela autoridade e integridade das Escrituras. “Sola Scriptura” ficou como um dos poucos fundamentos indiscutíveis do movimento de restauração espiritual do Cristianismo, iniciado pelo alemão Martinho Lutero, no século XVI e depois consolidado por Calvino.
O evangelicalismo, que sucedeu historicamente ao movimento protestante ou reformado, manteve a tocha acesa deste princípio, porventura ainda com mais assertividade e compromisso do que nunca.
O pentecostalismo, que atravessou o século passado numa dinâmica de crescimento global explosivo, nunca deixou cair o cuidado pela integridade do texto bíblico, independentemente das suas interpretações. Mas o neopentecostalismo tem vindo a dar sinais de querer anular este velho princípio que norteou gerações sucessivas de cristãos em todo mundo, no último meio milénio. Como? Ao promover uma abordagem às Escrituras cada vez mais irreverente, isto é, embrulhando-a num pacote “comercial” que desvirtua a essência e a totalidade da Palavra Revelada.
Longe do abnegado espírito missionário das Sociedades Bíblicas em todo o mundo, alguns líderes neopentecostais estão a promover edições especiais do livro sagrado dos cristãos, de acordo com as suas doutrinas.
Bem sei que por enquanto são só comentários, anotações e auxiliares de leitura, mas já falta pouco para vermos o próprio texto bíblico “adaptado” às doutrinas neopentecostais, à boa maneira dos russelistas ou, quem sabe, que integrem novas revelações, como as famosas tabuinhas de ouro dos mórmons.
Assim têm surgido as bíblias disto e daquilo, para todos os gostos. Mas não me refiro a edições como a Bíblia da Mulher, Bíblia Teenager, Bíblia do Ministro, Bíblias de Estudo e outras do género, pois normalmente não são mais do que adequações da apresentação (formato, capa, tamanho de letra, destaques, mapas, tabelas, etc.) com vista a públicos definidos.
Refiro-me a uma outra coisa, que se reveste de contornos de gravidade, e que entra no campo da manipulação e do abuso da boa fé das pessoas, tendo em conta a sua ignorância. Um dos últimos exemplos disto é a Bíblia da “Batalha espiritual e vitória financeira”, recheada de comentários altamente controversos (para não dizer pior) de Morris Cerullo, cuja propaganda afirma “Creia na palavra do Profeta de Deus”. Assim mesmo. O importante já não é crer na Palavra de Deus, mas na palavra de um homem que se intitula “Profeta de Deus” (com P maiúsculo, sim!). A Palavra de Deus foi substituída pela palavra do homem!…
As pessoas são desafiadas, não a comprar uma Bíblia, mas desta forma pouco honesta, e mais própria de uma campanha publicitária de electrodomésticos: “Faça a sua oferta voluntária de 900 reais (cerca de 350 euros) e ganhe a bíblia de estudo tal”. Porquê 900 reais? Por um puro delírio numerológico (a justificação é estarmos em 2009!), que daria para rir se não fosse triste. É preciso descaramento… Afirma Pedro: “(…) nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana (…)” (1 Pd 1:20-21).
Só falta dizer que aquele exemplar da Bíblia é melhor do que um outro qualquer, adquirido numa livraria cristã, porque tem as anotações do pregador tal, e portanto será mais abençoada, mais poderosa, mais Palavra, em suma, funciona melhor.
São por demais evidentes os laivos de simonia nesta manobra (At 9:9-25). Actos dos Apóstolos conta-nos de Simão, o mágico, que ofereceu dinheiro aos apóstolos para também impor as mãos e as pessoas receberem o Espírito Santo, com a evidência das línguas estranhas.
Neste produto em particular, Cerullo chega a prometer, num dos comentários, uma “unção financeira especial”: “É hora de Deus acabar com a escravidão das dívidas e da pobreza no meio do seu povo!”, uma vez que “pobreza é escravidão”. Mas o Apóstolo Pedro diz: “Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras, até ao ponto de renegarem o Soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição” (2 Pd 2:1).
Como alguém disse, por esta ordem de ideias podemos dizer que Jesus era escravo, pois “não tinha onde reclinar a cabeça” e os cristãos de Roma seriam igualmente escravos, pois viviam em catacumbas.
Sugere-se assim que, utilizando aquela edição da Bíblia e as suas orientações dadas nas notas e comentários, a pessoa alcançará vitória financeira, como que por magia. Mas nada de ensinar mordomia cristã, princípios bíblicos de gestão financeira ou uma vida de obediência e fidelidade a Deus.
Oferece-se assim este mundo e o outro em troca de 350,00 €, mas o facto é que a própria Bíblia ensina não ser Deus quem oferece o mundo em troca de adoração, mas sim o diabo (Mt 4:9).
Esta manipulação e estas negociatas com a Palavra são chocantes para quem ama e respeita a Bíblia e a reconhece como Revelação de Deus, porque configura um mercantilismo enganador e intolerável em qualquer líder cristão que se preze.
Estou convicto de que, se Jesus voltasse agora cá abaixo faria com estes “vendilhões do templo” o mesmo que fez com os outros, há dois mil anos, no átrio do Templo de Jerusalém. Corria com eles. Violentamente.
Texto 16: PORQUE NÃO SOU NEOPENTECOSTAL
Brissos Lino
Agosto de 2009
“Maravilho-me de que tão depressa passásseis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho; O qual não é outro, mas há alguns que vos inquietam e querem transtornar o evangelho de Cristo. Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema.
Ó insensatos gálatas! quem vos fascinou para não obedecerdes à verdade, a vós, perante os olhos de quem Jesus Cristo foi evidenciado, crucificado, entre vós?”
(Epístola de S. Paulo aos Gálatas 1:6-8; 3:1)
Todo o evangelho descentrado da cruz do Calvário, e que não passa pelo senhorio de Cristo, é espúrio e deve ser rejeitado. Da mesma forma como as propostas do deus-morto ou do deus-limitado, sugerido por muitos outros.
O neopentecostalismo é uma praga, uma verdadeira pandemia surgida nos meios cristãos, que tem arrastado multidões, enganadas e manipuladas por falsas promessas e doutrinas heréticas. Tem semelhança com o Cristianismo mas nega a sua essência. Essas auto-denominadas igrejas não
passam de seitas neo-pagãs, de fachada cristã.
Há um conjunto de razões pelas quais não sou neopentecostal:
1. Porque o neopentecostalismo ensina a ineficácia do sangue de Cristo. Os seus pregadores proclamam um falso Jesus, cuja competência salvífica não garante ao homem convertido a libertação das maldições. Tais líderes promovem campanhas milagreiras recorrentes para retirar encostos, quebrar maldições e forçar Deus a dar-nos o que nos pertence, por direito próprio. Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, os quais foram libertos de quaisquer maldições passadas, conhecidas ou não, pelo poder da cruz e do sangue de Cristo, que nos livra de todo o pecado e encerra em si mesmo toda a maldição que antes estava sobre nós (Rm 8:1).
2. Porque defende revelações particulares e baseia as suas práticas em experiências pessoais, visões, sonhos e outro tipo de revelações à revelia das Escrituras, que são o fio-de-prumo do cristão.
3. Porque mistura, com o seu já desequilibrado corpo de doutrina, práticas do Oculto, alheias ao Cristianismo, e próximas do umbanda e outros ritos de origem africana.
4. Porque constitui um sistema de manipulação de massas, apelando a uma postura acrítica e seguidista.
5. Porque infunde um sistema de medo, com base numa teia de demónios para cada situação. Para o neopentecostalismo tudo são demónios.
6. Porque promove a infantilidade espiritual, ao culpar sempre os demónios pelos problemas de um carácter não sujeito a Cristo, em vez de lidar com eles, e por fazer do chamado “descarrego” uma prática corrente e recorrente.
7. Porque intimida e controla os fiéis e prendendo-os à organização através da teoria da “cobertura espiritual do ministério” sem a qual seriam destruídos pelo diabo.
8. Porque, ao contrário do apóstolo Paulo, não prega todo o conselho de Deus, nem instrui o povo sobre as verdades espirituais e sobre a realidade da vida.
9. Porque distorce a teologia do sofrimento, como se este não fosse inerente à condição humana e ao percurso cristão. A natureza criada participa das dores, angústias e consequências da Queda, e aguarda com ardente expectativa a manifestação dos filhos de Deus (Rm 8:19-23).
10. Porque se aventura por caminhos de cura emocional, ainda por cima sem preparação técnica, em rituais de tipo pseudopsicológico, como por exemplo, regressões ao útero materno e libertação do perdão a Deus, através de uma praxis alheia ao Evangelho, às Escrituras e ao testemunho dos Apóstolos.
11. Porque desenvolveu um sistema de verdadeira extorsão do povo, baseado em falsas promessas e curas forjadas, que provoca uma lavagem cerebral que faz o pobre entregar até seu último centavo em busca de redenção.
12. Porque desvaloriza as Escrituras. Os líderes dão pouca importância ao conhecimento das Escrituras, servem-se delas apenas na qualidade de repositório de exemplos.
13. Porque faz do centro de adoração uma farmácia onde as pessoas se limitam a ir buscar o que precisam, a cada momento, desconhecendo o sentido de corpo espiritual, que se caracteriza por vertentes como a partilha, a entreajuda e o testemunho.
14. Porque não prega a adesão a Cristo e o senhorio deste, mas sim uma mera negociação entre as partes, fazendo de Deus um negociante interesseiro e cruel.
15. Porque semeia a superstição pura. São por demais conhecidas práticas como o sabonete de arruda, o caminho do sal, a travessia do rio Jordão, o manto dos milagres, a rosa ungida, o copo de água, e tantos, tantos outros.
16. Porque despreza a Graça de Deus no processo de Salvação e edificação do crente. Devido à suficiência e plenitude da graça de Cristo, não necessitamos de quaisquer sacrifícios ou negociações para alcançar a salvação e favores de Deus (Ef 2:8-9). Porque ignora a suficiência da Graça na totalidade da vida cristã, donde decorre o princípio de que não há nada que possamos fazer para “merecer” a atenção de Deus (Rm 3:23; 2 Co 12:9).
17. Porque propõe, na prática, uma espécie de neo-maniqueísmo. O sacerdote persa Mani (também conhecido por Maniqueu, séc. III) pregava a existência de duas divindades igualmente poderosas, a benigna e a maligna, que se combatiam mutuamente. O neopentecostalismo, na prática, ressuscita esta velha doutrina.
18. Porque influencia o individual em detrimento do colectivo, em oposição ao princípio bíblico vivido pela igreja primitiva, de que “ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum” (At 4:32).
19. Porque não evidencia as boas práticas de prestação de contas à comunidade local de fé, revelando assim falta de transparência nas coisas de Deus.
20. Porque evidencia um estilo de liderança anticristão e antibíblico, que não se coaduna com os princípios bíblicos de liderança espiritual.
Conclusão
Por tudo isto e muito mais, o neopentecostalismo não passa de um neopaganismo de fachada cristã.
Dir-se-á que algumas das características acima descritas são igualmente visíveis noutros sectores religiosos (e até políticos). Pois bem, o neopentecostalismo é uma corrente religiosa pós-moderna, de inspiração cristã, mas que não pode ser considerada protestante nem evangélica, dado o facto de as suas doutrinas e práticas não configurarem tal identidade.
Texto 15: A ORAÇÃO
Brissos Lino
Outubro 2008
“Não oramos para liquidar problemas de forma mágica. Oração é a prática da paciência. Situações difíceis, às vezes, não se resolvem, mas quando oramos somos transformados. Nós nos consagramos a Deus e somos santificados de modo que, em certas ocasiões, não é a circunstância que muda, mas o nosso olhar.”
(Osmar Ludovico)
A prática e o sentido da oração estão hoje largamente pervertidos em diversos campos do mundo cristão.
Hoje em dia a oração é uma ferramenta que serve para tudo. Entre outros estranhos desígnios, serve para dar ordens a Deus, assim como também serve para amaldiçoar o próximo.
A oração como processo reivindicativo
É frequente ouvirmos que Deus “tem que” responder num determinado sentido porque está ligado à sua Palavra, isto é, às suas promessas. E assim passamos alegremente de simples criaturas a criadores, soberanos, de dedo espetado em direcção a Deus.
Este tipo de oração é o favorito dos crentes de tipo reivindicativo, pessoas que na vida cristã sobrevalorizam os direitos, esquecendo muitas vezes os deveres, e que são igualmente lestos a esquecer que “todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus” (Romanos 8:28).
A oração como arma ofensiva espiritual
Se em Cristo “somos mais do que vencedores” (Romanos 8:37), então os crentes podem utilizar a arma da oração para lutar pelos fins que perseguem. Mas há limites a esta premissa.
