Desamparem a loja

inc

CARLOS SANTOS / GLOBAL IMAGENS

 

Ontem ligaram-me amigos meus de Lisboa a perguntar se estava bem, em razão do incêndio que deflagrou no campo atrás do Hospital da Luz, em Setúbal. Estavam a ver as reportagens na televisão, que falavam de pessoas a fugir na rua, em pânico e na evacuação de cerca de 500 habitantes.

Como é bom de ver as pessoas foram evacuadas por precaução. Os bombeiros e as autoridades fizeram o seu trabalho. Não se pode ser preso por ter cão e por não ter. Se alguém morresse havia de ser bonito… O fogo foi controlado e as vidas e bens das pessoas foram protegidos.

Como moro no centro da cidade e nem fumo, nem cheiro, nem cinzas cá chegaram (o sentido do vento levou tudo isso noutra direcção) nem me apercebi da dimensão do fogo. Daí ter recorrido à televisão para me informar. E o espectáculo mediático, meus amigos, é lamentável. Ouvi uma jovem repórter na Reboreda a perguntar umas 7 ou 8 vezes a um mesmo popular se não tinha entrado em pânico, se não tinha tido medo, se não tinha ficado desesperado. Desculpem, mas isto não é jornalismo, é agressão psicológica…

As audiências não podem valer tudo. Há que ter respeito pela profissão, pelos cidadãos e pelos consumidores da informação, ao serviço de quem se está. Já para não falar dos directos nos quais não há nada a acrescentar, e se opta por repetir as mesmas palavras, informações e ideias.

Neste momento parece que há dois sectores da sociedade portuguesa desejosos de se alimentar de catástrofes. Por um lado a comunicação social, para ganhar audiências e obter os correspondentes proveitos da publicidade. Por outro lado a oposição política, que vê a desgraça como possível janela de oportunidade em matéria de ganhos políticos e eleitorais. Não há pachorra…  Por favor vão ver filmes de acção, jogar paintball, enfim, desamparem a loja, ok?

Jornalista profissional

jorn

 

Se eu fosse jornalista profissional gostaria de ser informado de forma profissional e objectiva, para poder fazer a devida mediação aos meus leitores/ouvintes, como me competiria.

Se eu fosse jornalista profissional não gostaria de andar aos empurrões com os colegas, à molhada, numa espécie de concurso para fazer perguntinhas soltas a um responsável, no meio da confusão duma catástrofe.

Se eu fosse jornalista profissional não gostaria de me comportar como artista de circo que está a dar espectáculo, mas quereria apagar-me, porque eu em caso algum seria a notícia.

Se eu fosse jornalista profissional tentaria, em todo o caso, separar a informação do entretenimento, do espectáculo e da pornografia emocional.

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6); “Ovelhas perdidas foram o meu povo, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

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