Textos

    • Texto 5: BREVE COMENTÁRIO À CARTA ENCÍCLICA “SPE SALVI”

    1.
    Introdução

    O Vaticano publicou uma nova encíclica, desta vez sob o tema da Esperança, importante conceito da vida cristã.
    A sua argumentação geral é extremamente densa e hermética, pelo que até os bispos terão que se empenhar a fundo para compreender o seu conteúdo, quanto mais o leigo comum.

    2.
    Preocupação com a fundamentação bíblica
    Ao longo de quase todo o documento nota-se uma preocupação em fundamentar os conceitos elaborados e as perspectivas desenvolvidas numa exegese dos textos bíblicos, o que é louvável no catolicismo romano, cuja prática histórica e doutrinária demasiadas vezes se estriba nos textos conciliares, na chamada Tradição, ou em escritos não canónicos. Como no caso da referência que faz à vida e testemunho de Josefina Bakhita, uma africana canonizada pelo Papa João Paulo II, para ilustrar a descoberta e vivência da esperança cristã (3).

    3.
    Mudança de paradigma cosmológico
    O chefe da igreja católica referencia a mudança de paradigma cosmológico com o qual o Cristianismo superou os cultos pagãos, e a fé racional a astrologia (5).

    4.
    Críticas à teologia luterana
    Mas não resiste a criticar uma interpretação da Carta aos Hebreus (1:1) de Lutero, como se tivesse necessidade de sublinhar a superioridade da teologia romana sobre a protestante (7).

    5.
    A origem e dádiva da fé
    Bento XVI trata o dom da fé como sendo um dom privado e exclusivo da igreja, ao arrepio das Escrituras, que declaram ser “um dom de Deus” : “O sacerdote perguntava, antes de mais nada, qual era o nome que os pais tinham escolhido para a criança, e prosseguia: «O que é que pedis à Igreja?». Resposta: «A fé». «E o que é que vos dá a fé?». «A vida eterna». Como vemos por este diálogo, os pais pediam para a criança o acesso à fé, a comunhão com os crentes, porque viam na fé a chave para a «vida eterna». Com efeito hoje, como sempre, é disto que se trata no Baptismo, quando nos tornamos cristãos: é não somente um acto de socialização no âmbito da comunidade, nem simplesmente de acolhimento na Igreja. Os pais esperam algo mais para o baptizando: esperam que a fé – de que faz parte a corporeidade da Igreja e dos seus sacramentos – lhe dê a vida, a vida eterna” (10).
    A verdade é que em parte alguma da Bíblia se diz que a fé é atribuída à pessoa através da igreja, isto é, que a igreja seja mediadora entre Deus e o ser humano. Pelo contrário, afirma claramente que “só há um mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem” (1ª. Timóteo 2:5). Não a igreja, qualquer igreja.

    6.
    Conceito de vida eterna
    A Encíclica apresenta uma abordagem confusa relativamente ao conceito de “vida eterna”. Diz assim: “A palavra «vida eterna» procura dar um nome a esta desconhecida realidade conhecida. Necessariamente é uma expressão insuficiente, que cria confusão. Com efeito, «eterno» suscita em nós a ideia do interminável, e isto nos amedronta; «vida», faz-nos pensar na existência por nós conhecida, que amamos e não queremos perder, mas que, frequentemente, nos reserva mais canseiras que satisfações, de tal maneira que se por um lado a desejamos, por outro não a queremos. A única possibilidade que temos é procurar sair, com o pensamento, da temporalidade de que somos prisioneiros e, de alguma forma, conjecturar que a eternidade não seja uma sucessão contínua de dias do calendário, mas algo parecido com o instante repleto de satisfação, onde a totalidade nos abraça e nós abraçamos a totalidade. Seria o instante de mergulhar no oceano do amor infinito, no qual o tempo – o antes e o depois – já não existe. Podemos somente procurar pensar que este instante é a vida em sentido pleno, um incessante mergulhar na vastidão do ser, ao mesmo tempo que ficamos simplesmente inundados pela alegria. Assim o exprime Jesus, no Evangelho de João: «Eu hei-de ver-vos de novo; e o vosso coração alegrar-se-á e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria» (16,22). Devemos olhar neste sentido, se quisermos entender o que visa a esperança cristã, o que esperamos da fé, do nosso estar com Cristo” (12).

    Ou seja, sugere-se que a vida eterna de que a Bíblia fala é um momento sublime de plenitude no encontro com Cristo, deixando implícito que o conceito de eternidade, passada a existência humana, não é nada… No mínimo é confuso, ou está muito mal explicado.

    7.
    Salvação pessoal ou comunitária?
    A Carta apresenta a perspectiva única de salvação comunitária, esquecendo a salvação individual, tradicional do Protestantismo, como resposta consciente, autónoma e voluntária do ser humano ao amor de Deus:

    “Henry de Lubac, baseando-se na teologia dos Padres em toda a sua amplidão, pôde demonstrar que a salvação foi sempre considerada como uma realidade comunitária. A mesma Carta aos Hebreus fala de uma «cidade» (cf. 11,10.16; 12,22; 13,14) e, portanto, de uma salvação comunitária.” (14), e também: “Como pôde desenvolver-se a ideia de que a mensagem de Jesus é estritamente individualista e visa apenas o indivíduo? Como é que se chegou a interpretar a «salvação da alma» como fuga da responsabilidade geral e, consequentemente, a considerar o programa do cristianismo como busca egoísta da salvação que se recusa a servir os outros?” (16)

    Partindo da ideia de que o cristão não pode reservar a salvação da sua alma para si mesmo, nem viver para si mesmo esquecendo o próximo (os outros), o que seria uma atitude egoísta, corre o risco de passar ao lado da responsabilidade individual e pessoal que é clara e inequivocamente proposta por Jesus na Grande Comissão (“quem crer e for baptizado será salvo” (S. Marcos 16:16).

