Certo Pardal

Resultado de imagem para pardal

 

Certo Pardal manganão

Com Maserati por crista

Pousando num camião

Se disfarçou motorista

 

Piava de forma mansa

Para atrair os ingénuos

Antecipando festança

Ao rasgar certos convénios

 

E é então que o pessoal

Farto de tal vilanagem

Não estando concordante

 

Com a greve e a paragem

Cortou o pio ao pedante

E depenou o Pardal!

 

12/8/19

Manuel Sadino

Anúncios

Conversa à volta da fogueira

Horacio Villalobos/ Getty Images

Todos concordam que os incêndios florestais são uma calamidade em qualquer parte do mundo. Mas o que poucos ousam dizer em voz alta é que são uma calamidade inevitável e que, por essa razão, há que aprender a viver com eles

Sempre que se verifica a regra dos três trintas é certo e sabido que os fogos florestais estão a caminho: mais de 30 graus de temperatura, ventos a mais de 30 quilómetros por hora e humidade abaixo dos 30 por cento. A conjugação é fatal.

Antes de mais importa que nos consciencializemos para o facto de que os fogos florestais são uma inevitabilidade do nosso tempo. Resultam essencialmente das alterações climáticas acentuadas que o planeta tem vindo a sofrer nas últimas décadas. Não é só o sul da Europa, a Califórnia ou a Austrália que ardem. De acordo com os cientistas e as imagens de satélite recolhidas até o Ártico está a ser pasto das chamas, coisa que já não sucedia há 10 mil anos, com mais de 100 frentes activas entre as regiões do Alasca, Sibéria e Gronelândia, com libertação excepcional de níveis de CO2.

Esta nova e dura realidade exige mudanças radicais de comportamento das populações no sentido da adopção de boas práticas. Por exemplo, a lei portuguesa proíbe que se façam queimadas no campo durante os meses de maior calor, mas sabemos como as pessoas gostam de contornar a lei. Ao contrário do que muitos pensam e dizem, o fogo posto não estará na origem da maior parte dos fogos florestais no país, mas sim os comportamentos negligentes. É o que pensa Patrícia Gaspar, 2º Comandante Operacional Nacional da ANPC, quando diz que a mão criminosa é apenas residual face aos comportamentos negligentes, “que representam mais de 90 por cento de todos os fogos”.

Não há hipótese, temos mesmo que nos adaptar a um planeta diferente através da mudança radical de comportamentos, como acabar com o excesso de matéria plástica que está a entupir os oceanos ou a premente necessidade de reciclar os lixos e as águas, reduzindo os resíduos.

Escrevia a directora da VISÃO há dias: “É tentador encontrar um culpado, e o culpado imediato nunca é o pobre vizinho que não limpou os terrenos nem a câmara municipal que não acondicionou as matas. Na cabeça das pessoas, o culpado é o Estado, essa entidade indistinta que, para muitos, falha em todas as frentes: na limpeza, no planeamento e no combate. E, na cabeça das pessoas, o Estado tem um rosto, o do Governo e o primeiro-ministro em funções.” De facto, as conversas de café do costume – incluindo as redes sociais, que funcionam como conversas de café contemporâneas – giram à volta da procura de um bode expiatório, seja o incendiário, o madeireiro, ou o promotor imobiliário, mas, em última análise será sempre a ANPC, o ministro da Administração Interna, o governo e o primeiro-ministro.

Recentemente a jornalista Daniela Santiago, correspondente da RTP em Espanha, teve a coragem de propor “um estudo académico, aprofundado, sobre os efeitos da cobertura mediática (TV) dos incêndios em Portugal. Especialmente chamas atrás de chamas.” Argumentava que no país vizinho todos os acessos são vedados, pelo que os jornalistas não passam do posto de comando. Porém, salvaguardava que não tinha opinião acabada sobre o assunto (antes que os colegas a trucidassem…), propondo apenas uma reflexão. Os incêndios florestais são uma mina para as televisões na silly season – juntamente com as notícias de transferências futebolísticas – e todos nos lembramos de como uma certa jornalista se fez filmar ao lado dum cadáver nos fogos de 2017…

Face aos incêndios florestais a atitude de boa parte dos cidadãos oscila entre a necessidade de encontrar um bode expiatório – na linha da velha estória da culpa que enforma parte da teologia cristã – e o desejo de voyeurismo. Sim, porque se o público não alimentasse as horas infinitas de transmissão dos teatros de operações a coisa acabava num instante.

