A Páscoa como escândalo

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A falta de compreensão do sentido da Páscoa tornou-se generalizada no mundo ocidental, apesar de a celebrar, por força da tradição e da cultura. A maior parte dos que se afirmam cristãos revela enorme dificuldade em entender o facto de a época pascal ser a mais significativa no calendário da fé cristã.

Em função do pensamento pós-moderno vivemos numa sociedade predominantemente hedonista. O prazer pessoal, imediato e a qualquer preço está aí, bem presente nos comportamentos individuais e de grupo. Esta realidade não se conjuga com o conceito de sacrifício, e menos ainda com a ideia do sofrimento de substituição, no lugar do outro.

Ora, a mensagem cristã passa exactamente por aí, pois S. Paulo diz: “Mas Deus prova o seu amor para connosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Romanos 5:8). E note-se que a motivação para tal sacrifício é o amor – outro conceito amplamente desvirtuado nos dias que correm – mas que representa a força mais poderosa do universo, segundo a poética de Salomão: “Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas” (Cânticos 8:6). Aliás, toda a epístola paulina à igreja de Roma bate na tecla da justificação pela fé através do sacrifício de Cristo, de carácter vicário e redentor, e a Carta aos ebreus Hwebreus Hebreus retoma o mote por analogia com a lei de Moisés e a tradição sacrificial hebraica.

A dificuldade crescente em compreender o conceito de fazer sacrifícios na vida quando se vive numa sociedade do prazer e do bem-estar é por demais evidente. Os millenials não entendem que os avós se tenham sacrificado no passado, procurado fazer poupanças, evitar os desperdícios e o dinheiro mal gasto, com vista a enfrentar a fase mais avançada da vida com a menor ansiedade possível. Mas a sua cultura desses idosos baseia-se na memória dos anos da guerra, dos racionamentos, privações, múltiplas incertezas e ausência de segurança social. Mas talvez já compreendam que os seus pais se sacrifiquem por eles, a fim de lhes proporcionar estudos de nível superior e que não lhes falte nada, embora eles não tencionem reproduzir o modelo.

Outro aspecto de incompreensão geral e persistente da essência da mensagem da Páscoa é a questão da cruz como escândalo. O Novo Testamento diz que os judeus consideraram a cruz de Cristo como escândalo e os gentios como loucura: “Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos” (1 Coríntios 1:23). A cultura helenística procurava o ideal do homem perfeito, por isso entender um Salvador do mundo desnudado e exangue, como vítima de tortura e morte ignominiosa e humilhante, era inconcebível. Ainda mais para o judaísmo do primeiro século, que ansiava a libertação do jugo de Roma, e em vez dum libertador que entrasse em Jerusalém em cima dum jumentinho esperava um Messias montado num garboso cavalo branco, a comandar uma força militar, que viesse restaurar a soberania israelita em Judá. Para a religião judaica considerar o cruxificado como enviado de Deus e redentor era simplesmente escandaloso.

René Girard desenvolveu uma teoria do sacrifício onde o cristianismo triunfa “da organização pagã do mundo”, recusando a caça ao bode expiatório como expediente para o alívio da consciência colectiva. Mas a modernidade tardia trouxe consigo uma verdadeira subversão do período pascal na cultura. Uma sociedade extremamente individualista teria sempre dificuldade em entender a razão de alguém viver em função dos outros, entregando-se voluntariamente ao sacrifício pelos outros e sujeitar-se à morte em lugar de bons e maus, de conhecidos e desconhecidos. E não a uma morte qualquer, mas à que decorre duma pena destinada aos maiores criminosos, sendo contudo inteiramente inocente. Talvez por isso, e devido à galopante falta de identificação religiosa na Europa, em particular nas regiões urbanas do território, as férias no período pascal são aproveitadas para descansar e viajar, não se lhes atribuindo qualquer valor espiritual ou religioso.

A cultura popular introduziu o coelho e o ovo na iconografia da Páscoa. Fala-se mais disto às crianças das famílias ditas cristãs do que da cruz e do sepulcro vazio. Mas o que significa a celebração da Páscoa? Para os cristãos marca a esperança de uma nova vida, um recomeço e a crença tanto na ressurreição, como na segunda vinda de Jesus à Terra. Se a páscoa judaica (Pessach) celebrava a libertação da escravatura do povo hebreu no Egipto, a páscoa cristã representa a libertação da escravatura espiritual a que chamamos pecado. E não confundamos as coisas. Na perpectiva bíblica “pecado” não se reduz a uma sexualidade desordenada, mas sim a tudo que, por acção ou omissão, passe ao lado da vontade de Deus, uma vez que, etimologicamente, o termo significa “errar o alvo”. É caso para dizer: que atire a primeira pedra quem nunca errou.

