Escravos na igreja, Fazenda Água Limpa, Patrocínio, MG, 1860

Fotografia rara e impressionante mostra escravos em missa católica na igreja da fazenda Água Limpa, em Patrocínio, MG, 1860. Fotos de fatos.

Fotos de fatos.
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Angola

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O Ministério Público (MP) quis fazer uma birra no caso de Manuel Vicente. Contra todas as evidências bateu o pé e exigiu julgar o ex-vice-presidente de Angola em Portugal, com um pretexto insultuoso para aquele país africano. Isto é, argumentando que não confiava na seriedade do seu sistema judicial.

É óbvio que Angola não podia aceitar tal justificação, nem país nenhum do mundo que se preze.

O MP pode não entender muito de relações diplomáticas ou de direito internacional, mas tem que se informar com quem sabe. Não compete ao MP português pronunciar-se sobre o sistema judicial dum país estrangeiro, nem alimentar estados de alma sobre o futuro de cidadãos de outros países. A questão não tem que ser trazida à colação. Simplesmente não diz respeito ao MP nem a Portugal. Se a Justiça funciona ou não em Angola será uma questão do foro político e diplomático, mas nunca do âmbito judiciário de Lisboa.

Os últimos tempos têm trazido visibilidade acrescentada ao MP e parece que os seus procuradores não têm sabido lidar com ela.

De há uns anos a esta parte tem-se assistido a atropelos quase diários ao segredo de justiça, através de fotocópias de páginas de processos em fase de investigação, de escutas telefónicas e agora até de vídeos de interrogatórios de arguidos e testemunhas que aparecem escarrapachados em jornais e televisões. Trata-se de fugas cirúrgicas em matéria de processos em que estão envolvidas figuras públicas e que só interessam a duas partes: ao próprio MP e à comunicação social.

Manuel Vicente foi acusado pelo Ministério Público (MP) português de ter subornado o procurador Orlando Figueira para conseguir o arquivamento de um processo em que era investigado por branqueamento de capitais.

Manuel Vicente não veio a Portugal para o julgamento e a sua defesa interpôs recurso para a Relação alegando que a constituição angolana não permitia que fosse julgado fora do país. O Tribunal da Relação de Lisboa decidiu agora que Manuel Vicente vai ser julgado em Angola, e bem.

Uma vez que esta decisão não é passível de recurso a telenovela deverá acabar aqui, terminando assim com os prejuízos económicos, diplomáticos e políticos que tal situação tem vindo a representar para Portugal, mas também para Angola.

Gostava de saber se aqueles portugueses que apoiam a insistente e peregrina ideia do MP em querer julgar em Lisboa o ex-vice-presidente da Angola, em choque frontal com a lei magna angolana, gostariam de ver um dia um presidente da república portuguesa julgado em Luanda…

 

 Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 18/5/18.

Valores

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Vivemos num mundo extremamente confuso que parece cada vez mais um sítio mal frequentado, em todas as esferas da actividade humana.

No futebol, por exemplo, os adeptos mais ferrenhos não se incomodam se os dirigentes do seu clube são mafiosos, vigaristas, boçais ou gostam de fazer figuras de palhaço. Desde que a equipa ganhe, o resto não interessa. Os treinadores também podem ser malcriados, ordinários e violentos para com os adversários ou parecerem atrasados mentais a falar. Nada disso interessa desde que a equipa ganhe títulos.

Na política vale tudo. A corrupção e todos os crimes de carácter económico estão cada vez mais presentes, em consonância com alguns grandes empresários, cujo principal objectivo parece ser tentar por todos os meios mamar nas tetas do Estado como se não houvesse amanhã. Bem dizia Marx que “a desvalorização do mundo humano aumenta em proporção directa com a valorização do mundo das coisas.”

O sector financeiro é o que se vê. Os banqueiros são capazes de sacar o que puderem a qualquer pequeno cliente, lançando mão de todas as artimanhas possíveis, mas com a outra mão dar milhões aos amigos. São capazes de sugar recursos públicos ao país – suportados por todos os contribuintes – para distribuir dividendos fartos aos seus accionistas.

As grandes empresas contratam especialistas em matéria de fuga ao fisco, e utilizam off-shores e paraísos fiscais de modo a subtrair ao país os recursos necessários ao seu desenvolvimento, em nome de lucros cada vez mais vultuosos.

Os especuladores dos mercados financeiros apenam visam o lucro, sem que o mesmo corresponda a qualquer tipo de criação de riqueza, desenvolvimento ou sustentabilidade social. Há uns anos chegaram mesmo ao ponto de especular com os cereais, tendo provocado cenários graves de fome e subnutrição em diversos países sub-desenvolvidos e sem qualquer sustentação moral nem problemas de consciência. Foi Antoine de Saint-Exupéry que escreveu: “Apesar da vida humana não ter preço, agimos sempre como se certas coisas superassem o valor da vida humana.”

O comportamento de parte do sistema judicial, da advocacia à magistratura, passando pelo Ministério Público também deixa muito a desejar em matéria de boas práticas e seriedade.

O que está a dar, na vida pública, é ser populista, manipulador e demagogo, desde que se saiba explorar os medos profundos e ressentimentos dos concidadãos.

Até o sector religioso se deixou capturar pelo veneno dos tempos, com escândalos sucessivos. Buda pensava que os seres humanos demasiado apegados às coisas materiais eram obrigados a reencarnar incessantemente, até compreenderem que ser é mais importante do que ter. Não acredito nessa estrada, mas concordo com o destino. Há uma séria crise do Ser no homem contemporâneo.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 11/05/18.

 

 

 

 

 

 

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6).

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