Uma PGR é como um árbitro de futebol

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A novela da nomeação para o próximo mandato na Procuradoria-Geral da República, atingiu contornos hilariantes nos últimos tempos.

Quase tudo o que mexe na vida pública veio mandar bitaites, puxados pela comunicação social, criando assim um caso político que era um não-caso, já que o Ministério Público (MP) é formalmente independente do poder político.

Tentou-se assim politizar a Justiça, com intrigas e pressões políticas no sentido de atribuir novo mandato (pela primeira vez na História da PGR) a Joana Marques Vidal (JMV), mas o tiro saiu pela culatra. Ainda no sábado passado o jornal “Expresso” intoxicou a opinião pública com notícia falsa a propósito.

Eis senão quando Marcelo e António Costa resolveram apanhar a classe política e os jornalistas de surpresa, com um comunicado de Belém a anunciar a nomeação, em que o presidente reafirma a sua doutrina sobre a interpretação do mandato único.

Cá para nós, se JMV tem dito que não aceitava novo mandato esvaziava à nascença esta polémica que alimentou as notícias durante alguns meses, mas parece que gostou da possibilidade, mesmo que em tempos tenha dito que, no seu entendimento, o mandato da PGR seria único…

Alguns dos que politizaram a matéria recuaram agora, pela surpresa da solução encontrada, e talvez, sobretudo, pela perfeita articulação revelada entre governo e presidência.

Curiosamente, um dos “pecados” desta PGR foi a incapacidade de guardar os processos judiciais a seu cargo em segredo de justiça. Pois agora Belém e São Bento guardaram a decisão no mais rigoroso sigilo, apanhando o país político e mediático de surpresa.

A solução foi brilhante. Permaneceu o mandato único, mas é nomeada outra mulher, alguém que conhece os cantos da casa, colaboradora próxima de Joana Marques Vidal, que à partida dá garantias da continuidade do trabalho do MP no tocante à marca de que não há hoje intocáveis na sociedade portuguesa.

Restam apenas os ressabiados, como Passos Coelho e Paula Teixeira da Cruz, para viram a público discordar.

Porém, deixo uma dica à nova PGR (na foto, Lucília Gago). Por favor não faça como todos os seus antecessores, a falar aos jornalistas na rua, nas escadas, à entrada e à saída das reuniões. Se, como consta, não gosta de holofotes, faça isso. Dê mais dignidade ao cargo, pois uma PGR não é governante e a Justiça precisa de algum recato e de não ceder à pressão mediática.

Quando tiver alguma coisa de substancial para dizer faça um comunicado, dê uma entrevista ou, em último caso, promova uma conferência de imprensa. Uma PGR deve ser com um árbitro no desporto, quanto menos se der por ele, melhor.

 

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Marx, aprendiz de teólogo?

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Dois séculos depois do nascimento do autor do “Manifesto Comunista” e de “O Capital”, ainda não se sabe porque terá o jovem Marx abandonado a sua fé religiosa

Karl Heinrich Marx – o mesmo que inspirou revoluções que fizeram correr sangue em todo o mundo – começou por ser cristão, na sua juventude, tendo-se submetido ao rito do baptismo protestante e casado numa igreja luterana. O primeiro escrito que se lhe conhece chama-se: “Unidade dos crentes em Cristo segundo Evangelho de S. João 15:1-14: unidade no sentido de necessidade incondicional, influência”.

Nesta sua obra inicial, em jeito de ensaio teológico, Marx escreveu: “A união com Cristo define-se num companheirismo íntimo e vivo com Ele e no facto de o termos sempre diante dos nossos olhos e corações. E, ao mesmo tempo que somos possuídos pelo Seu infinito amor, dirigimos os nossos corações aos nossos irmãos, com quem Ele nos une intimamente e por quem se sacrificou”. O jovem alemão demonstrava assim compreender o conceito de amor fraterno proposto no evangelho: “Portanto, a unidade com Cristo eleva-nos interiormente, conforta-nos nas provações e torna o coração aberto para amar as pessoas, não por causa do nosso orgulho ou sede da fama, mas por causa de Cristo”.

Por essa altura escreveu também um texto intitulado: “Pensamentos de um jovem face à escolha duma profissão” onde afirmava: “A religião ensina-nos o Ideal a Quem todos aspiramos. Ele Se sacrificou por toda a humanidade. Quem ousará negar tal afirmação? Se escolhemos uma profissão à qual podemos dar o nosso melhor pela humanidade, então não devemos hesitar sob o seu peso, porque é um sacrifício por todos”. Dava assim a entender que a teologia lhe interessava na altura. Acresce que o seu diploma do ensino secundário rezava assim, no item “Conhecimento religioso”: “O seu conhecimento de ensinamentos e princípios cristãos é claro e adequadamente fundamentado. Conhece também em profundidade a história da igreja cristã”.