    8.
    Razão e Fé
    Bento XVI sublinha, e bem, a necessidade da razão, enquanto parceira ou companheira da fé na vida cristã:

    “Digamos isto de uma forma mais simples: o homem tem necessidade de Deus; de contrário, fica privado de esperança. Consideradas as mudanças da era moderna, a afirmação de S. Paulo, citada ao princípio (Ef 2,12), revela-se muito realista e inteiramente verdadeira. Portanto, não há dúvida de que um «reino de Deus» realizado sem Deus – e por conseguinte um reino somente do homem – resolve-se inevitavelmente no «fim perverso» de todas as coisas, descrito por Kant: já o vimos e vemo-lo sempre de novo. De igual modo, também não há dúvida de que, para Deus entrar verdadeiramente nas realidades humanas, não basta ser pensado por nós, requer-se que Ele mesmo venha ao nosso encontro e nos fale. Por isso, a razão necessita da fé para chegar a ser totalmente ela própria: razão e fé precisam uma da outra para realizar a sua verdadeira natureza e missão.” (23)

    9.
    Redenção do homem
    Bento XVI assinala que a verdadeira redenção do ser humano não provém de fora, da ciência, mas do amor de Deus:

    “O homem não poderá jamais ser redimido simplesmente a partir de fora. Equivocaram-se Francisco Bacon e os adeptos da corrente de pensamento da idade moderna nele inspirada, ao considerar que o homem teria sido redimido através da ciência. Com uma tal expectativa, está-se a pedir demasiado à ciência; esta espécie de esperança é falaz. A ciência pode contribuir muito para a humanização do mundo e dos povos. Mas, também pode destruir o homem e o mundo, se não for orientada por forças que se encontram fora dela. Além disso, devemos constatar também que o cristianismo moderno, diante dos sucessos da ciência na progressiva estruturação do mundo, tinha-se concentrado em grande parte somente sobre o indivíduo e a sua salvação. Deste modo, restringiu o horizonte da sua esperança e não reconheceu suficientemente sequer a grandeza da sua tarefa – apesar de ser grande o que continuou a fazer na formação do homem e no cuidado dos fracos e dos que sofrem.” (25)

    “Não é a ciência que redime o homem. O homem é redimido pelo amor. Isto vale já no âmbito deste mundo. Quando alguém experimenta na sua vida um grande amor, conhece um momento de «redenção» que dá um sentido novo à sua vida. Mas, rapidamente se dará conta também de que o amor que lhe foi dado não resolve, por si só, o problema da sua vida. É um amor que permanece frágil. Pode ser destruído pela morte. O ser humano necessita do amor incondicionado.” (26)

    10.
    Vida abundante e vida eterna
    O papa associa muito bem o desconhecimento de Deus, por parte do ser humano, à sua falta de esperança, mas volta a cair na confusão entre os conceitos de “vida abundante” e de “vida eterna”:

    “Neste sentido, é verdade que quem não conhece Deus, mesmo podendo ter muitas esperanças, no fundo está sem esperança, sem a grande esperança que sustenta toda a vida (cf. Ef 2,12). A verdadeira e grande esperança do homem, que resiste apesar de todas as desilusões, só pode ser Deus – o Deus que nos amou, e ama ainda agora «até ao fim», «até à plena consumação» (cf. Jo 13,1 e 19,30). Quem é atingido pelo amor começa a intuir em que consistiria propriamente a «vida». Começa a intuir o significado da palavra de esperança que encontramos no rito do Baptismo: da fé espero a «vida eterna» – a vida verdadeira que, inteiramente e sem ameaças, em toda a sua plenitude é simplesmente vida. Jesus, que disse de Si mesmo ter vindo ao mundo para que tenhamos a vida e a tenhamos em plenitude, em abundância (cf. Jo 10,10), também nos explicou o que significa «vida»: «A vida eterna consiste nisto: Que Te conheçam a Ti, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a Quem enviaste» (Jo 17,3). A vida, no verdadeiro sentido, não a possui cada um em si próprio sozinho, nem mesmo por si só: aquela é uma relação. E a vida na sua totalidade é relação com Aquele que é a fonte da vida. Se estivermos em relação com Aquele que não morre, que é a própria Vida e o próprio Amor, então estamos na vida. Então «vivemos».” (27)

    11.
    A oração como “escola de esperança”
    Propondo a prática da oração como um exercício de esperança, o autor estimula os cristãos católicos à oração pessoal, mas sugere que rezar de modo justo e purificador é de acordo com a oração litúrgica, e as orações da Tradição:

    “Para que a oração desenvolva esta força purificadora, deve, por um lado, ser muito pessoal, um confronto do meu eu com Deus, com o Deus vivo; mas, por outro, deve ser incessantemente guiada e iluminada pelas grandes orações da Igreja e dos santos, pela oração litúrgica, na qual o Senhor nos ensina continuamente a rezar de modo justo.” (34)

    Mais uma vez a Tradição se sobrepõe às Escrituras. Jesus ensinou os discípulos a orar uma única oração, o “Pai Nosso”, e o Novo Testamento testemunha a prática comum da oração espontânea na igreja primitiva.

