Qual é o problema de Neto de Moura com as mulheres?

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Depois duma polícia permissiva, dum Ministério Público ineficaz e de magistrados de primeira instância insensíveis, só nos faltavam agora juízes conselheiros de mentalidade troglodita, para compor o ramalhete da violência doméstica à portuguesa. 

Gandhi, referindo-se ao seu próprio pensamento em 1898, quando residia na África do Sul, escreveu nas suas memórias: “Era uma época em que achava que a mulher era objeto de luxúria do marido, nascida para cumprir as suas ordens, e não uma ajudante, uma camarada e uma parceira nas alegrias e tristezas”. Este profeta da liberdade e da não-violência demorou a encarar a companheira como sua parceira e igual em dignidade. Apesar de tudo estávamos noutro tempo (finais do séc. XIX), mergulhados nas tradições culturais da península do Hindustão, que não se caracterizavam propriamente pela dignificação do elemento o feminino. Mas hoje, senhores?

Em Portugal são apresentadas três queixas por violência doméstica em cada hora (a média é de uma a cada vinte minutos). Em trabalho de investigação académica o meu amigo Mauro Paulino – psicólogo forense especialista nesta área – concluiu que a vítima demora aproximadamente 13 anos, em média, a denunciar os maus tratos ou a pedir apoio! 1

Já em 2002 a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa alertava que: “A violência no espaço doméstico é a maior causa de morte e invalidez entre mulheres dos 16 aos 44 anos, ultrapassando o cancro, acidentes de viação e até a guerra” (Recomendação 1582). Também sabemos que a situação mais sinalizada pelas Comissões de Protecção de Crianças e Jovens, desde 2012, é a exposição da criança a comportamentos que podem comprometer o seu bem-estar e desenvolvimento. Mais. Os prestadores de cuidados de saúde desconhecem ou ignoram frequentemente as directivas da Direcção Geral de Saúde, que manda proceder de forma sistemática à detecção do risco de existência de violência doméstica em todos os processos de triagem, colocando questões objectivas sobre a ocorrência de violência no seio da família e procedendo ao respectivo registo.

A verdade é que o historial da violência doméstica em Portugal indica que as forças de segurança revelam frequentemente uma atitude permissiva face aos abusos, o Ministério Público é ineficaz (em 2017 apenas deduziu acusação com base em 16% das denúncias) e a magistratura de primeira instância parece insensível a este drama. O Expresso diz que das 26.713 queixas apresentadas em 2017, apenas resultaram 4.465 acusações e 1.457 condenações, sendo que destas só 119 foram de prisão efectiva, ou seja, 0,44%… Mas a cereja estragada em cima deste bolo podre foi mesmo aquele inenarrável acórdão do juiz conselheiro Neto de Moura, que fez acordar as consciências adormecidas, mas cada vez mais incomodadas com o número de mulheres assassinadas pelos companheiros actuais ou antigos. O juiz conselheiro usou a Bíblia de forma abusiva para justificar a brincadeira da pena aplicada ao agressor, culpabilizando a vítima. Face ao escândalo público o corporativismo judicial emergiu de novo, desta vez no Conselho Superior da Magistratura, com uma advertência miserável ao magistrado em vez da punição exemplar que se impunha.

Uma pesquisa da Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo, a partir de relatos colhidos por organizações não-governamentais que trabalham no apoio às vítimas desse tipo de violência, concluiu que quase 40% das mulheres que se declaram vítimas de agressões físicas e verbais dos maridos são evangélicas. Muitas das vítimas afirmam sentir-se coagidas pelos líderes religiosos a não denunciarem os maridos agressores, o que as leva a “comer e calar”. As situações são assim espiritualizadas e desvalorizadas pelos líderes, e as vítimas sentem-se coagidas a evitar o dever de denúncia, que é olhado como fraqueza ou falta de fé.

O mesmo parece acontecer com os líderes de outras confissões religiosas com resquícios patriarcais e uma mentalidade machista, que tendem a influenciar a vítima ao silêncio e à submissão, em vez de trabalharem para a consciencialização e o empoderamento das mulheres, encarando-as como iguais e dignas de respeito em todas as circunstâncias.