Desde logo porque devemos alinhar os objectivos da nossa oração com a vontade de Deus. Ela sim, soberana. Depois porque devemos usar a arma da oração com sabedoria e eficácia, e não como quem espadeira no ar (I Coríntios 9:26).
A oração como factor de maldição
Amaldiçoar a vida ou o ministério de alguém não tem qualquer suporte bíblico ou teológico, já que os filhos de Deus são chamados para abençoar, desde os tempos de Abraão: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Génesis 12:3). Todavia há quem se iluda a praticar uma espécie de “magia negra” de suposta inspiração bíblica, mas à qual as Escrituras são completamente alheias.
Amaldiçoar o semelhante é abusivo e revelador de falta de misericórdia, que é o ADN do Evangelho. Não se trata, em caso algum, de uma prática cristã, antes pelo contrário, tal acção vai ao arrepio de todo o contexto do Novo Testamento e do exemplo, ensino e mensagem de Jesus Cristo.
A oração como ladainha ou mantra
Orar para “encher chouriços”, do tipo “oração a metro” tem mais que ver com concepções religiosas retrógradas, as tais vãs repetições de que nos fala Jesus no Sermão do Monte (S. Mateus 6:7), e a sua eficácia é nula. Estará mais ligada à ideia do sacrifício pessoal feito com a intenção de obter o favor de Deus.
Palavras e frases repetidas a esmo, vezes sem conta, perdem sentido, conteúdo, e até o nosso respeito. As palavras são como as pessoas, devemos lidar com elas com parcimónia, mas nunca usá-las a despropósito.
Deus não está à procura de palradores, mas sim de adoradores (S. João 4:23).
Por razões idênticas, a oração também não deve ser uma espécie de mantra, repetido até à exaustão, de modo a provocar estados alterados de consciência. Não estão na génese do Cristianismo tais práticas ou filosofia, embora a tentação esteja muitas vezes presente, em certos círculos cristãos, tanto através da prática de orações como de cânticos.
A oração como sacrifício redentor
Há quem encare a prática da oração como se de um sacrifício se tratasse. Mede-se a espiritualidade de uma pessoa pelo tempo que passa em oração. Se orar de joelhos será tanto mais espiritual do que aquele que ora de pé ou sentado. Pura patetice.
As Escrituras não permitem suportar tal ideia. Apenas nos incitam a orar “sem cessar”, isto é, a levar uma vida regular de oração.
A oração como mensagem indirecta
Em comunidade, há quem utilize a oração em voz alta para enviar recados a terceiras pessoas, presentes na reunião, dar testemunho público ou manifestar discordância com alguma decisão ou orientação eclesial.
Deus deve gostar muito pouco de ser usado como pretexto para acerto de contas entre os pobres seres humanos.
A oração como passe de mágica
Alguns encaram a oração como uma magia, extremamente simbolizada, como uma espécie de palavra-passe cristã, do tipo “abracadabra” ou “abre-te, Sésamo”.
A oração não é uma espécie de magia branca, como se quer fazer crer nos meios neopentecostais. Não há palavras-chave que abram portas especiais no mundo espiritual. Não se trata de uma questão semântica.
A ideia da magia procede dos cultos pagãos, sendo completamente estranha ao Cristianismo bíblico.
A oração como via para o êxtase sensorial
Frederick Buechner, no livro “O que eles disseram sobre oração”, põe o dedo na ferida: “Acho que a oração é análoga ao sexo. A maioria das pessoas tem queixas da sua vida sexual, poucos se dão realmente bem. O sexo e a oração são relacionamentos íntimos e excessivamente glamourizados. Somos todos levados a crer que, na hora do sexo e da oração, devemos atingir a estratosfera. Isso cria uma expectativa falsa e destrói a intimidade.”
A ideia de alcançar um êxtase dos sentidos por via da oração já é, só por si, uma falácia. Sejamos claros: Jesus nunca encorajou tal ideia. O que a Bíblia ensina é que, quando acontece não sabermos como orar, o Espírito faz qualquer coisa de especial, “intercede por nós com gemidos inexprimíveis” (Romanos 8:26), que é coisa bem diferente.
Os cristãos “emocionais” podem até encontrar uma satisfação particular dos sentidos através de uma intensa prática de oração, mas não é para isso que a oração serve, nem foi para isso que o Mestre ensinou como orar ou para que orar.
A oração limitada por condicionantes físicas
Há quem pense que a sua oração será mais rapidamente ouvida ou respondida se for para a montanha, de madrugada. Creio que o Deus da montanha é exactamente o mesmo Deus do vale, e o da madrugada o mesmo do dia ou da noite, da tempestade ou da bonança, do ruído ou do silêncio.
Definitivamente, não são as condições físicas que determinam a eficácia da oração, nem faria qualquer sentido que assim fosse.
A base escriturística da oração
A oração que Jesus Cristo ensinou aos discípulos, a chamada oração do “Pai Nosso”, constitui a base bíblica mais segura de estudo sobre esta importante dimensão da praxis cristã. Estudar os elementos presentes nesse modelo de oração é o caminho mais seguro para fazer dela um acto relevante e eficaz, em especial na nossa própria vida.
Conclusão
De facto, muitas vezes não são as circunstâncias envolventes que mudam através da prática da oração, somos nós. Tal como num processo psicoterapêutico. Somos mudados ou transformados interiormente, de forma que é o nosso olhar, a nossa perspectiva e o nosso sentir que mudam. E é por isso que as referidas circunstâncias, a partir de certo momento, deixam de nos provocar desconforto ou sofrimento.
Como escreveu Henri Nouwen (Transforma Meu Pranto em Dança, Textus, p. 33): “Só a oração nos permite ouvirmos outra voz, ser sensíveis a maiores possibilidades, encontrar um caminho para fora de nossa necessidade de ordem e controle.” Numa palavra, só a oração possibilita que superemos a condição humana.
Texto 14: A IGREJA
Brissos Lino
Outubro 2008
“No início, a igreja era um grupo de homens centrados no Cristo vivo. Então, a igreja chegou à Grécia e tornou-se uma filosofia. Depois, chegou a Roma e tornou-se uma instituição. Em seguida, à Europa e tornou-se uma cultura. E, finalmente, chegou à América e tornou-se um negócio.”
(Richard Halverson)
O percurso da Igreja, ao longo destes dois milénios de história, nunca foi linear. Ela procurou sempre, como sujeito da História, sobreviver, nuns casos, resistir noutros, dominar, nalgumas circunstâncias, ou ser minimamente relevante noutras.
Lutou contra inúmeras ameaças externas, provenientes da política, da filosofia e da religião, e teve que lidar com frequentes dissensões internas. Por fim dividiu-se uma primeira vez, durante o chamado Cisma do Oriente, separando o mundo latino do grego, dando assim origem às igrejas ortodoxas, e meio milénio mais tarde, através da Reforma religiosa na Europa, com o advento do protestantismo, pela mão de Lutero.
A partir do momento em que a Igreja deixou de se comportar como motor da História no mundo ocidental, limitou-se a reagir aos acontecimentos ou a imitar o sistema do mundo sem Deus.
Foi assim que surgiram os credos e os concílios. A Igreja reagiu desta forma de modo a clarificar e unificar os fundamentos da fé, perante a sua própria expansão, e combater as diversas heresias que a atacavam perigosamente.
Foi assim que se estruturou hierarquicamente, para imitar o funcionamento modelar do império romano, julgando que aquilo que era bom para o império seria igualmente bom para si própria.
Foi assim, ainda, que não resistiu à tentação de substituir a figura do imperador, em Roma, quando Constantino mudou a capital para a antiga Bizâncio. Perante a vacatura do poder, na cidade eterna, a Igreja tratou de o assumir, demonstrando assim que a atracção do poder exerce um fascínio tremendo sobre si.
Estas três vertentes: a atitude reactiva aos ataques e perigos, o mimetismo à imagem dos sistemas exteriores, e a tentação do poder, continuam, porventura, a constituir a sua maior fraqueza espiritual.
Mas a verdade é que a Igreja também se foi moldando conforme os tempos e o meio, afastando-se do propósito original.
A Igreja como filosofia
Jesus Cristo nunca se assumiu como filósofo. O seu pensamento era invariavelmente centrado nas pessoas e não em especulações metafísicas. Centrado na vivência prática das pessoas, na sua relação com Deus e com os outros, e no seu futuro eterno.
As discussões talmúdicas, tão ao gosto dos religiosos judeus do seu tempo, passavam-lhe completamente ao lado. A Bíblia não dá conta de qualquer momento em que o Mestre se tenha disposto voluntariamente a entregar a tais argumentações. Quando tinha doze anos discutiu por uma vez com os doutores da lei, no templo. Todos os outros relatos do Evangelho sobre troca de impressões entre Jesus e os religiosos do Judaísmo, ocorreu na sequência do normal desenrolar do seu ministério público, e não por escolha sua.
A Igreja como instituição
Assim como o Nazareno afirmara “o meu reino não é deste mundo” (1), da mesma forma deveria ser entendido que o lugar da Igreja não é neste mundo. Até porque, e desde logo em termos etimológicos, igreja (gr. “ekklesia”) significa “os chamados para fora”.
Na famosa oração sacerdotal, Jesus deixou bem explícito que os seus seguidores “não são do mundo assim como eu não sou do mundo” (2), acrescentando, porém, “não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal” (3).
A institucionalização da Igreja desvirtuou, por isso, o seu sentido mais profundo. Nem Israel entendeu este paradoxo cristão (uma espiritualidade sem poder temporal), nem a própria Igreja o aceitou plenamente na prática.
A Igreja como cultura
A Igreja faz Cultura. Por si mesma constitui-se como factor cultural relevante em qualquer sociedade em que se encontre inserida. Mas fá-lo (ou deve fazê-lo) de forma espontânea e não no sentido de forçar ou impor ao conjunto das sociedades as suas ideias, valores e opções de vida. A Igreja apresenta-se assim, naturalmente, como uma alternativa cultural.
Na realidade, a milenar influência cristã nesta Europa pós-moderna e cada vez mais multicultural já de pouco vale. A sensação que se tem é que a Igreja já não sabe falar à cidade dos homens, nem sabe viver como carta viva de Cristo no meio deles. Perdeu o seu fulgor profético. Por isso, ainda que fale, dificilmente consegue comunicar a mensagem evangélica.
A Igreja como negócio
Os anos oitenta foram a era por excelência dos evangelistas de televisão, estrelas mediáticas do universo americano, os quais se constituíram como paradigma da religião enquanto iniciativa privada. Mais recentemente, a chegada a Portugal de movimentos neopentecostais, arautos da teologia da prosperidade, trouxe para a realidade nacional um fenómeno anteriormente visto como distante.
Mas o meio católico também não foge à fama negocista, dada a proverbial riqueza do Vaticano e o movimento financeiro dos santuários, por exemplo.
Quando voltará a Igreja de Jesus Cristo a ser um grupo de homens e mulheres centrados no Cristo vivo, e apenas isso? Na sua fraqueza estaria então a sua verdadeira força. Quando é que os cristãos o compreenderão?
(1) João 18:36.
(2) João 17:14.
(3) João 17:15.
Texto 13: A REINVENÇÃO DO CORPO
Brissos Lino
Setembro de 2008
Uma jovem norte-americana decidiu leiloar a sua virgindade, na Internet, a fim de poder continuar a financiar os estudos.
Um dos maiores sites de leilões on-line, o eBay, rejeitou a proposta, mas a rapariga, de 22 anos, que se apresenta com o nome falso de Natalie Dylan (mas disponibiliza a sua fotografia!), conseguiu obter os apoios necessários para levar por diante a ideia.
Alega que está disposta a capitalizar a virgindade uma vez que vivemos numa sociedade capitalista, e o seu objectivo é conseguir um milhão de dólares.
Esta notícia, sinal dos tempos, leva-nos a reflectir sobre a forma como vemos o nosso corpo.
No mundo ocidental houve sempre pouca penetração de práticas que visassem alterar o aspecto do corpo, temporária ou definitivamente. Considerava-se bárbara, por exemplo, a mutilação por motivos estéticos, costume corrente em sociedades africanas ou asiáticas, por exemplo. A excepção que confirmava a regra foi sempre a aplicação de brincos que exigiam a perfuração das orelhas.
Actualmente, porém, há uma inversão de valores na forma ocidental de lidar com o corpo. Na esteira das drogas injectáveis, que implicam uma administração de tipo invasivo, através de uma seringa, tornou-se corrente a aplicação de piercings por todo o corpo, mesmo nos lugares mais recônditos e perigosos, em termos de infecções potenciais, e as tatuagens.
