Palavras perdidas (1441)

“Quando o Estado, na sua forma de autoridade tributária, confisca bens humildes a gente pobre, muitas vezes por dívidas fiscais ainda mais insignificantes, é expressão de loucura. Mais nociva do que ser esmurrado por um maluco no meio da rua.

Quando o Estado, na sua forma de justificar os impostos que cobra, devolve serviços de urgência de extrema desumanidade nos hospitais públicos, como a impactante reportagem da jornalista Ana Leal registou na TVI, a insanidade revoga as obrigações legais. É aqui que se atinge o ponto da demência coletiva, porque pactuamos, porque não há revolta, só lamúria. Para lamentar.”

(Sérgio Figueiredo, DN)

Lopetangas

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O basco que treina o FCPorto deu hoje um péssimo exemplo aos adeptos. Revelou uma má atitude ao provocar o treinador da equipa adversária, no final do jogo. Dirigiu-se a ele para o cumprimentar, como é normal entre desportistas e profissionais de futebol, mas não resistiu a dar corpo à sua frustração, provocando ostensivamente JJ. Mas depois fez pior. Ficou no túnel a desafiá-lo, de forma desabrida, como um rufia vulgar.

Uma atitude que contrasta com a de Quaresma que cumprimentou o treinador do Benfica, com respeito, a caminho do balneário, tendo recebido deste um gesto de carinho.

A postura de Lopetangas é ainda mais grave já que esta semana (e ao contrário do que é um péssimo costume) não houve declarações de dirigentes dos dois emblemas a lançarem fogo aos adeptos…

 

O inimigo dos poetas

 

Jerónimo Savonarola (1452-1498), frade dominicano, que era apelidado pelos seus seguidores cultos como o “Sócrates de Ferrara”, e por outros como “profeta de Deus”, tornou-se conhecido dos historiadores como um dos últimos exemplos do homem medieval.

Segundo José Augusto Mourão ele representa o “apocalipse da metafísica”, num tempo em que um certo humanismo “preferia os poetas aos profetas”.

Temeroso dos novos tempos, numa Florença renascentista, Savonarola terá optado pelo pessimismo trágico, confundindo um esforço de crítica e de reforma moral com a eventual chegada de novas religiões ou cultos, proclamando firmemente o conceito de um Deus veterotestamentário, dando assim lugar à cólera “santa” (thumus), a paixão pela justiça.

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No ensaio “A função da Poesia” (Ed.Vega, 1993), Savonarola levanta-se contra os poetas, partindo do princípio de que a poesia lisonjeia a parte infantil dos indivíduos, de forma perversa. Mas o seu problema maior é que os novos tempos representam a ruína do edifício dogmático.

Discorrendo sobre a natureza da arte e das ciências, Savonarola chega a afirmar que a astronomia “é mais digna do que a perspectiva e a música” por se dedicar a um objecto mais nobre e ser mais exacta… Reduz ainda a utilidade das ciências “profanas” para a religião cristã à “contemplação de Deus”, que é “a perfeição última do homem”.

Classifica a arte poética no campo da filosofia racional, e nem mesmo quando confrontado com os profetas que descreveram em verso as realidades divinas se deixa acalmar, justificando que o terão feito apenas “para ganhar os espíritos corrompidos dos homens”. O mesmo em relação a alguns católicos que reescreveram em verso os Evangelhos e partes do Antigo Testamento, pois tê-lo-ão feito apenas para “esmagar a arrogância” dos poetas mais pomposos…

Ainda relativamente ao apóstolo Paulo, que citou poetas gregos nos seus escritos, o autor minimiza o facto, por ter sido raro.

Savonarola pergunta mesmo porque razão os príncipes não promulgam de vez uma lei que ordene que os poetas sejam expulsos das cidades, visto que as suas obras são “carnais e diabólicas” fazendo com que os homens se desapeguem do espírito.

Chega ao ponto de afirmar que só o Espírito Santo terá impedido S. Jerónimo – muito hábil na eloquência profana – de ornamentar os relatos e revelações divinas com citações de Cícero e de Virgílio, quando traduziu as Escrituras, dando à luz a Vulgata Latina.

Apesar de tudo, e embora a arte seja antes de tudo uma pura sedução dos sentidos, no entender de Platão, o facto é que S. Agostinho celebra o filósofo grego como o pai da teologia.

O grande problema de Savonarola é o da abertura cultural da sociedade para lá do universo paroquial, da evolução das artes, das ciências e da liberdade do pensamento impulsionados pela Renascença.

Não conseguia compreender como a arte poética se exprimia com o recurso a referenciais originários da mitologia pagã. Por cá também Camões se arriscou a ver a sua obra-prima vetada pelo censores do Santo Ofício devido à “fabula dos deoses”, ou seja, a invocação da mitologia pagã, em linha com os clássicos.

Savonarola era um homem doutro tempo que não foi capaz de se enquadrar na sua contemporaneidade.

 

 José Brissos-Lino

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Savonarola, Jerónimo, A função da Poesia, ed. Vega (1993).

Lino, Brissos, BARA – revista cultural, nº. 7, Set./Dez. 1981, ed. BARA.

Queixa das almas jovens censuradas

 

 

Dão-nos um lírio e um canivete

E uma alma para ir à escola

Mais um letreiro que promete

Raízes, hastes e corola

 

Dão-nos um mapa imaginário

Que tem a forma de uma cidade

Mais um relógio e um calendário

Onde não vem a nossa idade

 

Dão-nos a honra de manequim

Para dar corda à nossa ausência.

Dão-nos um prémio de ser assim

Sem pecado e sem inocência

 

Dão-nos um barco e um chapéu

Para tirarmos o retrato

Dão-nos bilhetes para o céu

Levado à cena num teatro

 

Penteiam-nos os crâneos ermos

Com as cabeleiras das avós

Para jamais nos parecermos

Connosco quando estamos sós

 

Dão-nos um bolo que é a história

Da nossa história sem enredo

E não nos soa na memória

Outra palavra que o medo

 

Temos fantasmas tão educados

Que adormecemos no seu ombro

Somos vazios despovoados

De personagens de assombro

 

Dão-nos a capa do evangelho

E um pacote de tabaco

Dão-nos um pente e um espelho

Pra pentearmos um macaco

 

Dão-nos um cravo preso à cabeça

E uma cabeça presa à cintura

Para que o corpo não pareça

A forma da alma que o procura

 

Dão-nos um esquife feito de ferro

Com embutidos de diamante

Para organizar já o enterro

Do nosso corpo mais adiante

 

Dão-nos um nome e um jornal

Um avião e um violino

Mas não nos dão o animal

Que espeta os cornos no destino

 

Dão-nos marujos de papelão

Com carimbo no passaporte

Por isso a nossa dimensão

Não é a vida, nem é a morte.

 

Natália Correia, Poesia Completa, Ed. Dom Quixote, 1999.


	

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6); “Ovelhas perdidas foram o meu povo, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

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