Marx era judeu e descendente de rabis, mas nasceu numa cidade alemã de maioria católica (Trier, na Renânia) onde cresceu em família convertida ao luteranismo. Contudo aconteceu algo que terá escapado aos biógrafos, ainda antes de Moses Gess ter conquistado Marx para a causa socialista, em 1841, pois já então se tinha tornado um ateu radical.

De facto, e ao contrário do que muitos pensam, o ideal socialista em Marx era secundário, perante a ideia dominante de querer destruir as religiões. A ideia de que Marx tenha combatido a religião de forma instrumental, enquanto obstáculo para atingir a implantação do socialismo, parece não corresponder à verdade, já que o objectivo primeiro seria mesmo erradicar a dimensão religiosa da sociedade.

Alguns historiadores acreditam mesmo que a ideologia marxista, antes do carimbo da igualdade tem a marca da liberdade. A célebre frase “a religião é o ópio do povo” não deixa de ter o seu lado de verdade. Muitos regimes no passado utilizaram os sistemas religiosos para adormecerem as populações e as distraírem da sua penosa situação de oprimidos, condicionando possíveis movimentos de revolta. Tal como Nietzsche, que postulou a “morte de Deus”. De facto um certo conceito do Deus medieval morreu aos olhos da sociedade, em particular depois da revolução francesa e com o advento da Modernidade. Entender tais frases como ataques descabelados à religião no geral é não entender que significam, sobretudo, ataques a uma certa ideia de religião e a um determinado conceito do divino.

Alguém realizou o seguinte teste: publicou no seu mural do Facebook diversas frases de Marx, atribuindo-as a João Calvino, Martinho Lutero, Charles Spurgeon, John Stott e Santo Agostinho. A reacção foi muito positiva, com imensos likes e partilhas. Depois publicou também frases destes mesmos autores, mas desta vez atribuindo-as a Marx. Aí começaram a chover críticas, algumas delas muito duras, taxando o filósofo de imbecil para baixo. Alguns dos mesmos que criticaram as frases falsamente atribuídas a Marx, aplaudiram depois frases de sua autoria, falsamente atribuídas a alguns dos grandes vultos cristãos, apenas por puro preconceito.

Mais. Há coisas em Marx que são intemporais. Por exemplo, quando ele diz que “Jesus faz milagres e dá. O homem não faz milagres, e vende.”

Consta que um discípulo de Marx, o capitão Reese, resolveu visitar a casa onde Marx morrera, em Londres, tempos depois do seu falecimento, tendo ainda conseguido chegar à fala com uma antiga criada da família, que lhe terá confidenciado que Marx já próximo da morte teria por hábito orar a Deus no seu quarto. Aliás, este percurso de retorno à fé religiosa perante a iminência da morte é comum a inúmeras figuras históricas.

Um dia Luther King afirmou que “só existe comunismo porque não somos suficientemente cristãos.” Isto é, porque boa parte dos cristãos não vive em consonância com o Evangelho. Talvez seja exagero, mas dá que pensar.

José Brissos-Lino

JOSÉ BRISSOS-LINO

Doutorado em Psicologia; Diretor do Mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona; Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo

 

Fonte: VISÃO online

O clero também se suicida

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Nos últimos anos tem-se vindo a verificar um crescimento exponencial do suicídio entre pastores protestantes nos Estados Unidos

Apesar da crescente prevalência do suicídio no país, a verdade é que esta forma de violência auto-centrada tem assumido contornos epidémicos em determinados sectores do clero, mas as igrejas permanecem em silêncio sobre o assunto.

As estatísticas são realmente preocupantes. Segundo estudo do Centers for Disease, Control and Prevention, de 1999 a 2014, a taxa de suicídio ajustada por idade, nos Estados Unidos, aumentou 24% de 10,5 para 13,0 por 100.000, com um ritmo de aumento maior depois de 2006. O aumento verificou-se em ambos os sexos e é transversal às faixas etárias, indo dos 10 aos 74 anos de idade. São as taxas mais altas das últimas três décadas, com especial incidência no clero negro masculino e feminino branco.