Esta mentalidade ainda subsistente entre nós tem que ser combatida nas escolas, na comunicação social, nas artes, nas universidades e nos meios religiosos. A violência no namoro é assustadora. Mas as instituições do estado não podem ficar a ver a banda passar. Salve-se a honra de um dos membros mais lúcidos do Conselho Superior de Magistratura que defendeu uma pena mais pesada para Neto de Moura, por revelar “desconhecimento injustificável ou mesmo desprezo por valores essenciais protegidos pela nossa ordem jurídico-constitucional.”

Quando um cidadão que ocupa a função de juiz não consegue resistir à tentação de se colocar no lugar de Deus está tudo estragado…

 

1 Publicado pela Elsevier Academic Press – Forensic Psychology of Spousal Violence – 1st Edition.

José Brissos-Lino

 

Fonte: VISÃO online, 20/02/19

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Gandhi gostava de Cristo, mas nem tanto dos cristãos

GoldenRule-Pinderest

GoldenRule-Pinderest

 

Gandhi é um dos três nomes incontornáveis na galeria dos construtores da paz e da luta contra as injustiças sociais no século XX, juntamente com o americano Martin Luther King e o africano Nelson Mandela.

O Expresso teve a feliz ideia de publicar “A Minha Vida e as Minhas Experiências com a Verdade”, um livro de memórias do dirigente indiano e pai da independência da Índia, a jóia da coroa do Império Britânico, que acabou de redigir na prisão. Nele Gandhi expressa amplamente as suas impressões não só sobre o seu percurso pessoal e história familiar, mas também dúvidas, temores e reflexões filosóficas e religiosas sobre a vida, a sociedade, a política e a cultura. Trata-se dum interessante relato do seu processo de auto-realização enquanto ser humano.

Gandhi começa por se apresentar como crente em Deus, mas é sincero ao ponto de assumir que anda à Sua procura: “ainda não O encontrei, mas continuo a procurá-Lo”. E mantém uma notável atitude de humildade ao declarar: “rezo para que ninguém considere definitivas as opiniões deste livro”.

A persistência e o empenho no caminho da verdade na perspectiva hinduísta (Satyagraha) acabou por conduzi-lo à prática do Ahimsa, ou princípio da não-violência, que o tornou conhecido em todo o mundo e que o orientou nas lutas políticas, tanto na África do Sul, onde apelou à desobediência civil em massa, a fim de defender os direitos dos indianos, como, mais tarde, de volta à India, tanto na luta por reformas político-sociais que promovessem a dignidade e as condições de vida das populações, como na luta pela independência da Grã-Bretanha através de métodos pacíficos.

É curioso ler como aconteceu o contacto do jovem Gandhi com o protestantismo em Inglaterra e na África do Sul, e entender como era complicado a um hindu apreender a doutrina cristã, embora o Sermão da Montanha lhe tivesse falado “directamente ao coração”. Ele, que desenvolvera inicialmente aversão pelo cristianismo (a religião da potência colonial) apesar de admirar francamente a figura de Jesus Cristo.

Instituída pela ONU em 2010 e assinalada desde 2011, na primeira semana de Fevereiro de cada ano, a Semana Mundial da Harmonia Inter-Religiosa (“World Interfaith Harmony Week”) destina-se a contribuir para a promoção de uma cultura de paz e não-violência, a cooperação inter-religiosa e intercultural, o diálogo entre civilizações, a compreensão, respeito mútuo e a eliminação de todas as formas de intolerância, discriminação e fundamentalismo.

Norman Rockwell expôs na sua obra Golden Rule (“Regra de Ouro”), publicada em 1961, um famoso princípio de harmonia entre as diferentes religiões, confissões e crenças, e que integrou o icónico mosaico oferecido às Nações Unidas, em 1985, pela primeira-dama Nancy Reagan em nome dos Estados Unidos: “Faz aos outros o que gostarias que te fizessem”. Eis um princípio moral presente em praticamente todas as religiões e culturas como regra fundamental de vida.

A ética da reciprocidade mais conhecida na cultura ocidental é a que foi pronunciada por Jesus Cristo, no Sermão do Monte: “Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós a eles” (Mateus 7:12). Mas existem enunciações semelhantes noutros contextos religiosos, como é o caso do Judaísmo: “O que é odioso para ti, não o faças ao próximo”, ou no Confucionismo: “Não façais aos outros aquilo que não quereis que vos façam” (Confúcio), mas também no Zoroastrismo: “Aquela natureza só é boa quando não faz ao outro aquilo que não é bom para ela própria” (Dadistan-i-Dinik 94:5), no Hinduísmo: “Esta é a suma do dever: não faças aos outros aquilo que se a ti for feito, te causará dor” (Mahabharata 5:15:17), ou no Budismo: “Não atormentes o próximo com o que te aflige” (Udana-Varga 5:18).

