Um salmo para David

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Nenhuma funda com cinco pedras

Na mão, nenhum violino no telhado

Nem harpas secas nos salgueiros

Nem Bate-Seba no terraço com doces

Tâmaras nos lábios

Nada passava sob a velhice dos dedos

De David

Senão as cordas da música secreta

Das torrentes tranquilas

Tentando só com o coração e uma coroa

Deposta da cabeça, compor uma Aleluia.

 

22/09/2017

© João Tomaz Parreira 

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História e literatura memorialista

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O trabalho do historiador é bem mais sério e exigente do que o do memorialista.

Escrever memórias está ao alcance de qualquer um. A historiografia, porém, exige um conjunto de pressupostos como distanciamento temporal significativo dos factos registados, distanciamento crítico e nunca escrever na primeira pessoa.

Quem escreve história não pode deixar de registar todos os intervenientes que influenciaram o curso dos acontecimentos, mesmo os que lhe não agradam, assim como as ocorrências que não aprecia.

Mas o escritor de memórias pode perfeitamente utilizar a técnica de Estaline – que tentou apagar da história da revolução russa uma personagem tão central e incontornável como Trotsky – assim como pode contar apenas o que lhe dá jeito, ou que considera pessoalmente conveniente, e colocar-se no centro do palco, assumindo um protagonismo abusivo e patético. Pode até assumir para si uma importância histórica que realmente nunca teve nem lhe foi reconhecida. Vale o que vale.

Pelo contrário, o historiador baseia-se em documentos, procura descrever factos e interpretar acontecimentos, com o distanciamento emocional do investigador e a atitude de humildade e seriedade científicas que a tarefa de escrever história exige, e depois ainda se sujeita ao escrutínio dos seus pares.

Antigamente os reis contratavam uma espécie de historiadores à medida das suas vaidades e presunções – os chamados cronistas – que eram pagos para sublinhar, glorificar e exagerar as suas qualidades e feitos, escondendo sempre os escândalos e fracassos.

Sim, porque a história também é feita dos fracassos, dos escândalos. Todas as grandes figuras que marcaram a história da humanidade tiveram o seu lado lunar, as suas sombras, as suas vergonhas. Até mesmo muitas das grandes figuras bíblicas tidas como exemplos de fé e virtude, tanto no Antigo como no Novo Testamentos. Basta que nos recordemos de Abraão, Moisés, David, Pedro, Paulo e tantos, tantos outros.

Hoje estão na moda os gost writers (autores que são pagos para escrever de forma anónima, em nome de outros) e o mesmo se passa com produtores e arranjadores de música pimba, que não querem ver o seu nome associado a tais produtos de baixa qualidade, mas que, por serem altamente comerciais, lhes garantem uma boa retribuição financeira. Uns e outros vendem as suas competências para sobreviver (há que ganhar a vida), ainda que tal abastardamento da sua arte desagrade à sua sensibilidade intelectual e artística.

Nem tudo o que luze é ouro. Nem tudo o que parece história passa no crivo historiográfico. E sempre houve gente demais a querer rever a História.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 22/9/17.

 

Boas como uma dor de dentes

Agencias-de-Rating

 

Os comentadores de direita não têm espaço mental para elogiar as vitórias da política económica e financeira do governo. Por exemplo, a propósito da súbita subida do rating da república e consequente retirada do “lixo”, preferem diluir os méritos, ou dizer que vem tarde e que se a direita estivesse no poder já teria vindo. Isto, apesar de todos os elogios que vêm da Europa.

Como se não bastasse a hipocrisia, encontraram agora um novo mote que é dizer: “Então falavam mal das agências de rating, chamavam-lhes abutres, e agora já são boas?” Confesso que não entendo qual é a questão.

Meus amigos, as agências de rating continuam a ser o que sempre foram: más para todos os países com economias mais frágeis. E não só. Ou já se esqueceram das notações seguríssimas que deram a bancos americanos pouco antes de falirem e precipitarem a crise com que todos levámos pela proa? A única coisa que fazem é apertar o garrote aos países em dificuldades.

A bem dizer isto é tal e qual como a dor de dentes. É péssima, mas quando se vai embora é um alívio. E então? Quando passa a dor devíamos fazer o quê? Chorar?…

Tenham maneiras.

 

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6); “Ovelhas perdidas foram o meu povo, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

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