Paulo de Carvalho popularizou a canção “Meninos do Huambo” (com música de Rui Mingas e letra de Manuel Rui Monteiro), que fala das crianças angolanas à volta da fogueira a sonhar com a construção do seu país. Mas neste caso as conversas à volta dos incêndios são fatalmente destrutivas.

Só que há fogos piores do que os florestais. Pelo menos é o que diz o apóstolo Tiago: “Assim também a língua é um pequeno membro, e gloria-se de grandes coisas. Vede quão grande bosque um pequeno fogo incendeia. A língua também é um fogo; como mundo de iniquidade, a língua está posta entre os nossos membros, e contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno” (3:5-6).

E em tempo de pré-campanha eleitoral, se os fogos dão sempre jeito, as línguas em brasa ainda dão mais.

José Brissos-Lino
JOSÉ BRISSOS-LINO
Fonte: VISÃO online, 7/8/19

 

A obra de arte de Alan Turing

Estátua de Alan Turing, em Manchester. Christopher Furlong/ Getty Images

 

 

Foram os resquícios da mentalidade vitoriana que levaram a Inglaterra a sacrificar cruelmente um dos seus maiores. E um certo rasto puritano que pontificou durante séculos em terras de Sua Majestade

Em 1952 a homossexualidade ainda era proibida no país, o que levou o cientista Alan Turing a ser processado, aos quarenta anos de idade, e condenado por “indecência grosseira”. Entre ficar preso ou submeter-se à castração química, à força de estrogénio, optou por esta, mas foi igualmente banido da vida académica, tendo sido ostracizado pela sociedade e pela academia. Impedido de viajar, leccionar ou fazer investigação, não aguentou e passados dois anos suicidou-se, comendo uma maçã na qual injectara previamente cianeto.

A perseguição e tortura que sofreu não foram diferentes das de qualquer outro cidadão britânico homossexual. Apesar disso, esta foi a mente brilhante que conseguiu decifrar o complicado código nazi Enigma, permitindo que as tropas aliadas pudessem interceptar as mensagens alemãs e localizar os respectivos submarinos durante a Batalha do Atlântico, nos anos da II Guerra Mundial. Estima-se que a sua acção tenha encurtado o conflito em dois anos e poupado 14 milhões de vidas humanas.

De resto, foi a equipa de Turing que conseguiu desmascarar um espião português ao serviço dos alemães – Gastão Crawford de Freitas Ferraz, natural do Funchal, e funcionário da Marconi – aliciado em Lisboa a troco de 1500 escudos mensais, quatro vezes mais do que o salário médio em Portugal na altura, e que se alistou no navio-hospital Gil Eanes como radiotelegrafista.

Segundo José António Barreiros, que tem obra publicada sobre a espionagem na II Guerra Mundial: “A sua localização foi concebida graças à radio-escuta das comunicações alemãs, que apesar de criptografadas pela máquina Enigma, foram descodificadas em Bletchley Park por uma equipa de que o mais proeminente elemento foi Alan Turing. Tratava-se de informação de tal modo secreta que a sua fonte era indicada nos documentos que se produzissem como ULTRA”. Alertados os serviços secretos britânicos, a Royal Navy deteve o espião português em alto mar e fê-lo desembarcar em Freetown (Canadá) a 1 de Novembro de 1942, desconhecendo-se o seu destino posterior.

Só em 1967 foram descriminalizadas as relações entre homens adultos em Inglaterra e no País de Gales, a que se seguiu a Escócia, em 1980, e a Irlanda do Norte em 1982.

Mark Carney, actual governador do Banco de Inglaterra, referiu o trabalho do cientista: “Alan Turing foi um excelente matemático cujo trabalho teve um enorme impacto na forma como hoje vivemos. Como pai da ciência da computação e inteligência artificial, bem como herói de guerra, as contribuições de Alan Turing foram muito variadas e inovadoras. É um gigante em cujos ombros estamos tantos”. De facto Turing desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento dos primeiros computadores, tanto no âmbito do Laboratório Nacional de Física como depois na Universidade de Manchester, sendo por isso considerado o grande pioneiro da computação moderna.