É estranho que tal denominador comum presente nas religiões em geral não funcione como princípio de tolerância, compreensão e aceitação entre os povos. Trata-se dum princípio simples, lógico e razoável que permitiria construir pontes em vez de muros entre comunidades com concepções diferentes da vida e da transcendência. Luther King tinha inteira razão quando proferiu a célebre frase: “Aprendemos a voar como os pássaros e a nadar como os peixes, mas não aprendemos a conviver como irmãos.”

É certo que a resposta de Jesus de Nazaré vai muito mais longe do que a ética da reciprocidade, quando estimula a “dar a outra face” (Mateus 5:39), a “dar também a capa” (40), a “caminhar mais uma milha” (41) e explica que os que choram serão consolados, por isso são felizes (Mateus 5:4). Ou então a de S. Paulo, que ensina a “suportar o dano” (1 Coríntios 6:7), porque o amor tudo sofre (13:7). Mas isso merece uma outra reflexão.

José Brissos-Lino

 

Fonte: VISÃO online, 13/02/19

Deus pode ir de férias…

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A denominada Teologia da Prosperidade começa a dar lugar à Teologia do Coaching em determinados círculos cristãos. Substituiu-se a fome pela vontade de comer. Sendo assim, Deus pode ir de férias…

A chamada teologia da prosperidade – um fenómeno religioso de origem norte-americana – tem causado inúmeras divisões e confusões no mundo evangélico à escala global. Nos últimos anos muitos dos seus profetas foram desacreditados e outros admitiram erros doutrinários significativos. A partir dos anos setenta o neopentecostalismo agarrou com unhas e dentes esta doutrina, com resultados nefastos para as populações das periferias, os mais pobres, menos esclarecidos e os desesperados. A ideia do sucesso aqui e agora, para todos, com base na contribuição financeira e numa espécie de fezada só vai acrescentando ilusão ao desespero. Esta teologia ajudou a redefinir o campo religioso protestante, a sua relação com a lógica do mercado neoliberal e a aspiração de ascensão social de muitas pessoas, afastando-se da ética protestante da modernidade analisada por Weber.

Mas agora a nova moda é a Teologia do Coaching, que se vem a instalar nestes meios religiosos como substituta da prosperidade. A pregação do Evangelho, que anteriormente já tinha cedido lugar ao discurso da prosperidade fácil, transformou-se agora numa arenga de auto-ajuda. O coaching é um conjunto de recursos, técnicas e ferramentas de administração, psicologia, neurociência, gestão de recursos humanos e planeamento estratégico, entre outros, com vista a atingir os resultados desejados tanto a nível profissional, social e familiar, como espiritual e financeiro. A ideia é que um profissional ajude a despertar o potencial da pessoa com vista a obter tudo o que deseja. Só que evangelho e fé cristã não combinam com coaching.

E aí temos o mercado das palestras motivacionais. Parece que a nova religião do homem moderno é o empreendedorismo. De matriz materialista, ela substituiu os santos do altar por fotografias de homens de sucesso, e os seus livros sagrados são os de auto-ajuda. O objectivo desta cultura é o sucesso, seja lá o que isso for! O problema é que o coaching tem uma vocação civil e não religiosa. As palestras motivacionais em contexto religioso são centradas no indivíduo, confundem fé com força de vontade, e evangelho com motivação. O foco está no que a pessoa pode conseguir através da sua fé. Por outro lado o coaching dá corpo à ambição de conquistar bens materiais ou espirituais num processo de autoafirmação, ao contrário da proposta do evangelho, que é auto-exame e negação de si mesmo. O pastor torna-se uma espécie de coach, procurando ir ao encontro do que as pessoas querem ouvir, afagando-lhes o ego, estimulando nos membros da comunidade de fé o seu potencial para que eles alcancem tudo o que desejam.

