Euro: o passado do futuro

Em 2002 Portugal entrou no Sistema Monetário Europeu (SME), adoptou a moeda única e abandonou o velho escudo. Vivia-se um tempo de franco optimismo.

O euro facilitava as trocas comerciais e o turismo mas, o que poucos ainda previam (honra seja prestada ao economista João Ferreira do Amaral), é que a nova moeda iria empobrecer o país e todas as economias mais frágeis da zona euro, agravando os desequilíbrios já existentes entre países ricos e pobres. Este efeito é precisamente o oposto de parte dos objectivos pretendidos e que levaram à criação da actual união, que passava pela solidariedade e coesão social entre os povos europeus.

O que falhou, então?

O diagnóstico está feito.

Antes de mais falhou a arquitectura do SME. Hoje sabe-se que um conjunto de países em diferentes estádios de desenvolvimento, não podem adoptar uma moeda comum sem articularem igualmente a sua política fiscal e orçamental.

Hollande vem agora tentar dar um salto em frente, mas um salto de canguru, pois pretende dividir os países da Zona Euro entre filhos e enteados. Ou seja, a velha história da Europa a duas velocidades (que neste caso seriam três, contando com os países fora do SME).

Mas talvez o problema maior seja o da falta de liderança europeia. Não há estadistas hoje à frente da UE como no passado. Desde Jack Delors que não temos um presidente da Comissão a sério. E a maior parte dos que governam a União são mangas-de-alpaca, funcionários, burocratas, além da falta de representatividade eleitoral de quem manda na Europa. Merkel responde apenas perante o povo alemão, mas determina a política europeia, o que é uma aberração democrática.

Esta União tem sido desenvolvida nas costas dos povos do continente, que raramente são chamados a pronunciar-se por esses desenvolvimentos. Veja-se a cada vez maior taxa de abstenção nas nossas eleições para o Parlamento Europeu.

Depois do golpe de misericórdia executado contra a Grécia, começo a pensar que o melhor será o nosso país preparar-se mesmo para voltar ao escudo. O mal dos gregos foi não terem previsto um plano B. Mas nós estamos a tempo de o criar, pugnando igualmente pela reestruturação da dívida.

A única alternativa para conseguir permanecer na moeda única será a criação duma frente de países do sul e periféricos, que possa dispor de peso político suficiente para defender as suas economias face à Alemanha. Mas até agora não temos tido políticos à altura disso. Apenas uns meninos que, de modo sempre servil, querem passar por bons alunos.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 31/7/15.

 

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6); “Ovelhas perdidas foram o meu povo, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

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