O que terá originado essa inversão tão radical? Provavelmente o facto de não termos sabido lidar com o corpo de forma equilibrada. Quando falta o equilíbrio rapidamente se passa de um extremo ao outro.
O mundo ocidental, estribado numa interpretação muito discutível da sexualidade, de origem judaico-cristã, mas com laivos pagãos (não esqueçamos Platão e os gnósticos), reprimiu sempre a vivência de uma sexualidade saudável, ao longo dos séculos. A sociedade vitoriana persiste ainda como paradigma cristão (relativamente próximo, em termos históricos) do persistente equívoco de confundir sexo com pecado, e que reduz quase exclusivamente o pecado à sexualidade.
A perda da ascendência e paternalismo religiosos nas sociedades europeias e a subsequente emergência das sociedades laicas, na sequência da revolução francesa, abriram caminho a uma reconstrução filosófica do corpo, agora sem o necessário ónus do pecado e da culpa, tão presente na tradição cristã. Provavelmente as tendências materialistas na direcção das quais a sociedade evoluiu, trataram do resto.
Ou seja, perdeu-se o sentido profundo do corpo, presente desde sempre na teologia cristã, mas constantemente obnubilado pela paranóia sexual, sentido esse que vai muito para lá da sua dimensão meramente física e material.
O corpo não é só matéria, não se confina ao domínio do físico, representa o que somos, é a nossa fronteira externa, é através dele que concebemos a vida no mundo dos homens e na relação com a Natureza. Mais. Embora o ser humano seja essencialmente espírito, porque Deus é Espírito (1) e fomos criados à sua imagem e semelhança, a verdade é que desconhecemos a possibilidade de subsistir neste mundo, a não ser enquadrados por uma corpo físico, que dá sentido ao que somos interiormente. Por isso não posso separar o que sou do meu corpo, que também sou, embora não seja ele a minha essência.
O apóstolo Paulo dizia que quem se deitava com uma prostituta ficava ligado a ela: “Ou não sabeis que o que se ajunta com a meretriz, faz-se um corpo com ela?” (2). Ora, essa ligação só poderá ser do foro espiritual e não físico, já que a ligação física é efémera. O que leva a crer que corpo e espírito (ou alma) são dificilmente dissociáveis durante a vida humana e terrena. Ao contrário dos arroubos heréticos que a igreja cristã teve que enfrentar nos seus primórdios, daqueles que diziam ser possível pecar com o corpo mantendo a alma pura…
Perdido o sentido do corpo para uma perspectiva meramente reducionista, animal e biológica, ele passa a assumir uma função apenas utilitária. Assim se compreende que ethos, no que concerne ao corpo, seja confinado a uma postura hedonista e instrumental. Já não importa o mal que faço ao meu corpo, desde que me sinta bem no momento. O corpo é meu, faço com ele o que quiser.
No fundo o corpo não é mais do que uma espécie de casa, invólucro que eu utilizo como me apetece, podendo até destruí-lo se e quando quiser. E é claro que, se eu não respeitar o meu próprio corpo, dificilmente respeitarei o dos outros.
Acontece que a perspectiva cristã e bíblica é bem diferente, e muito mais responsabilizadora: “vós sois o templo do Deus vivente” (3). Coisa séria.
(1) João 4:24.
(2) 1 Coríntios 6:16.
(3) 2 Coríntios 6:16.
Texto 12: FÉ E SAÚDE
Brissos Lino
Setembro 2008
Um dos argumentos mais avançados pelos que se opõem à crença religiosa é o de que a fé não passa de pura ilusão, que nada pode alterar na vida das pessoas e nos seus problemas concretos.
Tomando os seus desejos por realidade, os ateístas militantes estão a encontrar dificuldades crescentes com investigações cada vez mais rigorosas que se têm vindo a desenvolver, na área médica, e que parecem contradizer de forma cada vez mais sólida essa ideia feita. De facto, cada vez mais a Medicina confirma que a fé, se não move montanhas, no sentido literal, pelo menos faz muito bem à saúde.
Segundo Koenig, “quem ora todos os dias e frequenta cerimónias religiosas semanalmente tem um sistema imunológico mais resistente, sofre menos com hipertensão e outras moléstias e, mesmo se hospitalizado, tolera melhor os tratamentos e apresenta respostas mais rápidas às terapias do que as pessoas sem religião.”
Médico psiquiatra na prestigiada faculdade de medicina da Universidade de Duke, na Carolina do Norte, e director do seu “Centro para Espiritualidade, Teologia e Saúde”, Harold G. Koenig começou a investigar a ligação entre espiritualidade e saúde há quase trinta anos.
Este tipo de pesquisa tem surgido nos últimos anos, sistematicamente, em publicações médicas e científicas internacionais, altamente qualificadas, como as revistas Nature, Science ou Lancet, situando-se hoje no centro do debate académico em boa parte do mundo desenvolvido.
Uma pesquisa desenvolvida conjuntamente pela Universidade Federal de São Paulo e a Universidade Católica de Pelotas (RS) investigou a relação entre bem-estar espiritual e distúrbios psiquiátricos e concluiu que, quanto maior a prática religiosa, melhor é a saúde mental do indivíduo. O levantamento abordou os hábitos religiosos e o estado de saúde de 464 pessoas, e, a partir das análises dos resultados, os pesquisadores concluíram que existe estreita relação entre eles.
“Indivíduos com bem-estar espiritual baixo apresentaram o dobro de chances de possuir transtornos psiquiátricos”, aponta o estudo, e destaca que a literatura médica tem vindo a sublinhar as evidências de que a espiritualidade seria um importante factor de protecção do organismo. Nos doentes oncológicos idosos, esse bem-estar espiritual está relacionado com atitudes positivas de combate à enfermidade.
Alexandre Moreira de Almeida, fundador do Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde (Nupes) da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG) afirma que os estudos apontam que esta relação é saudável e a fé faz bem ao paciente, o que tem vindo a interessar a comunidade médica. Um exemplo é a publicação de um suplemento na revista Psiquiatria Clínica da USP: “É a primeira publicação, em língua portuguesa, de um material em uma revista científica que contemple as questões da espiritualidade e da saúde”, observa.
Nos meios médicos, os episódios de remissão clara de doenças graves são atribuídos ao chamado “efeito placebo”. Ou seja, atribui-se a melhora do paciente a uma predisposição psicológica favorável, que acaba por influenciar decisiva e positivamente a evolução do seu quadro clínico.
Mas há uma outra razão, muito mais determinante, para obstar a que um médico declare que uma cura não directamente resultante da acção terapêutica, tenha sido desencadeada por acção sobrenatural ou intervenção divina: a legislação que rege a classe médica. E por isso há quem pense que a onda pós-moderna que sucedeu ao paradigma científico moderno, de vocação iluminista, possa contribuir para resgatar o papel da fé cristã na cura plena.
De acordo com a revista Cristianismo Hoje, há actualmente um conjunto significativo e incontornável de evidências científicas, resultado de diversos e sucessivos estudos médicos, que comprovam as vantagens para a saúde de quem tem fé religiosa, independentemente da religião professada ou da igreja a que a pessoa pertence:
· Nas universidades americanas de Iowa, Stanford e Duke, um levantamento incluindo dados de 42 pesquisas, com o total de 126 mil questionários respondidos, concluiu que quem frequenta serviços religiosos e pratica uma religião vive, em média, mais 29 por cento de tempo do que as pessoas que não possuem nenhum tipo de fé.
· Estudos da Academia Americana de Neurologia associaram “comportamentos religiosos” com uma progressão mais lenta nas doenças.
· Pacientes portadores de vírus HIV e que mostraram um aumento na espiritualidade após o diagnóstico tiveram diminuição da carga viral – factor determinante no combate às infecções oportunistas – e uma evolução mais lenta dos malefícios associados à Sida.
· Tratamentos que causam grande desconforto físico, como a quimioterapia e a radioterapia, são melhor tolerados por doentes que professam alguma fé religiosa.
· Ao contrário do que se poderia imaginar, pacientes que crêem na possibilidade de cura sobrenatural costumam seguir com mais rigor a medicação prescrita.
· Os doentes que confiam em Deus encaram melhor o tempo de hospitalização, colaboram com os tratamentos prescritos e encontram sentido no sofrimento e na morte.
· De um modo geral, membros de comunidades religiosas costumam receber muitas visitas quando internados, o que melhora a sua auto-estima e produz resultados benéficos para a saúde.
· O nível de stress dos pacientes terminais é menor naqueles que acreditam na vida após a morte.
Texto 11: O PROBLEMA DO MAL
Brissos Lino
Setembro de 2008
O problema do mal é talvez a questão central na economia da Salvação e na relação do ser humano com a transcendência. Problema esse que tanto a filosofia com a teologia e outras disciplinas do saber têm encontrado dificuldade em desvendar cabalmente.
Enquanto a filosofia resolveu aparentemente a dificuldade através do optimismo antropológico exacerbado, criando o culto do ser humano, a exaltação humanista, a teologia cristã esbarra com a doutrina do chamado Pecado Original.
Considerado incontornável para explicar a universalização do mal, o Pecado Original também serve de base para a teologia do sacrifício, sendo que Cristo foi crucificado para aplacar a maldição de Deus que repousa sobre a raça humana desde o pecado de Adão. Coisa que constitui escândalo para Saramago, no seu “Evangelho de Jesus Cristo”, e para muitos outros intelectuais e pensadores que não se identificam com a área cristã.
Foi o cristianismo ocidental que forjou inicialmente esta ideia, pela mão de Agostinho de Hipona, que lhe deu também o nome, que é extra-bíblico.
Segundo Gondim: “Quando Pelágio o enfrentou nessa questão, Agostinho ganhou o duelo. Os debates que envolviam liberdade e depravação definiram a teologia desde então. Já ouvi alguém afirmar que depois de Santo Agostinho, tudo o que se escreveu sobre a antropologia cristã não passa de nota de rodapé. Não é preciso dizer que Pelágio desceu no ralo da história como herege e Agostinho virou santo.”
Santo Anselmo ajudou à festa, mais tarde, e o reformador alemão Martinho Lutero veio a inspirar-se no apóstolo Paulo, em especial na Epístola aos Romanos, para construir a sua teologia da graça.
Mas a coisa não ficou por aqui. Os puritanos ingleses e os calvinistas holandeses carregaram ainda mais nas tintas e levaram esta doutrina ao extremo, defendendo a ideia da dupla predestinação. Deus teria criado alguns para se perderem e caírem no inferno e outros para a salvação e as bem-aventuranças do céu. Profunda injustiça determinista…
Mas faz sentido questionar uma tradição teológica cristã tão firmemente estabelecida desde Agostinho? A meu ver não só faz sentido discutir o pressuposto, como entendo que deve mesmo ser discutido, por imperativo teológico, para o aprofundamento da fé, por algumas razões que podemos considerar suficientemente relevantes.
Antes de mais, nenhum teólogo ou rabino judaico considerou a hipótese do Pecado Original enquanto fatalidade inerente à natureza humana, por via adâmica.
Por outro lado, nenhum dos quatro Evangelhos relata qualquer ensino do Mestre da Galileia sobre a matéria, e nenhuma outra escritura bíblica o defende, tanto no Antigo Testamento como no Novo.
Pelo contrário, quando os discípulos de Jesus lhe perguntaram sobre a razão de ser da deficiência física de um homem, baseados numa crença judaica, Ele explicou-lhes que a cegueira daquele homem não era provocada por algum pecado dele ou dos seus pais, “mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus” (Evangelho de João 9:3). Ora este ensino contradiz a ideia de transmissão hereditária de pecado ou culpa, de pais para filhos, de uma geração a outra geração. De resto, muitos dos teólogos contemporâneos já abandonaram esta doutrina agostiniana.
Mas o principal problema levantado pela doutrina do pecado original, se reflectirmos um pouco, é ser profundamente desresponsabilizadora do indivíduo. Surge como uma fatalidade histórica, inerente à condição humana, e alheia ao domínio da minha consciência e carácter: os meus actos, palavras, pensamentos e omissões. Faça ou deixe de fazer, a culpa está em mim, mas não é minha… é herdada dos meus pais. Que posso eu fazer? Infelicidade ter nascido humano… e ter tido um “pai” longínquo (ele sim, responsável) que me passou o ferrete do pecado.
Mas o meu próximo também não é melhor do que eu. Teve a mesma sina. Não me poderá servir de exemplo ou inspiração.
Nas sociedades antigas, organizadas por sistema de clãs, compreende-se melhor esta ideia de Agostinho. Neste tipo de organização social, a desonra de um homem seria a desonra da sua família e prole, da mesma forma como ainda hoje, em sociedades arcaizadas, lavar a honra com sangue, limpa toda uma família perante a sociedade.