Ou seja, vende-se a ideia de que o potencial dos indivíduos é ilimitado e podem conquistar tudo o que querem, se fizerem muita força… Este existencialismo humanista-materialista procura responder à busca pessoal pelo significado da vida, tornando-se o âmago do pensamento filosófico. Enquanto a teoria da prosperidade regateia com Deus para que faça milagres de cariz físico, material e espiritual (Perelman e Olbrechts-Tyteca estudaram há muito os seus recursos retórico-argumentativos), a teologia do coaching afasta Deus da cena para se concentrar no potencial humano, mitificando-o.

Comparando esta filosofia com as Escrituras, vemos como o profeta Jeremias falou a um povo orgulho e que confiava em suas próprias forças e “tradição espiritual”: “Não se glorie o sábio em sua sabedoria nem o forte em sua força nem o rico em sua riqueza, mas quem se gloriar, glorie-se nisto: em compreender-me e conhecer-me, pois eu sou o Senhor, e ajo com lealdade, com justiça e com rectidão sobre a terra, pois é dessas coisas que me agrado” (9:23,24). E acrescenta mais à frente: “Maldito é o homem que confia nos homens, que faz da humanidade mortal a sua força, mas cujo coração se afasta do Senhor” (17:5-7).

No Novo Testamento não é diferente, se lermos Tiago: “Ouçam agora, vocês que dizem: ‘Hoje ou amanhã iremos para esta ou aquela cidade, passaremos um ano ali, faremos negócios e ganharemos dinheiro’. Vocês nem sabem o que lhes acontecerá amanhã! Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa. Ao invés disso, deveriam dizer: ‘Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo’. Agora, porém, vocês se vangloriam das suas pretensões. Toda vanglória como essa é maligna” (4:13-16)É bom que um cristão tenha sucesso profissional e financeiro, desde que isso não seja o centro da sua espiritualidade. Mas por que razão será agora necessário um “treinador” para ensinar os cristãos a viver? Já não chegam os recursos da oração, do estudo e meditação nas Escrituras, o apoio e orientação dos líderes espirituais e os benefícios da comunidade de fé? Se a teologia da prosperidade faz de Deus nosso criado, a do coaching faz do homem o centro do universo. E aí, Deus já pode ir de férias.

José Brissos-Lino

 

Fonte: VISÃO online, 6/02/19

Moçambique: a religião como cortina de fumo

JOHN WESSELS

 

Afinal o que se passa no norte de Moçambique? Desde Outubro de 2017 mais de duzentas pessoas foram mortas por um grupo terrorista islâmico conhecido como “Al Shabaab moçambicano”, possivelmente ligado à organização terrorista original. Quem está por detrás deles e o que os motiva realmente?

Diga-se desde já que boa parte dos muçulmanos daquele país da África Austral não apoia as acções terroristas perpetradas em nome de Alá, que instalaram uma cultura de medo e terror na região, dado o impacto da violência extremista islamita sobre as populações cristãs e muçulmanas.

Apesar da pressão do Estado para suprimir o tribalismo e o regionalismo, o percurso histórico revela que no norte de Moçambique a etnia Maconde ainda exerce grande controlo social, sendo uma das mais prósperas e influentes da região, que conta com vários generais e o presidente Nyusi. Embora os Maconde tendam a seguir mais a fé católica, alguns dos que são muçulmanos vivem entre o norte de Moçambique e sul da Tanzânia, e outros tendem a abraçar a feitiçaria, envolvida com poderes sobrenaturais, ao contrário doutros países tribais que se dedicam ao culto ancestral. Segundo Pabst: “Proporcionalmente, enquanto mais da metade da população de Cabo Delgado é muçulmana, o restante é católico romano e de outras denominações cristãs. Entre a população muçulmana, há uma crescente preferência pela lei da sharia, ‘algo que provavelmente não será popular numa província religiosamente diversificada como Cabo Delgado”.

Foi este povo que iniciou a luta pela independência de Moçambique em 1961, tendo resistido ferozmente à presença portuguesa. De acordo com Funada-Classen, desde esse tempo que os anciãos macondes moçambicanos “tinham uma extensa rede e ligações com os Maconde em Tanganica, Tanzânia, e tais laços eram suficientemente fortes para partilhar informação política”. A província de Cabo Delgado tem-se revelado uma região sensível no sentido de desencadear violência política, não só porque as suas populações têm um espírito independente, como pelo facto de interagirem facilmente com os seus irmãos tribais na Tanzânia. A campanha de ataques a esquadras de polícia e edifícios civis e governamentais passou rapidamente a visar aldeias e igrejas. Daí resultaram centenas de prisões.

