Palavras perdidas (1164)

“Com a sua primeira encíclica, “Laudato Si”, o Papa Francisco propõe um verdadeiro aggiornamento da “Rerum Novarum”, de Leão XIII. Não são apenas as desigualdades sociais e económicas que ele excomunga, mas também a pilhagem dos recursos naturais do planeta por um sistema económico que se baseia na produção de bens supérfluos para os ricos e na escassez de bens essenciais para os pobres. É a tal “economia que mata” — que mata duas vezes, hoje e para amanhã. O discurso do Papa não encontrará seguidores, nem dentro do mundo da finança que controla toda a riqueza mundial, nem em Davos ou nos fóruns onde os grandes do mundo planeiam a pilhagem e dividem o saque, nem entre os empresários devotos de sacristia, nem dentro da própria estrutura da Igreja Católica. Porque o que ele propõe é uma revolução, de alto a baixo. E ninguém está disposto a aceitar que essa possa ser a vontade de Deus.” (Miguel Sousa Tavares, Expresso)

Palavras perdidas (1163)

“Muitas afirmações se podem fazer sobre o Syriza, que é radical, de esquerda, etc, etc. Mas há pelo menos três coisas de que ninguém pode acusar o Syriza.

A primeira é sobre a dívida grega. Durante os últimos vinte anos, muitos governos erraram na Grécia, e na Europa inteira, mas a colossal dívida do país não é da responsabilidade do Syriza. Não foi ele que a criou, nem que a geriu tão mal.

O Syriza tem as mãos limpas de dívida e isso dá-lhe alguma legitimidade adicional.

A segunda é que ninguém pode alegar surpresa sobre as posições do Governo grego. Tsipras foi eleito pelo povo para acabar a austeridade, e o que deseja é cumprir.

Eu sei que, por essa Europa fora, nos desabituámos de políticos que desejam fazer o que prometeram. Principalmente em Portugal, depois de termos sido enganados pelas promessas de Durão, Sócrates ou Passos, que mal se viram no poder fizeram o contrário do que anunciaram em campanha.

Mas, lamentavelmente para os bem-pensantes, eis que surge na Europa um governo que quer cumprir o que prometeu aos eleitores, e logo lhe caiem todos em cima, querendo obrigá-lo a torcer-se todo, em falsidades e colaboracionismos.

Por fim, há uma capacidade no Syrira que admiro, que é coragem. Quantos governos seriam capazes de bater o pé a forças tão poderosas? Quantos levariam até ao fim as suas ideias perante o tapete de bombas com que são fustigados?

Que exista finalmente um governo que não se verga às infames e falhadas troikas, devia ser motivo de espanto e admiração, e não de desprezo ou mesmo ódio.”

(Domingos Amaral, O Diário de DA)

 

Palavras perdidas (1162)

“Um governo português, formado por pessoas medianamente inteligentes e patrióticas, teria apoiado, mesmo que moderadamente, qualquer governo grego, fosse ele do Syriza ou de qualquer outro partido. Deveria fazê-lo por razões jurídicas e morais, mas também por puro egoísmo político. A Grécia era um dique protetor do interesse nacional. Infelizmente, o governo de Passos Coelho e o seu eco de Belém fizeram tudo para humilhar, enfraquecer e fragilizar Atenas. Agora, só um milagre poderia evitar que o dique grego se desmorone. Os nossos juros estão a subir, a desvalorização do euro significará desequilíbrio externo e perda do valor do aforro. Os “cofres cheios” vão começar a ser esvaziados. Quando mais precisávamos de estadistas, limitamo-nos a ter em Portugal os veteranos que utilizaram a malha larga da política partidária para se promover. Nos tempos de fartura, isso seria suportável. Pelo contrário, nos dias excecionais, como os que estamos a viver, tanta incompetência pode ser mortal para a sustentabilidade do Estado. Se ao menos houvesse o decoro de permanecer em silêncio.”

(Viriato Soromenho Marques, DN)

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6); “Ovelhas perdidas foram o meu povo, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

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