    12.
    Teologia das boas obras?
    Esta encíclica parece colocar em causa a teologia tradicional das boas obras como meio de Salvação, na linha do contexto histórico-eclesiástico que abriu as portas à Reforma religiosa na Europa do século dezasseis. Mas tal posicionamento papal não confere com a persistência reiterada de algumas práticas da igreja medieval, a que ainda hoje assistimos um pouco por todo o lado:

    “O reino de Deus é um dom, e por isso mesmo é grande e belo, constituindo a resposta à esperança. Nem podemos – para usar a terminologia clássica – «merecer» o céu com as nossas obras. Este é sempre mais do que aquilo que merecemos, tal como o ser amados nunca é algo «merecido», mas um dom.” (35)

    13.
    Oração pelos mortos
    A doutrina aqui reafirmada de que se pode interferir no mundo dos mortos é totalmente extra-bíblica:

    “Às almas dos defuntos, porém, pode ser dado «alívio e refrigério» mediante a Eucaristia, a oração e a esmola. O facto de que o amor possa chegar até ao além, que seja possível um mútuo dar e receber, permanecendo ligados uns aos outros por vínculos de afecto para além das fronteiras da morte, constituiu uma convicção fundamental do cristianismo através de todos os séculos e ainda hoje permanece uma experiência reconfortante. Quem não sentiria a necessidade de fazer chegar aos seus entes queridos, que já partiram para o além, um sinal de bondade, de gratidão ou mesmo de pedido de perdão?” (4 8)

    14.
    Purgatório
    Dificuldades com a doutrina do Purgatório, a qual, tal como o limbo, é extra-bíblica:

    “Aqui levantar-se-ia uma nova questão: se o «purgatório» consiste simplesmente em ser purificados pelo fogo no encontro com o Senhor, Juiz e Salvador, como pode então intervir uma terceira pessoa ainda que particularmente ligada à outra?” (48).

    15.
    A inevitabilidade do culto mariano
    Maria, aqui chamada “estrela da esperança” é elevada a mediadora entre Deus e os homens, ao arrepio da doutrina bíblica:

    “Certamente, Jesus Cristo é a luz por antonomásia, o sol erguido sobre todas as trevas da história. Mas, para chegar até Ele precisamos também de luzes vizinhas, de pessoas que dão luz recebida da luz d’Ele e oferecem, assim, orientação para a nossa travessia. E quem mais do que Maria poderia ser para nós estrela de esperança?” (49).

    Na mesma linha, o Papa termina com um hino a Maria:

    “Assim, Vós permaneceis no meio dos discípulos como a sua Mãe, como Mãe da esperança. Santa Maria, Mãe de Deus, Mãe nossa, ensinai-nos a crer, esperar e amar convosco. Indicai-nos o caminho para o seu reino! Estrela do mar, brilhai sobre nós e guiai-nos no nosso caminho!” (50).

    16.
    Conclusão
    Esta longa carta papal reafirma alguns dos dogmas do catolicismo-romano, como seria de esperar, mas fá-lo através de uma linguagem densa e demasiado complexa, mesmo para um homem que é conhecido como intelectual.
    Como escreveu Joana Lopes no seu blogue: “permito-me duvidar que tenha muitos leitores entre o comum dos mortais. Primeiro porque é muito longo – tem 77 páginas. Segundo porque não creio que os jovens do século XXI, os chineses, os africanos e muitos outros, mesmo que entusiasticamente crentes e seguidores da Igreja católica, parem muito tempo para penetrar em parágrafos como estes.”

    Para ler o texto integral da encíclica, veja aqui.

    Dezembro de 2007

    • Texto 4: A INQUISIÇÃO NOS “LUSIADAS“

    Suponho não sabermos ainda hoje, o quanto de criatividade ficou pelo caminho, “por obra e graça” dos censores do Santo Ofício, que por expresso convite régio se instalou, em Portugal.
    Nesses negros dias do século dezasseis, quem desejasse publicar alguma obra, tinha que obter autorização real para o efeito e, mais importante ainda, o parecer favorável do Conselho Geral do Santo Ofício da Inquisição. O próprio alvará régio, no caso da obra magna de Camões, menciona claramente que não deveria ser impressa sem licença do tribunal inquisitório.
    O parecer do censor do Santo Ofício, subscrito por Frei Bartolomeu Ferreira, chega a fechar os olhos ao episódio da Ilha dos Amores (canto X) e declara não ter achado no poema “cousa alguã escandalosa” nem contrária aos “bõs custumes” e acrescentando, já no final, que o autor evidência muito engenho e erudição nas ciências humanas. Isto deve-se certamente à influência de Luis de Camões, ou de seus amigos, na corte, por um lado, mas também na percepção do censor relativamente à magestade literária da obra e da observância do nobre fim que esta se propunha atingir - glorificar a epopeia marítima das caravelas portuguesas.
    Há contudo, uma advertência que Bartolomeu Ferreira faz aos leitores: como se trata duma poética, Camões menciona deuses pagãos a fim de ornamentar o seu trabalho, mas essas personagens são fictícias. Mais adiante fala-se em “Fabula dos Deoses”. Porém, logo a seguir afirma que esses mesmos deuses são demónios! Aplicando ao texto um raciocínio lógico, conclui-se que: 1º - os deuses são fictícios; 2º - os deuses são demónios; 3º - os demónios são fictícios. Linda teologia para quem queimava pessoas em praça pública por motivos religiosos!
    Dir-se-á que o espírito de obscurantismo reinante na Europa, antes da Renascença e da Reforma, é o grande responsável por tal estado de coisas. Será. Mas faz-nos lembrar, com algum amargo de boca, certa teologia que ainda hoje se prega mas não se prova biblicamente. E quem não a acata sem resistência é taxado de rebelde.
    Ai se a Inquisição existisse nos nossos dias!

    (Texto publicado na revista cultural BARA, nº.7, Setembro/Dezembro de 1981.)