A região apresenta a maior taxa de iliteracia de Moçambique (em Palma chega aos 90%), uma elevada taxa de desemprego, principalmente jovem, uma forte presença do crime organizado e corrupção, tráfico de droga, armas, rubis, madeira e marfim, além de conflitos étnicos, nomeadamente entre os mwani, os maconde e os makua.

Moçambique descobriu que pode vir a tornar-se em breve um grande exportador de gás natural liquefeito, mas se não conseguir resolver a questão da segurança no norte poderá transformar-se em foco de grande instabilidade. Talvez isso explique alguns apoios inusitados, como o do empresário sul-africano André Hanekom, acusado de financiar ataques na região, e que morreu há poucos dias. Hanekom estava em Moçambique desde 2012, trabalhava na área do transporte marítimo na província de Cabo Delgado, e tinha sido detido em Setembro.

Muitos dos mortos e deslocados devido ao terrorismo islâmico são cristãos, como por exemplo os dez jovens que foram decapitados em Junho passado. Naquela manhã de domingo, fiéis e pastores fugiram para salvar a vida e famílias inteiras esconderam-se nas florestas. As aldeias foram queimadas assim como os meios de subsistência. Até animais domésticos como cães e gatos foram abatidos. Tudo isto está documentado. O meu amigo Rev. Fernando Caldeira da Silva, profundo conhecedor do país, adianta: “Num seminário que realizei com minha esposa em 5 de Agosto de 2018, conversámos com vários pastores de comunidades cristãs cujos membros foram afectados por violência e assassinatos. Surpreendentemente, todos eles mostraram coragem para continuar o seu trabalho evangelístico e plantar novas igrejas. Eles disseram: ‘Se morrermos, morremos por Cristo.’ Numa entrevista foi-nos dito que muitos cristãos estavam com medo no início, todavia muitos deles voltaram a reconstruir as suas casas. Os cristãos em geral estão a orar fervorosamente, dispostos a testemunhar a fé em Jesus e a estabelecer novas igrejas sob as árvores.”

A motivação que está por detrás dos assassinatos e violência no norte do país é uma ambição em obter lucro fácil com o tráfico e as riquezas naturais. Para isso tentam estabelecer um controlo crescente sobre toda aquela área, com elementos que foram radicalizados em duas mesquitas de Mocímboa da Praia – entretanto encerradas pelo governo – de modo a, no futuro, tentar impor a lei da sharia.

Como muitas vezes acontece, atrás deste jihadismo estão afinal interesses económicos inconfessáveis, escondidos na cortina de fumo da religião, como gato com o rabo de fora. O extremismo religioso é só um instrumento.

José Brissos-Lino

 

Fonte: VISÃO online, 30/01/19

E se deixássemos de falar de cor?

Nicolas Hansen/ Getty Images

 

O nosso problema é falar frequentemente pela boca dos outros, ou pior ainda, pensar por cabeça alheia. Quantas vezes temos a tendência de opinar sobre o que desconhecemos, como se o mundo nos exigisse um posicionamento constante, imediato, transversal e universal?

Criticando tal prática no meio cristão, escreve Hermes Fernandes (Brasil): “Conheço calvinistas que nunca leram uma linha das Institutas ou do Sínodo de Dort. Citam Agostinho sem jamais terem lido ‘Confissões’ ou ‘A Cidade de Deus.’ Detonam Darwin sem terem lido nem o prefácio de ‘A origem das espécies’. Criticam acidamente Simone de Beauvoir sem nunca terem lido ‘O segundo sexo’. Caem de pau no coitado do Paulo Freire mas nunca leram ‘Pedagogia do Oprimido’. Desdenham de Foucault sem terem lido ‘Vigiar e Punir’ ou ‘A Arqueologia do Saber”.

Em investigação científica sabemos que o senso comum é inimigo da descoberta da verdade, pois muitas vezes aquilo que parece, não é. Em ciência, o estado da arte nunca é estabelecido pelas aparências mas por trabalho de campo, pelo estudo empírico, pela aplicação de instrumentos de pesquisa adequados, devidamente testados e validados. E isso acontece porque, como diz o povo na sua sabedoria milenar, “as aparências iludem”.

