Camaleões na ribalta

 

No Dia Mundial do Teatro

 

“O Teatro é a poesia que sai do livro e se faz humana.” (Federico Garcia Lorca)

 

um rosto, um corpo, um trejeito

uma voz, um silêncio

uma vida, muitas vidas

anunciadas no palco da morte

entre colombinas e arlequins

 

ai Molière, tu e as tuas pancadas

batem todos os dias a abrir a cena

do hoje

que o ontem já foi

e amanhã sabe Deus

 

enquanto houver camaleões na ribalta

há espelhos à nossa frente.

 

 

© José Brissos-Lino

27/3/15

De que falam as pessoas

 

Vivemos numa cultura pimba, no pior sentido do termo. A superficialidade da agenda pauta as conversas quotidianas, a dificuldade em falar da substância das coisas é crescente, e cede-se à facilidade de resvalar para a espuma dos dias. É assim na política e na programação televisiva, como nas conversas entre amigos. Pensar exige esforço, dá trabalho.

Por outro lado há muitos que preferem deixar aos outros a tarefa de pensar em seu lugar. Quando confrontados, insistem em dizer: mas eu falei com uma pessoa que me disse que era assim!… Quando não se desenvolve pensamento próprio estribamo-nos em terceiros para fazer valer uma opinião que não é nossa, resultado de reflexão, mas adoptada.

Dizia Platão que “pessoas normais falam sobre coisas, pessoas inteligentes falam sobre ideias, pessoas mesquinhas falam sobre pessoas.”

Ressalve-se aqui que a verdadeira comunicação, em termos emocionais, começa quando as pessoas começam a falar de si, dos seus sentimentos do momento. Enquanto falam de ideias, de coisas, de outras pessoas ou de si mesmas mas em termos de passado, não partilham sentimentos presentes no aqui e agora. Mas é apenas aí que se dá a verdadeira comunicação interpessoal, do ponto de vista psicológico. Enquanto verbalizam sobre o que lhes é estranho ou sobre o passado, não se estão a expor.

É corrente que a conversa de elevador, de circunstância, se limita a temáticas como o clima que se prevê para os próximos dias. Como se fosse anormal (pelo menos é embaraçoso) que duas pessoas estejam fisicamente juntas e não falem uma com a outra, mesmo que não se conheçam bem.

Persiste então a necessidade de dizer qualquer coisa, de comunicar verbalmente, seja que mensagem for, embora de forma enquadrada pelos normativos sociais estabelecidos, de modo a que as pessoas não se sintam descontextualizadas, bizarras ou inadaptadas.

O ser humano comunica verbal e não verbalmente. Manifesta a necessidade de interagir com outros seres humanos, mesmo que diferentes. A tendência para que o indivíduo se torne mais pessoa passa pela relação com outros seres humanos. Esta dimensão comunicativa é parte da essência do ser, mas é também uma estratégia de crescimento emocional, onde até os conflitos (inevitáveis, é certo) contribuem para a maturação da pessoa.

Aproxima-se a Páscoa. Também Deus comunicou com o Homem. Fez-se homem, nascido de mulher, habitou entre os homens e entregou-se em sacrifício por eles. Deus comunica connosco de muitas formas e em especial por Jesus Cristo.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 27/3/15.

 

 

 

 

 

A razão dos pobres

 

Reuters.

 

 

Sempre os terás contigo

– os pobres –

para te lembrares de que és pó

e que a ele voltarás

para dares um copo de água a Jesus

como a um necessitado

para exerceres misericórdia

para não perderes de vista

a imensa fragilidade que te habita

para entenderes o cerne da vida

para desviares os olhos de ti

para os outros

 

à tua volta sempre estarão os pobres

enquanto fores egoísta como

Judas, o Iscariotes.

 

© José Brissos-Lino

11/08

HH: vamos com calma

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O Poeta HERBERTO HELDER é enorme pelo seu mistério.
Toda a sua grande poesia parece nascer espontâneamente, da natureza poética dos deuses.
Mas em pleno Centenário da Orfeu, é excessivo dizer que “a grande revolução do século XX português foi a Poesia de Herberto Helder”, mesmo tendo em conta o seu Surrealismo. No sentido da descoberta na juventude de um autor fundamental, sim; também aconteceu comigo ao lê-lo no final da década de 60 na Guerra Colonial. Todavia no sentido da História da Literatura portuguesa do XXº Século não, porque Herberto Helder é enorme entre outros enormes, cito três: António Ramos Rosa, Eugénio de Andrade, José Régio…
E, já agora, a grande revolução da poesia do século vinte português não continuará sempre a ser Álvaro de Campos?

© JTP

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6); “Ovelhas perdidas foram o meu povo, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

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