José Brissos-Lino

 

Fonte: VISÃO online, 17/4/19

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A Inquisição acabou no papel mas não nas cabeças

Da mesma forma como não podemos esquecer os horrores do nazismo, do estalinismo, do maoísmo, dos kmer vermelhos, do fascismo e de tantas outas ditaduras sanguinárias de direita e de esquerda, também não podemos esquecer esse maldito Tribunal do Santo Ofício, vulgo Inquisição, que de tribunal nada tinha e de santo muito menos.

O exercício da memória é fundamental nos seres vivos e em particular dos humanos. É ela que nos possibilita evitar os perigos já conhecidos e voltar a obter satisfações semelhantes às anteriormente experienciadas. É ela que nos ajuda a progredir em eficácia e eficiência nas nossas tarefas e a evitar métodos inócuos ou perniciosos na tentativa de alcançar os fins pretendidos.

O funcionamento da memória é um dos processos mais complexos executados por esse órgão fascinante que é o cérebro humano. Mas a memória colectiva funciona doutra forma e vai-se desvanecendo, em grande parte porque a atenção mediática se centra na espuma dos dias.

Talvez por isso o parlamento português tenha decidido no ano passado, por unanimidade e em boa hora, estabelecer o Dia da Memória das Vítimas da Inquisição, a evocar anualmente, como “um resgate da memória das várias vítimas da Inquisição, desde os judeus a seguidores de outros credos, ou até maçónicos e homossexuais, entre outros cidadãos”. Fê-lo a partir da iniciativa dum grupo de cidadãos que apresentaram uma petição nesse sentido à Assembleia da República, a fim de lembrar as vítimas dos 45.000 processos da Inquisição, e onde se pedia que fosse erigido um memorial em Lisboa, no Rossio, em frente ao Teatro Nacional D. Maria II, onde era a sede do Tribunal do Santo Ofício e habitualmente se realizavam os autos-de-fé.

Segundo Anita Novinsky: “A instituição do Tribunal da Inquisição em Portugal foi obra de um jogo entre os interesses da Igreja e os do Estado”, tendo-se tornado um excelente negócio para alguns. A Cúria Romana vendeu-se pelo vil metal e vários cardeais receberam avultadas prebendas da coroa. O núncio da Santa Sé Capodiferro acumulou enormes riquezas, ajudando os cristãos-novos a fugir. Quando um navio que transportava os seus bens naufragou, o embaixador português comentou satisfeito: “Não é sem razão que esse barco, carregado de despojos do sangue de Nosso Senhor Jesus e dos presentes ofertados por seus inimigos, soçobrou no mar” (Herculano, 1975, tomo 2, p. 255).

A organização entrou no país de 1546, pela mão de D. João III, e manteve-se até 31 de Março de 1821, quando foi formalmente extinta, pelo parlamento. Entretanto: “(…) criou colaboracionistas, gratificou a delação e transformou, como disse o poeta Antero de Quental, a hipocrisia num vício nacional (…). Com a aplicação dos estatutos de pureza de sangue, antecipou de 400 anos o racismo do século XX” (Novinsky, A., A Inquisição, p. 24).

Quando temos a consciência de que só há cerca de 200 anos aquela malfadada máquina foi desmantelada (apesar de já não se queimarem pessoas na fogueira há muito), não nos admiramos ao verificar um certo espírito inquisitorial ainda presente na sociedade portuguesa. Pode-se revogar uma lei num dia, pode-se desmantelar uma instituição numa semana, mas as mentalidades demoram gerações a mudar. E dois séculos não são assim tantas gerações com potencial de mudança num país monolítico em matéria de religião, com uma mesma língua e com fronteiras estáveis há quase 900 anos.

É certo que com a instauração da democracia em 1974 e especialmente com a descolonização e a adesão à Europa, assim como a abertura das fronteiras, o país começou finalmente a abrir-se, a mudar, a complexificar-se. Com a globalização, as tecnologias de informação e comunicação e os movimentos migratórios aprofundou e acelerou tais mudanças.