Mas a questão é que nas sociedades actuais, onde o primado do indivíduo e os direitos da pessoa humana se sobrepõem ao conjunto da família, revela-se inadequado e até incompreensível este tipo de automatismos mentais.
Como reinterpretar então a Epístola aos Romanos e a teologia paulina no que se refere à Queda? Terá o ser humano logo à nascença o inevitável ferrete de pecado, pessoal e incontornável, ou será à condição humana no seu todo que se refere o apóstolo nos seus escritos?
E o que será mais importante de tudo, afinal? O nosso sangue (natureza) ou o pecado de Adão? Termos sido criados por Deus, ou a falha de Adão? E o que será mais significativo para o nosso Criador? O facto de termos sido criados à sua imagem e semelhança, ou a desobediência de Adão?
Parece que a fábula do lobo e do cordeiro, afinal, tem raízes bem antigas. Se não foste tu que sujaste a água foi o teu pai…
Como afirma Melancia, “Em vez do pecado original, valorizemos, isso sim, a imagem original – a Imago Dei – impressa em cada Homem e que faz de cada homem e mulher um filho de Deus; sem condições ou condicionalismos!”
Texto 10: DISCURSO SOBRE DEUS
Brissos Lino
Agosto 2008
Como escreveu o filósofo ateu A. Comte-Sponville, “ninguém sabe, no sentido forte da palavra, se Deus existe ou não. Se encontrardes alguém que vos diga: ‘Eu sei que Deus não existe’, esse não é em primeiro lugar um ateu, é um imbecil”.
(Anselmo Borges)
“Diz o louco: não há Deus!”
(Rei Salomão)
Costumo dizer que não se pode provar cientificamente a existência de Deus, tal como não se pode provar, cientificamente, a sua não existência. E porquê? Porque a abordagem científica exige provas concretas, verificação, aplicação de instrumentos, análise de dados e interpretação de resultados.
Ora, sendo Deus uma realidade que se inscreve no domínio da transcendência, situa-se num plano substancialmente diferente do científico.
Quer isto dizer que Deus é necessariamente uma ilusão, como alguns têm defendido? De modo nenhum. Há muita realidade que a ciência ainda não conseguiu entender, interpretar e até percepcionar, e que não é menos realidade do que a realidade estudada, explicada e conhecida.
Já para não falar dos constructos teóricos que a ciência defende, anos a fio, e que mais tarde, mercê do aperfeiçoamento da pesquisa e perante a obtenção de novos resultados, vem a concluir em sentido diverso ou mesmo oposto. A ciência não é, nem pode ser, pela sua própria natureza, uma tarefa acabada.
Significa isto que é impossível conhecer Deus? Também não. A questão é que o conhecimento divino terá que se revestir de natureza diferente do científico. Ou seja, terá que acontecer no domínio pessoal, experiencial e não meramente intelectual. E é aqui que entra a fé.
Vejamos. Se a existência de Deus pudesse ser provada pela ciência, para o que serviria então a fé? Para nada. Mas tudo acontece na vida cristã através da fé. Desde logo porque sem fé é impossível agradar a Deus (Hebreus 11:6).
O apóstolo Paulo testemunha “guardei a fé” (II Timóteo 4:7), como sendo o bem mais precioso, o sentido da sua vida, que também classifica como uma das três maiores virtudes cristãs (I Coríntios, 13:13).
E escreve o autor da Carta aos Hebreus: “Pela fé entendemos que os mundos pela palavra de Deus foram criados” (11:3)
Mas a fé nem sequer tem razões que a expliquem a si própria. Tal como se costuma dizer, a propósito da vida sentimental, que o coração tem razões que a razão desconhece. Como escreveu Ricardo Gondim: “Não sei explicar as razões da minha fé. Não sei dizer os porquês da minha devoção. Sinto-me inadequado para convencer os indiferentes a desejaram a pitada do sal que tempera o meu viver. Tudo o que sei sobre o Divino é provisório. Minhas convicções vacilam. Todas as certezas são, decididamente, vagas (…) O que dizer de Deus? Tão pouco! Espero, tão-somente, que o meu espanto expresse o tamanho da minha reverência.”
O conceito e a percepção do divino sempre estiveram inscritos na história e na consciência do ser humano, desde os tempos mais remotos. Não se trata de uma questão cultural nem a consciência e a percepção do divino foi ensinado, induzido ou manipulado por alguém. É instintivo, interno à pessoa humana.
Talvez por isso o rei Salomão, um dos homens mais sábios de sempre, tenha posto na boca do néscio a confissão da inexistência de Deus. Uma verdadeira tolice, já que, para ele, a natureza concreta e a presença do divino eram demasiado óbvias.
Texto 9: RÓTULOS
Brissos Lino
Agosto de 2008
Os “ismos” estão na moda, por todo o lado, desde a política à religião.
Ao longo da história do Cristianismo as designações específicas de grupos de cristãos fizeram escola. Tornaram-se uma espécie de bandeira ou marca distintiva de cada um desses grupos em relação a outros.
O Novo Testamento revela-nos que os primitivos discípulos de Jesus Cristo, confundidos com uma seita judaica, foram denominados “os do caminho” até que, em Antioquia, receberam pela primeira vez o rótulo de cristãos (Actos dos Apóstolos, 11:26). Desde aí foram-se acumulando milhentas designações, denominações, ramos ou sensibilidades que desembocam numa perfeita confusão passados vinte séculos de história.
Baseados numa noção universalista (católicos), numa ortodoxia doutrinária (ortodoxos), no nome de um fundador (luteranos), de um processo histórico (reformados), de uma forma de governo eclesial (presbiterianos), de uma prática religiosa (anabaptistas), de uma praxis (puritanos), de um nacionalismo (anglicanos), de uma doutrina (pentecostais), de um processo político (episcopais), ou até de uma recusa em admitir designação específica (irmãos), os cristãos foram levantando muros entre eles que os fizeram tornar-se escândalo para o mundo.
Segundo Walter Waltmann, do Conselho Mundial de Igrejas (WCC), existem hoje “mais de 38 mil tipos de denominações cristãs diferentes, entre católicos, ortodoxos, anglicanos, metodistas, luteranos, baptistas, presbiterianos, pentecostais e neopentecostais” entre outros (1).
Nos primeiros séculos da era cristã, e perante a arremetida de múltiplas heresias, provenientes de diversos sectores religiosos e filosóficos, a Igreja procurou passar ao papel as bases fundamentais da sua fé, e assim nasceram os credos. Foi pela mesma razão que a Igreja se organizou, através dos concílios e da instituição da hierarquia eclesiástica, de modo a resistir também ao perigo latente de desagregação, provocado pelas perseguições e pelo seu crescimento exponencial.
Mas aquilo que se fez com a intenção inicial de assegurar a sua preservação, acabou por se transformar, por via do exagero (de resto, à semelhança do que fizeram os judeus com a lei de Moisés, a Misdrash e o Talmude), em excesso de valorização da letra e défice de atenção prestada ao espírito.
Ao longo dos séculos, os dogmas e declarações de fé foram construindo a base identitária das igrejas e denominações cristãs, mas também cavando fossos entre elas, baseados nas marcas distintivas de cada uma e na sua diferenciação, ao arrepio do clamor de Jesus na sua oração sacerdotal (S. João, 17).
Mas o que significam hoje os rótulos, num tempo em que até as ideologias foram substituídas pelo pragmatismo, ainda que não tenhamos chegado ao fim da História, ao contrário do que sugeria Fukuyama em finais do século passado (2)? Muito pouco.
As denominações em geral nasceram de processos históricos, resultantes da dialéctica entre uma ênfase na igreja institucionalizada e a uma ênfase na espiritualidade pessoal, de acordo com o efeito de pêndulo, tendo pelo meio diversas influências e poderosos interesses políticos, dos quais resultaram guerras fratricidas e rivalidades que ainda hoje permanecem, embora mitigadas.
Mesmo dentro das grandes igrejas e denominações se pode observar o mesmo sectarismo e tentação de luta pelo poder entre grupos, pelo que o problema não reside propriamente nessas estruturas, que têm a sua razão de ser. Está antes na natureza humana, no sectarismo denominacional (interno e externo) que ele normalmente suscita, em especial quando estas são dirigidas por indivíduos retrógrados, de espírito fechado, mais preocupados com a segurança pessoal da sua carreira do que com o seu múnus pastoral.
A verdade é que Jesus Cristo não fundou qualquer denominação ou igreja particular. Fundou a Igreja, a Sua Igreja (S. Mateus 16:18).
É por isso mesmo que, quanto a mim, o único rótulo de que não estou disposto a prescindir é o de cristão. Tudo o resto é circunstancial e secundário.
É em Jesus Cristo que o ser humano se deve inspirar completamente, pois só Ele é o nosso modelo e exemplo. E Cristo não é propriedade de ninguém, nem pessoa, nem organização.
(1) http://www.revistaenfoque.com.br/index.php?edicao=84&materia=1103
(2) Fukuyama, Francis, “O Fim da História e o Último Homem”, Ed. Círculo de Leitores, Lisboa, 1992.
Texto 8: IGREJA: IMPOSIÇÃO OU INFLUÊNCIA?
Brissos Lino
Agosto de 2008
Uma conhecida pregadora evangélica americana defendia publicamente, com toda a convicção, em evento realizado há uns anos em Portugal, que grande parte do povo cristão nos EUA estava a pedir a Deus para que a oração obrigatória no início das aulas fosse reposta por lei nas escolas públicas americanas. Discordei em absoluto, e as razões são muito simples.
Antes de mais nunca li nas Escrituras que Jesus Cristo tivesse alguma vez ensinado aos seus discípulos que deveriam fazer algo do género. Também nunca vi que o Mestre tivesse reprovado alguém por fazer poucas orações, fora da sua devoção pessoal privada: “Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente” (S. Mateus 6:6), ou no acto de culto: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações” (Actos dos Apóstolos 2:42), ou por falta de prática de rituais religiosos.
Mas o motivo principal da minha discordância com tal objectivo é muito concreto: não gostaria de ver um filho meu obrigado a rezar uma “Avé Maria” na abertura das aulas, já que vivo num país de tradição católica.
Não creio que Deus se ocupe do tipo de oração preconizado pela pregadora em questão, o qual me parece ter pouco ou nada que ver com a vivência e a expressão do reino de Deus entre os homens.
Acredito firmemente que a Igreja deve influenciar a sociedade através da sua função profética, apostólica e pastoral, da sua praxis e discurso, e não ceder à tentação de o fazer através da via institucional e política.
Acredito, também, que a Igreja nunca deve impor a sua doutrina à sociedade. Não tem esse direito. A Deus o que é de Deus, e a César o que é de César. Sempre que o Cristianismo cedeu à tentação do poder, ao longo da história, deu mau resultado. Hoje vemos uma tentação semelhante, na área do fundamentalismo islâmico, e é a desgraça que se sabe.
Os cristãos devem, sim, influenciar a comunidade humana onde se inserem (por isso são considerados por Jesus como “sal da terra” e “luz do mundo”), mas nunca forçar os outros a aceitar os seus princípios e valores, por qualquer tipo de imposição, porque o reino de Deus não se estabelece pela força ou violência, mas pelo Espírito de Deus: “Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos.” (Zacarias 4:6b). Não temos que enfiar a luz à força pelos olhos das pessoas dentro, nem que os obrigar a mastigar as pedras de sal…
Uma coisa é sensibilizar as consciências, outra é impor uma leitura específica, uma hermenêutica religiosa, a toda uma comunidade secular que não se revê nos mesmos valores.
A função profética da Igreja, tão maltratada nos últimos tempos, remete-nos para os oráculos divinos. A Igreja tem que dar a conhecer ao mundo o coração e a mente de Deus, que nos são revelados através das Escrituras. A voz da Igreja será profética na medida em que conseguir expressar a filosofia do reino, isto é, o coração do Pai.
A função apostólica da Igreja caracteriza-se pelo trabalho pioneiro que realiza. Abrir um caminho novo nas mentes e nos corações dos homens, de forma prática, objectiva e perceptível.
Se a função profética aponta caminhos, fala aos valores e princípios, a função apostólica passa por trazê-los à prática, materializando-os e contextualizando-os na praxis quotidiana e na cultura.
A função pastoral da Igreja é construir uma comunidade de discípulos e adoradores, que funcione como testemunha visível de que o reino de Deus está entre nós. Esta função completa as vertentes profética e apostólica da Igreja.
Enquanto profética a Igreja aponta caminhos aos homens, enquanto apostólica desbrava terrenos, enquanto pastoral cuida de cada um no seu percurso pessoal e comunitário de fé, estimulando-o à comunhão com Cristo.
