A questão bizantina

 

Em 1453, enquanto Constantinopla estava sitiada pelos maometanos e Constantino XI comandava a resistência, as autoridades cristãs ortodoxas discutiam acaloradamente sobre o sexo dos anjos, ou quantos anjos cabiam numa cabeça de alfinete. Resultado: a cidade caiu.

O mesmo sucede hoje nesta lamentável Europa. Face ao terrorismo de inspiração islâmica, ao Daesh, à horda de refugiados, à crise do euro, ao Brexit, à persistente crise económica no espaço europeu e à ascensão da extrema-direita neonazi no continente, o que faz a União Europeia? Passa meses a discutir uma questão bizantina, a diferença duns miseráveis 0,2 por cento de défice falhado em 2015 (que ainda por cima resulta de dúvidas contabilísticas), apenas porque a política neoliberal quer travar a todo o custo a acção dum governo com apoio parlamentar de esquerda, com receio de contágio.

De facto isto está tudo doido.

Parece que ninguém se importa com o que realmente importa ao país, a necessidade da construção dum clima de confiança. Não interessa que a novela das sanções afecte a confiança dos consumidores, dos investidores ou dos mercados financeiros onde Portugal precisa de se financiar regularmente. Ou seja, não interessa nada que a economia entre em recessão ou que se venham a criar dificuldades financeiras artificiais. O que parece suscitar o interesse da Comissão, do Conselho e de boa parte dos agentes políticos é que se fale cada vez mais em sanções, resgate e desgraça.

A imprensa económica – sempre fiel aos interesses de quem a sustenta – fará sempre tudo para complicar a vida a António Costa e seu governo. Para eles é inadmissível que os socialistas governem com apoio parlamentar que não seja o da direita. Isto é, olham para a Assembleia da República como câmara de eco do governo. Se o PaF ganhou as eleições devia governar em minoria. Assim se vê que conceito de democracia tem esta gente.

No seu processo de auto-destruição a Europa vai-se mostrando cada vez mais incapaz de combater o terrorismo, de ter uma política externa, de saber como lidar com os refugiados, de combater a corrupção, de manter a moeda única, de promover a coesão social entre indivíduos e territórios, de enfrentar eficazmente a crise económica no seu espaço e de evitar o surgimento e crescimento eleitoral de grupos políticos extremistas no seu seio.

Pelo contrário, esta UE e esta moeda única são excelentes para manter um exército de burocratas em Bruxelas, pagos a peso de ouro para normalizar fruta e embalagens de azeite, engordar a banca e empobrecer os países periféricos. Ou seja, serve apenas para “coar mosquitos e engolir camelos”.

Já o disse. Não é esta a Europa que interessa a um país como Portugal. De todo.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 22/7/16.   

 

Cinco elefantes e um camelo

 

A famosa hipérbole utilizada por Jesus Cristo sobre o camelo passar pelo buraco duma agulha pode ter sido influenciada por um provérbio grego, bem mais antigo, e que terá sido transmitido por Adamâncio no Physiognomonicon:

“Mais facilmente se esconderiam cinco elefantes sob uma axila do que alguém de costumes infames (pathicus)”.

Este tipo de figuras de estilo enquadrava-se perfeitamente no discurso do Mestre, e ele utilizou-as abundantemente, pois permitia-lhe ser entendido por gente culta e indouta, judeus ou gentios, de todas as idades, género, culturas e etnias.

“Porque é mais fácil entrar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus.” (Lucas 18:25)

A importância do episódio revela-se pela atenção que lhe dedicam tanto Lucas como os outros evangelistas autores dos sinópticos: Mateus (19:24) e Marcos (10:25).

Qualquer análise à frase em si mesma resulta numa impossibilidade. Assim como não se podem esconder “cinco elefantes sob uma axila”, também será impossível “entrar um rico no reino de Deus”. Ou “no reino dos céus” (Mateus 19:23).

Ao longo dos séculos tentou-se “amaciar” o sentido do texto. Para isso recorreu-se à interpretação do termo “camelo”. Que seria a Porta do Camelo, uma porta muito baixa em Jerusalém, que obrigava as pessoas a curvarem-se para a passar, significando que um rico poderia entrar no reino de Deus desde que se humilhasse.

Outros afirmaram que o tal “camelo” seria o cabo de sisal de amarração dos barcos, o qual, sendo pacientemente desfiado, passaria fio a fio pelo buraco da agulha. Ou seja, seria muito difícil que um rico acedesse ao reino mas não impossível.

O termo grego kámelos (κάμηλος) significa exactamente o nosso camelo-animal, do latim camelus. Em Marcos 10:25 e em Lucas 18:25 a palavra usada é kámelon (κάμηλον), referindo-se claramente ao animal. Vem do termo hebraico gamal (למג), usado para identificar aquele mamífero ungulado nosso conhecido (Camelus Bactrianus). E o termo grego para agulha éraphís (ραφίς), aquele objecto utilizado na costura, com a especificidade de Lucas usar o termo belónes (βελόνης), que significa agulha cirúrgica.

Portanto, nenhuma destas interpretações satisfaz, nem vem na linha da impossibilidade prática para que aponta a hipérbole. De facto nem se podem esconder elefantes numa axila, nem um rico pode entrar no reino de Deus. Não, não se trata de discriminação, nem de inveja social. Um rico não pode entrar no reino tal como um pobre também não pode, nem um remediado.

Porquê? Então quem entra?

É simples. Ao sermos acolhidos no reino de Deus deixamos pelo caminho todos os factores de distinção social. Deixamos de ser ricos ou pobres, feios ou bonitos, gordos ou magros, pretos ou brancos, cultos ou indoutos, homens ou mulheres, crianças ou velhos. Somos apenas seres humanos totalmente iguais em dignidade perante Deus e o próximo, pois Ele não discrimina pessoas: “Porque, para com Deus, não há acepção de pessoas.” (Romanos 2:11).

