Questões litúrgicas – I

“Antigamente os jovens criticavam os cultos por ser sempre a mesma coisa: dois hinos congregacionais, oração, outro hino para levantar a oferta, alguns poucos corinhos para desopilar, e o estudo bíblico. Agora que os jovens tomaram definitivamente a liderança dos cultos, está tudo diferente: duas horas de corinhos para desopilar, anúncios e mais anúncios para desopilar, mais corinhos para desopilar enquanto se levanta a oferta, e a mensagem (bíblica?) para desopilar. Agora sim! Melhorou…”
(Manuel Adriano Rodrigues, no Facebook)

Foi com esta caricatura, não muito afastada da realidade, que se desencadeou uma pequena reflexão sobre a evolução da liturgia evangélica, numa rede social. Como este é um assunto que me interessa muito e que vejo muito pouco debatido no nosso meio, senti a necessidade de aprofundar um pouco esta temática, até porque entretanto chegaram contributos preciosos de pessoas muito conhecedoras, quer do meio eclesial evangélico, quer da música que se faz nas igrejas e fora delas.

O vocábulo grego “liturgia” significa serviço ou trabalho público. Por extensão de sentido passou a significar também, no mundo grego, o ofício religioso, na medida em que a religião no mundo antigo tinha um carácter eminentemente público.

O problema da liturgia (o rito, a ordem do culto) é transdisciplinar. Tem conexões com a cultura, com a sociedade, com a arte, com a História, e com a espiritualidade. Move-se, portanto, na esfera do humano e do divino.

Devemos começar por esclarecer que não há uma liturgia bíblica fechada no culto cristão. Apenas estão registados elementos do culto que era praticado na Igreja do primeiro século. Ou seja, sabemos que os serviços religiosos dos cristãos primitivos incluíam cânticos, oração, ensino da Palavra, “o partir do pão”, e a contribuição financeira (Mateus 26:25; Actos 2:42; II Coríntios 8 e 9; Efésios 5:19; Colossenses 3:16).

No meu entender não é por esquecimento ou por acaso que as Escrituras são omissas relativamente à ordem do culto. A omissão, a meu ver propositada, verifica-se pela mesma razão que não há uma oração sacramental (apenas exemplos de orações), nem uma forma prática de oração por cura (mas diferentes exemplos), ou um modelo acabado de organização das igrejas locais. É porque tudo isto implica o elemento humano, que difere no tempo e no espaço.
Se assim não fosse, teríamos hoje todos os cristãos a fazer uma mesma oração, a orar pelos enfermos de uma mesma forma, e as igrejas locais todas organizadas da mesma maneira. Pelo contrário, Deus quis dar espaço à nossa humanidade e, por consequência, às culturas humanas de todos os tempos e lugares.

Os adoradores, tal como os pregadores, apresentam duas vertentes principais no seu ministério: a verdade e a personalidade. No caso do pregador, ele proclama a Verdade de Deus, exarada nas Escrituras e revelada pelo Espírito Santo, mas faz parte integrante da sua pregação, a sua personalidade pessoal, que é única. Por isso é que dois sermões, pregados por duas pessoas diferentes, mas centrados no mesmo texto ou tema, serão sempre, forçosamente, dois sermões diferentes.

Uma pessoa não se despersonaliza para pregar um sermão, antes pelo contrário. Convirá, sim, “diminuir”, no dizer de João Baptista, para que Cristo seja visível através dele (“cresça”), isto é, deverá fazer de Cristo o eixo central do seu discurso. Mas para isso não tem que se tornar um robot, pois o Mestre entregou aos seres humanos a proclamação do evangelho das boas novas e não às máquinas…

Com o adorador acontece algo semelhante. A forma de celebrar o meu culto deve estar de acordo com os princípios escriturísticos mas também com a cultura específica da sociedade onde me insiro e do tempo em que vivo. Daí que a liturgia possa e deva variar de cultura para cultura, observados os princípios já referidos.

Sendo assim, a liturgia está na nossa mão, e por isso deve ser criativa, como sempre defendi e ensinei, como tudo o que diz respeito à vida.

A tendência, porém, é seguir caminhos já antes percorridos por outros, a chamada tradição. Então, a liturgia baseia-se sempre numa tradição religiosa particular, seja ela qual for. Mesmo aqueles que têm urticária à palavra e ao conceito, sempre praticaram alguma liturgia, mesmo sem o saberem.

Há estudos efectuados sobre a liturgia no culto cristão, que vai desde um tipo de rito mais rígido e formal até ao rito mais espontâneo, passando por diversas formas intermédias.

A História do Cristianismo comprova que sempre houve um movimento pendular entre uma ênfase no ritual comunitário e uma ênfase na devoção e no compromisso pessoais. Ciclicamente surgiam movimentos e fenómenos religiosos em toda a Europa, de carácter restauracionista, que puxavam os cristãos ora num sentido ora no outro, como se a Igreja tivesse andado estes dois milénios à procura de um equilíbrio estável. Ora esta evidência diz-nos muito sobre a importância e a necessidade de ambos os planos – pessoal e comunitário – na adoração cristã.

A liturgia, como expressão comunitária de fé e adoração, insere-se assim no contexto global da adoração de cada cristão, já que é parte integrante da sua vida espiritual. A forma como adoramos sozinhos e a forma como adoramos em grupo é que fazem de nós, no seu conjunto, verdadeiros adoradores. Não existem adoradores solitários por opção. Apenas pela força das circunstâncias. Os sociólogos dizem que o ser humano é um animal social, isto é, necessita dos outros para interagir e se tornar mais humano. Poderemos dizer o mesmo do homem espiritual/religioso. Necessita dos outros para ser mais “divino”. Em grande parte, é na medida em que vê Cristo nos outros fiéis, que o crente se inspira a deixá-Lo crescer dentro de si próprio.


(Continua)

A seguir: “O caso particular da música”.

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1 comentário a “Questões litúrgicas – I”

  1. Bom artigo, a prometer e a cumprir o que a seguir
    virá. Frases a reter: «Deus quis dar espaço à nossa humanidade» – o Culto é um conjunto de actos do Homem para Deus e para os « outros fiéis», onde «o crente se inspira» para deixar crescer Cristo «dentro de si próprio.»
    Apreciei o texto, e recorri à «literatura comparada», por assim dizer, relendo o que escreveste sobre a Liturgia no teu livro, que me ofereceste, «A Luz e as Sombras».
    Em alguns autores/pastores, verifica-se ao longo dos anos variações, adaptações, «revisões», muita «coragem» uns dias, noutros o politicamente correcto, no mínimo- não é o teu caso e isso para mim tem imensíssimo valor. Também é isto que tem enraizado a nossa longa amizade.
    Abraço
    J.

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