Fátima: 100 anos depois

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A tendência das análises costuma resvalar quase sempre para posições extremadas. O caso das denominadas aparições de Fátima não foge à regra. De um lado estão os que as consideram uma acção artificial premeditada por mão humana, com vista a enganar as crianças pastoras, analfabetas e mergulhadas no obscurantismo rural da época, ou que Lúcia terá tido uma perturbação psíquica do tipo alucinatório. Do outro lado estão os que levam à letra tudo quanto é (foi) descrito, de modo acrítico, alinhados com a crendice popular. Não creio que nenhum destes seja o caminho mais correcto e adequado para a reflectir sobre o fenómeno.

Julgo que nos últimos tempos a igreja católica tem começado a clarificar melhor os acontecimentos de 1917 na Cova da Iria, através dos seus teólogos e até de homens da hierarquia. Desde logo com a recusa do termo “aparições”, por inexactidão, visto que se terá tratado de uma experiência pessoal e interior, uma “visão mística” (D. Carlos Azevedo), uma “visão da consciência” sem qualquer “materialidade” (D. Januário Torgal Ferreira), ou algo que deve ser visto pelo “olhar interior da fé” (D. António Marto) e não propriamente uma aparição que, a sê-lo, teria que ser visível por todos.

Fátima funciona sobretudo como espaço físico e espiritual de catarse. Para ali são canalizadas as angústias, as dores, o medo e o sofrimento das pessoas.

O papa Francisco ensaiou mesmo um discurso um pouco ao arrepio da religiosidade popular, quando recordou que “Maria não é a ‘Santinha’ a quem se recorre para obter favores”, mas que ela mesma foi a primeira seguidora de Jesus Cristo, o Salvador. Francisco realçou o papel redentor de Jesus Cristo, ao afirmar: “a misericórdia de Deus não nega a justiça, porque Jesus tomou sobre Si as consequências” do pecado da humanidade “juntamente com a justa pena”.

Januário Torgal Ferreira lamenta a pouca ligação de Fátima ao mundo real, mas o papa não se cansou de lembrar “cada um dos deserdados e infelizes a quem roubaram o presente”, assim como os “excluídos e abandonados a quem negam o futuro”, e invocou os “órfãos e injustiçados a quem não se permite ter um passado”. Exortou os católicos à necessidade de praticarem a misericórdia. Apelou aos peregrinos para abandonarem “qualquer forma de medo e temor, porque não se coaduna” com “quem é amado”, e sublinhou o perdão: “a misericórdia de Deus perdoa sempre, perdoa tudo”.

Mas Fátima interpela também a política. Januário Torgal Ferreira criticou publicamente a tolerância de ponto que foi dada pelo governo aos funcionários públicos e António Marto esclareceu que nunca a pediu ao governo, pois, sendo fim-de-semana, a medida revelou-se desnecessária. A verdade é que o governo a decretou suscitando assim algumas reacções isoladas. Julgo que se aplica aqui a velha máxima de “ser mais papista do que o papa”.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 19/5/17.

 

 

Uma tautologia

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Esta fotografia é como uma tautologia, começa e acaba em si própria, como os “poemas que são e se significam a si próprios”, no dizer de Harold Bloom.

A sublimação com que se trata esta fotografia há um século, é uma espécie de arkesis. A nossa palavra para o termo grego é ascese. Ascetismo é  o que nos sugere esta fotografia, obviamente.
A mesma intui no nosso espírito uma espécie da já referida arkesis, quando a olhamos atentamente.

Os rostos têm uma relação com a religião, a responsabilidade de serem protagonistas de uma “epifania” preparada, têm a motivação da tristeza de uma religião, nas crianças transparece o começo de uma vida ascética a que as obrigaram.
A fotografia tem uma força própria, a da tragédia. Não mostra nenhuma visão romântica.

Mas exceptua-se um rosto, que denota uma beleza infantil em gestação, uma pose de charme que, por certo, a Jacinta nos seus 7 anos desconheceria. No entanto, faz-se fotografar com a mão inocentemente na cintura. Uma atitude de feminilidade.
Ao fim destes cem anos, penso que  alguém deveria ser responsabilizado por ter cerceado a beleza na adolescência de Jacinta.

© João Tomaz Parreira

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6); “Ovelhas perdidas foram o meu povo, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

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