Socorro!

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Hoje toma posse como presidente do país (ainda) mais poderoso do mundo um verdadeiro incendiário.

Donald Trump consegue conciliar em si o pior dos piores. Tem um Berlusconi dentro de si pelo facto de ser desrespeitoso com as mulheres e doidivanas. Tem um Mugabe dentro de si pelo facto de se revelar racista, em particular contra mexicanos (que diz serem violadores e assassinos), muçulmanos (que considera terroristas a quem se justifica aplicar a tortura) e estrangeiros em geral, esquecendo que a sua mulher é imigrante e que os únicos verdadeiros nativos americanos são mesmo os índios. Tem ainda um Duterte dentro de si, por advogar a violência à margem da lei.

Hitler nunca enganou ninguém. O Mein Kampf foi escrito na prisão, depois de conspirar contra o estado alemão, e revela abertamente o seu ódio aos judeus, aos comunistas e o seu ressentimento contra a França, decorrente da Grande Guerra. Trump também não tem andado a enganar ninguém. Ele insulta mulheres, portadores de deficiência, heróis de guerra, antigos combatentes vivos e mortos, jornalistas, estrangeiros, refugiados e adversários políticos.

Até aqueles que, talvez por não conseguirem acreditar que estivesse a falar a sério quando dizia as maiores alarvidades em campanha, mas apenas a compor uma personagem política para consumo eleitoral, já estão a acreditar que o homem é mesmo assim e começam a temer o pior.

Está a constituir um governo que parece uma quadrilha, composta por milionários, militares aventureiros, racistas e familiares. O nepotismo impera. Se ele pudesse transferia a Casa Branca para a Trump Tower.

Há diversos casos de presidentes feitos pela televisão (como Marcelo), em programas de comentário político, ou no cinema (como Reagan), mas no caso presente a figura foi construída por programas de entretenimento de gosto duvidoso.

Neste tempo de completa incerteza sobre o futuro desta Administração, há apenas um dado seguro. Trump é um dom do céu para humoristas, cartoonistas e tablóides. Aqui ficam algumas pérolas saídas da boca da personagem: – “Mostrem-me alguém sem ego e eu mostrar-vos-ei um perdedor”. – “Parte da minha beleza vem do facto de eu ser muito rico”. – “Sabes, desde que tenhas um lindo e jovem rabiosque, pouco interessa o que a comunicação social escreve sobre ti”. – “O conceito de aquecimento global foi criado pelos, e para, os chineses de forma a retirar competitividade à indústria norte-americana”. – “Tenho tipos negros a contarem-me o dinheiro… odeio isso”. – “Sou muito inteligente. Algumas pessoas dirão que sou muito, muito, muito inteligente”. – “Às vezes pagam-me para ser um pouco selvagem”. – “Arianna Huffington é uma cadela”. – “Elas deixam-te fazer isso. Podes fazer o que quiseres. ‘Grab ’em by the pussy”.

God bless América.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 20/1/17.

 

 

“A altivez de espírito precede a queda”

Foto de Sporting Comédia de Portugal.

 

Jorge Jesus nunca ganhou nada que se visse antes de chegar ao Benfica, mas enche a boca a dizer que o clube era miserável antes dele chegar e que se não fosse ele…

Já se esqueceu que numa época em que podia ter ganho tudo, perdeu tudo em duas semanas.

Já se esqueceu que toda a gente o queria no olho da rua, mas que o presidente o segurou, por sua conta e risco, e foi então que voltou a ganhar o campeonato.

Já se esqueceu que podia ter tido uma saída honrosa do clube que fez dele campeão, mas saiu como se sabe.

Já se esqueceu que insultou o actual treinador da Luz, seu colega de profissão, diminuindo-o todas as semanas perante o país (chegou a afirmar que Rui Vitória nem sequer era treinador, e que não tinha mãos para aquele “Ferrari”(SLB)!…), numa atitude recorrente de sobranceria, arrogância e presunção de superioridade.

Até se esqueceu que Rui Vitória já tinha ganho ao Benfica de Jorge Jesus uma final da Taça de Portugal, pelo Vitória de Guimarães…

Agora está como se vê. Para quem queria ganhar três competições nesta época, não vai ganhar nenhuma. Para quem dizia que as equipas treinadas por ele eram as melhores do país, acabou afastado da Taça da Liga e da Taça de Portugal por equipas inferiores…

A desculpa das arbitragens já não funciona face ao descalabro futebolístico da equipa.

A agressividade gratuita contra tudo e todos é no que dá.

Só é pena que sejam os jogadores (escolhidos, liderados e treinados por ele) que carreguem o ónus da desgraça desportiva. São os que menos culpa têm da situação. É pena.

Já Salomão dizia que “a altivez de espírito precede a queda”.

 

 

Perguntas soltas

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Em trânsito de Belém da Judeia para o mundo

Circunscrito dos homens, viajando

Em todos os comboios, com o sono

Do Menino em sobressalto, com anjos

Sem sapatos

(João Tomaz Parreira, Salmo de Natal)

 

Como conseguiremos escrever alguma coisa sobre uma quadra tão relevante no calendário religioso cristão como o Advento, face a uma sociedade materializada e secularizada, sem perder o sentido da coisa nem soar a algo ultrapassado?

