A missa

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Eu sei que a profissão de jornalista é hoje uma dor de cabeça. Também sei que as televisões estão recheadas de gente nova que começou agora a aprender a profissão. Sei, ainda, da crescente precariedade, que há demasiados tarefeiros e poucos jornalistas, e que a pressão mediática das redes sociais está a dar cabo do jornalismo sério.

Por outro lado, sei que há muito pouca especialização no jornalismo, exceptuando talvez nas áreas de economia e desporto, e que se contam pelos dedos duma só mão os profissionais que dominam minimamente a matéria religiosa em Portugal. Mas faz-me confusão a profunda ignorância que a esmagadora maioria deles revela quando escreve sobre esta área. Uma coisa é não conhecer o meio, outra é persistir em querer ser mesmo ignorante.

Quem não conhece procura informar-se, antes de escrever sobre o desconhecido. É uma questão de bom senso, antes de ser uma questão de brio profissional. Se eu não sei do que falo, não falo do que não sei antes de saber. É simples.

Vem isto a propósito do recente massacre perpetrado por um indivíduo numa igreja baptista do Texas, do qual resultaram largas dezenas de mortos e outras tantas de feridos. Os órgãos de informação portugueses – da imprensa às televisões – afinaram todos pelo mesmo diapasão, ao classificar o serviço religioso dessa comunidade cristã como “missa”.

Bem sei que estamos num país de tradição católica, mas será assim tão difícil a um jornalista informar-se? As igrejas evangélicas – dentre elas as baptistas – não realizam missas. Em termos teológicos a missa (eucaristia) é um sacrifício, embora incruento (sem sangue), daí o oficiante se chamar “sacerdote”. A doutrina católica diz que no acto de consagração da hóstia e do cálice, se dá a transubtanciação, isto é, a hóstia passa de facto a ser o corpo de Cristo e o vinho o Seu sangue. Os luteranos ficam a meio caminho, mas os evangélicos (baptistas, irmãos, pentecostais e outros), quando celebram a Ceia do Senhor, consideram o pão e o vinho apenas como símbolos do corpo e do sangue de Cristo.

Sendo assim, apelidar de “missa” um culto evangélico é um disparate. Trata-se de cerimónia bem diferente, do ponto de vista teológico.

A ignorância sempre foi inimiga da paz e da concórdia entre os diferentes. Respeitar a diferença não é um luxo mas uma obrigação para a vida harmoniosa em comunidade.

 

Continuo sem conseguir entender porque razão os jornalistas não escrevem antes “serviço religioso” ou “culto”, já que traduzem do inglês “service”? Será assim tão difícil?

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 24/11/17.

 

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Temor reverencial?

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Sempre que um ser humano ascende à condição de chefe de Estado adquire automaticamente uma espécie de imunidade crítica. Talvez isso ainda seja resquício da crença do mundo antigo, que considerava o rei um semideus ou que o era por direito divino.

Quando se criticava Cavaco pelas suas palavras e silêncios, pelas suas acções e omissões, havia sempre quem se incomodasse, não tanto pela substância e justeza das críticas, mas pelo simples facto de serem exprimidas no espaço público. Eram consideradas uma espécie de pecado.

Agora que Marcelo inaugurou o reino dos afectos – para se distanciar do flop cavaquista – ai de quem toque no ungido da Democracia! Não se pode criticar alguém com uma taxa de popularidade tão elevada.

Pois bem. Vamos lá esclarecer umas coisas. Marcelo e qualquer titular da presidência da república pode e deve ser politicamente criticado, porque o inquilino de Belém é um actor político e faz política. Foi eleito pelo voto popular e por isso está sempre sujeito a prestar contas ao país. O presidente da república é um cidadão, uma espécie de primus inter pares da república, o que não o isenta de responsabilidades nem lhe confere o direito de estar acima de escrutínio público.

Marcelo Rebelo de Sousa não chegou a Lisboa vindo do espaço. Tem um passado político de longo curso, durante o qual se (nos) revelou o seu pensamento e carácter. Além disso passou anos a fio a desempenhar o papel de comentador, marcando assim a agenda e jogando com correligionários e adversários políticos, e nem sempre com transparência e lealdade.

Apesar de boa parte do país ter passado décadas a reverenciar Salazar, tal não justifica que o façamos com o presidente (nem com o primeiro-ministro) em pleno regime democrático e no século XXI. Todos os presidentes cometeram erros desde 1974, e dos anteriores nem vale a pena falar. Sendo assim, é natural e inevitável de Marcelo também os cometa.

Só os ingénuos não acreditam que Marcelo não tenha uma agenda política, para lá dos afectos e dos sorrisos. Por exemplo, mandar os deputados para o terreno quando eles já lá estão, pedir indirectamente em público a cabeça da ministra que sabia já estar demitida, exigir medidas que sabia estarem em preparação, ou reunir com um dos candidatos à liderança do seu partido, em detrimento do outro, são atitudes passíveis de crítica. Obviamente.

Não preciso de um pai na presidência da república. Já sou crescidinho e sei tomar conta de mim. O que preciso é de um alto magistrado da nação, que seja independente dos partidos e interesses económicos, procurando sempre e acima de tudo o interesse global do país.

Apesar de tudo, considero que Marcelo tem vindo a desempenhar o seu papel com dignidade, eficácia e benefício geral para o país. Espero que assim continue.

 

Fonte:  José Brissos-Lino, O Setubalense, 17/11/17.

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6); “Ovelhas perdidas foram o meu povo, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

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