Equívocos denominacionais


“O elemento curador (na igreja primitiva) foi a compreensão de que aproximar-se de Cristo reduzia a importância das diferenças humanas e aproximava também as pessoas umas das outras.”

(Jimmy Carter, Os Valores em Perigo – a crise moral americana, Quidnovi, 2006)

Vivi grande parte da minha vida numa denominação evangélica em Portugal, desde a mais tenra infância. Primeiro como crente comum, depois como membro activo da igreja que sempre fui, e finalmente como ministro do Evangelho, durante vários anos, tendo desempenhado cargos de elevada responsabilidade nas suas estruturas. Conheço, portanto, os aspectos mais constrangedores e controversos do denominacionalismo evangélico português.
Acresce que a minha experiência em lidar com outras denominações, no âmbito de responsabilidades que fui assumindo no meio cristão, ao longo dos anos, permite-me ter hoje uma perspectiva geral das coisas.
A presente reflexão evidencia sobretudo alguns equívocos, erros ou fraquezas, consoante o ponto de vista, do percurso histórico das denominações, e que, nalguns casos, se prolongaram até à actualidade.

Eis alguns deles:

1.    Confusão entre ortodoxia e rigidez doutrinária. Ao contrário do que se pensa, quanto mais inseguro o ser humano é, quanto às suas convicções religiosas, mais se agarra a um sistema rígido de doutrina e prática. Circunstância essa que, levada ao extremo, desemboca num fanatismo militante, em nome da “sã doutrina”. Pelo contrário, quanto mais seguros estamos do que somos e daquilo em que cremos, mais liberdade pessoal desfrutamos para reflectir, indagar, questionar, pôr em causa e lidar com as dúvidas, que não só são legítimas como normais e naturais.

2.    Primado da mediocridade. Este equívoco decorre do anterior. Os mais inseguros, e portanto mais rígidos, acabam por gerar um sistema de poder, onde os mais capazes, mais indagadores e mais livres são sistematicamente marginalizados, já que assustam os inseguros com as suas indagações. É desse tipo de comportamento que procede a mediocridade, já que a rigidez não é criativa, nem inovadora nem adaptativa.

3.    Confusão entre humildade, ignorância e cretinice.
A defesa acérrima e acéfala de normas humanas obsoletas, sem suporte bíblico sério, e racionalmente indefensáveis não é uma atitude inteligente nem séria. Confunde-se facilmente humildade com ignorância ou patetice. Ser humilde não é ser parvo ou descartável, é escolher rejeitar o orgulho e sujeitarmo-nos à vontade de Deus.

4.    Confusão entre santificação e farisaísmo.
Constituindo este uma atitude religiosa de que resultam sempre posturas eivadas de hipocrisia. Ou seja, dito de outra forma, o farisaísmo defende o primado da aparência em detrimento da autenticidade e da essência. Como se vê, a natureza da atitude farisaica é radicalmente oposta ao cristianismo bíblico.

5.    Sectarismo denominacional. O espírito de seita ronda o denominacionalismo sempre que o espírito da exclusividade ortodoxa supera o espírito da unidade em Cristo, cegando as pessoas para a realidade espiritual a que o apóstolo Paulo denomina como “a multiforme graça de Deus” (1 Pedro 4:10). Todos têm o direito de crer, valorizar e defender pontos de vista estruturantes da sua denominação, e de defender um património histórico, desde que isso não os cegue para a evidência de que o Corpo de Cristo não se esgota nesses estritos limites.

6.    Discriminação de género nos ministérios espirituais. A contínua desvalorização das mulheres no ministério é uma das fraquezas de algum denominacionalismo. Argumentos estafados, descontextualizados histórica, escriturística e teologicamente, obviamente procedentes de um machismo obsoleto, coartam assim o acesso de muitos dos melhores e mais preparados elementos da Igreja ao cabal desempenho dos dons, ministérios e vocações a que foram chamados por Deus. Há excepções, que apenas confirmam a regra (como é o caso da The Foursquare Church, Igreja do Evangelho Quadrangular, denominação pentecostal histórica, que foi fundada por uma mulher, a canadiana Aimee Semple McPherson, no ano de 1927, em Los Angeles). Mas este caso histórico ainda continua a constituir uma excepção.

7.    Confusão entre doutrina e usos ou costumes. As tradições e influências culturais misturam-se ainda com demasiada frequência com a vertente doutrinária, originando conflitos desnecessários. Alguns ainda não compreenderam que a doutrina é universal e eterna, mas a cultura (usos, costumes) é local e temporal, e que nem sempre o abraçar uma nova doutrina implica a adopção de uma nova cultura.

8.    Confusão entre proselitismo e evangelismo. Julgando que a função da Igreja é apenas arrebanhar acólitos, multiplicar os números, fazer prosélitos, despreza-se a influência dos cristãos na sociedade, e promove-se uma cidadania mitigada, ao desencorajar o envolvimento dos convertidos nas diversas dimensões da cidadania terrena, a par da sua edificação espiritual. Quando se fala de intervenção cultural, desportiva ou política então…

9.    Ênfase doutrinária exagerada em aspectos distintivos. Cada denominação tem a tendência para focar, de forma porventura menos equilibrada, os seus aspectos doutrinários distintivos, isto é, os aspectos doutrinários que a distinguem das outras. Como se o valor de uma igreja estivesse na sua origem e percurso histórico e não na Pessoa de Jesus Cristo enquanto sua centralidade. As igrejas não podem comportar-se como empresas que apostam na exclusividade ou nas características distintivas dos seus produtos a fim de conquistar o mercado.