Digamos que o pastor mantém a lâmpada abastecida de azeite, o apóstolo coloca-a no velador, e o profeta ajuda a distinguir as zonas de trevas das zonas de luz.
A caracterização bíblica do reino de Deus dá-nos uma ideia do papel interventivo da igreja, agente principal desse reino espiritual: “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo “ (Carta aos Romanos, 14:17). Por isso a Igreja não pode deixar de se revelar ao mundo como arauto da justiça (do ponto de vista divino), construtora da paz, e um espaço de alegria, de prazer, de vida, fé e esperança.
Texto 7: IMAGO DEI
Brissos Lino
Agosto de 2008
“Mesmo quando soterrada pela maldade, cada pessoa carrega a Imago Dei, a Imagem de Deus, e essa dádiva não pode se perder. Cristo veio buscar e salvar os esmagados pelo mal para fazer ressurgir a sua glória, impressa nos corações.”
(Ricardo Gondim)
Há temas que são de desconfortável abordagem para um evangélico. Coisas que sempre se ouviram ensinar da mesma forma e que parece quase heresia questionar. Mas o facto é que a minha perspectiva de vivência cristã passa exactamente pelo questionamento permanente das bases da nossa fé, sob pena de ela se tornar uma tradição sem substância e deixar de ser um fundamento, uma certeza.
Vem isto a propósito da condição que diferentes ramos do Cristianismo atribuem aos homens: somos apenas criaturas de Deus ou filhos de Deus?
Os católicos sustentam uma visão universal. Consideram que todos os seres humanos são filhos de Deus. Os evangélicos não. Consideram que só têm o direito de ser chamados dessa forma aqueles que aderiram à fé cristã, com base na escritura do Evangelho Segundo S. João: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; aos que crêem no seu nome.” (1:12).
Como a ênfase evangélica da economia da Salvação vai para o acto da conversão pessoal a Deus e subsequente caminhada cristã, não se compreende, nos meios evangélicos, a perspectiva católica da identidade de filho de Deus, generosamente atribuída com um carácter universal. Defende-se então que todo o ser humano é apenas uma “criatura de Deus” antes da metanoia (processo da conversão pessoal a Deus, através do acto de fé e vontade, com base no sacrifício vicário de Cristo). E só depois da metanoia passa a poder ser chamado, com direito, “filho de Deus”.
Sabemos que a expressão bíblica “filho de” significa “da mesma natureza de”. Logo, a questão central é esta: o ser humano é ou não da mesma natureza (moral e espiritual) de Deus? E se é, então porque não pode ele ser chamado “filho”, com todo o direito.
Como se pode ver, tal reflexão transporta-nos inevitavelmente à questão agostiniana do pecado original e à Queda.
Quando o ser humano caiu da graça divina, e foi despojado da glória de Deus que o revestia (Romanos 3:23), por influência directa do pecado, tornou-se no quê, afinal? Qual a sua essência ontológica?
Horácio, na sua visão antropológica pagã, dizia que o homem é apenas “pó e trevas”. Freud anui a essa visão depressiva e profundamente negativa. Carl Rogers, porém, tem uma visão do ser humano muito mais positiva, chegando a preconizar o paradigma da pessoa “plenamente funcionante”.
O Apóstolo Paulo, na linha de Agostinho, e provavelmente a fim de exaltar a excelência do perdão, da misericórdia e da Graça divinas, pinta com tintas o mais negras possível a natureza humana decaída: “(…) onde o pecado abundou, superabundou a graça!” (Carta aos Romanos, 5:20b)
Digamos que tudo depende da perspectiva. Voltamos à velha história do copo meio vazio, para uns, e meio cheio para outros.
Apesar do trauma precoce sofrido, por efeito do pecado, a verdade é que o ser humano nunca deixou de transportar em si a marca de Deus, a imago Dei. E nesse sentido, mesmo que longe do Pai e mergulhado na imundície (qual filho pródigo antes do regresso à casa paterna), não se pode dizer que não seja filho de quem é.
O toxicodependente, ainda que abandonado, deserdado e ignorado pelos próprios pais, não continua a transportar nas veias o mesmo sangue e os genes paternos?
O que o momento do regresso, do arrependimento, da metanoia, faz é restaurar no filho perdido e entretanto achado, as marcas da dignidade filial que haviam ficado pelo caminho (o banho, a túnica, o anel, as sandálias, o banquete), assim como a comunhão com o Pai.
Aliás, creio ser exactamente por essa razão, por reconhecer a marca de Deus em todo o ser humano, que a cultura ocidental baniu a escravatura, a pena de morte (quase por completo), e revestiu de sacralidade a vida humana, independentemente do carácter pessoal ou merecimento específico dos indivíduos em questão. Isso acontece justamente porque a cultura ocidental, estribada em fundamentos judaico-cristãos, reconhece em todo o ser humano a imago Dei.
Considero, portanto, que os católicos enfatizam mais a imago Dei presente em todo o ser humano, e os evangélicos, mais vulneráveis ao que Ricardo Gondim chama o “pessimismo antropológico”, enfatizam sobretudo a metanoia, ou seja, a restauração da glória divina no indivíduo.
Por isso não me enquadro exclusivamente em nenhuma das “linhas”.
Considero que todos somos filhos de Deus, do ponto de vista da Criação, pois todos os seres humanos são e foram criados à Sua imagem e semelhança. Mas considero filhos, do ponto de vista da Redenção, apenas os que experimentaram uma metanoia.
Se quisermos dizer de outro modo, todos os seres humanos são filhos de Deus, mesmo que o ignorem, escarnecem ou sejam rebeldes para com Ele, pois não poderiam apagar a marca divina (a imago Dei) plasmada na sua humanidade, mesmo que o quisessem.
Mas só têm o prazer da comunhão com Deus os que a Ele se chegam, e o reconhecem e respeitam como Pai.
Texto 6: INSTRUÇÃO, EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO (PDF)

Texto 5: BREVE COMENTÁRIO À CARTA ENCÍCLICA “SPE SALVI”
1.
Introdução
O Vaticano publicou uma nova encíclica, desta vez sob o tema da Esperança, importante conceito da vida cristã.
A sua argumentação geral é extremamente densa e hermética, pelo que até os bispos terão que se empenhar a fundo para compreender o seu conteúdo, quanto mais o leigo comum.
2.
Preocupação com a fundamentação bíblica
Ao longo de quase todo o documento nota-se uma preocupação em fundamentar os conceitos elaborados e as perspectivas desenvolvidas numa exegese dos textos bíblicos, o que é louvável no catolicismo romano, cuja prática histórica e doutrinária demasiadas vezes se estriba nos textos conciliares, na chamada Tradição, ou em escritos não canónicos. Como no caso da referência que faz à vida e testemunho de Josefina Bakhita, uma africana canonizada pelo Papa João Paulo II, para ilustrar a descoberta e vivência da esperança cristã (3).
3.
Mudança de paradigma cosmológico
O chefe da igreja católica referencia a mudança de paradigma cosmológico com o qual o Cristianismo superou os cultos pagãos, e a fé racional a astrologia (5).
4.
Críticas à teologia luterana
Mas não resiste a criticar uma interpretação da Carta aos Hebreus (1:1) de Lutero, como se tivesse necessidade de sublinhar a superioridade da teologia romana sobre a protestante (7).
5.
A origem e dádiva da fé
Bento XVI trata o dom da fé como sendo um dom privado e exclusivo da igreja, ao arrepio das Escrituras, que declaram ser “um dom de Deus” : “O sacerdote perguntava, antes de mais nada, qual era o nome que os pais tinham escolhido para a criança, e prosseguia: «O que é que pedis à Igreja?». Resposta: «A fé». «E o que é que vos dá a fé?». «A vida eterna». Como vemos por este diálogo, os pais pediam para a criança o acesso à fé, a comunhão com os crentes, porque viam na fé a chave para a «vida eterna». Com efeito hoje, como sempre, é disto que se trata no Baptismo, quando nos tornamos cristãos: é não somente um acto de socialização no âmbito da comunidade, nem simplesmente de acolhimento na Igreja. Os pais esperam algo mais para o baptizando: esperam que a fé – de que faz parte a corporeidade da Igreja e dos seus sacramentos – lhe dê a vida, a vida eterna” (10).
A verdade é que em parte alguma da Bíblia se diz que a fé é atribuída à pessoa através da igreja, isto é, que a igreja seja mediadora entre Deus e o ser humano. Pelo contrário, afirma claramente que “só há um mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem” (1ª. Timóteo 2:5). Não a igreja, qualquer igreja.
6.
Conceito de vida eterna
A Encíclica apresenta uma abordagem confusa relativamente ao conceito de “vida eterna”. Diz assim: “A palavra «vida eterna» procura dar um nome a esta desconhecida realidade conhecida. Necessariamente é uma expressão insuficiente, que cria confusão. Com efeito, «eterno» suscita em nós a ideia do interminável, e isto nos amedronta; «vida», faz-nos pensar na existência por nós conhecida, que amamos e não queremos perder, mas que, frequentemente, nos reserva mais canseiras que satisfações, de tal maneira que se por um lado a desejamos, por outro não a queremos. A única possibilidade que temos é procurar sair, com o pensamento, da temporalidade de que somos prisioneiros e, de alguma forma, conjecturar que a eternidade não seja uma sucessão contínua de dias do calendário, mas algo parecido com o instante repleto de satisfação, onde a totalidade nos abraça e nós abraçamos a totalidade. Seria o instante de mergulhar no oceano do amor infinito, no qual o tempo – o antes e o depois – já não existe. Podemos somente procurar pensar que este instante é a vida em sentido pleno, um incessante mergulhar na vastidão do ser, ao mesmo tempo que ficamos simplesmente inundados pela alegria. Assim o exprime Jesus, no Evangelho de João: «Eu hei-de ver-vos de novo; e o vosso coração alegrar-se-á e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria» (16,22). Devemos olhar neste sentido, se quisermos entender o que visa a esperança cristã, o que esperamos da fé, do nosso estar com Cristo” (12).
Ou seja, sugere-se que a vida eterna de que a Bíblia fala é um momento sublime de plenitude no encontro com Cristo, deixando implícito que o conceito de eternidade, passada a existência humana, não é nada… No mínimo é confuso, ou está muito mal explicado.
7.
Salvação pessoal ou comunitária?
A Carta apresenta a perspectiva única de salvação comunitária, esquecendo a salvação individual, tradicional do Protestantismo, como resposta consciente, autónoma e voluntária do ser humano ao amor de Deus:
“Henry de Lubac, baseando-se na teologia dos Padres em toda a sua amplidão, pôde demonstrar que a salvação foi sempre considerada como uma realidade comunitária. A mesma Carta aos Hebreus fala de uma «cidade» (cf. 11,10.16; 12,22; 13,14) e, portanto, de uma salvação comunitária.” (14), e também: “Como pôde desenvolver-se a ideia de que a mensagem de Jesus é estritamente individualista e visa apenas o indivíduo? Como é que se chegou a interpretar a «salvação da alma» como fuga da responsabilidade geral e, consequentemente, a considerar o programa do cristianismo como busca egoísta da salvação que se recusa a servir os outros?” (16)
Partindo da ideia de que o cristão não pode reservar a salvação da sua alma para si mesmo, nem viver para si mesmo esquecendo o próximo (os outros), o que seria uma atitude egoísta, corre o risco de passar ao lado da responsabilidade individual e pessoal que é clara e inequivocamente proposta por Jesus na Grande Comissão (“quem crer e for baptizado será salvo” (S. Marcos 16:16).
8.
Razão e Fé
Bento XVI sublinha, e bem, a necessidade da razão, enquanto parceira ou companheira da fé na vida cristã:
“Digamos isto de uma forma mais simples: o homem tem necessidade de Deus; de contrário, fica privado de esperança. Consideradas as mudanças da era moderna, a afirmação de S. Paulo, citada ao princípio (Ef 2,12), revela-se muito realista e inteiramente verdadeira. Portanto, não há dúvida de que um «reino de Deus» realizado sem Deus – e por conseguinte um reino somente do homem – resolve-se inevitavelmente no «fim perverso» de todas as coisas, descrito por Kant: já o vimos e vemo-lo sempre de novo. De igual modo, também não há dúvida de que, para Deus entrar verdadeiramente nas realidades humanas, não basta ser pensado por nós, requer-se que Ele mesmo venha ao nosso encontro e nos fale. Por isso, a razão necessita da fé para chegar a ser totalmente ela própria: razão e fé precisam uma da outra para realizar a sua verdadeira natureza e missão.” (23)
9.