As gerações mais novas têm o direito de conhecer as páginas negras de quase 300 anos da história nacional, não só por uma questão de combater o esquecimento mas em razão da cidadania e da formação das consciências, até porque os cantos de sereia dos populismos de direita e de esquerda ouvem-se cada vez mais alto por essa Europa fora. Os demónios andam por aí à solta com aparência de anjos de luz. Os discursos extremistas, as propostas políticas radicais, a falta de formação e a desinformação das populações estão a criar um caldo de cultura para o surgimento de um amado líder (leia-se ditador) que venha prometer-nos qualquer dia um reinado de mil anos. E depois não vai interessar muito se Hitler era de direita ou de esquerda, como teoriza o pobre Bolsonaro.

A Pide (polícia política do salazarismo), de má memória, foi um sucedâneo da Inquisição, assim como as políticas repressivas da ditadura, que replicaram práticas nazis, fascistas e estalinistas. Os efeitos da Inquisição ainda se fazem sentir em Portugal, nalgumas campanhas políticas, no politicamente correcto, nas causas fracturantes, no discurso de todos os donos da verdade e até nalguns acórdãos judiciais. Temos que estar atentos.

José Brissos-Lino

 

Fonte: VISÃO online, 10/4/19

O que idiotas e ignorantes fazem com a Bíblia

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Muitos gostam de citar a Bíblia nos seus escritos e discursos, para parecerem cultos e legitimarem os seus pontos de vista, mas poucos gastam tempo a lê-la. Até os magistrados. E depois sai asneira, como não podia deixar de ser.

Um dos problemas velhos como o mundo é falar do que se desconhece como se se dominasse o assunto. Por exemplo, acontece de forma recorrente com a Bíblia. Não, não vou falar daqueles juízes que citaram as Escrituras de forma descontextualizada, enviesada e sobretudo errada, que é bem revelador da sua ignorância e falta de cultura bíblica.

Também não alinho por aqueles que dizem que os magistrados não têm nada que citar a Bíblia nos acórdãos. Se a citarem de forma correcta não vejo qualquer problema, tal como poderão citar os autores clássicos, por exemplo. A confusão está em que esses críticos consideram que Bíblia é um livro religioso e a religião não é chamada para as decisões da justiça. Até estaria de acordo com eles se a Bíblia fosse apenas um livro religioso, mas é muito mais do que isso, trata-se de um dos maiores monumentos da cultura universal. Estranho seria citá-la em sentenças judiciais no Irão, na Índia ou no Japão, países que representam outras culturas religiosas.

Mas a asneira é universal. Ainda recentemente a Inglaterra e o mundo ficaram estupefactos com a argumentação utilizada pelo ministério do interior britânico, responsável pela imigração, ao negar asilo a um iraniano, que invocava o risco de perseguição por se ter convertido ao cristianismo depois de perceber que era uma religião pacífica. No indeferimento usaram-se passagens do Antigo Testamento e do Apocalipse para mostrar que a fé cristã inclui “imagens de violência, destruição e morte”…

Segundo o Expresso: “Nathan Stevens, o representante do requerente de asilo, nem queria acreditar quando leu a resposta ao pedido. ‘Tenho visto muito ao longo dos anos – referindo a criatividade dos argumentos utilizados para a recusa de asilo – mas mesmo eu fiquei genuinamente chocado ao ver esta diatribe incrivelmente ofensiva ser usada para justificar uma recusa de asilo”. Um jurista conhecedor dos processos de asilo pensa que a resposta ao pedido “implica necessariamente uma epidemia de anti-cristianismo lá dentro”.

Misturar textos de Êxodo e Levítico para este efeito é doentio. Até os ateus referiram que “não é função do Ministério armar-se em teólogo”, e o bispo anglicano de Durham lamentou que um departamento do estado “possa determinar o futuro de outro ser humano com base num entendimento tão errado dos textos e práticas das comunidades de fé”.

Qualquer texto antigo, com milhares de anos exige uma hermenêutica cuidada, seja bíblico ou não. Só um ignorante faria uma leitura literal de Homero, Virgílio ou mesmo Camões. Mas com os textos bíblicos parece que muita gente se dispõe rapidamente a fazê-lo… Todos os textos precisam de ser interpretados e contextualizados, e quando se trata de escritos com milhares de anos, mais precisam desse cuidado. É necessário conhecer qual a cultura da época, crenças, tradições, conceitos cosmogónicos, organização social, medos, abordagem ao transcendente, usos e costumes. É necessário também conhecer as línguas originais para desenvolver uma exegese capaz.