    • Texto 3: HISTORIAL SUMÁRIO DA POESIA BÍBLICA

    INTRODUÇÃO
    Fazer um historial, mesmo muito sumário, do tema proposto - a Poesia Bíblica - é empresa que considero complexa, tanto como é difícil dizer muito em poucas palavras.
    É que a poesia da Bíblia, pela sua idade, pelo seu contexto religioso, pelos seus autores, cujo conhecimento é por vezes opaco, não se dispõe facilmente a uma leitura apressada, muitas vezes deformada pelos pontos de referência vulgarmente utilizados, mais ligados à cultura contemporânea e ocidental. Um povo com o peso histórico de Israel, produz uma cultura, mesmo sendo de recorte estritamente popular, marcado por exílios e escravaturas, por castigos e rebeldias, por coragens e medos, por derrotas e vitórias, por bençãos e maldições mas, sobretudo, pela presença viva e inquestionável dum Deus único e verdadeiro - Jeová - que condiciona, a par e passo, toda uma filosofia de vida colectiva.
    Com efeito, a escassez do tempo obriga a uma mera abordagem do tema, condizente com o contexto em que se insere esta palestra (um Congresso Juvenil) e com uma grande maioria de pessoas que escutam sem estarem de alguma forma familiarizadas com o tema. Portanto, vamos apenas chamar a atenção para determinados factores mais importantes que, a meu ver, não deverão passar em branco.

    POESIA
    POESIA BÍBLICA
    DEUS E A POESIA

    O Poema é um género literário onde se pode dizer, sugerir, negar ou sentir aquilo que, em prosa, muito dificilmente conseguiriamos, com o mesmo impacto. A explanação das palavras, das frases, dos conceitos, das ideias, em poesia, torna-se muito mais livre - embora muito mais responsável, sob pena de incompreensão parcial ou absoluta - do que na prosa clássica.
    Ora, na poesia hebraica bíblica, (que é também Palavra, divinamente inspirada) verifica-se um pouco esta situação, embora a característica principal, a nosso ver, seja a de que a poesia era utilizada para realçar, quase até ao exagero, a actuação de Jeová para com Israel, numa base de justiça, misericórdia e fidelidade mútuas. Supomos que os salmos davídicos são disto um bom exemplo.
    Se uma boa parte do canon sagrado está escrita neste género literário - a poesia - então creio que podemos afirmar, sem margem de dúvida, que DEUS É POETA. Acautelem-se então os que utilizam a palavra “poeta” brejeira e pejorativamente.

    NO ANTIGO TESTAMENTO

    O povo começou por fazer poesia e cantá-la nos momentos históricos de maior significado, durante a epopeia do êxodo. Embora antes disso a Bíblia nos apresente por exemplo, um cântico de guerra, de Lameque, descendente de Caim, que viveu durante uma geração de incredulidade (Gn. 4:23,24).
    Após a miraculosa travessia do Mar Vermelho, quando as águas se abriram para o povo israelita passar e tragou, de imediato, o exército egípcio, que o seguia, Moisés e os “filhos de Israel” entoaram o primeiro cântico popular israelita, onde se refere, entre outras coisas: a fé no Deus protector, o desejo de O adorar e louvar promovendo-Lhe um local sagrado - um templo, a verificação do Seu grande poder, o Seu domínio sobre a natureza, o reconhecimento da Sua suprema santidade, a certeza de que Deus guiaria o Seu povo à terra prometida e os faria vencer e expulsar filisteus, edomitas, moabitas e cananeus. É assim o cântico de Moisés (Ex. 15:1-19).

    CANCIONEIRO NACIONAL DE ISRAEL
    O Livro dos Salmos é onde encontramos a maior parte da poesia do Antigo Testamento e constitui o chamado “cancioneiro nacional”, onde se lêem poemas, essencialmente da autoria de David, o próprio rei que, à semelhança de El Rei D. Diniz, de Portugal, fazia poesia, que ficou registada para a posteridade.
    A palavra Salmos significa, em hebraico “Livro de Louvores” e em grego “poemas adaptados à música“.
    Além de David, o denominado “mavioso salmista de Israel” (2ª Sm. 23:1), existem Salmos de Salomão, de Asafe, dos filhos de Coré, um Salmo de Etã (ezraita), o nº. 89 e um Salmo de Moisés, o nº. 90.
    Os cânticos de degraus ou de romagem (nºs. 120 a 134), supõe-se que eram cantados pelos peregrinos todos os anos em Jerusalém, por altura das festas religiosas.
    Há ainda os salmos messiânicos, os acrósticos e os hallel (de louvor), nºs. 113 a 118.
    Calmeiro Matias, na sua obra “Jesus Cristo nos Caminhos do Homem” (edição do autor), explica que os salmos nºs. 2 e 110 - denominados salmos régios - “recordavam aos reis davídicos, no dia da sua entronização, essa missão de grandeza de messias e filho de Deus de quem recebiam a autoridade através da unção”. Estes salmos eram utilizados na celebração litúrgica da entronização real, e o seu sentido corresponde à petição popular ao Senhor para que realizasse no novo rei a promessa messiânica feita a David.
    Nem todos os salmos chamados de David, são exactamente da sua autoria, pois n’alguns, de expressão popular, talvez sem autor conhecido, ele limitou-se a proceder à sua compilação e adaptação para uso no culto. Além disso, cerca de 50 salmos surgem-nos anónimos.
    Outros salmos, muito posteriores a David, foram integrados neste hinário nacional de Israel, até que Esdras o ordenou em definitivo.
    O propósito dos salmos era adorar e o salmista cantava-os sem inflexão de voz (salmodiando).