Em matéria de fé a coisa agrava-se ainda mais. Isto acontece porque os fiéis, por um lado, dificilmente questionam o património religioso e a cultura espiritual que lhes são passados pela geração anterior, a não ser que abandonem a fé. Por outro lado, os próprios líderes religiosos nem sempre fazem o “trabalho de casa”, isto é, limitam-se a seguir o (mau) exemplo dos fiéis e não estudam, não reflectem nem questionam as suas bases de fé, talvez por insegurança ou comodismo. De facto é bem mais fácil adoptar o pensamento desenvolvido por outros do que trabalhar por si mesmo de modo a chegar a conclusões próprias, pessoais. Como dizia o Alberto Caeiro: “Pensar incomoda como andar à chuva”.

No mundo cristão é mais fácil ter um documento escrito com o interdito (os pecados a evitar), para não vir a ter problemas de consciência nem sentimentos de culpa, do que guiar-se pela “lei do espírito de vida” ou “lei da liberdade” de que falava S. Paulo (“Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte” – Romanos 8:2). Afinal, trata-se simplesmente da lei do amor: “Mestre, qual é o grande mandamento na lei? E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas” (Mateus 22:36-40). No confronto com a tradição hebraica o apóstolo escreveu às comunidades cristãs na Galácia a explicar que, na nova aliança, a “lei da liberdade” libertava os fiéis da “maldição da lei” de Moisés, através da qual ninguém poderia ser justificado, já que, quem falhasse num só ponto da lei seria réu de toda ela: “Porque qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos” (Tiago 2:10). E se a lei mosaica era extensa…

Mas tal desiderato implica usar a cabeça e o coração em vez de apenas seguir os trâmites estabelecidos, de forma mecânica e acrítica, o que nos leva a olhar mais para o exemplo do próprio Cristo do que para doutrinas de homens, muitas vezes construídas com base numa dada cultura, plasmada no tempo, em contramão com a essência do Evangelho, que é revestido de universalidade. Até quando passaremos procuração aos outros para pensarem por nós?

Ao publicar esta citação de Karl Marx, o pastor Ed René Kivitz foi alvo de inúmeras diatribes: “Chegou, enfim, um tempo em que tudo o que os homens haviam considerado inalienável se tornou objecto de troca, de tráfico e se pode vender. O tempo em que as próprias coisas que até então eram coparticipadas, mas jamais trocadas; dadas, mas jamais vendidas; adquiridas, mas jamais compradas – virtude, amor, opinião, ciência, consciência, etc. Agora de tudo isso se faz comércio. Irrompeu o tempo da corrupção universal ou, para falar em termos de economia política, inaugurou-se o tempo em que qualquer coisa, moral ou física, uma vez tornada valor venal, é levada ao mercado para receber o seu preço.” Gostava que me dissessem se há aqui algum erro, alguma falta de verdade.

Aliás, Marx é conhecido entre os não marxistas como alguém que conseguiu fazer um excelente diagnóstico económico, social e político das sociedades suas contemporâneas. O grande falhanço do marxismo foi, sim, a posologia para atacar a doença. Isto é, as propostas avançadas para corrigir as grandes injustiças sociais, em particular as que foram levadas à prática por quem pegou na sua herança filosófica. Goste-se ou não, a verdade é que Karl Marx integra um selecto grupo de cinco judeus que mudaram o mundo, com Jesus, Moisés, Einstein e Freud.

José Brissos-Lino

 

Fonte: VISÃO online, 23/01/19

Não é o rei que vai nu, somos todos nós…

o rei vai nu - blogue

Um dos históricos pomos de discórdia entre católicos e protestantes é a velha questão da idolatria, ou culto das imagens de Maria e dos santos. Mas nem uns nem outros se parecem incomodar hoje com a nova idolatria no espaço mediático. Esta, sim, verdadeiramente preocupante. 

Em Portugal, um cientista com provas dadas e a trabalhar em projectos de investigação relevantes para a humanidade, ganha uma miséria em comparação com uma apresentadora de televisão que consiga conquistar audiências, mesmo lançando mão de uma colecção de boçalidades, disparates, vulgaridade, manipulação psicológica, emocionalismo provocado e outras “ferramentas” do tipo. Até os políticos se prestam a descer a esse nível em nome da popularidade a todo o custo, como se viu recentemente com o presidente da república que telefonou em directo para um programa de entretenimento da manhã, por nenhuma razão.