Já por si as responsabilidades pastorais são exigentes e até mesmo perigosas, no entender dos especialistas em saúde mental. Mas as coisas agravam-se pelo facto de em determinados círculos religiosos, de orientação teológica fundamentalista, a depressão e os seus processos mentais negativos serem identificados como problemas estritamente espirituais, considerando-se por vezes o suicídio como um acto egocêntrico, que revela egoísmo, falta de fé ou de devoção.

Devido à vergonha e ao estigma tende a estabelecer-se um silêncio ensurdecedor nos círculos cristãos, quando o assunto é o suicídio eclesiástico, ou os problemas de saúde mental, emocional e relacional. De facto o suicídio é um problema essencialmente relacional e não apenas fruto duma mente perturbada.

Uma investigação da LifeWay, publicada em 2014, concluiu que 66% dos pastores protestantes raramente discutem questões de saúde mental com as congregações que servem e 49% raramente ou nunca resolvem o problema. Apenas 16% falam sobre doenças mentais uma vez por ano, e 22% manifestam relutância em ajudar os que sofrem de doença mental aguda, por exigir muito tempo.

Os seminários teológicos falham normalmente por não ensinar os alunos a lidar com conflitos ou mesmo a mediá-los, em comunidades locais de fé que incluem pessoas com problemas pessoais, traumas e conflitos. Sem essas ferramentas é difícil aos pastores e líderes religiosos manterem o seu equilíbrio pessoal face aos conflitos na comunidade, que serão sempre inevitáveis.

Um estudo nacional realizado com dois mil ministros da Igreja Metodista Unida concluiu que os inquiridos consideram as suas funções pastorais gratificantes mas exigentes. Muitas vezes têm que fazer de administradores, professores, pregadores, conselheiros e angariadores de fundos. Estão sempre disponíveis e por vezes precisam de lidar com pessoas gravemente perturbadas. Os pastores são os principais conselheiros de saúde mental para dezenas de milhões de americanos. São os primeiros convocados a ajudar em problemas familiares, conjugais ou nas crises pessoais. Segundo os estudos os membros do clero são das pessoas mais sujeitas a stresse profissional e enfrentam altos níveis de isolamento, solidão, medo, abandono, raiva e tédio.

Problemas familiares e expectativas irrealistas estão na base do abandono das funções pastorais e, no limite, do suicídio eclesiástico. Em muitos casos as dificuldades conjugais e familiares são provocadas pelo pouco tempo disponível para partilhar com os cônjuges e filhos, assim como problemas financeiros. Além disso existe uma tendência para colocar muitos pastores e famílias num pedestal, o que dificulta a formação de amizades normais e dá lugar a sentimentos de solidão e isolamento.

Parece evidente a necessidade de se fazer alguma coisa para alterar a cultura das comunidades locais de fé, porque os pastores também são seres humanos. As estatísticas mostram que um em cada quatro americanos sofre de doença mental grave, e um em cada quatro pastores também sofre de algum tipo de perturbação mental ou emocional. Em Portugal ainda não temos estatísticas sobre estas problemáticas, mas suspeita-se que o panorama será idêntico, ainda que sem a mesma visibilidade, talvez devido à configuração do panorama religioso, dada a dimensão reduzida do campo protestante e evangélico.

Mas o ideal é que os líderes religiosos aprendam a cuidar de si mesmos, desde logo respeitando os seus limites espirituais, emocionais e físicos. Se as organizações eclesiásticas que servem colocam demasiada pressão é preferível procurar outro caminho. No seu próprio interesse, a comunidade deve assumir a responsabilidade pelo bem-estar do seu pastor e este deve aprender a delegar responsabilidades.

Se a igreja é prioridade de vida sobre a família, algo estará errado. E em caso de sofrimento deve pedir ajuda sem receios ou preconceitos.

Sobretudo, há mais vida para lá das tarefas pastorais. Há que saboreá-la.

José Brissos-Lino

JOSÉ BRISSOS-LINO

Doutorado em Psicologia; Diretor do Mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona; Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo

Fonte: revista VISÃO.

Martin Luther King: do sonho ao pesadelo

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Há poucos dias cumpriram-se 55 anos sobre a data de um dos melhores discursos históricos de sempre, de Martin Luther King Jr.

 O icónico discurso “I have a dream”, que foi proferido na presença de mais de 250.000 pessoas de todas as etnias, na Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade, em prol dos direitos civis numa sociedade americana profundamente segregacionista, ainda hoje impressiona pelo desassombro do orador e a sua coragem pessoal e cívica.

