O problema do mal – II

(Conclusão)

Antes de mais, nenhum teólogo ou rabino judaico considerou a hipótese do Pecado Original enquanto fatalidade inerente à natureza humana, por via adâmica.
Por outro lado, nenhum dos quatro Evangelhos relata qualquer ensino do Mestre da Galileia sobre a matéria, e nenhuma outra escritura bíblica o defende, tanto no Antigo Testamento como no Novo.
Pelo contrário, quando os discípulos de Jesus lhe perguntaram sobre a razão de ser da deficiência física de um homem, baseados numa crença judaica, Ele explicou-lhes que a cegueira daquele homem não era provocada por algum pecado dele ou dos seus pais, “mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus” (Evangelho de João 9:3). Ora este ensino contradiz a ideia de transmissão hereditária de pecado ou culpa, de pais para filhos, de uma geração a outra geração. De resto, muitos dos teólogos contemporâneos já abandonaram esta doutrina agostiniana.

Mas o principal problema levantado pela doutrina do pecado original, se reflectirmos um pouco, é ser profundamente desresponsabilizadora do indivíduo. Surge como uma fatalidade histórica, inerente à condição humana, e alheia ao domínio da minha consciência e carácter: os meus actos, palavras, pensamentos e omissões. Faça ou deixe de fazer, a culpa está sempre em mim, mas não é minha… é herdada dos meus pais. Que posso eu fazer? Infelicidade ter nascido humano… e ter tido um “pai” longínquo (ele sim, responsável) que me passou o ferrete do pecado.

Mas o meu próximo também não é melhor do que eu. Teve a mesma sina. Não me poderá servir de exemplo ou inspiração.

Nas sociedades antigas, organizadas por sistema de clãs, compreende-se melhor esta ideia de Agostinho. Neste tipo de organização social, a desonra de um homem seria a desonra da sua família e prole, da mesma forma como ainda hoje, em sociedades arcaizadas, lavar a honra com sangue, limpa toda uma família perante a sociedade.
Mas a questão é que nas sociedades actuais, onde o primado do indivíduo e os direitos da pessoa humana se sobrepõem ao conjunto da família, revela-se inadequado e até incompreensível este tipo de automatismos mentais.

Como reinterpretar então a Epístola aos Romanos e a teologia paulina no que se refere à Queda? Terá o ser humano logo à nascença o inevitável ferrete de pecado, pessoal e incontornável, ou será à condição humana no seu todo que se refere o apóstolo nos seus escritos?

E o que será mais importante de tudo, afinal? O nosso sangue (natureza) ou o pecado de Adão? Termos sido criados por Deus, ou a falha de Adão? E o que será mais significativo para o nosso Criador? O facto de termos sido criados à sua imagem e semelhança, ou a desobediência de Adão? Parece que a fábula do lobo e do cordeiro, afinal, tem raízes bem antigas. Se não foste tu que sujaste a água foi o teu pai…

Como afirma Melancia, “Em vez do pecado original, valorizemos, isso sim, a imagem original – a Imago Dei – impressa em cada Homem e que faz de cada homem e mulher um filho de Deus; sem condições ou condicionalismos!”

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