Redenção do homem
Bento XVI assinala que a verdadeira redenção do ser humano não provém de fora, da ciência, mas do amor de Deus:
“O homem não poderá jamais ser redimido simplesmente a partir de fora. Equivocaram-se Francisco Bacon e os adeptos da corrente de pensamento da idade moderna nele inspirada, ao considerar que o homem teria sido redimido através da ciência. Com uma tal expectativa, está-se a pedir demasiado à ciência; esta espécie de esperança é falaz. A ciência pode contribuir muito para a humanização do mundo e dos povos. Mas, também pode destruir o homem e o mundo, se não for orientada por forças que se encontram fora dela. Além disso, devemos constatar também que o cristianismo moderno, diante dos sucessos da ciência na progressiva estruturação do mundo, tinha-se concentrado em grande parte somente sobre o indivíduo e a sua salvação. Deste modo, restringiu o horizonte da sua esperança e não reconheceu suficientemente sequer a grandeza da sua tarefa – apesar de ser grande o que continuou a fazer na formação do homem e no cuidado dos fracos e dos que sofrem.” (25)
“Não é a ciência que redime o homem. O homem é redimido pelo amor. Isto vale já no âmbito deste mundo. Quando alguém experimenta na sua vida um grande amor, conhece um momento de «redenção» que dá um sentido novo à sua vida. Mas, rapidamente se dará conta também de que o amor que lhe foi dado não resolve, por si só, o problema da sua vida. É um amor que permanece frágil. Pode ser destruído pela morte. O ser humano necessita do amor incondicionado.” (26)
10.
Vida abundante e vida eterna
O papa associa muito bem o desconhecimento de Deus, por parte do ser humano, à sua falta de esperança, mas volta a cair na confusão entre os conceitos de “vida abundante” e de “vida eterna”:
“Neste sentido, é verdade que quem não conhece Deus, mesmo podendo ter muitas esperanças, no fundo está sem esperança, sem a grande esperança que sustenta toda a vida (cf. Ef 2,12). A verdadeira e grande esperança do homem, que resiste apesar de todas as desilusões, só pode ser Deus – o Deus que nos amou, e ama ainda agora «até ao fim», «até à plena consumação» (cf. Jo 13,1 e 19,30). Quem é atingido pelo amor começa a intuir em que consistiria propriamente a «vida». Começa a intuir o significado da palavra de esperança que encontramos no rito do Baptismo: da fé espero a «vida eterna» – a vida verdadeira que, inteiramente e sem ameaças, em toda a sua plenitude é simplesmente vida. Jesus, que disse de Si mesmo ter vindo ao mundo para que tenhamos a vida e a tenhamos em plenitude, em abundância (cf. Jo 10,10), também nos explicou o que significa «vida»: «A vida eterna consiste nisto: Que Te conheçam a Ti, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a Quem enviaste» (Jo 17,3). A vida, no verdadeiro sentido, não a possui cada um em si próprio sozinho, nem mesmo por si só: aquela é uma relação. E a vida na sua totalidade é relação com Aquele que é a fonte da vida. Se estivermos em relação com Aquele que não morre, que é a própria Vida e o próprio Amor, então estamos na vida. Então «vivemos».” (27)
11.
A oração como “escola de esperança”
Propondo a prática da oração como um exercício de esperança, o autor estimula os cristãos católicos à oração pessoal, mas sugere que rezar de modo justo e purificador é de acordo com a oração litúrgica, e as orações da Tradição:
“Para que a oração desenvolva esta força purificadora, deve, por um lado, ser muito pessoal, um confronto do meu eu com Deus, com o Deus vivo; mas, por outro, deve ser incessantemente guiada e iluminada pelas grandes orações da Igreja e dos santos, pela oração litúrgica, na qual o Senhor nos ensina continuamente a rezar de modo justo.” (34)
Mais uma vez a Tradição se sobrepõe às Escrituras. Jesus ensinou os discípulos a orar uma única oração, o “Pai Nosso”, e o Novo Testamento testemunha a prática comum da oração espontânea na igreja primitiva.
12.
Teologia das boas obras?
Esta encíclica parece colocar em causa a teologia tradicional das boas obras como meio de Salvação, na linha do contexto histórico-eclesiástico que abriu as portas à Reforma religiosa na Europa do século dezasseis. Mas tal posicionamento papal não confere com a persistência reiterada de algumas práticas da igreja medieval, a que ainda hoje assistimos um pouco por todo o lado:
“O reino de Deus é um dom, e por isso mesmo é grande e belo, constituindo a resposta à esperança. Nem podemos – para usar a terminologia clássica – «merecer» o céu com as nossas obras. Este é sempre mais do que aquilo que merecemos, tal como o ser amados nunca é algo «merecido», mas um dom.” (35)
13.
Oração pelos mortos
A doutrina aqui reafirmada de que se pode interferir no mundo dos mortos é totalmente extra-bíblica:
“Às almas dos defuntos, porém, pode ser dado «alívio e refrigério» mediante a Eucaristia, a oração e a esmola. O facto de que o amor possa chegar até ao além, que seja possível um mútuo dar e receber, permanecendo ligados uns aos outros por vínculos de afecto para além das fronteiras da morte, constituiu uma convicção fundamental do cristianismo através de todos os séculos e ainda hoje permanece uma experiência reconfortante. Quem não sentiria a necessidade de fazer chegar aos seus entes queridos, que já partiram para o além, um sinal de bondade, de gratidão ou mesmo de pedido de perdão?” (48)
14.
Purgatório
Dificuldades com a doutrina do Purgatório, a qual, tal como o limbo, é extra-bíblica:
“Aqui levantar-se-ia uma nova questão: se o «purgatório» consiste simplesmente em ser purificados pelo fogo no encontro com o Senhor, Juiz e Salvador, como pode então intervir uma terceira pessoa ainda que particularmente ligada à outra?” (48).
15.
A inevitabilidade do culto mariano
Maria, aqui chamada “estrela da esperança” é elevada a mediadora entre Deus e os homens, ao arrepio da doutrina bíblica:
“Certamente, Jesus Cristo é a luz por antonomásia, o sol erguido sobre todas as trevas da história. Mas, para chegar até Ele precisamos também de luzes vizinhas, de pessoas que dão luz recebida da luz d’Ele e oferecem, assim, orientação para a nossa travessia. E quem mais do que Maria poderia ser para nós estrela de esperança?” (49).
Na mesma linha, o Papa termina com um hino a Maria:
“Assim, Vós permaneceis no meio dos discípulos como a sua Mãe, como Mãe da esperança. Santa Maria, Mãe de Deus, Mãe nossa, ensinai-nos a crer, esperar e amar convosco. Indicai-nos o caminho para o seu reino! Estrela do mar, brilhai sobre nós e guiai-nos no nosso caminho!” (50).
16.
Conclusão
Esta longa carta papal reafirma alguns dos dogmas do catolicismo-romano, como seria de esperar, mas fá-lo através de uma linguagem densa e demasiado complexa, mesmo para um homem que é conhecido como intelectual.
Como escreveu Joana Lopes no seu blogue: “permito-me duvidar que tenha muitos leitores entre o comum dos mortais. Primeiro porque é muito longo – tem 77 páginas. Segundo porque não creio que os jovens do século XXI, os chineses, os africanos e muitos outros, mesmo que entusiasticamente crentes e seguidores da Igreja católica, parem muito tempo para penetrar em parágrafos como estes.”
Para ler o texto integral da encíclica, veja aqui.
Dezembro de 2007
Texto 4: A INQUISIÇÃO NOS “LUSIADAS“

Suponho não sabermos ainda hoje, o quanto de criatividade ficou pelo caminho, “por obra e graça” dos censores do Santo Ofício, que por expresso convite régio se instalou, em Portugal.
Nesses negros dias do século dezasseis, quem desejasse publicar alguma obra, tinha que obter autorização real para o efeito e, mais importante ainda, o parecer favorável do Conselho Geral do Santo Ofício da Inquisição. O próprio alvará régio, no caso da obra magna de Camões, menciona claramente que não deveria ser impressa sem licença do tribunal inquisitório.
O parecer do censor do Santo Ofício, subscrito por Frei Bartolomeu Ferreira, chega a fechar os olhos ao episódio da Ilha dos Amores (canto X) e declara não ter achado no poema “cousa alguã escandalosa” nem contrária aos “bõs custumes” e acrescentando, já no final, que o autor evidência muito engenho e erudição nas ciências humanas. Isto deve-se certamente à influência de Luis de Camões, ou de seus amigos, na corte, por um lado, mas também na percepção do censor relativamente à magestade literária da obra e da observância do nobre fim que esta se propunha atingir – glorificar a epopeia marítima das caravelas portuguesas.
Há contudo, uma advertência que Bartolomeu Ferreira faz aos leitores: como se trata duma poética, Camões menciona deuses pagãos a fim de ornamentar o seu trabalho, mas essas personagens são fictícias. Mais adiante fala-se em “Fabula dos Deoses”. Porém, logo a seguir afirma que esses mesmos deuses são demónios! Aplicando ao texto um raciocínio lógico, conclui-se que: 1º – os deuses são fictícios; 2º – os deuses são demónios; 3º – os demónios são fictícios. Linda teologia para quem queimava pessoas em praça pública por motivos religiosos!
Dir-se-á que o espírito de obscurantismo reinante na Europa, antes da Renascença e da Reforma, é o grande responsável por tal estado de coisas. Será. Mas faz-nos lembrar, com algum amargo de boca, certa teologia que ainda hoje se prega mas não se prova biblicamente. E quem não a acata sem resistência é taxado de rebelde.
Ai se a Inquisição existisse nos nossos dias!
(Texto publicado na revista cultural BARA, nº.7, Setembro/Dezembro de 1981.)
Texto 3: HISTORIAL SUMÁRIO DA POESIA BÍBLICA

INTRODUÇÃO
Fazer um historial, mesmo muito sumário, do tema proposto – a Poesia Bíblica – é empresa que considero complexa, tanto como é difícil dizer muito em poucas palavras.
É que a poesia da Bíblia, pela sua idade, pelo seu contexto religioso, pelos seus autores, cujo conhecimento é por vezes opaco, não se dispõe facilmente a uma leitura apressada, muitas vezes deformada pelos pontos de referência vulgarmente utilizados, mais ligados à cultura contemporânea e ocidental. Um povo com o peso histórico de Israel, produz uma cultura, mesmo sendo de recorte estritamente popular, marcado por exílios e escravaturas, por castigos e rebeldias, por coragens e medos, por derrotas e vitórias, por bençãos e maldições mas, sobretudo, pela presença viva e inquestionável dum Deus único e verdadeiro – Jeová – que condiciona, a par e passo, toda uma filosofia de vida colectiva.
Com efeito, a escassez do tempo obriga a uma mera abordagem do tema, condizente com o contexto em que se insere esta palestra (um Congresso Juvenil) e com uma grande maioria de pessoas que escutam sem estarem de alguma forma familiarizadas com o tema. Portanto, vamos apenas chamar a atenção para determinados factores mais importantes que, a meu ver, não deverão passar em branco.
POESIA
POESIA BÍBLICA
DEUS E A POESIA
O Poema é um género literário onde se pode dizer, sugerir, negar ou sentir aquilo que, em prosa, muito dificilmente conseguiriamos, com o mesmo impacto. A explanação das palavras, das frases, dos conceitos, das ideias, em poesia, torna-se muito mais livre – embora muito mais responsável, sob pena de incompreensão parcial ou absoluta – do que na prosa clássica.
Ora, na poesia hebraica bíblica, (que é também Palavra, divinamente inspirada) verifica-se um pouco esta situação, embora a característica principal, a nosso ver, seja a de que a poesia era utilizada para realçar, quase até ao exagero, a actuação de Jeová para com Israel, numa base de justiça, misericórdia e fidelidade mútuas. Supomos que os salmos davídicos são disto um bom exemplo.
Se uma boa parte do canon sagrado está escrita neste género literário – a poesia – então creio que podemos afirmar, sem margem de dúvida, que DEUS É POETA. Acautelem-se então os que utilizam a palavra “poeta” brejeira e pejorativamente.
NO ANTIGO TESTAMENTO
O povo começou por fazer poesia e cantá-la nos momentos históricos de maior significado, durante a epopeia do êxodo. Embora antes disso a Bíblia nos apresente por exemplo, um cântico de guerra, de Lameque, descendente de Caim, que viveu durante uma geração de incredulidade (Gn. 4:23,24).