O jovem pastor protestante de Memphis, Tennessee, que encabeçou o movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos com uma campanha de não-violência e de amor ao próximo, viria a ser assassinado cinco anos depois, pelas forças racistas que vinha a confrontar através do seu activismo político. Mas o Nobel da Paz de 1964 não ficou por aí. Tempos antes de morrer incluiu nas suas preocupações cívicas o combate à pobreza e a oposição pública à Guerra do Vietname.

John Edgar Hoover considerou-o um perigoso radical e os agentes do FBI investigaram-no por possíveis ligações comunistas, puseram-no sob escuta e usaram de terrorismo psicológico enviando-lhe uma carta anónima com ameaças e a sugerir que se suicidasse.

Entretanto, Luther King foi integrado na história americana, como se depreende do estabelecimento de um feriado federal com o seu nome, em 1986, e das centenas de ruas renomeadas em sua homenagem. Mas é de crer que, se ele tivesse surgido na linha do tempo apenas agora, duas gerações depois, a sua luta não seria menos dura nem significativa, apesar de a nação já ter conseguido eleger um presidente negro nos inícios do milénio.

A causa de Luther King nos anos sessenta terá então sido perdida e a sua luta em vão? Não necessariamente. Acabou o segregacionismo e os negros podem agora frequentar os mesmos restaurantes, cafés, casas de banho, escolas e universidades que os brancos, usar os mesmos transportes públicos e construir famílias interraciais sem problemas. Mas o racismo não acabou. Os indivíduos mais pobres do país continuam a ser os negros, por isso constituem também a maior percentagem da população prisional e no sul persiste ainda um racismo cultural misturado com um ressentimento histórico devido à guerra civil americana e ao fim da escravatura. 

O discurso

O célebre discurso de 28 de Agosto de 1963, proferido nos degraus do Lincoln Memorial, Washington DC, é considerado um dos melhores discursos de todos os tempos. Recheado de abundantes citações bíblicas preconizava um ideal político de recorte claramente cristão mas, curiosamente, também revisitava os princípios da revolução francesa – liberdade, igualdade e fraternidade – que abriram caminho à Modernidade, em substituição da mentalidade medieval.

King faz então um pungente apelo à liberdade, retomando o poema patriótico “América”: “Quando permitirmos que a liberdade ressoe, quando a deixarmos ressoar de cada vila e cada aldeia, de cada estado e de cada cidade, seremos capazes de apressar o dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão dar-se as mãos e cantar as palavras da antiga canção negra: ‘Liberdade finalmente! Liberdade finalmente! Louvado seja Deus, Todo-Poderoso, estamos livres, finalmente!”

Clama igualmente pela igualdade: “Tenho um sonho que um dia esta nação levantar-se-á e viverá o verdadeiro significado da sua crença: ‘Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais’. Tenho um sonho que os meus quatro pequenos filhos viverão um dia numa nação onde não serão julgados pela cor da sua pele, mas pela qualidade do seu carácter.”

E propõe uma sociedade fraterna: “Tenho um sonho que um dia nas montanhas rubras da Geórgia os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos proprietários de escravos poderão sentar-se à mesa da fraternidade.”

Alguns meses depois deste discurso a Lei dos Direitos Civis entrou em vigor e em 1965 foi a vez da lei sobre o direito de voto.

Do sonho ao pesadelo

O sonho do pastor King não era apenas acabar com a discriminação racial nas escolas e no mundo do trabalho, obter o direito de voto e cidadania plena para os negros, acabar com a brutalidade policial contra militantes dos direitos civis e a criação de um salário mínimo para todos os trabalhadores, que beneficiaria sobretudo os negros, mas lutar também pela igualdade de oportunidades entre todos os cidadãos, independentemente da sua etnia, sexo ou condição social. E preconizou tal luta com urgência mas sempre em registo de paz, dignidade, disciplina e em aliança com os brancos.

Luther King foi assassinado pelo seu ideal. Mas se voltasse cá agora, em pleno trumpismo, provavelmente morreria de novo, mas desta vez de desgosto, face à forma como o actual presidente norte-americano trata as mulheres, os deficientes, os estrangeiros, os negros, os jornalistas, os heróis de guerra, os adversários políticos, os antigos colaboradores e todos quantos ousam enfrentá-lo ou discordar dele.

 

José Brissos-Lino 

Trump, um novo líder de culto?