É ainda imprescindível tomar consciência do género literário que temos pela frente, já que os textos poéticos terão que ser interpretados de forma necessariamente diversa dos textos jurídicos, e os escritos históricos da literatura apocalíptica. Ora, a Bíblia comporta poesia, literatura de viagens, textos históricos, apocalípticos, sapienciais, devocionais, proféticos, genealógicos e jurídicos entre outros. Cada género literário terá que merecer uma abordagem específica ao texto.

Portanto, agarrar em texto bíblico e proceder a uma leitura ao pé da letra é asneira certa. Deixo apenas um exemplo retirado do Evangelho de S. Mateus (18:8,9): “Portanto, se a tua mão ou o teu pé te escandalizar, corta-o, e atira-o para longe de ti; melhor te é entrar na vida coxo, ou aleijado, do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno. E, se o teu olho te escandalizar, arranca-o, e atira-o para longe de ti; melhor te é entrar na vida com um só olho, do que, tendo dois olhos, seres lançado no fogo do inferno.” É claro que se optássemos por uma interpretação literal deste texto viveríamos numa sociedade de manetas, pernetas e zarolhos…

Os fundamentalismos e os grupos religiosos extremistas de inspiração cristã, todos recorrem aos textos bíblicos para se legitimarem, porque estes se tornam elásticos quando a interpretação é feita à martelada. Alguns juízes estão a seguir-lhes os passos. É pena. Em vez que atentarem de forma grosseira contra o sentido e o enquadramento dos textos, era melhor que os estudassem um pouco melhor antes de dizer asneira, ou que citassem antes, sei lá, o José Rodrigues dos Santos. Dava na mesma um toque pretensamente intelectual às suas doutas sentenças, mas nesse caso não fazia estragos.

José Brissos-Lino

 

Fonte: VISÃO online, 3/4/19

Um estranho Rio que corre ao contrário

Mario Tama/ Getty Images

 

Pode parecer estranho, mas num país com uma população tão diversificada como é o Brasil, a intolerância religiosa cresce e assume contornos preocupantes. Mas parte do problema parece estar nas lideranças mediáticas neopentecostais.

Portugal, segundo um estudo recentemente divulgado e dirigido pelo Prof. Alfredo Teixeira, para a Fundação Francisco Manuel dos Santos (“Identidades religiosas na Área Metropolitana de Lisboa”), não regista intolerância religiosa, apesar da diversidade já verificável em particular na Grande Lisboa. Esta investigação revela a preocupação de cobrir todo o espectro religioso português, mesmo face às transformações mais recentes, e arriscando até novas classificações, do que resulta, a nosso ver, um enriquecimento metodológico do ponto de vista da sociologia das religiões.

O trabalho de campo deparou-se com as dificuldades esperadas em estudar comparativamente religiões de forte praxis comunitária/colectiva (ex: evangélicos/protestantes, católicos, testemunhas de Jeová) com outras expressões religioso/filosóficas como o budismo, de natureza diversa mais individual, tendo em conta as práticas cultuais e o exercício mais da meditação do que da oração. Mas apresentou a vantagem de traçar um quadro simultaneamente amplo e minucioso sobre a caracterização sócio-demográfica da população estudada, o seu percurso de vida, literacia religiosa, avaliação da memória religiosa familiar, reprodução da herança religiosa, trajetórias de alteração de posição religiosa ao longo da vida, a desarticulação entre crer e pertencer, a mobilidade territorial, as práticas de fim-de-semana, a privatização do religioso, as redes de amizade e ajuda, a avaliação do sentimento de discriminação religiosa, crenças, práticas orantes e cultuais e diversos outros indicadores.

Na sessão solene de encerramento das comemorações dos 50 anos da criação da Comunidade Islâmica de Lisboa, recentemente realizadas e que decorreram na Mesquita Central de Lisboa, o primeiro-ministro, António Costa, no seu discurso destacou a convivência pacífica entre crentes de diferentes religiões que existe em Portugal, afirmando que o Estado laico “não deve ignorar os sentimentos religiosos dos cidadãos”, mas antes tratar a todos por igual, acrescentado que “temos de garantir que a identidade de cada um assuma os direitos do outro”. Portanto, não temos com que nos preocupar, para já, com esta matéria.

