O camelo que gostava de Jazz

Louis Armstrong once played his trumpet while riding a camel in Egypt. Old Pics Archive.

Old Pics Archive.

 

Um dia o velho Louis Armstrong tocou trompete

montado num camelo egípcio. Consta que

a Esfinge adorou e propôs ao músico

a decifração dum enigma

 

o camelo ficou imóvel

a babar-se de prazer. Era a primeira vez

que lhe davam música e não só trabalhos

 

os sons alegres e límpidos do instrumento

bateram repetidamente

nas sombrias paredes multimilenares

de respeitáveis pirâmides

 

ecoaram no Nilo

 

espantaram os turistas

 

Entre os cicerones um ancião egípcio receou até

que os sarcófagos se abrissem pela magia

libertada por aqueles pistons abençoados

 

o enigma era: existe uma chave que abre

todas as portas do mundo

menos uma

 

Armstrong só desvendou o enigma de regresso

à sua terra quando teve que se acomodar

nos bancos do fundo dum autocarro

 

daqueles destinados aos “blacks”

 

a chave era a música

a porta relutante era a estupidez dos homens

vetusta e gigantesca

granítica como as pirâmides do Cairo.

 

 

 

José Brissos-Lino

25/8/16

Apologia do medo

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Devido à recente onda de atentados está instalado um clima de medo nas sociedades ocidentais, o que não deixa de ser uma vitória do Daesh. É para isso que têm vindo a trabalhar desde o início do “califado”.

Os homens de guerra que estão na origem do denominado “Estado Islâmico”, que não é estado nem islâmico – generais sunitas de Saddam Hussein – conseguiram colocar o medo na ordem do dia. Fizeram-no através da estética do horror, do terrorismo mais abjecto, de uma mentalidade medieval associada a operações de propaganda em linha com o século vinte e um e da instalação de um clima de medo que visa destruir os fundamentos da democracia, do estado de direito e do estilo de vida ocidental.

Como responder a esta ameaça?

A extrema-direita chama-lhe um figo, pois dá azo a pressionar os governos com medidas securitárias que não resolvem o problema de fundo mas apenas destroem o sistema democrático e limitam as liberdades civis. Ou então a política do “olho por olho, dente por dente”, uma vez que em breve estaremos todos cegos e desdentados…

Alguns círculos – tanto políticos como religiosos – defendem que isto vai acabar numa guerra religiosa entre cristianismo e islamismo, sendo que alguns já se estão a preparar e armar para tal, um pouco como aqueles grupos americanos que acham que vai estalar uma guerra dos cidadãos contra… o poder federal.

Mas deixar tudo como está também não resolve o problema. A inércia, a postura de fraqueza, hesitação e desnorte que tem sido timbre da União Europeia em matéria internacional, só podem agravar o actual estado de coisas.

Entre os extremos há um caminho difícil mas possível. É preciso manter a cabeça fria. Os países democráticos têm que ter serviços de informações a funcionar eficazmente – articulados a nível europeu – e reverter as suas políticas de imigração. É necessário impedir que as madrassas nos nossos países se transformem em escolas de ódio, as mesquitas em espaços de recrutamento de jihadistas, os líderes religiosos islâmicos em terroristas disfarçados nos púlpitos, e os bairros periféricos em gettos.

Mais. É imprescindível que os líderes islâmicos moderados levantem a voz, em todo o mundo, e condenem com veemência estes massacres e assassinatos.

É preciso que a comunicação social se autoregule e deixe de permitir a glorificação dos jihadistas e a estética do horror. Mas também que haja condicionamentos à propaganda terrorista na internet.

Tudo menos ceder ao medo, excepto um único tipo de medo. O medo de ter medo.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 26/8/16.

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6); “Ovelhas perdidas foram o meu povo, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

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