Discurso sobre Deus

Como escreveu o filósofo ateu A. Comte-Sponville, “ninguém sabe, no sentido forte da palavra, se Deus existe ou não. Se encontrardes alguém que vos diga: ‘Eu sei que Deus não existe’, esse não é em primeiro lugar um ateu, é um imbecil”.
(Anselmo Borges)

“Diz o louco: não há Deus!”

(Rei Salomão)

Costumo dizer que não se pode provar cientificamente a existência de Deus, tal como não se pode provar, cientificamente, a sua não existência. E porquê? Porque a abordagem científica exige provas concretas, verificação, aplicação de instrumentos, análise de dados e interpretação de resultados.
Ora, sendo Deus uma realidade que se inscreve no domínio da transcendência, situa-se num plano substancialmente diferente do científico.

Quer isto dizer que Deus é necessariamente uma ilusão, como alguns têm defendido? De modo nenhum. Há muita realidade que a ciência ainda não conseguiu entender, interpretar e até percepcionar, e que não é menos realidade do que a realidade estudada, explicada e conhecida.
Já para não falar dos constructos teóricos que a ciência defende, anos a fio, e que mais tarde, mercê do aperfeiçoamento da pesquisa e perante a obtenção de novos resultados, vem a concluir em sentido diverso ou mesmo oposto. A ciência não é, nem pode ser, pela sua própria natureza, uma tarefa acabada.

Significa isto que é impossível conhecer Deus? Também não. A questão é que o conhecimento divino terá que se revestir de natureza diferente do científico. Ou seja, terá que acontecer no domínio pessoal, experiencial e não meramente intelectual. E é aqui que entra a fé.

Vejamos. Se a existência de Deus pudesse ser provada pela ciência, para o que serviria então a fé? Para nada. Mas tudo acontece na vida cristã através da fé. Desde logo porque sem fé é impossível agradar a Deus (Hebreus 11:6).
O apóstolo Paulo testemunha “guardei a fé” (II Timóteo 4:7), como sendo o bem mais precioso, o sentido da sua vida, que também classifica como uma das três maiores virtudes cristãs (I Coríntios, 13:13).
E escreve o autor da Carta aos Hebreus: “Pela fé entendemos que os mundos pela palavra de Deus foram criados” (11:3)

Mas a fé nem sequer tem razões que a expliquem a si própria. Tal como se costuma dizer, a propósito da vida sentimental, que o coração tem razões que a razão desconhece. Como escreveu Ricardo Gondim: “Não sei explicar as razões da minha fé. Não sei dizer os porquês da minha devoção. Sinto-me inadequado para convencer os indiferentes a desejaram a pitada do sal que tempera o meu viver. Tudo o que sei sobre o Divino é provisório. Minhas convicções vacilam. Todas as certezas são, decididamente, vagas (…) O que dizer de Deus? Tão pouco! Espero, tão-somente, que o meu espanto expresse o tamanho da minha reverência.”

O conceito e a percepção do divino sempre estiveram inscritos na história e na consciência do ser humano, desde os tempos mais remotos. Não se trata de uma questão cultural nem a consciência e a percepção do divino foram ensinadas, induzidas ou manipuladas por alguém. É instintivo, interno à pessoa humana.

Talvez por isso o rei Salomão, um dos homens mais sábios de sempre, tenha posto na boca do néscio a confissão da inexistência de Deus. Uma verdadeira tolice, já que, para ele, a natureza concreta e a presença do divino eram demasiado óbvias.

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6 comentários a “Discurso sobre Deus”

  1. Muito sábia suas palavras, concordo em muitos aspectos, principalmente, no que se diz respeito em ter fé e provar a existência de Deus por A+B é realmente difícil, isso se não impossível. Porém, Deus criou o homem como uma criatura incrível e dotada de imensa capaidade. Me permita sugerir aos senhores uma literatura muito interessante acerca do assunto “existência de Deus”, o livro se chama ” A linguagem de Deus” escrito por Francis S. Collins ( o diretor do progeto genoma ), nesse livro ele apressenta não uma prova concreta de que Deus existe, mas sim uma série de indícios que são bem convincentes.
    Se algum de vocês se interesarem e lerem o livro, eu peço que entrem em contato comigo, pelo meu e-mail : morcegus_tnt@hotmail.com, para discutir idéias.
    Grato pela sua atenção.

  2. A intolerância na relação entre ciência e fé é um problema da humanidade. Na verdade a ciência e homem algum jamais alcançará o conhecimento sobre a vida, por que não é possível quantificá-la, limitá-la, quanto mais se descobre mais se tem a descobrir. A escolha de crer em Deus ou não é uma questão humana que está envolta por tantos afetos que não são explicáveis. Aliás, muitas coisas não precisam necessariamente ser explicadas, mas vivenciadas.

  3. Somos seres de classes inferiores,digo estamos em situação inferior.mesmos fazendo uso de 100% de nosso cérebro,ainda não teríamos a resposta a tantas questões. Somos falíveis em nossa condição..falar que Deus está em tudo e em todos,com conceber….na nossa pequenina condição.

  4. Repito 100% e não male male 10% tidos notáveis,ás vezes 5% ,-2% ,chega as raias da igno. total. Me vem um ser que não sabe de onde veio,o que esta fazendo e onde quer chegar…..difícil. dizem que em terra de cego quem te um olho é rei e o que tem dois…

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