10.    Da falta de formação à formatação das lideranças. Receio que se tenha passado da pura falta de formação da futura liderança para a sua formatação. As lideranças espirituais devem preparar-se o melhor possível para um mundo altamente desafiador, mas não é com cartilhas rígidas que o farão.

11.    Lutas internas. Qualquer organização cria as condições para que nela se venham a verificar atitudes de luta pelo poder, mais cedo ou mais tarde. Talvez por isso determinadas denominações auto-designam-se preventivamente como “movimentos do Espírito” e não denominações, ou recusam chamar pastores aos seus líderes. Mas o que conta não são as designações mas sim a postura.

12.    Perspectiva providencial e messiânica. A ideia de que nós é que estamos no caminho, enquanto todos os outros estão apenas à beira do caminho é doentia e presunçosa, mas infelizmente é corrente nalguns círculos. Tal como a ideia de que é a nossa denominação que vai converter o país e o mundo a Cristo, como se os outros cristãos e igrejas tivessem um papel meramente decorativo. Chega-se a afirmar que “o evangelho não chegou ainda” a esta ou aquela terra, mesmo quando se sabe que outras igrejas protestantes ou evangélicas lá estão radicadas e a trabalhar na promoção do reino de Deus…

13.    Mentalidade imperial. Critica-se a igreja romana pela sua estrutura e mentalidade imperial, mas na prática promove-se o mesmo, quando se reivindica “somos a maior denominação mundial”, ou “somos a igreja que mais cresce em todo o mundo”, e outros tiques imperialistas do género.

14.    Falta de amor e cuidado pelos fracos e caídos.
É porventura a maior falha das igrejas locais. E isto em nome de uma disciplina que não visa a restauração da pessoa, mas sim o efeito de dissuasão que pode ter sobre a comunidade em geral e o reforço político da imagem da sua liderança espiritual, numa tentativa de preservação da realidade da denominação.

15.    Tendência de exagero regulamentar. Ao matar grande parte da criatividade e da iniciativa em nome dos regulamentos ou tradições, está-se a matar a vida de uma comunidade local. Quando se cortam à partida todas as ideias, por melhores que sejam, só porque “nunca se fez assim”, está-se a apelar ao espírito de “macaco de imitação”. Jesus nunca disse para nos imitarmos uns aos outros, mas Paulo apelou à imitação do próprio Cristo. E isso é altamente desafiador.

Apesar de todo o respeito e gratidão que a Igreja do presente deve ter para com os seus líderes do passado, a verdade é que o tempo presente traz consigo novas exigências e requer uma nova mentalidade, ainda que os fundamentos permaneçam os mesmos. Exactamente por isso. É que os métodos, práticas e visões são temporais mas o fundamento eterno da doutrina de Cristo e dos Apóstolos nunca mudará.

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6 comentários a “Equívocos denominacionais”

  1. Gostei Bastante.
    Saliento no entanto que me identificaria mais com esta frase:
    nem sempre o abraçar uma nova doutrina implica a adopção de uma nova cultura. se estivesse da seguinte forma:
    nem sempre o abraçar uma nova cultura implica a adopção de uma nova doutrina.

  2. Simplesmente soberbo!

    O meu percurso é muito indêntico ao teu – modéstia à parte; ainda não escreveram um livro sobre mim – sei por isso a dificuldade para nos libertar da “canga” denominacional.

    O que mais entristece neste registo, é a dificuldade em compreenderem o estado em que se encontram, a capacidade em aceitarem uma critica, a possibilidade de admitirem que existem outras realidades de cristianismo válidas e sobretudo a presunção de se acharem os detentores da verdade em detrimento de todos os outros, os tais que são a “multiforme” revelação de Deus.

    Os meus parabéns por tão interessante reflexção.

    Bem-haja

    João Pedro Robalo

  3. Obrigado, amigo e companheiro. É sempre bom termos um feedback, quando não, parece que estamos a falar sozinhos.
    Abraço.

    bl

  4. Bom, meu amigo, eu designaria esta tua reflexão como “uma pedrada no charco”.

    Sinto-me “mais cristão” ainda – ( o que vale é que ser-se cristão não é algo que possa ser medido – ou se é ou não é ), deixa passar esta frase “mal amanhada” – após ler a tua reflexão. Pena que não a queiram ler, em todas as igrejas cristãs-evangélicas, no próximo domingo de manhã. Seria um excelente ponto de partida para um debate, franco, sério e honesto de todos os cristãos.

    Este teu texto é o verdadeiro “ensaio sobre a lucidez” cristã. Sintetiza tudo o que devia ser sintetizado.

    Obrigado,

    Abraço

    JL

  5. É uma reflexão que muitos fazemos, em muitos quadrantes, talvez com conclusões diferentes aqui e ali.

    A minha frase favoritas dos últimos tempo é esta: Precisamos SER igreja… não outra coisa com rótulo apenas.

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