Já o Brasil tem vindo a confrontar-se com um problema crescente de intolerância religiosa, sendo que o Rio de Janeiro apresentou o maior número de denúncias (32), seguido por Minas Gerais (29) e São Paulo (27). De facto as estatísticas do Centro de Promoção da Liberdade Religiosa & Direitos Humanos (CEPLIR) referentes ao estado do Rio são alarmantes. Segundo um relatório recente 71,15% dos casos envolviam as religiões afro-brasileiras, mais afectadas por esse tipo de discriminação. Todavia registou-se um aumento de intolerância contra muçulmanos, nos últimos anos, o que pode estar associado a factos internacionais ligados às acções do Estado Islâmico. O documento foi lançado na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), e é fruto de uma parceria entre a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), o Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP) e o Laboratório de História das Experiências Religiosas (LHER) do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O facto de se verificar um problema de intolerância religiosa numa população tão diferenciada como a do país irmão, com uma mescla de origens europeias, africanas e índias, é um claro sintoma de disfunção social. Face a uma diversidade étnica tão expressiva seria natural a aceitação duma diversidade cultural e religiosa consolidada. A raiz do problema só pode estar no fundamentalismo religioso que tem aflorado em especial desde meados dos anos oitenta, através desse fenómeno chamado neopentecostalismo, que não passa duma forma de populismo religioso, e que apresenta soluções simplistas para situações complexas que preocupam seriamente as pessoas, que infantiliza os fiéis, que vende as bênçãos divinas (uma espécie de novas indulgências), que diaboliza o diferente e desrespeita a fé alheia ou a falta dela. Um Rio que corre ao contrário é sempre estranho.

Mas talvez o problema principal esteja mais exactamente na mediatização de algumas lideranças desses grupos religiosos, com claras ambições de controlo social e político, que enriquecem à custa da fé dos simples e conseguem impacto mediático ao dominar rádios e televisões. Eles assumem bandeiras de exclusão à boa maneira populista, dividindo a sociedade entre nós e eles, entre bons e maus. Mas quanto a esses, talvez Jesus lhes venha a dizer um dia: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E em teu nome não expulsamos demónios? E em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mateus 7:21-23).

José Brissos-Lino

 

Fonte: VISÃO online, 27/3/19

 

 

Matar é cobardia, coragem é conviver!

TESSA BURROWS/ Getty Images

 

 

Imaginemos que um islamita armado entrava num domingo na Sé de Lisboa e assassinava cinquenta católicos, entre adultos e crianças. Foi o que fez o supremacista branco Brenton Tarrant, só que os mortos são muçulmanos, abatidos em duas mesquitas de Cristchurch. Para alguns é mais fácil a cobardia do assassinato do que a coragem da convivência.

O recente massacre de meia centena de emigrantes e refugiados muçulmanos em duas mesquitas da Nova Zelândia, quando estavam reunidos em oração, não choca apenas o mundo civilizado ou o Islão. Deveria envergonhar a espécie humana. A primeira-ministra, Jacinda Ardern foi firme: “Muitos dos afetados por este ato de violência são migrantes e refugiados. Esta é a sua casa. Eles são nós. Quem perpetrou isto não é”, reagindo à tragédia no Twitter e em conferência de imprensa. O objectivo confessado do terrorista australiano, que deixou um longo manifesto de ódio e se apresentou como fascista, racista e admirador de Donald Trump, era “criar uma atmosfera de medo” e “incitar à violência” contra os muçulmanos. Por isso este extremista de direita filmou o massacre e transmitiu-o em directo na internet. Ainda tinha bombas no carro prontas a explodir.