O puritanismo marcou a Inglaterra durante séculos, e a mentalidade vitoriana permaneceu presente na sociedade até ao século vinte. A supremacia europeia, a pulsão imperial e uma religião ao serviço do poder moldaram toda uma sociedade, que só a Modernidade veio questionar.

A mais do que justa reabilitação de Alan Turing chegou apenas em 2014 através dum “perdão real”, sendo agora o matemático um herói oficial da coroa britânica. A mesma Inglaterra que o amaldiçoou vai andar no bolso com ele, a partir de 2021 nas novas notas de 50 libras, que exibirão o seu rosto e uma frase que revela a sua genialidade: “Esta é apenas uma antecipação do que está por vir, e apenas a sombra do que será” (retirada da entrevista concedida ao The Times em 1949). A justificação do decisor desta escolha histórica é o desejo e a necessidade de representar “todos os aspectos da diversidade dentro do país, de raça, religião, credo, orientação sexual, deficiência e além.”

Até agora só o símbolo da tecnológica Apple, uma maçã com um pedaço a menos, homenageava Alan Turing como o pai da informática, numa referência clara à sua morte, e mais recentemente a obra de Andrew Hodges Alan Turing: The Enigma, entretanto adaptada ao cinema em 2014 e que ganhou o Óscar de Melhor Argumento Adaptado.

Zygmunt Bauman (A Arte da Vida, Lisboa: Relógio D´Água, 2017) diz com razão: “As nossas vidas, quer o saibamos ou não e quer o saudemos ou lamentemos, são obras de arte”. Foi o caso de Alan Turing, apesar de as pinceladas negras da perseguição e da tragédia fazerem parte do quadro.

José Brissos-Lino
JOSÉ BRISSOS-LINO
Fonte: VISÃO online, 31/7/19

Novo livro de poemas de José Brissos-Lino, em versão digital

Ânsia de eternidade caP ok

Pode fazer o download gratuito do livro pelo site Google Drive, CLIQUE AQUI.

 

A presente obra reúne um conjunto de pequenos poemas dispersos sobre
temática espiritual e religiosa, escritos ao longo de alguns anos e ainda não
publicados em livro. 

As questões da fé e da eternidade, a revisitação de figuras, imagens e episódios bíblicos, em particular os tocantes às temáticas da transcendência e da relação com Deus, pairam claramente sobre a paisagem poética aqui apresentada, assim como alguns exercícios livres de meditação ou elevação (chamemos-lhe assim).

No fundo trata-se do discurso poético de um homem de fé, desenvolvido mais em jeito de reflexão pessoal. E o que é a Poesia senão isso?

Como bem dizia Miguel de Unamuno “acreditar em Deus é antes de mais e sobretudo querer que ele exista” (Do Sentimento Trágico da Vida, 1913).

É por isso que esta obra pode constituir inspiração significativa para quem for capaz de a saber ler, e elevação espiritual para quem aspira à eternidade e sente que ela está a passar por aqui.”

(da Abertura)

Bolsonaro cristão, Bolsonaro pagão

b

 

Há quem defenda que o governo de Bolsonaro, apesar de se afirmar cristão, em boa parte, inscreve-se todos os dias em campo oposto à respectiva ética. As comparações com a personagem Donald Trump são inevitáveis

A plataforma política que levou Bolsonaro ao Palácio do Planalto incluiu um vasto suporte entre evangélicos em geral e neopentecostais em particular, com promessas de proteger e apoiar a causa religiosa.

Joel Pinheiro da Fonseca diz na revista “Exame”: “Em toda oportunidade que tem, diz que embora o Estado seja laico, ele próprio é cristão. Seu lema de campanha incluía Deus. Ele já fez menção de que a religião evangélica será um critério para sua indicação de ministro no Supremo Tribunal Federal. Fez questão de participar da Marcha para Jesus no mês passado. Contudo, quando olhamos para suas propostas e valores, a impressão é bem diferente.”