    POESIA PROFÉTICA
    Alguns livros proféticos não estão isentos de expressão poemática. Eram os profetas, aliás, conhecidos em Isrel por apresentarem a sua mensagem revestida de imagística, como no caso particular de Isaías, a tal ponto que o povo por vezes chacoteava ou não entendia bem, embora o profeta procurasse sempre aclarar a sua mensagem (Is. 56:10,11).

    O ENQUADRAMENTO DA POESIA NO CONTEXTO CULTURAL DO ANTIGO ISRAEL
    Um olhar mais atento à vida do povo do Senhor, permite-nos visionar um contexto cultural fortemente marcado por aquilo a que ousamos chamar a A TRILOGIA SENTIMENTAL ISRAELITA DE PENDOR RELIGIOSO. Ou seja: a Poesia / a Música / a Dança.
    A Dança representa, em nossa opinião, a expressão maior do corpo.
    Em momentos de alegria geral ou de vitória sobre os inimigos, Israel dançava, usando expressivamente o corpo.
    A Música, sabemos ser a expressão da alma. Compõe-se, executa-se e canta-se com a alma. A alma do povo, descansada na mão de Deus, erigia-lhe louvores musicais, traduzidos nos serviços religiosos, ou nas marchas, à frente do exército do Senhor, a caminho dos campos de batalha.
    A Poesia é já expressão do espírito. Fazer poesia não é banalizar as questões, mas trabalhá-las pelo espírito. È estudá-las, equacioná-las, é indicar pistas para as solucionar ou, muito simplesmente, contestá-las, segundo critérios implícitos de justiça e verdade. É rendermo-nos à Beleza, ao Poder.
    Em Israel, a poesia tinha um lugar privilegiado no contexto cultural e religioso de então. Mas o que mais nos fascina é a ideia de que a trilogia de louvor a Deus atrás referida, abrangia actividades tão fundamentais, do ponto de vista artístico e cultural, como a Poesia, a Música e a Dança.

    CONCLUSÃO
    Devido ao facto de esta comunicação não poder ser muito longa, saltámos por cima de Eclesiastes e Cantares de Salomão, que muito nos têm a dizer em matéria de poesia, e também não mencionámos os poemas do Novo Concerto, tais como: o cântico de Maria (Lc. 1:46), de Zacarias (1:68), dos anjos (2:13), de Simeão (2:29), e até mesmo no Livro da Revelação (Apocalipse): o cântico profético dos redimidos (5:9,19), e o de “Moisés e o Cordeiro” (15:3).
    O segundo cântico de Moisés, no livro de Deuteronómio, capítulo 32, é um longo poema que aconselhamos também à leitura e à meditação.
    Em Números 21:17, temos ainda o cântico pela água, em Juízes 5 lemos o de Débora, em 1º. de Samuel, 2, a canção de Ana, e em 2º. de Samuel, 22, o cântico de David.
    De uma coisa podemos estar certos. a poesia era tão importante em Israel, que até nos livros apócrifos encontramos poemas, como, por exemplo, no caso do “cântico dos três mancebos”, no acréscimo apócrifo ao livro de Daniel.
    Fazer Poesia, fazer Arte, fazer Cultura equivale sempre, directa ou indirectamente, a uma de duas coisas - adorar ou desprezar Deus.
    O povo eleito dos nossos dias, a Igreja do Senhor, deve funcionar como sujeito activo (com a memória bíblica dos factos e a visão realista do mundo actual), promovendo o louvor e a adoração ao Príncipe da Paz, o que equivale a dizer, construindo uma cultura cristã e evangélica. Se assim não acontecer, é porque demos lugar à preguiça, à mediocridade, ao obscurantismo. E isto não glorifica o nome do nosso Senhor, que não é preguiçoso, nem medíocre, nem obscuro!

    (Texto apresentado e lido durante as actividades culturais do Conjuv’81, na cidade de Aveiro, a 20 de Junho de 1981.)

    • Texto 2: A EXCELÊNCIA DA SABEDORIA

    «Perguntamos de imediato: ‘Sabe grego ou latim?’ ‘É capaz de escrever poesia ou prosa?’. Mas o que importa mais é o que vamos dizer a seguir: ‘Tornou-se melhor e mais sábio?’ Deveríamos descobrir não quem compreende mais mas quem compreende melhor. Trabalhamos simplesmente para encher a memória, deixando vazios os sentidos de certo e errado.» (Montaigne)

    A Sabedoria, a par do Conhecimento, têm-se constituído como alvo de muitos esforços dos homens, ao longo dos tempos, talvez pelo reconhecimento de que aquela encerra em si mesmo a chave de muitos benefícios, de uma vida de sucesso e consagra, paralelamente, a possibilidade de evitar muitos males e sofrimentos.

    Se considerarmos o Conhecimento como sendo uma espécie de repositório de informação adquirida, de forma estruturada e progressiva, o que requer tempo, atenção e interesse, então a Sabedoria será qualquer coisa como a utilização e aplicação desses conhecimentos de modo prático, consistente, harmonioso e integrado, contextualizados a partir de uma leitura da vida, e da nossa interacção com o Homem e o Cosmos, no fundo, a partir de uma cosmovisão pessoal.
    Assim, se o Conhecimento está ao alcance de cada um, condicionado apenas por razões de ordem prática, económica ou mental, já a Sabedoria é menos imediata e linear.