Não podemos ignorar os sinais preocupantes à volta da carnificina. No dia seguinte verificou-se uma relativa indiferença do mundo cristão face à tragédia, excepto a mensagem do Papa e alguns sites protestantes que fizeram eco do apelo solidário da Rede Cristã da Nova Zelândia, que expressou horror e grande tristeza pelos ataques: “Os ataques são totalmente aterradores e serão deplorados por todas as pessoas da Nova Zelândia de todas as religiões ou de nenhuma”, exortando à oração por “todas as famílias e comunidades que serão profundamente afectadas, e a oferecer-lhes apoio de todas as formas possíveis” (Evangelical Focus). A Aliança Evangélica Mundial (WEA) só reagiu mais tarde, tendo o ataque ocorrido no mesmo dia em que apresentou uma declaração verbal no Conselho de Direitos Humanos da ONU em Genebra, denunciando o populismo nacionalista. Além disso, como parte do esforço para construir pontes de respeito e compreensão entre pessoas de diferentes religiões e sem fé, a WEA também se tem empenhado em dialogar com o Islão há muito, como é o caso da participação na Conferência Global sobre Fraternidade Humana, em Abu Dhabi, no mês passado. Os cristãos não podem fazer outra coisa se acaso aprenderam algo com o episódio do bom samaritano, onde Jesus Cristo quis explicar quem é o nosso próximo. Mas o histórico mostra que nem sempre os cristãos conseguem olhar os muçulmanos como próximos e vice-versa.

Ao assumir-se como admirador de Donald Trump este terrorista revela que se devem responsabilizar política e moralmente os políticos que, na oposição ou no poder, alimentam um discurso de ódio contra sectores da sociedade global. Tais líderes políticos e governantes não podem sair incólumes deste tipo de situações. Têm que assumir as suas responsabilidades. Não podem andar todos os dias a instilar ódio contra estrangeiros, emigrantes e refugiados, contra pessoas com outra cor de pele, fiéis de outras tradições religiosas e contra quaisquer minorias, promovendo um clima de ódio, e depois lavar as mãos quando acontece isto.

O conceito de espaço sagrado, que até em situações de guerra é normalmente respeitado e considerado neutro, perdeu validade. Isto deve-se a uma sociedade secularizada em défice de respeito pelos direitos humanos e que não reconhece nem respeita a fé alheia, que é tão legítima como a sua ou como a ausência de fé religiosa.

Cada vez se comprova mais o imperativo de implementar, promover e aprofundar o diálogo inter-religioso em nome da paz entre os povos e do desenvolvimento da humanidade. Torna-se indispensável combater os estereótipos culturais e religiosos que levantam muros de separação entre seres humanos em vez de lançar pontes que aproximam. O reconhecimento da existência legítima de outras culturas, religiões e civilizações não pode amedrontar quem está seguro da sua própria identidade. A presunção de superioridade moral só será posta em causa através do conhecimento do outro e da descoberta do que ele nos acrescenta. O monopólio da verdade não pertence a ninguém e todos têm rabos-de-palha históricos. Segundo Catarina Belo, especialista em Filosofia Islâmica e professora da Universidade Americana do Cairo: “a violência não faz parte da essência do Islão”. Ou como disse um imã: “Estes extremistas não representam a maioria dos neozelandeses, do mesmo modo que os muçulmanos extremistas não nos representam”.  

Mas ainda há sinais de esperança. As sinagogas judaicas na Nova Zelândia fecharam no sábado seguinte: “Oferecemos toda a assistência e apoio à comunidade muçulmana e estamos unidos a ela contra o flagelo do terrorismo e do racismo, que devemos fazer tudo o que pudermos para banir da Nova Zelândia. Estamos a orar por todos os afectados e suas famílias.” É que, além da solidariedade, amanhã pode ser (de novo) a vez dos judeus ou dos cristãos.

José Brissos-Lino

 

Fonte: VISÃO online, 20/3/19

Fascista é a tua tia!

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Qualquer alma que se atreva a opor às ideias do extremismo político de esquerda tende a ser apelidado de fascista. O mesmo se pode dizer da direita, que chama comunista a tudo o que mexe. E assim se vai fazendo o branqueamento da verdadeira besta negra do fascismo. 

O controverso ex-deputado federal do Brasil, Jean Wyllys (PSOL-RJ) veio a Portugal a convite da Fundação Saramago. Boaventura Sousa Santos convidou-o para falar na Universidade de Coimbra, e o Bloco de Esquerda a reunir na Assembleia da República. Ficamos a saber que tanto Boaventura como Catarina Martins não acham mal que se cuspa na cara dos adversários políticos. Por muito menos do que isso os ministros João Soares (Cultura), Manuel Pinho (Economia) e Carlos Borrego (Ambiente) tiveram que abandonar diferentes governos de que faziam parte, chefiados por António Costa, José Sócrates e Cavaco Silva, respectivamente. Mas a este senhor tudo é permitido. Até a deselegância de vir a Portugal criticar o nosso presidente da república por ter ido à posse do novo chefe de estado do Brasil, em nome das nossas profundas ligações históricas. Até o desvario de afirmar que terá havido financiamento duma “campanha pérfida” contra ele, a partir de Portugal, mas sem apresentar provas, é claro.

