Capturado, 1930

The Italian explorer Attilio Gatti with two pygmy servants and a gorilla they have captured. Belgian Congo, 1930. Old Pics Archive.

O explorador italiano Attilio Gatti com dois criados pigmeus. Congo Belgian. Old Pics Archive.
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Brincar aos casados

Segunda-Uniao 

 

“O grande desafio com que o Cristianismo se vê hoje confrontado não é o da sua sobrevivência, mas o da sua relevância.” (Tomás Halík)

 

Tem sido tema quente de debate público a surpreendente tomada de posição de D. Manuel Clemente ao aconselhar continência aos católicos recasados. O colunista católico João Miguel Tavares (Público) pergunta mesmo “Porque insiste a igreja (católica) em meter-se na nossa cama?”

O frade dominicano Frei Bento Domingues, ao comentar a nota pastoral na qual o cardeal-patriarca de Lisboa aconselhou abstinência sexual aos católicos recasados que se queiram reaproximar da igreja, chama-lhe mesmo “um delírio”.

Responsáveis diocesanos lembram, entretanto, que as opiniões de D. Manuel Clemente não vinculam a igreja. Os bispos de Viseu e Braga, por exemplo, já se tinham pronunciado em sentido contrário. E o jornalista David Dinis escreve que o patriarca de Lisboa, falando no celibato, meteu-se na cama, quando devia falar da vida. “Perdeu o momento — e deixou que se perdesse uma voz. Se não é um pecado, é pelo menos uma perda.”

A investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Teresa Toldy, doutorada em teologia, não é menos incisiva, declarando que a afirmação em causa “é reveladora da produção de discurso por pessoas que, quando falam do casamento de maneira dura e rápida, não sabem do que estão a falar e correm o risco de fazer propostas ridículas” e que esta em particular, “revela um alheamento completo em relação à vida dos casais”. E o padre Anselmo Borges fala em “infantilizar a consciência das pessoas”.

Acresce que tal orientação contraria claramente o magistério do papa Francisco, que na exortação apostólica Amoris Laetitia abriu a possibilidade de permitir o acesso aos sacramentos de pessoas em “situação irregular”, ou seja, aquelas em que ao matrimónio sucedeu a separação e um casamento civil.

Como se sabe um casamento é uma dança a dois. Por muito que um deles queira manter a relação, não o conseguirá sem o acordo do outro. E o que vai para lá disto é pura hipocrisia. Antigamente o casamento era imposto por razões económicas ou políticas. Não pode continuar a sê-lo hoje, em pleno século XXI, por razões de ordem religiosa.

É sabido como o cristianismo sempre teve muita dificuldade em lidar com as questões da sexualidade, a começar pelo celibato que a certa altura da História foi imposto aos sacerdotes católico-romanos, e que é basicamente contranatura.

Um dos mais interessantes teólogos católicos da actualidade, o checo Tomás Halík, não receia a sobrevivência da igreja mas sim a sua irrelevância. De facto, é este tipo de posturas que contribui para essa irrelevância numa sociedade que já não é dominada e controlada pela religião. E ainda bem.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 16/2/18.

 

 

 

 

Alimentar os olhos

A woman enjoys the Rijksmuseum one last time. Moodvintage.

Moodvintage.

 

“A melhor maneira de agradecer por um belo momento é desfrutá-lo plenamente.”  Richard Bach

 

O registo fotográfico é chocante e sublime em simultâneo.

Numa sala do Rijksmuseum, em Amsterdão, Holanda, uma mulher doente em estado terminal delicia-se uma última vez com a contemplação de uma obra de Rembrandt, afinal, um dos seus diversos auto-retratos.

Deitada numa maca, ligada às máquinas de suporte de vida e rodeada por quatro funcionários hospitalares que a apoiam nesta sua última vontade antes de morrer, a mulher dá a ideia de que quer partir com a marca da beleza inerente à Arte na sua retina. Como se estivesse a fechar a sua existência terrena com chave de ouro, ou a despedir-se daquilo que mais valoriza.

Este quadro é demasiadamente forte para não merecer uma reflexão dos que ainda cá ficam. É um soco no estômago, porque ficamos com a sensação de que passamos a vida ao lado da vida. Distraídos com guerras de alecrim e manjerona, com questões laterais e secundárias, com toda a sorte de situações periféricas e falhando quase sempre, afinal, naquilo que é importante e essencial.

Aquela única obra, iluminada a preceito e exposta em toda uma parede lisa, num tom cinzento entre o triste e o solene, torna-se uma janela aberta para a beleza, a estética e a arte. No fundo, uma janela para a vida verdadeira e que vale a pena.

A mulher olha para a figura humana que enche o quadro, uma imagem do artista em pleno trabalho, com os pincéis na mão, que nos fala da relevância do que deveras conta, a humanidade, as pessoas de carne e osso.

As cidades não deveriam ser apenas espaços comunitários funcionais – e muitas nem isso são – mas valorizarem também uma paisagem humana que não esqueça o estético. Por isso é que os edifícios deviam ser desenhados por arquitectos e os jardins públicos e espaços verdes por paisagistas. Não apenas por questões de utilização de materiais tradicionais da região (quando possível), e portanto de enquadramento local personalizado, ou por causa das preocupações energéticas e ambientais, mas porque os olhos também precisam de alimento.

A valorização dos espaços públicos passa não apenas pelo combate contra o mamarracho, a agressão estética e visual de muitos edifícios nas nossas cidades, mas por uma verdadeira afirmação estética, que transforme ruas, largos, praças e jardins em lugares aprazíveis à vista. Por vezes não é preciso muito, já que um simples pormenor pode fazer toda a diferença.

Ao contrário de manifestações de arte urbana como os grafittis, o vandalismo dos gatafunhos nas paredes tornou-se uma praga que importa combater, se queremos uma cidade de rosto humano para prazer de quem aqui vive e trabalha, assim como de quem nos visita.

Há que alimentar também os olhos.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 9/2/18.

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“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6); “Ovelhas perdidas foram o meu povo, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

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