    Quando, de acordo com o relato bíblico do segundo livro de Crónicas (1:7-12) Deus perguntou ao novo rei de Israel, Salomão, o que desejaria ele receber como dádiva da parte do seu Deus, tipo presente de entronização, este assume uma atitude de grande humildade, de reconhecimento dos seus limites, talvez confrontado com a dimensão gigantesca da tarefa que tinha pela frente, de conduzir aquele povo, por vezes tão difícil de ser liderado, e limita-se a pedir que Deus lhe outorgue sabedoria e conhecimento.

    A reacção divina é a mais positiva possível. Agradado com a atitude de dependência e disponibilidade do novo rei, Deus concede-lhe o pedido, de forma extremamente generosa e abundante, de modo que Salomão acaba por ficar registado nos anais da História como o homem mais sábio ao cimo da terra, em todos os tempos, à excepção, naturalmente, de Jesus Cristo.
    De resto, Salomão vem a escrever as obras literárias chamadas livros da Sabedoria, do canon bíblico, presentes no Antigo Testamento: Eclesiastes, Provérbios, Cantares e um ou outro Salmo.

    Se observarmos melhor o texto em apreço, verificamos que esta sabedoria é concedida com uma finalidade específica, uma vez que fora esse o pretexto do pedido, pretendendo-se que a sua aplicação seja direccionada para a orientação dos israelitas, ou seja, Salomão receberá da parte de Deus sabedoria no âmbito do seu reino, e na qualidade de líder entre os israelitas, justamente para que a sua liderança seja bem sucedida em benefício do povo do Senhor.
    Esta circunstância caracteriza a Sabedoria como algo que não constitui um fim em si mesmo, sendo antes um meio instrumental que se destina a permitir alcançar um determinado fim.

    Sabemos, porém, que a fama de Salomão extravasou os limites do palácio, o contexto da corte e as fronteiras territoriais do país, correndo todo o mundo conhecido de então, de que a figura da rainha de Sabath é paradigma, o que parece determinar que a Sabedoria, por si só, não se pode condicionar ou conter em limites físicos ou relacionais. Ela transcende este tipo de barreiras. É da sua própria natureza.

    Parece, ainda, que o importante mesmo não é dispor de sabedoria, mas sim o que se pretende fazer com ela.
    A motivação profunda daquele que deseja ser sábio é mais importante do que o facto de o ser. E não é de estranhar que assim aconteça, uma vez que a sabedoria é forte e insusceptível de poder ser contida em limites físicos humanos, pelo que a sua influência se torna de certa forma incontrolável.
    Por outras palavras, o conhecimento desenvolvido a partir de uma motivação negativa e destruidora pode tornar-se uma arma verdadeiramente letal. Basta lembrar os cientistas que se engajam a ideologias destruidoras e desrespeitadoras dos direitos humanos, enquadrados em sistemas de poder sem controlo por parte dos cidadãos.

    A justificação divina para responder de forma tão cabal e categórica à solicitação de Salomão fundamenta-se em quatro aspectos, curiosamente todos apresentados pela negativa. Salomão não pediu a Deus quatro coisas: riqueza e bens materiais, honras e glória entre os homens, a morte dos inimigos, e uma vida longa para si mesmo.
    Por que o rei de Israel não pediu o óbvio, aquilo que justamente a falta de sabedoria e bom senso levaria a que pedisse, então Deus não só satisfez a sua solicitação como ainda lhe acrescentou, ao que parece gostosamente, tudo aquilo que ele não pediu e poderia ter pedido. Isto é, porque Salomão conseguiu olhar para lá do óbvio, Deus respondeu-lhe satisfatoriamente ao pedido e acrescentou-lhe ainda o óbvio, como uma espécie de prémio que só se pode e deve atribuir a alguém que é plenamente confiável.

    Era razoável que Salomão aproveitasse a oportunidade materializada pela pergunta divina para se encher de ouro, prata e pedras preciosas, de tudo quanto fosse riqueza e bens materiais, mas não o fez. O seu espírito apresentou-se despojado perante Deus, em função da tarefa que realmente ocupava o centro das suas preocupações no momento – ser um bom monarca.
    Talvez, no fundo, este homem intuísse aquilo que S. Paulo viria a dizer muitos séculos mais tarde, que “o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males”. Não exactamente o dinheiro, mas o amor que se lhe tem, ou pode ter, deixando que o vil metal seja senhor sobre a vida dos seres humanos, abafando valores muito mais elevados, ligados à espiritualidade e vida interior, aquilo que vale a pena ser vivido.

    Também era quase irresistível pedir a Deus que lhe concedesse honras e glória entre os homens, uma vez que tais coisas sempre foram e ainda hoje são fortemente atractivas à natureza humana.
    Toda a gente gosta de ser honrado, referenciado e apreciado, quanto mais um rei. Mas tal coisa não se encontrava entre os objectivos de vida de Salomão, que assim preferiu centrar-se na honra que era devida ao seu Deus e na tarefa imensa que tinha pela frente, no desempenho das suas funções e responsabilidades reais.

    A morte dos inimigos, numa época em que prevalecia a lei do mais forte, e a do olho por olho e dente por dente, não estranharia ao filho de David, uma vez que, num contexto histórico de subsistência e afirmação étnica, cultural, política e religiosa o ambiente geral era o de constantes lutas pela conquista da terra, numa lógica de expansão territorial, onde a diplomacia era vista quase só como uma outra maneira de fazer a guerra, neutralizando os adversários, potenciais inimigos, através de instrumentos como pactos, alianças, e casamentos reais de conveniência. Caso contrário, restava como solução a confrontação armada.

    É certo que Salomão podia contar com a experiência enriquecedora do seu pai, David, que na condição de perseguido pelo rei Saúl, lhe ousara cortar um pedaço da capa, escondido e acossado na caverna onde este por momentos se recolhera, sem lhe tirar a vida, o que poderia ter feito. Mas não seria sensato esperar que a lógica da morte dos inimigos estivesse arredada da cultura daqueles tempos.