O que realmente escandaliza qualquer ser pensante é o conjunto de falácias de que este indivíduo se alimenta. Desde logo Jean Wyllys diz-se perseguido por ser de esquerda, mas ele não parece ser de esquerda nem de direita, nem de centro, mas um espécime politicamente inclassificável que apenas está a colher o clima de ódio e provocação que andou a semear anos a fio. Ainda agora chamou canalha ao ministro da Justiça e ao presidente do seu país, em entrevista à imprensa portuguesa. Quem não respeita não merece respeito.

Depois, Jean Wyllys diz que abandonou o Brasil e se exilou por causa de constantes ameaças de morte, mas a verdade é que prometeu em campanha que abandonaria o país caso Bolsonaro ganhasse as eleições – e não foi o único a fazê-lo –, portanto está apenas a cumprir uma promessa eleitoral e não pode ser criticado por isso. Mas talvez a verdadeira razão da saída pela porta baixa seja o facto de o eleitorado ter revelado profunda insatisfação com o seu desempenho parlamentar e político. Nas últimas eleições passou de 140 mil votos (2014) para cerca de 24 mil (2018). A votação miserável que obteve quase não o conseguia eleger.

Diz ele: “O que deu a vitória a Bolsonaro foi a homofobia”. Não. Bolsonaro ganhou devido a extrema corrupção, altíssima criminalidade, violência e insegurança, e graças a um eleitorado profundamente desiludido com a governação petista. Jean Wyllys diz também que é perseguido por ser homossexual. Na realidade há muitos homossexuais no Brasil, e mesmo no parlamento federal que não se queixam de perseguição. Em vez de defender os direitos dos homossexuais ele só lhes perturba a luta, porque em vez de lhes defender os direitos exige privilégios, atacando e insultando feroz e repetidamente os adversários.

Jean Wyllys diz ainda que quer ter uma vida tranquila, mas em Portugal não parece possível. Custa a entender que um indivíduo que cuspiu na cara dum adversário político na Câmara dos Deputados, em Brasília, e passou a vida a enxovalhar os sentimentos religiosos de grande parte da população queira de facto paz e tranquilidade. O ex-deputado, que conseguiu alguma notoriedade no programa Big Brother Brasil (Rede Globo), manteve desde o início uma campanha de combate ao cristianismo. Publicou várias mensagens no Twitter onde chamava doentes, homofóbicos, preconceituosos, violentos, ignorantes e fanáticos aos cristãos, e propunha-se eliminar a influência da fé cristã na sociedade, o que provocou a indignação de muitos com as ofensas e os ataques à liberdade de expressão, religião e comunicação.

Diz também que os brasileiros que estão em Portugal são de “inclinação fascista” e que votaram Bolsonaro em “atitude incoerente e hipócrita”: E pergunta: “Isso é má-fé, burrice ou uma tentativa de vir para cá conspirar contra o governo português de esquerda?” A verdade é que se todos os brasileiros que votaram Bolsonaro são tendencialmente fascistas, então mais de 55,13% dos eleitores são protofascistas… E Jean Wyllys sabe que chamar “fascista” a alguém é crime no Brasil. Apetece dizer: “Fascista é a tua tia!” Esta não é uma forma inteligente de combater o que Bolsonaro personifica. Em vez de revelar frustração e ressentimento o ex-deputado devia combater politicamente a nova governação, com base nas políticas concretas que vão sendo conhecidas, porque o país precisa de oposição inteligente e equilibrada como em qualquer democracia do mundo. Se precisa…

Toda a gente sabe que a população brasileira não é fascista nem comunista, mas alguma coisa a levou a votar em massa numa figura triste como Bolsonaro. O PT lulista (ainda não houve outro que não fosse lulista) e a esquerda radical deviam era pôr a mão na consciência e assumir que falharam redondamente e cometeram inaceitáveis abusos do poder. Além do mais, esta coisa de chamar fascista a quem pensa diferente é uma forma perigosa de branquear o neofascismo, essa besta negra que assoma um pouco por toda a parte.

José Brissos-Lino

 

Fonte: VISÃO online, 13/3/19