Após a miraculosa travessia do Mar Vermelho, quando as águas se abriram para o povo israelita passar e tragou, de imediato, o exército egípcio, que o seguia, Moisés e os “filhos de Israel” entoaram o primeiro cântico popular israelita, onde se refere, entre outras coisas: a fé no Deus protector, o desejo de O adorar e louvar promovendo-Lhe um local sagrado – um templo, a verificação do Seu grande poder, o Seu domínio sobre a natureza, o reconhecimento da Sua suprema santidade, a certeza de que Deus guiaria o Seu povo à terra prometida e os faria vencer e expulsar filisteus, edomitas, moabitas e cananeus. É assim o cântico de Moisés (Ex. 15:1-19).
CANCIONEIRO NACIONAL DE ISRAEL
O Livro dos Salmos é onde encontramos a maior parte da poesia do Antigo Testamento e constitui o chamado “cancioneiro nacional”, onde se lêem poemas, essencialmente da autoria de David, o próprio rei que, à semelhança de El Rei D. Diniz, de Portugal, fazia poesia, que ficou registada para a posteridade.
A palavra Salmos significa, em hebraico “Livro de Louvores” e em grego “poemas adaptados à música“.
Além de David, o denominado “mavioso salmista de Israel” (2ª Sm. 23:1), existem Salmos de Salomão, de Asafe, dos filhos de Coré, um Salmo de Etã (ezraita), o nº. 89 e um Salmo de Moisés, o nº. 90.
Os cânticos de degraus ou de romagem (nºs. 120 a 134), supõe-se que eram cantados pelos peregrinos todos os anos em Jerusalém, por altura das festas religiosas.
Há ainda os salmos messiânicos, os acrósticos e os hallel (de louvor), nºs. 113 a 118.
Calmeiro Matias, na sua obra “Jesus Cristo nos Caminhos do Homem” (edição do autor), explica que os salmos nºs. 2 e 110 – denominados salmos régios – “recordavam aos reis davídicos, no dia da sua entronização, essa missão de grandeza de messias e filho de Deus de quem recebiam a autoridade através da unção”. Estes salmos eram utilizados na celebração litúrgica da entronização real, e o seu sentido corresponde à petição popular ao Senhor para que realizasse no novo rei a promessa messiânica feita a David.
Nem todos os salmos chamados de David, são exactamente da sua autoria, pois n’alguns, de expressão popular, talvez sem autor conhecido, ele limitou-se a proceder à sua compilação e adaptação para uso no culto. Além disso, cerca de 50 salmos surgem-nos anónimos.
Outros salmos, muito posteriores a David, foram integrados neste hinário nacional de Israel, até que Esdras o ordenou em definitivo.
O propósito dos salmos era adorar e o salmista cantava-os sem inflexão de voz (salmodiando).
POESIA PROFÉTICA
Alguns livros proféticos não estão isentos de expressão poemática. Eram os profetas, aliás, conhecidos em Isrel por apresentarem a sua mensagem revestida de imagística, como no caso particular de Isaías, a tal ponto que o povo por vezes chacoteava ou não entendia bem, embora o profeta procurasse sempre aclarar a sua mensagem (Is. 56:10,11).
O ENQUADRAMENTO DA POESIA NO CONTEXTO CULTURAL DO ANTIGO ISRAEL
Um olhar mais atento à vida do povo do Senhor, permite-nos visionar um contexto cultural fortemente marcado por aquilo a que ousamos chamar a A TRILOGIA SENTIMENTAL ISRAELITA DE PENDOR RELIGIOSO. Ou seja: a Poesia / a Música / a Dança.
A Dança representa, em nossa opinião, a expressão maior do corpo.
Em momentos de alegria geral ou de vitória sobre os inimigos, Israel dançava, usando expressivamente o corpo.
A Música, sabemos ser a expressão da alma. Compõe-se, executa-se e canta-se com a alma. A alma do povo, descansada na mão de Deus, erigia-lhe louvores musicais, traduzidos nos serviços religiosos, ou nas marchas, à frente do exército do Senhor, a caminho dos campos de batalha.
A Poesia é já expressão do espírito. Fazer poesia não é banalizar as questões, mas trabalhá-las pelo espírito. È estudá-las, equacioná-las, é indicar pistas para as solucionar ou, muito simplesmente, contestá-las, segundo critérios implícitos de justiça e verdade. É rendermo-nos à Beleza, ao Poder.
Em Israel, a poesia tinha um lugar privilegiado no contexto cultural e religioso de então. Mas o que mais nos fascina é a ideia de que a trilogia de louvor a Deus atrás referida, abrangia actividades tão fundamentais, do ponto de vista artístico e cultural, como a Poesia, a Música e a Dança.
CONCLUSÃO
Devido ao facto de esta comunicação não poder ser muito longa, saltámos por cima de Eclesiastes e Cantares de Salomão, que muito nos têm a dizer em matéria de poesia, e também não mencionámos os poemas do Novo Concerto, tais como: o cântico de Maria (Lc. 1:46), de Zacarias (1:68), dos anjos (2:13), de Simeão (2:29), e até mesmo no Livro da Revelação (Apocalipse): o cântico profético dos redimidos (5:9,19), e o de “Moisés e o Cordeiro” (15:3).
O segundo cântico de Moisés, no livro de Deuteronómio, capítulo 32, é um longo poema que aconselhamos também à leitura e à meditação.
Em Números 21:17, temos ainda o cântico pela água, em Juízes 5 lemos o de Débora, em 1º. de Samuel, 2, a canção de Ana, e em 2º. de Samuel, 22, o cântico de David.
De uma coisa podemos estar certos. a poesia era tão importante em Israel, que até nos livros apócrifos encontramos poemas, como, por exemplo, no caso do “cântico dos três mancebos”, no acréscimo apócrifo ao livro de Daniel.
Fazer Poesia, fazer Arte, fazer Cultura equivale sempre, directa ou indirectamente, a uma de duas coisas – adorar ou desprezar Deus.
O povo eleito dos nossos dias, a Igreja do Senhor, deve funcionar como sujeito activo (com a memória bíblica dos factos e a visão realista do mundo actual), promovendo o louvor e a adoração ao Príncipe da Paz, o que equivale a dizer, construindo uma cultura cristã e evangélica. Se assim não acontecer, é porque demos lugar à preguiça, à mediocridade, ao obscurantismo. E isto não glorifica o nome do nosso Senhor, que não é preguiçoso, nem medíocre, nem obscuro!
(Texto apresentado e lido durante as actividades culturais do Conjuv’81, na cidade de Aveiro, a 20 de Junho de 1981.)
Texto 2: A EXCELÊNCIA DA SABEDORIA

«Perguntamos de imediato: ‘Sabe grego ou latim?’ ‘É capaz de escrever poesia ou prosa?’. Mas o que importa mais é o que vamos dizer a seguir: ‘Tornou-se melhor e mais sábio?’ Deveríamos descobrir não quem compreende mais mas quem compreende melhor. Trabalhamos simplesmente para encher a memória, deixando vazios os sentidos de certo e errado.» (Montaigne)
A Sabedoria, a par do Conhecimento, têm-se constituído como alvo de muitos esforços dos homens, ao longo dos tempos, talvez pelo reconhecimento de que aquela encerra em si mesmo a chave de muitos benefícios, de uma vida de sucesso e consagra, paralelamente, a possibilidade de evitar muitos males e sofrimentos.
Se considerarmos o Conhecimento como sendo uma espécie de repositório de informação adquirida, de forma estruturada e progressiva, o que requer tempo, atenção e interesse, então a Sabedoria será qualquer coisa como a utilização e aplicação desses conhecimentos de modo prático, consistente, harmonioso e integrado, contextualizados a partir de uma leitura da vida, e da nossa interacção com o Homem e o Cosmos, no fundo, a partir de uma cosmovisão pessoal.
Assim, se o Conhecimento está ao alcance de cada um, condicionado apenas por razões de ordem prática, económica ou mental, já a Sabedoria é menos imediata e linear.
Quando, de acordo com o relato bíblico do segundo livro de Crónicas (1:7-12) Deus perguntou ao novo rei de Israel, Salomão, o que desejaria ele receber como dádiva da parte do seu Deus, tipo presente de entronização, este assume uma atitude de grande humildade, de reconhecimento dos seus limites, talvez confrontado com a dimensão gigantesca da tarefa que tinha pela frente, de conduzir aquele povo, por vezes tão difícil de ser liderado, e limita-se a pedir que Deus lhe outorgue sabedoria e conhecimento.
A reacção divina é a mais positiva possível. Agradado com a atitude de dependência e disponibilidade do novo rei, Deus concede-lhe o pedido, de forma extremamente generosa e abundante, de modo que Salomão acaba por ficar registado nos anais da História como o homem mais sábio ao cimo da terra, em todos os tempos, à excepção, naturalmente, de Jesus Cristo.
De resto, Salomão vem a escrever as obras literárias chamadas livros da Sabedoria, do canon bíblico, presentes no Antigo Testamento: Eclesiastes, Provérbios, Cantares e um ou outro Salmo.
Se observarmos melhor o texto em apreço, verificamos que esta sabedoria é concedida com uma finalidade específica, uma vez que fora esse o pretexto do pedido, pretendendo-se que a sua aplicação seja direccionada para a orientação dos israelitas, ou seja, Salomão receberá da parte de Deus sabedoria no âmbito do seu reino, e na qualidade de líder entre os israelitas, justamente para que a sua liderança seja bem sucedida em benefício do povo do Senhor.
Esta circunstância caracteriza a Sabedoria como algo que não constitui um fim em si mesmo, sendo antes um meio instrumental que se destina a permitir alcançar um determinado fim.
Sabemos, porém, que a fama de Salomão extravasou os limites do palácio, o contexto da corte e as fronteiras territoriais do país, correndo todo o mundo conhecido de então, de que a figura da rainha de Sabath é paradigma, o que parece determinar que a Sabedoria, por si só, não se pode condicionar ou conter em limites físicos ou relacionais. Ela transcende este tipo de barreiras. É da sua própria natureza.
Parece, ainda, que o importante mesmo não é dispor de sabedoria, mas sim o que se pretende fazer com ela.
A motivação profunda daquele que deseja ser sábio é mais importante do que o facto de o ser. E não é de estranhar que assim aconteça, uma vez que a sabedoria é forte e insusceptível de poder ser contida em limites físicos humanos, pelo que a sua influência se torna de certa forma incontrolável.
Por outras palavras, o conhecimento desenvolvido a partir de uma motivação negativa e destruidora pode tornar-se uma arma verdadeiramente letal. Basta lembrar os cientistas que se engajam a ideologias destruidoras e desrespeitadoras dos direitos humanos, enquadrados em sistemas de poder sem controlo por parte dos cidadãos.
A justificação divina para responder de forma tão cabal e categórica à solicitação de Salomão fundamenta-se em quatro aspectos, curiosamente todos apresentados pela negativa. Salomão não pediu a Deus quatro coisas: riqueza e bens materiais, honras e glória entre os homens, a morte dos inimigos, e uma vida longa para si mesmo.
Por que o rei de Israel não pediu o óbvio, aquilo que justamente a falta de sabedoria e bom senso levaria a que pedisse, então Deus não só satisfez a sua solicitação como ainda lhe acrescentou, ao que parece gostosamente, tudo aquilo que ele não pediu e poderia ter pedido. Isto é, porque Salomão conseguiu olhar para lá do óbvio, Deus respondeu-lhe satisfatoriamente ao pedido e acrescentou-lhe ainda o óbvio, como uma espécie de prémio que só se pode e deve atribuir a alguém que é plenamente confiável.
Era razoável que Salomão aproveitasse a oportunidade materializada pela pergunta divina para se encher de ouro, prata e pedras preciosas, de tudo quanto fosse riqueza e bens materiais, mas não o fez. O seu espírito apresentou-se despojado perante Deus, em função da tarefa que realmente ocupava o centro das suas preocupações no momento – ser um bom monarca.
Talvez, no fundo, este homem intuísse aquilo que S. Paulo viria a dizer muitos séculos mais tarde, que “o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males”. Não exactamente o dinheiro, mas o amor que se lhe tem, ou pode ter, deixando que o vil metal seja senhor sobre a vida dos seres humanos, abafando valores muito mais elevados, ligados à espiritualidade e vida interior, aquilo que vale a pena ser vivido.
Também era quase irresistível pedir a Deus que lhe concedesse honras e glória entre os homens, uma vez que tais coisas sempre foram e ainda hoje são fortemente atractivas à natureza humana.
Toda a gente gosta de ser honrado, referenciado e apreciado, quanto mais um rei. Mas tal coisa não se encontrava entre os objectivos de vida de Salomão, que assim preferiu centrar-se na honra que era devida ao seu Deus e na tarefa imensa que tinha pela frente, no desempenho das suas funções e responsabilidades reais.
