Palavras perdidas (1146)

A história que não abriu os telejornais de ontem:

“Aconteceu saber que hoje, dia 21 de Maio de 2015, um homem da Brandoa foi presente num certo tribunal da Grande Lisboa para 1º interrogatório judicial porque, depois de ter perdido o trabalho, perdeu também a casa e foi despejado. Ao ver-se na rua, fez três assaltos, armado com uma faca que trouxera da casa onde já não habita e, de seguida, entregou-se à polícia. Tendo confessado os crimes, pediu para ser preso, pois não tinha que comer nem onde dormir.

Esta é a história que não abriu os telejornais de hoje, porque o país está melhor e os cofres estão cheios.”

(Aventar)

O vigarista

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“As bruxas em geral são assim. Não estão jamais interessadas nas coisas ou nas pessoas, mas na utilidade eventual destas.” (C. S. Lewis, Crónicas de Nárnia)

 

Não lhe chamo palhaço porque não desejo insultar os artistas, homens e mulheres, de tão nobre profissão. Mas vigarista, sim.

O indivíduo conhecido como “bruxo de Fafe” veio afirmar categoricamente, na CMTV, durante a outra semana, três coisas.

Primeiro, garantiu que o Benfica iria perder o jogo de domingo passado em Guimarães. Afinal, empatou a zero (vendo até um golo seu mal anulado pelo árbitro). Segundo, garantiu que o clube não iria ser campeão nesta época que agora finda. Afinal, foi mesmo. Terceiro, declarou que tinha sido pago para realizar rituais satânicos a fim de prejudicar o rendimento dos jogadores da equipa encarnada, por um valor de 200 mil euros, dos quais já teria recebido 50 mil das mãos de um dirigente de um outro clube de futebol.

No fundo esta é a história de um vigarista e de um parvo. O primeiro porque convenceu o segundo da sua competência e eficácia, e o segundo porque acreditou.

Mas quando é que as pessoas abrem os olhos para entender que tudo isto não passa duma maneira demasiado fácil de ganhar a vida?

Face à realidade, o tal “bruxo de Fafe” devia agora ter a hombridade de vir pedir desculpa, naquele mesmo canal de televisão onde proferiu tais alarvidades.

Não é pelo Benfica (podia ser outro clube qualquer), ou pelos adeptos do mesmo, é pelo respeito que lhe deviam merecer as pessoas para quem falou. No fundo o vigarista não fez mais do que provavelmente repetirá no seu dia-a-dia, quando atende pessoas aflitas, angustiadas, inseguras e vulneráveis, enganando-as e extorquindo-lhes avultadas quantias.

A minha pergunta é: se os sistemas de pirâmide ou a actividade bancária ilegal – tipo Dona Branca – respondem perante a justiça, porque razão estes aldrabões não o fazem também? Até porque, que se saiba não pagam impostos. Estão espalhados por todo o lado e são procurados por toda a espécie de classes sociais, inclusive políticos. Talvez seja por isso que não lhes tocam.

No fundo a superstição está tão espalhada que as pessoas não só acreditam religiosamente nos disparates que eles dizem, como ainda têm medo que lhes lancem alguma magia negra. Enganados como são, frequentemente, por bruxos, cartomante e videntes, não têm coragem de os denunciar na justiça, preferindo sofrer o dano em silêncio, pela vergonha de se fazer figura de totó em público.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 22/5/15.

 

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6); “Ovelhas perdidas foram o meu povo, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

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