As barreiras entre seres humanos são construídas por nós e não podem subsistir no reino de Deus, que se pauta por outros valores e filosofia. Jesus de Nazaré nasceu numa manjedoura, sendo adorado pelos anjos, por pobres pastores e por abastados sábios vindos do Oriente. Todos convergiram sobre aquela estrebaria precária.

O Eterno fez-se “rei dos judeus” e, sendo homem, abriu a porta para que todos os homens pudessem entrar no seu reino, sem ter que pagar qualquer espécie de portagem.

José Brissos-Lino

Nada de misturas

 

Numa democracia madura, a vida política – seja ela enquadrada em partidos ou numa condição de independente – deve ser completamente alheia ao envolvimento pessoal dos líderes religiosos.

Em particular quem tem a seu cargo a direcção espiritual de comunidades locais de fé, ou de grupos específicos de fiéis, não deve candidatar-se a cargos públicos electivos, sejam eles de dimensão local, regional ou nacional.

Há uma razão ética de fundo. Não é razoável que se utilizem os púlpitos (ou outras posições de relevância comunitária religiosa) para influenciar o sentido de voto dos crentes.

Por exemplo, o que se tem vindo a passar no Brasil, desde há uns bons anos a esta parte, é suficientemente horrível e esclarecedor, com os famosos currais eleitorais e a corrupção que impera na chamada bancada parlamentar evangélica, mas também a manipulação descarada que se verifica.

Não só os pastores-deputados – que foram eleitos pelo povo – estão lá para favorecer essencialmente as suas organizações, em vez de representarem todo o seu círculo eleitoral, como não se distinguem dos demais parlamentares no domínio da ética, ou da falta dela.

Por tudo isto, foi com muito agrado que tomei conhecimento da resolução tomada recentemente por uma estrutura religiosa do estado de Alagoas (ler em baixo), que me parece muito bíblica, sensata e adequada. Surge decerto como reacção à imensa podridão reinante no país e que está a destruir o prestígio e bom nome da igreja evangélica brasileira. Um bom exemplo, que poderia ser seguido.

JB-L

RESOLUÇÃO 004/2016 – IGREJA EVANGÉLICA ASSEMBLEIA DE DEUS NO ESTADO DE ALAGOAS

Maceió – AL, 05 de julho de 2016.

A presente resolução disciplina os procedimentos a serem adotados nos pleitos eleitorais em relação aos Ministros Candidato, disciplinando as propagandas eleitorais.

Art. 1º. Esta IGREJA é ciente de que todo cidadão pode votar e ser votado.

Paragrafo Primeiro. A IGREJA declara que tem ciência de que as autoridades que exercem funções que possam desequilibrar a igualdade de concorrência eleitoral seja cargo publico ou privado, devem se desincompatibilizar de suas funções no período eleitoral conforme determinação da Lei 9.504/97, estendendo-se a desincompatibilização aos obreiros.

Paragrafo Segundo. Entende-se por obreiro todos os que exercem liderança, seja de campos eclesiásticos e congregações como dirigentes de filiais, de círculos de oração, de mocidade, dos departamentos, de grupos de louvor, de grupos de oração, dentre outros.

Art. 2º. Os Ministros que recebem prebenda da Organização Religiosa terão suspensas suas rendas eclesiásticas, visto que outro Ministro será empossado em sua função e fara jus ao recebimento da prebenda.

Paragrafo Primeiro. A presente decisão surge, porque o Ministro escolheu de livre e espontânea vontade ser candidato, não sendo iniciativa nem interesse da Igreja, portanto a Igreja não tem obrigação de continuar fornecendo a prebenda.

Paragrafo Segundo. Considerando que o Ministro candidatou-se por sua própria escolha e risco, a COMADAL e a IGREJA não terá nenhum compromisso financeiro com o candidato Ministro durante o período eleitoral e pós-eleitoral.

Paragrafo Terceiro. Quanto a voltar a dirigir Filiais, ficará a critério das Mesas Diretoras da IGREJA e COMADAL reintegrarem-no quando houver oportunidade e ainda, se o Ministro permanecer cumprindo com os ditames da Bíblia Sagrada e das normas que regem a COMADAL e a IGREJA.

Paragrafo Quarto. Sendo o Ministro eleito, não poderá reassumir direção de filiais e congregações.

Art. 3º. De acordo com a Legislação Eleitoral vigente, o Ministro que se candidata não pode se utilizar do culto, do templo e das demais dependências da Organização Religiosa para promover propaganda eleitoral de qualquer natureza.

Art. 4º No tocante ao Ministro assumir cargos a frente de secretarias de governos municipais e estaduais, serão aplicadas as mesmas regras atinentes às candidaturas.

Art. 5º. Concernente as autoridades que aparecerem em nossos cultos e liturgias, deverão ser honradas e apresentadas como autoridades e não como candidatos, sendo vedado no período eleitoral conceder oportunidade as autoridades de fazer uso da fala nas reuniões e cultos, enquanto candidatos.

Art. 6º. Os casos omissos nesta resolução referentes às matérias eleitorais serão tratados pelas Diretorias da IGREJA e COMADAL respectivamente, bem como pelo Conselho Consultivo e de Ética.

Publique-se e Cumpra-se.

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IGREJA EVANGELICA ASSEMBLEIA DE DEUS NO ESTADO DE ALAGOAS

Reverendo Dr. José Orisvaldo Nunes de Lima, Presidente

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6); “Ovelhas perdidas foram o meu povo, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

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