A morte dos inimigos, numa época em que prevalecia a lei do mais forte, e a do olho por olho e dente por dente, não estranharia ao filho de David, uma vez que, num contexto histórico de subsistência e afirmação étnica, cultural, política e religiosa o ambiente geral era o de constantes lutas pela conquista da terra, numa lógica de expansão territorial, onde a diplomacia era vista quase só como uma outra maneira de fazer a guerra, neutralizando os adversários, potenciais inimigos, através de instrumentos como pactos, alianças, e casamentos reais de conveniência. Caso contrário, restava como solução a confrontação armada.
É certo que Salomão podia contar com a experiência enriquecedora do seu pai, David, que na condição de perseguido pelo rei Saúl, lhe ousara cortar um pedaço da capa, escondido e acossado na caverna onde este por momentos se recolhera, sem lhe tirar a vida, o que poderia ter feito. Mas não seria sensato esperar que a lógica da morte dos inimigos estivesse arredada da cultura daqueles tempos.
Uma vida longa também foi coisa que não fez parte das prioridades de Salomão na resposta a Deus.
O impulso de vida presente no ser humano, que contribui para a sua sobrevivência, e que leva ao ponto de matar para não morrer, é fortemente motivacional, mas neste caso foi relegado para segundo plano, em nome de um valor mais alto.
A Sabedoria, portanto, é um valor importante e único, uma verdadeira forma de estar que faz falta ao ser humano, e que pode até ser providenciado sobrenaturalmente, como no caso em apreço.
De todo o modo, a excelência da Sabedoria reside na sua utilidade prática, que tem de ser sempre direccionada no sentido do desenvolvimento e do progresso dos homens e das sociedades, e colocada ao serviço da dignidade da pessoa humana, no respeito pelo Outro (o “próximo”, como diria Jesus de Nazaré), porque só assim seremos mais humanos, mais solidários, ou mais pessoas, se preferirmos utilizar a terminologia de Carl Rogers.
Procurar a Sabedoria e aplicá-la ao nosso serviço, mas tendo sempre em vista o benefício geral, nosso e dos outros, é, portanto, inerente à condição humana, e característica dos filhos de Deus.
Brissos Lino, Abril de 2002
Texto 1: SOBRE A NECESSIDADE DOS SÍMBOLOS, E OS PERIGOS DA SUA SUBVERSÃO

Os símbolos sempre contribuíram para as sociedades humanas estruturarem a vida colectiva, de modo a organizar o seu funcionamento prático de forma ordenada e simples. Por exemplo, os sinais de trânsito são apenas símbolos, tal como os sinais que identificam as casas de banho destinadas a homens ou a senhoras, as farmácias ou os restaurantes, os rótulos dos produtos que consumimos, ou a marca dos carros em que nos movemos. Desde o “Perigo de morte” ao “Cuidado com o cão”, passando pelo “Proibido fumar” ou pelos sinais que identificam a moeda, a vida humana em sociedade é quase inconcebível ou impraticável sem a existência e mediação comunicacional dos símbolos.
No campo da Transcendência acontece da mesma forma. Assim, a cruz simboliza o Cristianismo, ou identifica um templo da fé cristã, e relaciona-se, sem qualquer dificuldade, o Islão com o crescente, ou o Judaísmo com a estrela de David. Tal como as asas se ligam mentalmente aos anjos, a pomba ao Espírito Santo, ou os chifres e pés de cabra ao demónio.
Anos depois da morte de Salomão, no tempo em que o antigo Israel estava dividido, um jovem que começou a reinar no Sul, de seu nome Ezequias, decidiu clarificar a prática religiosa da nação. E começou justamente por destruir os símbolos da prática religiosa apóstata, que representavam a adesão aos velhos cultos pagãos cananitas, e que o seu pai e antecessor no trono havia permitido, numa clara cedência política, mas em flagrante desrespeito para com Iavé, o Deus de Israel, com quem havia sido estabelecida uma aliança desde os tempos de Moisés. O facto é relatado no Segundo Livro de Reis (18:1-4): “No terceiro ano de Oseias, filho de Elá, rei de Israel, começou a reinar Ezequias, filho de Acaz, rei de Judá. Tinha vinte e cinco anos de idade quando começou a reinar e reinou vinte e nove anos em Jerusalém; sua mãe se chamava Abi e era filha de Zacarias. Fez ele o que era recto perante o Senhor, segundo tudo o que fizera David, seu pai. Removeu os altos, quebrou as colunas e deitou abaixo o poste-ídolo; e fez em pedaços a serpente de bronze que Moisés fizera, porque até àquele dia os filhos de Israel lhe queimavam incenso e lhe chamavam Neustã.”
Ezequias, o novo governante do reino do Sul, “removeu os altos”, isto é, destruiu os lugares elevados onde eram construídos altares para os sacrifícios a deuses pagãos (1Samuel 9:12; 1Reis 14:23). No caso do culto dedicado ao deus Moloque, até crianças eram ali sacrificadas (Jeremias 7:31).
Ezequias “quebrou as colunas”, ou seja, pedras que serviam para marcar lugares sagrados, e que eram utilizadas para a prática da idolatria (Levítico 26:1).
Ezequias “deitou abaixo o poste-ídolo”, o que significa que haveria um totem representando provavelmente Aserá (ou Astarote, ou Astarte), deusa da fertilidade, que era adorada por fenícios e sírios em culto lascivo, juntamente com Baal, seu companheiro (Juízes 3:7).
Ezequias também “fez em pedaços a serpente de bronze que Moisés fizera, porque até àquele dia os filhos de Israel lhe queimavam incenso e lhe chamavam Neustã”, ou seja, estamos aqui perante a perversão do sentido de um símbolo.
A história bíblica relata de que forma surgiu a dita serpente de bronze, nos dias em que o povo peregrinava no deserto do Sinai (Nm 21:4-9): “Então, partiram do monte Hor, pelo caminho do mar Vermelho, a rodear a terra de Edom, porém o povo se tornou impaciente no caminho. E o povo falou contra Deus e contra Moisés: Por que nos fizestes subir do Egito, para que morramos neste deserto, onde não há pão nem água? E a nossa alma tem fastio deste pão vil. Então, o Senhor mandou entre o povo serpentes abrasadoras, que mordiam o povo; e morreram muitos do povo de Israel. Veio o povo a Moisés e disse: Havemos pecado, porque temos falado contra o Senhor e contra ti; ora ao Senhor que tire de nós as serpentes. Então, Moisés orou pelo povo. Disse o Senhor a Moisés: Faze uma serpente abrasadora, põe-na sobre uma haste, e será que todo mordido que a mirar viverá. Fez Moisés uma serpente de bronze e a pôs sobre uma haste; sendo alguém mordido por alguma serpente, se olhava para a de bronze, sarava.”
Desta forma, a serpente que é hoje, entre nós, e desde há muitos anos, símbolo universal da farmacopeia, dado o poder curativo que assume no episódio bíblico atrás relatado, foi desvirtuado pelos israelitas, justamente enquanto símbolo, de modo que passou a representar uma divindade aparentada com os cultos cananitas.
O que aconteceu para que este acto de perversão simbólica tivesse ocorrido? Provavelmente tratou-se de uma mudança de paradigma religioso. Chegados à “terra da promessa”, os israelitas acabaram por se comprometer com os cultos pagãos cananitas, existentes antes da sua chegada. Agora que já não viviam o nomadismo do deserto, sem pão nem água, inteiramente à mercê dos cuidados divinos, mas quando já cultivavam a terra, construíam as suas habitações, viviam da pastorícia e desenvolviam profissões típicas do estilo de vida sedentário, e quando a sombra tutelar do seu Deus já não era considerada fundamental à sobrevivência, acabaram por ceder à cultura religiosa autóctone, atraídos pelo simbolismo das manifestações religiosas do paganismo. Talvez isso tenha acontecido porque a simbólica judaica se confinava quase apenas ao Templo de Jerusalém, o qual, afinal, pouco impacto tinha na vida quotidiana do judeu comum que vivesse fora da cidade, em tempos de mornidão religiosa.
Aquele povo cuja vida comunitária no passado de desenrolava à volta do Tabernáculo, o templo portátil do deserto, que era invariavelmente instalado no centro do arraial, o coração do acampamento, com as tendas familiares dispostas à volta, organizadas segundo as suas tribos, e cujos rituais sacrificiais davam sentido à sua prolongada peregrinação, desenvolvendo uma teologia da esperança, centrada no destino final de Canaã, tinha agora perdido o referencial ritualístico e estruturante da sua vida pessoal, familiar e comunitária, que era, de todo, inseparável da fé dos filhos de Abraão.
Havia que encontrar uma simbólica de substituição, que permitisse a construção de uma identidade nacional, até porque os seus irmãos desavindos do reino do Norte, os samaritanos, não haviam revelado grande dificuldade em substituir o culto judaico no Templo de Jerusalém, agora interdito visto ser a capital de Judá, pelas manifestações religiosas do Monte Gerizim, em Samaria, capital de Israel, de recorte pagão, que também incluíam os “altos”.
Aliás, o encontro de Jesus Cristo com a mulher samaritana, relatado no Evangelho de S. João (4:1-30), aflorou a situação de divisão e confusão religiosa que ainda persistia: “Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar”. As dúvidas da mulher incluíam decerto não apenas o lugar correcto para prestar adoração ao Deus de Abraão, mas também a forma de o fazer, isto é, a simbólica e o ritual adequados. Daí que o Mestre lhe tenha dito: “vós adorais o que não sabeis”.
Fazia parte da aliança mosaica a definição do lugar do culto verdadeiro, sem deixar margem a quaisquer dúvidas (conf. Deuteronómio 12:1-5): “São estes os estatutos e os juízos que cuidareis de cumprir na terra que vos deu o Senhor, Deus de vossos pais, para a possuirdes todos os dias que viverdes sobre a terra. Destruireis por completo todos os lugares onde as nações que ides desapossar serviram aos seus deuses, sobre as altas montanhas, sobre os outeiros e debaixo de toda árvore frondosa; deitareis abaixo os seus altares, e despedaçareis as suas colunas, e os seus postes-ídolo queimareis, e despedaçareis as imagens esculpidas dos seus deuses, e apagareis o seu nome daquele lugar. Não fareis assim para com o Senhor, vosso Deus, mas buscareis o lugar que o Senhor, vosso Deus, escolher de todas as vossas tribos, para ali pôr o seu nome e sua habitação; e para lá ireis.”
Mas também toda a construção ritual e a simbólica judaica estava devida e pormenorizadamente registada e definida na Torah, pelo que não havia razão para se não fazer assim.
No fundo, o pecado de Israel, que provocou a violenta destruição da serpente de bronze, transformada em relíquia-símbolo de uma divindade estrangeira e alheia à nação judaica, significou não apenas o apagar do passado, por ela representado, e que remetia para a memória do livramento divino nos dias difíceis do deserto, mas também a adulteração da memória colectiva. E um povo sem memória não é povo, porque perde o cimento agregador que o caracteriza. Mas representou, igualmente, o rasgar do pacto sinaítico, que estava na génese da formação nacional. Israel só era povo específico e peculiar, isto é, portador de uma identidade nacional, devido à aliança estabelecida no passado com Iavé, que libertara aquele grupo de hebreus, incaracterístico, da escravidão no Egipto, pela mão de Moisés.
Os símbolos remetem para significâncias e realidades espirituais, sociais, religiosas, políticas e outras. Aplicar um símbolo, com uma carga historicamente adquirida e estabelecida, a uma significância nova e contraditória, provoca dissonâncias de representação que implicam custos elevados, em matéria de confusão, e pode exigir que venham a ser simplesmente destruídos, por inadequação ou inutilidade no novo contexto. Por isso, será importante perceber os símbolos e respeitá-los, pois só assim é possível garantir a sua preservação.
Brissos Lino, Abril de 2007
O "Ovelha Perdida", blogue pessoal de Brissos Lino, constitui uma reflexão sobre a vida.
A Arte, o Belo, as ciências e os saberes têm aqui tanto cabimento como o humor, o desporto, a crítica social, a política, ou a espiritualidade. Sobretudo muita poesia.
É um blog sobre a Vida, sem preconceitos, vista nas suas dimensões pessoais e comunitárias, através dos olhos de um cristão inconformado.








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gostaria de obter puder o resumo da frase do ciclo da vida Fernando Pessoa, minha amiga me disse que e lindo desde já obrigada.
Por: valeria coutinho da silva em Outubro 7, 2008
às 11:40 am
Não sei a que se refere. Quer explicitar melhor?
bl
Por: A Ovelha Perdida em Outubro 7, 2008
às 12:00 pm