Sabemos que a sua vitória eleitoral ocorreu na sequência de um fenómeno de rejeição por parte do eleitorado dos actores políticos em geral e do Partido dos Trabalhadores (PT) em particular, devido à extrema corrupção, aos altos níveis de violência e à imposição duma agenda de temas fracturantes. Foi isso que levou ao poder um velho deputado como Bolsonaro, sem qualquer currículo parlamentar ou cívico, a não ser protagonizar as ideias da direita a roçar o extremo político.

De facto, bastam alguns indicadores para entender rapidamente que o seu discurso religioso não confere com a acção política. Se a fé cristã prega o perdão dos pecados e a redenção dos homens, Bolsonaro propõe e exalta a execução dos criminosos. Se o evangelho proclama a dignidade da pessoa humana, Bolsonaro defende publicamente a tortura e a execução sumária. Se o cristianismo prega uma mensagem universal e a missionação, Bolsonaro coloca-se como inimigo dos indígenas e procura submetê-los aos interesses da expansão agrária. Se Jesus frisou o cuidado pelos pobres, o governo de Bolsonaro não parece interessado nas políticas sociais. Se o cristianismo fala de paz, Bolsonaro propõe a difusão das armas.

Mas da parte das lideranças cristãs o panorama não é melhor. Recentemente uma vintena de deputados da Frente Parlamentar Evangélica votou favoravelmente a reforma da Previdência, que obriga os trabalhadores brasileiros a trabalhar mais para se aposentar, mas não foram capazes de prescindir das suas próprias mordomias nessa matéria. Ou seja, aprovaram uma lei punitiva para a população em geral mas puseram-se de fora, conservando os privilégios de que tinham em mãos. Já não bastava que parte dos deputados evangélicos tenham sido considerados dos mais corruptos nos tempos do famigerado Mensalão…

Outro exemplo. O pastor Marco Feliciano, chegou-se rapidamente à frente para afirmar publicamente que gostaria de concorrer à vice-presidência do Brasil ao lado de Bolsonaro, em 2022, manifestando assim a sua indisfarçável e desmedida ambição política. Agora se compreende melhor a campanha suja que vem fazendo contra o actual vice, o general Mourão. Aliás, os líderes neopentecostais têm vindo a manifestar ao longo das últimas décadas uma preocupante sede de poder. Apoiaram abertamente candidatos e presidentes de quadrantes políticos tão diferentes como Lula, Dilma, Temer e agora Bolsonaro. No fundo eles não apoiam pessoas, políticas, programas ou ideologias. São apenas atraídos pelo poder como as traças pela luz.

Mas a cereja em cima do bolo será talvez a decisão já anunciada publicamente por Jair Bolsonaro de designar o seu filho Eduardo para o cargo de embaixador do país nos EUA. E a justificação para este acto de puro nepotismo é hilariante: “(Eduardo) é amigo dos filhos do Donald Trump, fala inglês e espanhol, tem uma vivência muito grande do mundo”, pelo que “poderia ser uma pessoa adequada e daria conta do recado perfeitamente”.

A personagem tem procurado capitalizar o apoio dos evangélicos mas não revela qualquer identificação séria com a ética cristã, nem sequer na aparência. Calcula-se que produza em média uma afirmação falsa ou distorcida por dia. Alguém lembrou, a propósito, as palavras de Jesus de Nazaré: “Nem todo o que me diz: ‘Senhor, Senhor!’ entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.” (Mateus 7:21). Já S. Paulo advertia o jovem Timóteo sobre aqueles que, tendo aparência de piedade, todavia negavam a eficácia dela. E concluía: “Destes afasta-te” (2 Timóteo 3:5).

Ao contrário de qualquer político experiente, Bolsonaro, uma vez eleito, não se posicionou como presidente de todos os brasileiros. Pelo contrário, continuou a cavar o fosso entre direita e esquerda. Assiste-se assim ao extremar de posições e ao desaparecimento do centro político. Se alguém critica Bolsonaro é taxado de comunista ou, no mínimo, de lulista e recomenda-se que vá para Cuba ou Venezuela. Se apoia o presidente é apelidado de fascista.

Assim é difícil construir qualquer coisa.

José Brissos-Lino
JOSÉ BRISSOS-LINO
Fonte: VISÃO online, 24/7/19