A unção de Elias

“Aqui há tempos visitei uma Igreja evangélica onde o pregador eufórico declarava a uma irmã que iria passar sobre ela a capa da unção de Elias… logo, logo ela teria a unção dobrada do Espírito na sua vida. Estava tão eufórico que procurou por toda a parte a tal capa (presumo que seria o seu próprio casaco). Não o tendo encontrado pegou no primeiro casaco que lhe veio à mão. Tendo encontrado um casaco declarou que a partir daquele momento a tal irmã deixaria de ter problemas, de saúde, financeiros, etc. Confesso que não acreditei muito no tal pregador… É que o casaco era meu…”
(Testemunho de um amigo meu).

É uma prática corrente de alguns pregadores do meio carismático dizerem querer transmitir a unção de Elias aos seus ouvintes, passando-lhes o seu casaco por cima.
A ideia será esta: assim como o profeta Elias terá pedido a Deus e declarado ao seu servo Eliseu, “porção dobrada” do Espírito que estava sobre ele próprio, assim também os tais pregadores querem “transmitir” a outros a porção dobrada do Espírito, para alcançar vitória pessoal. O episódio está relatado no segundo Livro de Reis, capítulo dois, do versículo um ao quinze.

Esta prática contemporânea, porém, enferma de diversos vícios de forma e de fundo, de tal modo fatais, que não passam pelo crivo mais elementar de qualquer análise séria.

Primeiro, se estamos a falar da unção de Elias, entendamos que não é a unção do António ou do José. Eu não posso passar uma unção que não é minha. Tal como acontece com os talentos naturais ou os dons e ministérios espirituais, eu não posso operar nos que me são alheios, mas apenas nos que Deus me concedeu, sabendo nós que as manifestações do Espírito Santo são distribuídas na congregação com vista a um fim útil (1 Co 12:7-11). No entanto são dadas “a cada um”, sendo, portanto, muito pessoais. E ninguém pode dar uma coisa que não lhe pertence.

Segundo, se Elias eventualmente passou a sua unção a Eliseu era porque havia um compromisso, uma aliança de ministério entre eles. Havia uma história comum. Eliseu fora servo de Elias durante anos a fio. O relato bíblico explica claramente que Eliseu nunca se quis separar de Elias.
Estes pregadores querem passar uma unção (que não lhes pertence) a pessoas que nunca viram na vida e sobre as quais pouco ou nada sabem…

Terceiro, Eliseu recebeu unção dobrada porque o desejou muito intensamente, e sobretudo porque o pediu. E não o pediu para resolver os seus problemas pessoais, mas para servir a Deus tal como vira fazer o profeta Elias, seu senhor.
Esta moderna “unção de Elias” funciona como mais uma forma de engodo de massas, sendo na prática uma espécie de artifício para acender um fogo, que acaba por ser estranho.

Quarto, esta unção não era para fins de benefício pessoal, para resolver problemas de saúde ou financeiros próprios, mas era, pelo contrário, uma unção de serviço, de ministério, uma capacitação especial para servir o próximo, o outro.

Quinto, a capa representa protecção ou autoridade. Do ponto de vista da Simbólica, a capa era usada para proteger o caminhante das intempéries do tempo, ou como peça de vestuário militar ou cerimonial. Não será forçado considerar um casaco de hoje como símbolo de autoridade ou mesmo de protecção?

Sexto, no Antigo Testamento o Espírito Santo visitava episodicamente os servos de Deus, mas desde o dia de Pentecostes, em Jerusalém, no 1º. século (At 2), que o divino Paracletos desceu e se encontra na Igreja, sendo todos os cristãos nascidos de novo o seu templo colectivo. Então, se o Espírito Santo está na Igreja, o que esta necessita não são unções ou toques avulsos, mas ouvir permanentemente a Sua voz e dar-lhe liberdade.

Sétimo, não está escrito em lado nenhum que a pessoa doente ou em crise financeira necessite de uma unção especial para resolver o seu problema. Quando faltaram meios de subsistência às viúvas pobres da igreja de Jerusalém, os apóstolos não lhes passaram a unção de Elias. Organizaram o serviço de diaconato para acorrer a essas necessidades (At 6). Quando, mais tarde, os cristãos de Jerusalém passaram duras necessidades, Paulo não lhes passou a unção de Elias. O que fez foi estimular os crentes de outras cidades, mais prósperas, a levantar ofertas de amor para acorrer a essas mesmas necessidades (2 Co 9), tendo ele próprio trabalhado com as suas mãos, a fim de providenciar o sustento pessoal, sempre que necessário.
Quando Job enfrentou a hora da adversidade não recebeu unção nenhuma. Quando surgiam pessoas doentes, na igreja primitiva, em vez de passar a unção de Elias os líderes das comunidades cristãs oravam por cura, com imposição de mãos, e quanto muito, ungindo-as com azeite (Tg 5:14,15).
Está escrito: “Buscai, antes, o Reino de Deus, e todas essas coisas [o comer e o vestir] vos serão acrescentadas” (Lc 12:22, 31).
“Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. Porque aquele que pede, recebe… vosso Pai dará bens aos que lhe pedirem” (Mt 7:7, 11).

Oitavo, depois de tudo ainda há o facto de que Elias nunca impôs a sua capa sobre os ombros de Eliseu com vista a que este recebesse “porção dobrada” do Espírito que estava sobre o profeta, mas apenas quando o escolheu para estar com ele. A realidade histórica da sucessão profética (se assim podemos chamar) é bem diferente. Leia o que o relato bíblico diz realmente (1 Rs 19:19-21; 2 Rs 2:9-12).

A “unção de Elias” é portanto uma prática extra bíblica, que não encontra qualquer suporte no Novo Testamento, nem na praxis conhecida dos primitivos cristãos, ou mesmo nos escritos não-canónicos da época.

Creio, todavia, que alguns o fazem sinceramente, pois julgam estar a agir bem, e querem ser bênção na vida de outros. Também sabemos que Deus olha em particular para as intenções do coração, mas…

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