Como alertar para o facto de o Natal não ser o que a lógica capitalista fez dele, transformando-o na sua essência e reduzindo-o a uma lamentável pulsão consumista, despesista e hedonista?

Como faremos para lembrar que as renas substituíram o burro, a vaca e as ovelhas do presépio, os gnomos substituíram os pastores, e que o Pai Natal usurpou o lugar da figura central da Natividade, e notarmos que o homenzinho gorducho de vermelho e longas barbas brancas oferece coisas, mas Jesus Cristo se deu a si mesmo a todos os homens, e que entre uma atitude e outra vai todo um mundo de diferenças?

Como entender que uma quadra como esta sirva tantas vezes para acirrar rivalidades familiares e até cortes de relações entre pessoas do mesmo sangue, que durarão longos e bons (?) anos?

Como aceitar que a quadra não passe dum pretexto para alguns beberem imoderadamente, se embebedarem e fazerem figuras tristes, criando constrangimentos em todos os outros e brigas sem sentido nem substância alguma?

Como aceitar que a Consoada sirva apenas para, perante uma mesa farta, dar vazão à gula e comerem descontroladamente até se sentirem indispostos e doentes?

Como compreender que as pessoas se sintam obrigadas a trocar presentes só porque sim, ou porque senão parece mal, e tantas vezes essas mesmas prendas não passem de objectos sem qualquer utilidade, que apenas provocam desperdício?

Como faremos para passar a mensagem de que o Natal é muito mais do que uma festa para crianças pequenas, que pensam que o homenzinho de vermelho desce pela chaminé, muito mais do que um pretexto para juntar a família à volta da mesa para comer e beber até cair?

Como entender que alguém se afirme cristão e nem sequer numa data como esta se junte com outros cristãos a fim de cultuar a Deus e celebrar o nascimento do Salvador?

E como entender a loucura habitual do fim-de-ano que, afinal, não passa de uma folha virada no calendário, a caminho de um novo dia que ninguém sabe se vai ser melhor ou pior do que o anterior? A economia vai conseguir crescer em 2017? O desemprego vai reduzir? Vamos aguentar o serviço da dívida? E que efeito vamos sofrer com o Brexit e com aquele aventureiro em Washington? E as eleições na Alemanha, França e Itália?

Apesar de tudo talvez seja melhor ser optimista e acreditar, por isso desejo um bom ano.

 

Fonte: José Brissos-Lino, Sem Mais, 31/12/16.

 

O melhor do mundo

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 “Os americanos caem sempre na conversa que a América é o melhor país do mundo.”

Richard Zimler

 

Quem o diz é um cidadão nascido nos Estados Unidos e que também possui a nacionalidade portuguesa, logo, dificilmente poderá ser acusado de antiamericanismo.

Deixem-me começar por dizer que os Estados Unidos são um país admirável em muitos aspectos, mas também detestável noutras áreas. A forma como foi fundado, a sua história, as suas liberdades, os seus avanços técnico-científicos, culturais e intelectuais creditam a seu favor. Por outro lado, a pena de morte (em diversos estados), o racismo, a inexistente solidariedade social e a falta de regulação mancham a reputação nacional.

Para compreender a América tem que se começar por perceber que há um país desenvolvido, que inclui os estados da costa atlântica, o Illinois e também a Califórnia e o estado de Washington, na costa do Pacífico e depois um país muitos furos abaixo, em particular no Midwest, com base nos chamados red necks. O país avançado é o das grandes universidades (das melhores do mundo), do conhecimento, da I&D, enquanto os cidadãos dos estados menos desenvolvidos nem sequer têm consciência do seu país e muito menos do mundo.

Talvez esta ignorância generalizada esteja justamente na base dessa ideia feita de que fala Zimler. Quem nunca saiu do seu chão e desconhece como se vive pelo mundo fora certamente pensará que vive no melhor país do mundo. Estou convicto que muitos norte-coreanos diriam o mesmo.

Mas a afirmação de Zimler vai mais longe. Ele fala em “cair na conversa”, ou seja, refere um discurso pré-concebido, uma narrativa formatada, um conteúdo político que pretende considerar os inferiores todos os outros países do mundo. Tenho amigos americanos que viveram com as famílias em Portugal durante alguns anos e que afirmavam à boca cheia que a qualidade de vida no nosso país era muito superior à da sua terra.

Quando se sabe que os cuidados de saúde são um luxo fora do alcance dos pobres, ou que a educação é paga a preço de ouro, não estamos a falar de uma população com coesão social. A situação dos que não conseguiram vencer na vida e acabam a viver na rua, ou a de muitos veteranos de guerra com stress pós-traumático ou outras mazelas, inteiramente entregues à sua sorte revelam bem as injustiças sociais predominantes.

Basta olhar para os números da população prisional do país para aferirmos da saúde e justiça social duma sociedade. E na sociedade americana tais números são impressionantes.

Mas há uma coisa que muito admiro nos cidadãos do tio Sam, o seu patriotismo assumido. Nisto sim, são bem melhores do que nós.

 

Fonte: José Brissos-Lino, 13/1/17. 

 

 

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6); “Ovelhas perdidas foram o meu povo, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

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