A “ética” do suicídio

Os assuntos abordados na Bioética são muito polêmicos. E são por dois motivos. Ou as pessoas entendem do assunto e querem expor suas idéias, ou as pessoas não entendem nada, fingem que têm alguma opinião e saem falando a quem quiser ouvir. Com relação ao suicídio acho que é isso que acontece. As pessoas só vão ter uma opinião realmente sólida depois de muita reflexão. E se tiverem a experiência de conhecer alguém que tentou o suicídio, ou que efetivamente se suicidou, as opiniões se fortalecem ainda mais. A Bíblia não trata especificamente da questão, mas podemos extrair algo de proveito para nós. Meu convite a você é que tenha calma e muito discernimento para o que vai ler a partir de agora.

Muitas pessoas encaram o suicida como uma pessoa que chegou ao limite da sanidade. Muitos não conseguem compreender como uma pessoa é capaz de cometer um ato desses. Muita gente sente medo de morrer e não consegue entender como alguém é capaz de provocar a própria morte. Para aqueles que são muito sensíveis a qualquer tipo de dor também é inconcebível que alguém consiga se suicidar.

A liberdade na vida é uma busca quase que universal. Todos querem ser donos do próprio nariz. Na verdade, a busca de muitas pessoas é ter uma liberdade absoluta na vida. Muitos não se casam para não perderem a liberdade da vida de solteiro. Muitos casais escolhem livremente não ter filhos para se manterem exclusivamente um para o outro. O sentido de liberdade do ser humano é muito importante e exerce um verdadeiro fascínio. Quem não quer ser dono do próprio destino?

Isso pode ser percebido em algumas relações de pais e filhos. Muitos saem da casa dos pais para “alçarem vôos mais altos”, “para terem seu próprio canto”, “para terem a sua própria vida”. Nas salas de aula isso também é visto com nitidez: alunos que se rebelam contra as regras do colégio; alunos que deliberadamente não fazem as tarefas; respondem com o dedo em riste aos professores. Alguns empregados desejam firmemente serem donos de seu próprio negócio e não mais subordinados. Enfim, vemos as pessoas buscando exercer sua liberdade de todas as formas.

O suicídio é apenas uma dessas formas de exercer liberdade. Sem dúvida que se trata de um exercício da liberdade num grau muito elevado. Quem mais poderia legislar a meu favor se não eu mesmo? Inúmeras razões resultam no suicídio: depressão, desilusão amorosa, fracasso financeiro, uso abusivo de drogas. Não vou discutir essas razões de uma pessoa escolher se suicidar. Mas como cristão e biólogo, alguém que trabalha a favor da vida, não posso me furtar a tocar nessas questões. Será que algum cristão passaria por esses problemas destacados acima?

Tradicionalmente, a igreja (evangélica e romana) sempre condenou o suicídio como moralmente incorreto e o colocou na prateleira dos pecados imperdoáveis. Ora, se alguém comete o suicídio, como se arrependeria dele? Assim sendo, se fosse salvo, perderia sua salvação por não ter se arrependido. Esse argumento parece bastante lógico e ponderável. Mas imagine que uma pessoa tenha decidido se matar pulando do vigésimo andar de um prédio. Lá pelo décimo andar essa pessoa se arrepende de verdade e clama por perdão. Não há meios dela se salvar fisicamente, mas está arrependida do que cometeu e será salva. Essa é a conclusão do pensamento acima.

Isso mostra o caráter singular do suicídio e do arrependimento de pecados. Se eu for um assassino e me arrepender dos meus crimes, posso parar de cometê-los. Mas o suicida da história acima não terá essa chance. Mesmo tendo se arrependido não poderá mais exercer a liberdade que dizia desfrutar. Assim sendo, questiono: para onde essa pessoa vai depois do suicídio? Se a pessoa deve se arrepender de seus pecados para herdar a vida eterna, então a personagem dessa nossa história está salva. Mas deixe-me “pessoalizar” essa situação.

Imagine-se numa manhã, você, salvo pela graça de Deus, seja tradicional, carismático, neo-pentecostal ou qualquer outra linha teológica, depois de uma noite péssima por causa de um enjôo bem forte, você saiu de casa e não orou. Normalmente você faz isso depois de acordar, ora agradecendo a noite de descanso, pede as bênçãos para um novo dia e pede perdão por seus pecados. Mas nessa manhã, cansado pelo desgaste da noite, você não orou. Ao atravessar a rua, você foi atropelado por um carro e acabou morrendo, sem ter tido a oportunidade de naquela manhã se arrepender dos seus pecados. Pergunto: para onde você vai? Céu ou inferno?

Para encerrar, quero te convidar a pensar no caso de Sansão. Você acha que ele cometeu suicídio? Você se lembra do que ele disse: “Morra eu com os filisteus.” (Juízes 16:30). Ele estava cego, entre duas colunas e disse que destruiria os filisteus. Minha pergunta é: o que Sansão fez para evitar a sua morte? Qual foi a atitude dele em tentar preservar a sua vida? Depois de ter empurrado as colunas ele não saiu correndo para se salvar. Respondendo as perguntas acima: entendo sim que Sansão não fez nada para se salvar e cometeu suicídio.

Muitos me dirão que as intenções do coração de Sansão eram diferentes daquelas de um suicida desequilibrado, ou daqueles que enfrentam grande depressão e angústia. Sim, Sansão era um guerreiro e estava vingando o povo de Deus e destruindo um povo idólatra. O ato de Sansão foi um ato heróico, de muita bravura e de total rendição aos desígnios de Deus. Uma vez que ele se arrependeu do grande mal que ele mesmo provocou aos Israelitas, agora ele tinha a oportunidade de vindicar a soberania de Deus.

A esses pergunto: não podemos pecar contra Deus apenas com nossos desejos também? Será que uma intenção boa e justificável aliviaria nosso pecado? No caso de Sansão, o que posso dizer, é que mesmo tendo pecado contra Deus se matando, ele está arrolado no rol dos “heróis da fé”, como é conhecido o capítulo 11 de Hebreus. Só Deus salva, só Deus condena. Só Deus pode dar vida, só Deus pode tirar a vida. A Ele, e somente a Ele, sempre e sempre, seja toda a glória.

Fonte: Marcos David Muhlpointner em Pavablog.

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