    Uma vida longa também foi coisa que não fez parte das prioridades de Salomão na resposta a Deus.
    O impulso de vida presente no ser humano, que contribui para a sua sobrevivência, e que leva ao ponto de matar para não morrer, é fortemente motivacional, mas neste caso foi relegado para segundo plano, em nome de um valor mais alto.

    A Sabedoria, portanto, é um valor importante e único, uma verdadeira forma de estar que faz falta ao ser humano, e que pode até ser providenciado sobrenaturalmente, como no caso em apreço.
    De todo o modo, a excelência da Sabedoria reside na sua utilidade prática, que tem de ser sempre direccionada no sentido do desenvolvimento e do progresso dos homens e das sociedades, e colocada ao serviço da dignidade da pessoa humana, no respeito pelo Outro (o “próximo”, como diria Jesus de Nazaré), porque só assim seremos mais humanos, mais solidários, ou mais pessoas, se preferirmos utilizar a terminologia de Carl Rogers.

    Procurar a Sabedoria e aplicá-la ao nosso serviço, mas tendo sempre em vista o benefício geral, nosso e dos outros, é, portanto, inerente à condição humana, e característica dos filhos de Deus.

    Brissos Lino, Abril de 2002

    • Texto 1: SOBRE A NECESSIDADE DOS SÍMBOLOS, E OS PERIGOS DA SUA SUBVERSÃO

    Os símbolos sempre contribuíram para as sociedades humanas estruturarem a vida colectiva, de modo a organizar o seu funcionamento prático de forma ordenada e simples. Por exemplo, os sinais de trânsito são apenas símbolos, tal como os sinais que identificam as casas de banho destinadas a homens ou a senhoras, as farmácias ou os restaurantes, os rótulos dos produtos que consumimos, ou a marca dos carros em que nos movemos. Desde o “Perigo de morte” ao “Cuidado com o cão”, passando pelo “Proibido fumar” ou pelos sinais que identificam a moeda, a vida humana em sociedade é quase inconcebível ou impraticável sem a existência e mediação comunicacional dos símbolos.

    No campo da Transcendência acontece da mesma forma. Assim, a cruz simboliza o Cristianismo, ou identifica um templo da fé cristã, e relaciona-se, sem qualquer dificuldade, o Islão com o crescente, ou o Judaísmo com a estrela de David. Tal como as asas se ligam mentalmente aos anjos, a pomba ao Espírito Santo, ou os chifres e pés de cabra ao demónio.

    Anos depois da morte de Salomão, no tempo em que o antigo Israel estava dividido, um jovem que começou a reinar no Sul, de seu nome Ezequias, decidiu clarificar a prática religiosa da nação. E começou justamente por destruir os símbolos da prática religiosa apóstata, que representavam a adesão aos velhos cultos pagãos cananitas, e que o seu pai e antecessor no trono havia permitido, numa clara cedência política, mas em flagrante desrespeito para com Iavé, o Deus de Israel, com quem havia sido estabelecida uma aliança desde os tempos de Moisés. O facto é relatado no Segundo Livro de Reis (18:1-4): “No terceiro ano de Oseias, filho de Elá, rei de Israel, começou a reinar Ezequias, filho de Acaz, rei de Judá. Tinha vinte e cinco anos de idade quando começou a reinar e reinou vinte e nove anos em Jerusalém; sua mãe se chamava Abi e era filha de Zacarias. Fez ele o que era recto perante o Senhor, segundo tudo o que fizera David, seu pai. Removeu os altos, quebrou as colunas e deitou abaixo o poste-ídolo; e fez em pedaços a serpente de bronze que Moisés fizera, porque até àquele dia os filhos de Israel lhe queimavam incenso e lhe chamavam Neustã.”

    Ezequias, o novo governante do reino do Sul, “removeu os altos”, isto é, destruiu os lugares elevados onde eram construídos altares para os sacrifícios a deuses pagãos (1Samuel 9:12; 1Reis 14:23). No caso do culto dedicado ao deus Moloque, até crianças eram ali sacrificadas (Jeremias 7:31).
    Ezequias “quebrou as colunas”, ou seja, pedras que serviam para marcar lugares sagrados, e que eram utilizadas para a prática da idolatria (Levítico 26:1).
    Ezequias “deitou abaixo o poste-ídolo”, o que significa que haveria um totem representando provavelmente Aserá (ou Astarote, ou Astarte), deusa da fertilidade, que era adorada por fenícios e sírios em culto lascivo, juntamente com Baal, seu companheiro (Juízes 3:7).
    Ezequias também “fez em pedaços a serpente de bronze que Moisés fizera, porque até àquele dia os filhos de Israel lhe queimavam incenso e lhe chamavam Neustã”, ou seja, estamos aqui perante a perversão do sentido de um símbolo.

    A história bíblica relata de que forma surgiu a dita serpente de bronze, nos dias em que o povo peregrinava no deserto do Sinai (Nm 21:4-9): “Então, partiram do monte Hor, pelo caminho do mar Vermelho, a rodear a terra de Edom, porém o povo se tornou impaciente no caminho. E o povo falou contra Deus e contra Moisés: Por que nos fizestes subir do Egito, para que morramos neste deserto, onde não há pão nem água? E a nossa alma tem fastio deste pão vil. Então, o Senhor mandou entre o povo serpentes abrasadoras, que mordiam o povo; e morreram muitos do povo de Israel. Veio o povo a Moisés e disse: Havemos pecado, porque temos falado contra o Senhor e contra ti; ora ao Senhor que tire de nós as serpentes. Então, Moisés orou pelo povo. Disse o Senhor a Moisés: Faze uma serpente abrasadora, põe-na sobre uma haste, e será que todo mordido que a mirar viverá. Fez Moisés uma serpente de bronze e a pôs sobre uma haste; sendo alguém mordido por alguma serpente, se olhava para a de bronze, sarava.”
    Desta forma, a serpente que é hoje, entre nós, e desde há muitos anos, símbolo universal da farmacopeia, dado o poder curativo que assume no episódio bíblico atrás relatado, foi desvirtuado pelos israelitas, justamente enquanto símbolo, de modo que passou a representar uma divindade aparentada com os cultos cananitas.