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Parece que os fundamentalistas cristãos americanos estarão a desenvolver um novo culto religioso à volta da presidência Trump

Pelo menos esta é a tese de Reza Aslan, professor na Universidade da Califórnia, ao verificar que a grande base de apoio político do presidente é o sector WASP (white, anglo-saxonic and protestant), ou evangélico conservador, devido à convicção de que o actual inquilino da Sala Oval terá sido ungido por Deus para se tornar presidente dos Estados Unidos.

Há quem já lhe chame o Ciro dos tempos modernos, fazendo referência ao imperador persa do século VI a.C., o qual, tendo dominado a Babilónia, autorizou o retorno dos judeus à terra de Israel e a reconstrução dos muros da cidade e do templo de Jerusalém, decretando também que as populações das cidades nas quais eles moravam os ajudassem a restabelecer o antigo culto. Restaurou-se assim o centro de adoração judaico, tal como o hebreu Isaías havia profetizado e o cronista Esdras confirmado: “Assim fala Ciro, rei da Pérsia: o Senhor, Deus do Céu, deu-me todos os reinos da Terra, e encarregou-me de construir-lhe um templo em Jerusalém, que fica na terra de Judá. Quem é dentre vós pertencente ao seu povo, que seu Deus o acompanhe, suba a Jerusalém que fica na terra de Judá e construa o templo do Senhor, Deus de Israel, o Deus que reside em Jerusalém. Que todos os sobreviventes (de Judá) onde quer que residam, sejam providos pelos habitantes da localidade onde se encontrarem, de prata, ouro, cereais e gado, bem como de oferendas voluntárias para o templo do Deus que reside em Jerusalém” (Livro de Esdras 1:2-4).

A direita religiosa norte-americana está a deixar cair a sua base moral em nome da capacidade de exercer influência junto do poder político. Parece que o escândalo da interferência russa nas eleições não conta, nem tão pouco os múltiplos casos extraconjugais com estrelas do cinema pornográfico, ou a sua incapacidade de se lembrar de um único versículo bíblico quando lhe é pedido. Mas sobretudo o desprezo com que se refere às mulheres, aos muçulmanos, aos adversários políticos, aos imigrantes e aos pobres.

O homem que fugiu à guerra do Vietname, graças a expedientes manhosos e a um pai rico, teve o desplante de criticar o soldado John McCain por ter sido feito prisioneiro pelo inimigo na frente de batalha.

81 por cento dos evangélicos brancos votaram Trump em 2016 (67 por cento dos evangélicos negros votaram Hillary Clinton), mais do que votaram em George W. Bush, que se apresentava como evangélico. Não faz qualquer sentido, até porque Donald Trump sempre foi e é uma pessoa irreligiosa, que não revela valores cristãos como humildade, empatia ou cuidado com os pobres.

Talvez o chamado “evangelho da prosperidade” – uma perniciosa invenção americana – tenha contribuído para este estado de coisas. Os pregadores desta doutrina vendem a ideia de que a prosperidade material pode ser alcançada pela fé, em qualquer circunstância. Quando os eleitores olham para Donald Trump vêm um homem rico e entendem tal situação como uma marca da bênção divina, mais do que em qualquer outro candidato democrata ou republicano.

Além do mais, Trump verbalizou promessas de forma pública e privada, em campanha, no sentido de, a ser eleito, conferir poder a este sector religioso. Mas a questão é que a maioria dos cristãos evangélicos brancos estão a abandonar as suas crenças morais para seguir, como Reza sugere, alguém que exibe todas as marcas registradas de um líder de culto, assumindo-se como uma espécie de figura profética.

Pat Robertson – um líder influente no meio cristão americano, apesar das repetidas gaffes que protagoniza – disse que vira, num sonho, Trump sentado à direita de Deus, isto é, no lugar que pertence a Jesus Cristo…

Portanto, está montada a cena para dar quase adoração a uma figura humana de recorte salvífico. De facto a direita religiosa americana vendeu-se por um prato de lentilhas, isto é, pela possibilidade de ganhar influência política, o que não deixa de ser um caminho perigoso, em especial quando a personagem em questão é absolutamente imprevisível.

O fundamentalismo evangélico inventou um bezerro de ouro, como o povo hebreu recém-libertado do cativeiro criou aquela reprodução tosca da divindade egípcia do Boi Ápis, no início da travessia do deserto do Sinai.

Falta hoje, portanto, um Moisés que enfrente o problema com a energia que se impõe e combata esta aberrante idolatria.

José Brissos-Lino

JOSÉ BRISSOS-LINO

Doutorado em Psicologia; Diretor do Mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona; Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo

 

Fonte: revista VISÃO.

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6).

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