Os deuses devem estar loucos

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Os povos primitivos atribuíam uma conotação transcendental a todas as catástrofes naturais. Se o vulcão explodia, se os campos inundavam e tudo destruíam, se a seca matava as sementeiras e inviabilizava as colheitas, se o raio caía na floresta e provocava um fogo incontrolável, a causa disso só podia ser a ira dos deuses. Havia que apresentar então sacrifícios de sangue, de preferência humanos, para aplacar a ira dessas entidades.

A civilização e o avanço da ciência permitiram compreender melhor como funciona o clima e a Natureza em geral, possibilitando prever e preparar a populações para grande parte dos seus comportamentos violentos.

Em suma, antes pensava-se que o ser humano não conseguia dominar coisa nenhuma no ambiente. Agora julga que pode dominar e controlar tudo. Puro engano. A verdade é que, por muito que a ciência avance, persistem ainda e sempre fenómenos naturais imprevisíveis e incontroláveis.

A catástrofe sucedida na região de Pedrógão Grande, nos últimos dias, é exemplo disso. A Polícia Judiciária esclareceu que as trovoadas secas estão na origem de diversas deflagrações, entre elas a que originou o incêndio que devastou a região. Segundo diversos testemunhos, até cerca das 18H00 o combate ao incêndio, que então se apresentava em duas frentes, decorria com normalidade. De repente desencadearam-se ventos cruzados, violentíssimos, atípicos e completamente inesperados, que descontrolaram o combate ao incêndio e criaram novas frentes.

Segundo o testemunho de um operacional experiente, os referidos fogos são de natureza e comportamento excepcional. Um piloto de combate aos fogos diz: “Assisti a trovoadas secas com relâmpagos brutais a cair na floresta, ventos fortíssimos e sempre a mudar de direcção e um tipo de nebulosidade que nunca tinha visto“, pelo que “o combate aéreo nestas condições é extremamente difícil e perigoso. Completei em Maio 15 anos neste serviço e quando julgava que já tinha visto tudo afinal estava enganado”. Segundo ele os meios da Proteção Civil “foram os adequados e necessários, mas contra a mãe natureza é difícil ganhar”.

Marta Soares, Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses diz que o combate ao fogo “foi muito dificultado pelos ventos fortes, projecções de quatro a cinco metros e pequenos tornados”, defendendo a estratégia posta em prática.

Já vi e ouvi muita coisa que me desagradou. Vi residentes em zona de floresta que não limpam o mato à volta das suas casas, vi mirones, vi jornalistas a explorar a desgraça e a dor alheias, vi os mais interessados em lançar culpas nos outros do que a socorrer as vítimas, e vi outros que têm solução para tudo mas nunca contribuem para mudar nada.

As redes sociais e os media constituem um terreno propício para a horda de dislates dos que falam do que não sabem. Mas há perguntas que têm de ser respondidas, como a que levou a GNR a enviar dezenas de pessoas para a “estrada da morte”. Alguma coisa falhou.

Uma coisa é certa, apesar de todas as conquistas, o Portugal democrático está a falhar no combate à desertificação do interior.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 23/6/17.

 

 

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6); “Ovelhas perdidas foram o meu povo, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

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