Um cantor romântico medíocre arrasta multidões atrás de si, por todo o país e estrangeiro, incluindo um fiel séquito feminino, que vai desde balzaquianas infelizes ao amor a avozinhas de idade avançada, passando por solitárias de todas as idades, sem se entender muito bem as razões de tal fascínio.

Um empresário nascido em berço de ouro e tornado famoso pela televisão salta para a política no país mais importante do mundo e ganha a presidência, mesmo revelando um discurso e mentalidade duma criança de sete anos, e uma conduta irresponsável, racista, misógina e intolerante. Contudo é seguido por uma multidão, alguns dos quais matariam por ele. Ele próprio afirmou que, mesmo que assassinasse uma pessoa na via pública continuaria a ser apoiado firmemente pelos seus.

Um atleta famoso, até quando apresenta comportamentos anti-desportivos graves é sempre apoiado e justificado pelos seus indefectíveis, os mesmos que não perdoariam o mais pequeno deslize aos adversários, agindo assim numa lógica sectária e de carácter tribal.

Também em matéria de fé, verificamos que alguns líderes se dedicam ao abuso religioso e estimulam a idolatria da sua pessoa por parte dos fiéis. Mesmo quando confessam os erros mais graves, os seguidores minimizam tal retratação e continuam a endeusá-los de modo mais ou menos acéfalo.

Embora os ídolos contemporâneos sejam sobretudo virtuais e se movam no universo mediático, a sua necessidade está inscrita no humano e sempre esteve presente na sociedade. As pessoas precisam de modelos referenciais para admirar e seguir. O cristianismo encara a questão com princípios valorativos como honrar quem merece, pela sua obra (Romanos 13:7), ou pela posição familiar: “honra teu pai e tua mãe” (Mateus 19:19) ou comunitária: “honrai ao rei” (1 Pedro 2:17), ou os mais velhos e vulneráveis: “honra as viúvas” (1 Timóteo 5:3), considerando sempre o outro: “cada um considere os outros superiores a si mesmo” (Filipenses 2:3).

O brasileiro Ronaldo Helal estudou a forma como são narradas na comunicação social as trajectórias de vida de ídolos do futebol, normalmente transformados em heróis, ao contrário dos ídolos da música ou dramaturgia. Como a competição é inerente ao espectáculo, a luta desportiva explica a diferença. Embora tanto os ídolos do desporto como da música se tornem celebridades, os primeiros são mais facilmente considerados “heróis”. Autores como Edgar Morin e Joseph Campbell definem a diferença entre o conceito de celebridade e o de herói. É que o primeiro vive para si, mas espera-se que o segundo trabalhe para redenção da comunidade.

Outros autores identificaram a idolatria do corpo como uma questão emergente na sociedade contemporânea, revelada, por exemplo, pelos altos índices de cirurgias plásticas. Outros, ainda, identificaram a idolatria do capital, do mercado, da religião, da juventude ou do dinheiro. Paul Tillich aponta a relativa facilidade com que nos envolvemos em processos que levam a atitudes idolátricas, normalmente devido à falta de reflexão e sentido crítico.

O escritor dinamarquês Hans Christian Andersen do século XIX, que viajou por terras portuguesas, deixou-nos a deliciosa estória infantil “O Rei Vai Nu”, onde relata como dois aldrabões enganaram o rei, fazendo-o crer que lhe haviam tecido umas vestes que só os inteligentes podiam ver. A moral da estória visa a vaidade do monarca, que assim acabou por cair no ridículo ao desfilar na rua em ceroulas. Os súbditos não ousaram denunciar a verdade nua e crua (literalmente), com medo de despertar a fúria do rei ou por não quererem passar por estúpidos, até que uma criança gritou inesperadamente, na sua inocência: “O rei vai nu!”…

Talvez seja o momento de gritar que nos tornámos uma sociedade idólatra e que os nossos ídolos vão nus. Mesmo os virtuais. E nós, idólatras, também.

José Brissos-Lino

 

Fonte: VISÃO online, 16/01/19