Santa Liberdade

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A Estátua da Liberdade ou, “A Liberdade Iluminando o Mundo”, de nome próprio, fez 130 anos. É uma escultura neoclássica colossal, em cobre, localizada na ilha da Liberdade, porto de Nova York. O objecto da homenagem prestada pelos franceses à Revolução Americana ajudou a fazer da América a imagem da terra da liberdade, um lugar de imensas potencialidades onde tudo é possível. Foi projectada pelo escultor francês Frédéric Bartholdi – que se baseou no Colosso de Rodes – construída por Gustave Eiffel e dedicada em 28 de Outubro de 1886. Hoje em dia nem ela nos serve de referência para definir essa coisa a que chamamos Liberdade.

A forma como a morte de Fidel Castro está a ser comentada por políticos de todos os quadrantes é curiosa. Verifica-se um certo pudor em denominar o dirigente histórico cubano como ditador, tanto por parte dos políticos que vão desde o centro-esquerda ao centro-direita, como muito em especial (e aqui não admira nada) pelos sectores ligados à sua família política. Mas é curioso verificar como os mecanismos políticos que permitem classificar o regime de Salazar como ditatorial são exactamente os mesmos utilizados pelo poder castrista: censura à imprensa, polícia política, partido único e ausência de eleições livres.

Assim, para alguns haverá ditadores bons e maus, de acordo com a ideologia ou os resultados da sua forma de governar. É a velha questão política que se coloca há muito, entre a justiça social e a liberdade. Se se justifica restringir as liberdades individuais e de grupo em nome da justiça social, ou se esta em caso algum se pode sobrepor ao princípio da liberdade.

Nestes tempos começa a parecer normal o sacrifício parcial da liberdade em nome da segurança, face ao terrorismo islâmico. A questão está em saber se o facto de sacrificar um pouco a liberdade, mesmo que temporariamente, aumenta ou não o risco de a vir a perder por completo. A história mostra que quase todos os ditadores granjearam poderes discricionários em nome de um bem maior e do combate eficaz a um inimigo interno ou externo.

Fidel conseguiu fazer triunfar uma revolução em nome do povo, contra o regime de Fulgêncio Baptista, que fizera da ilha um bordel dos americanos. Mas dois anos depois de tomar o poder em Havana, Fidel inflectiu a sua orientação política engajando-se ao comunismo soviético e tentando instalar os mísseis russos na ilha. Os Estados Unidos nunca o poderiam permitir, apoiaram a invasão falhada da Baía dos Porcos, mas acabaram por deixar que Cuba ganhasse crescente simpatia internacional devido ao bloqueio entretanto imposto.

“Santa Liberdade” foi o nome com que o paquete português “Santa Maria” foi rebaptizado pelo comando antifascista que o tomou de assalto, na sua luta contra Salazar, liderado por Henrique Galvão, em 1961 e que constituiu um golpe publicitário eficaz. Só que essa dita “liberdade” implicou o assassinato do terceiro piloto do navio. A contabilidade entre justiça e liberdade é complicada, mas eu ainda fico com Simone de Beauvoir: “Que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância, já que viver é ser livre.”

 

Fonte: José Brissos-Lino, Sem Mais, 3/12/16.

O envelhecimento português

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Um estudo recente, coordenado por Manuel Villaverde Cabral, sociólogo e director do Instituto do Envelhecimento, do Instituto de Ciências Sociais (ICS), ligou a escolaridade a um envelhecimento de maior qualidade. Com efeito, quanto maior é a escolaridade maior tende a ser o envolvimento em actividades sociais, maior será a rede de amizades e relacionamentos, a perceção do nível de saúde mais adequada e maior se torna a satisfação com a vida em geral.

A investigação “Envelhecimento em Lisboa, Portugal e Europa: uma perspetiva comparada” afirma que a escolaridade “é o fator mais significativo e com mais consequências ao longo de todo o percurso de vida. A baixa escolaridade das pessoas mais velhas começa por se repercutir imediatamente ao nível do emprego e do rendimento, mais ainda no sexo feminino do que no masculino, projetando-se posteriormente ao longo de todo o curso de vida, nomeadamente na adoção (ou não) de atividades de socialização e manutenção pessoal que constituem o chamado ‘envelhecimento ativo”.

O envelhecimento demográfico é um dos problemas mais prementes que o país enfrenta, e aí as pensões assumem um papel nuclear, como garante de dignidade e qualidade de vida, visto que o suporte económico é decisivo. “Entre a segurança social e a saúde, estamos a falar de perto de metade do Orçamento do Estado e, portanto, cerca de um quarto do PIB português.”

O estudo destaca dois problemas centrais no envelhecimento: a saúde e a sociabilidade. Por um lado há necessidade de desenvolver as condições para a prestação de cuidados continuados e paliativos, para aqueles cuja saúde não lhes permite cuidarem de si mesmos, assim como de apoios no domicílio a fim de manter os idosos que ainda têm condições de permanecer no seu espaço habitacional e contexto social e de vida. Mas a solidão assume cada vez mais importância, em especial quando potencia os quadros depressivos e os problemas mentais, altamente prevalecentes na população portuguesa.

As autarquias estão colocadas perante o desafio de encontrar novas formas de organização social e do território no sentido de facilitar a vida aos mais velhos, em especial os mais sozinhos e de menos recursos. Terminado o “ciclo autárquico do betão” convém promover políticas verdadeiramente centradas nos munícipes, em particular nos mais vulneráveis e carenciados.

Em tempos procurámos criar e desenvolver um Observatório Sénior em Setúbal, numa parceria entre várias instituições, que fizesse a radiografia da população idosa do concelho assim como o levantamento das respostas sociais existentes, de modo a estimular as forças vivas a promoverem tais soluções. Mas nem toda a gente compreendeu a necessidade e a importância dessa tarefa.

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 2/12/16.

 

 

 

 

 

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6); “Ovelhas perdidas foram o meu povo, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

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