    O que aconteceu para que este acto de perversão simbólica tivesse ocorrido? Provavelmente tratou-se de uma mudança de paradigma religioso. Chegados à “terra da promessa”, os israelitas acabaram por se comprometer com os cultos pagãos cananitas, existentes antes da sua chegada. Agora que já não viviam o nomadismo do deserto, sem pão nem água, inteiramente à mercê dos cuidados divinos, mas quando já cultivavam a terra, construíam as suas habitações, viviam da pastorícia e desenvolviam profissões típicas do estilo de vida sedentário, e quando a sombra tutelar do seu Deus já não era considerada fundamental à sobrevivência, acabaram por ceder à cultura religiosa autóctone, atraídos pelo simbolismo das manifestações religiosas do paganismo. Talvez isso tenha acontecido porque a simbólica judaica se confinava quase apenas ao Templo de Jerusalém, o qual, afinal, pouco impacto tinha na vida quotidiana do judeu comum que vivesse fora da cidade, em tempos de mornidão religiosa.

    Aquele povo cuja vida comunitária no passado de desenrolava à volta do Tabernáculo, o templo portátil do deserto, que era invariavelmente instalado no centro do arraial, o coração do acampamento, com as tendas familiares dispostas à volta, organizadas segundo as suas tribos, e cujos rituais sacrificiais davam sentido à sua prolongada peregrinação, desenvolvendo uma teologia da esperança, centrada no destino final de Canaã, tinha agora perdido o referencial ritualístico e estruturante da sua vida pessoal, familiar e comunitária, que era, de todo, inseparável da fé dos filhos de Abraão.

    Havia que encontrar uma simbólica de substituição, que permitisse a construção de uma identidade nacional, até porque os seus irmãos desavindos do reino do Norte, os samaritanos, não haviam revelado grande dificuldade em substituir o culto judaico no Templo de Jerusalém, agora interdito visto ser a capital de Judá, pelas manifestações religiosas do Monte Gerizim, em Samaria, capital de Israel, de recorte pagão, que também incluíam os “altos”.

    Aliás, o encontro de Jesus Cristo com a mulher samaritana, relatado no Evangelho de S. João (4:1-30), aflorou a situação de divisão e confusão religiosa que ainda persistia: “Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar”. As dúvidas da mulher incluíam decerto não apenas o lugar correcto para prestar adoração ao Deus de Abraão, mas também a forma de o fazer, isto é, a simbólica e o ritual adequados. Daí que o Mestre lhe tenha dito: “vós adorais o que não sabeis”.

    Fazia parte da aliança mosaica a definição do lugar do culto verdadeiro, sem deixar margem a quaisquer dúvidas (conf. Deuteronómio 12:1-5): “São estes os estatutos e os juízos que cuidareis de cumprir na terra que vos deu o Senhor, Deus de vossos pais, para a possuirdes todos os dias que viverdes sobre a terra. Destruireis por completo todos os lugares onde as nações que ides desapossar serviram aos seus deuses, sobre as altas montanhas, sobre os outeiros e debaixo de toda árvore frondosa; deitareis abaixo os seus altares, e despedaçareis as suas colunas, e os seus postes-ídolo queimareis, e despedaçareis as imagens esculpidas dos seus deuses, e apagareis o seu nome daquele lugar. Não fareis assim para com o Senhor, vosso Deus, mas buscareis o lugar que o Senhor, vosso Deus, escolher de todas as vossas tribos, para ali pôr o seu nome e sua habitação; e para lá ireis.”

    Mas também toda a construção ritual e a simbólica judaica estava devida e pormenorizadamente registada e definida na Torah, pelo que não havia razão para se não fazer assim.

    No fundo, o pecado de Israel, que provocou a violenta destruição da serpente de bronze, transformada em relíquia-símbolo de uma divindade estrangeira e alheia à nação judaica, significou não apenas o apagar do passado, por ela representado, e que remetia para a memória do livramento divino nos dias difíceis do deserto, mas também a adulteração da memória colectiva. E um povo sem memória não é povo, porque perde o cimento agregador que o caracteriza. Mas representou, igualmente, o rasgar do pacto sinaítico, que estava na génese da formação nacional. Israel só era povo específico e peculiar, isto é, portador de uma identidade nacional, devido à aliança estabelecida no passado com Iavé, que libertara aquele grupo de hebreus, incaracterístico, da escravidão no Egipto, pela mão de Moisés.

    Os símbolos remetem para significâncias e realidades espirituais, sociais, religiosas, políticas e outras. Aplicar um símbolo, com uma carga historicamente adquirida e estabelecida, a uma significância nova e contraditória, provoca dissonâncias de representação que implicam custos elevados, em matéria de confusão, e pode exigir que venham a ser simplesmente destruídos, por inadequação ou inutilidade no novo contexto. Por isso, será importante perceber os símbolos e respeitá-los, pois só assim é possível garantir a sua preservação.

    Brissos Lino, Abril de 2007

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