A Ovelha Perdida

Questões litúrgicas – II

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“Antigamente os jovens criticavam os cultos por ser sempre a mesma coisa: dois hinos congregacionais, oração, outro hino para levantar a oferta, alguns poucos corinhos para desopilar, e o estudo bíblico. Agora que os jovens tomaram definitivamente a liderança dos cultos, está tudo diferente: duas horas de corinhos para desopilar, anúncios e mais anúncios para desopilar, mais corinhos para desopilar enquanto se levanta a oferta, e a mensagem (bíblica?) para desopilar. Agora sim! Melhorou…”
(Manuel Adriano Rodrigues, no Facebook)

Na primeira parte do texto (recentemente publicada) procurei falar da prática litúrgica em geral. Concentrar-me-ei agora, em particular, na música do culto a Deus, com a experiência de longos anos de ser pastor de uma igreja, e de muitos mais como músico.

A música na igreja evoluiu do solene para o banal, do majestoso para o ligeiro, do fundamental para o superficial.
Confesso. Tenho saudades de alguma solenidade na música cristã, embora defenda que a igreja deve estar aberta a quase todas as formas de expressão musical, géneros e gostos, uma vez que o povo é heterogéneo. Tudo tem que ver com o momento, a forma e a circunstância.
A meu ver usa-se a abusa-se do estilo praise, com o se fosse hoje o único possível ou aceitável, e com isso se empobrece o ambiente musical da celebração comunitária.

Na nossa igreja tenho usado, por vezes e em certos momentos, música clássica instrumental. Perguntarão “porquê”? E eu respondo “porque não?”, se a maior parte dela até foi composta por homens de convicções cristãs?

Também recuperámos os hinos, isto é, o cântico congregacional. Porquê? Porque foram escritos debaixo de uma unção particular e única, que ainda hoje provoca um impacte profundo no povo de Deus, e porque a sua mensagem é sólida e consistente, ao contrário da chamada música praise, demasiado reduzida a sentimentos e experiências pessoais do momento. Cantamo-los, com conta, peso e medida, acompanhados apenas por um piano, para que se ouça a voz da assistência a louvar a Deus.

Estamos dispostos a quebrar a regra não-escrita de que os instrumentos musicais na igreja devem ser apenas os de uma banda pop: a secção rítmica (bateria e percussão) as guitarras (baixo e eléctrica e/ou folk) e os teclados.
Estamos a incluir instrumentos tipicamente portugueses como a guitarra portuguesa, e optámos por um piano mais clássico (de cauda).

Em vez de passarmos a vida a cantar músicas traduzidas de outras realidades culturais (em especial dos países de língua inglesa) ou adaptadas (do Brasil), começámos a desenvolver o nosso próprio hinário/cancioneiro, com temas originais. Se os nossos pregadores não pregam as mensagens dos estrangeiros, mas as suas próprias, porque razão haveremos nós de querer cantar apenas as músicas lá de fora?…

É preciso esclarecer que há toda uma indústria e um negócio à volta da música praise no mundo, tal como acontece com a música comercial em geral. Quem cria, produz e edita música quer vender, exportar, ganhar dinheiro com isso. Quer produzir trabalhos, promover os seus artistas nas igrejas e em grandes eventos, congressos e conferências, criar escolas de adoração e tendências estéticas, mas sempre para “sustentar o seu ministério”.

Há cantores e bandas que só funcionam por cachet nas igrejas, prática que considero repugnante, e que faz do altar um palco, em vez de outras formas de angariação de fundos mais adequadas ao meio cristão. Sei do que falo. Já tive um pregador (antiga estrela de cinema) que me pediu para organizar uma digressão em Portugal, há uns anos, mas exigia mil dólares por dia e uma ida à televisão…
Não faço juízos de valor sobre a matéria, apenas constato a realidade, de modo a explicar por que há uma pressão tão grande em determinado sentido músico-estético, que é um verdadeiro apelo ao consumo.

Só que a igreja local deve ser suficientemente madura, de forma a saber lidar com essa pressão e a desenvolver uma visão e uma praxis própria e genuína, que respeite as suas raízes culturais, apesar de vivermos em plena globalização. Ou talvez esta seja a razão mais do que suficiente para nos dedicarmos a preservar o que é culturalmente genuíno.
A Bíblia diz que na eternidade haverá aclamação ao Cordeiro procedente “de todas as nações, tribos, povos e línguas” (1), e isso significa diversidade cultural, já que no plano espiritual haverá óbvia unidade.

Depois há a questão da qualidade. O experiente e conhecido músico profissional Pedro Duarte, evangélico, diz: “custa-me muito ver pessoas com mais de 20 anos a ‘ler livros do Tio Patinhas’, musicalmente falando. E o problema é que eu também tenho de os ler na ‘igreja’…não vá alguém pensar alguma coisa menos certa sobre a minha ‘vida espiritual’…”
Acredito que, em muitos casos, a pretensa espiritualidade serve de antecâmara para disfarçar a tendência para o facilitismo. E é este que, depois, mascara a preguiça e a falta de exigência no serviço a Deus, tal como noutras áreas da vida eclesial. Mas diz muito do respeito, veneração e reverência que temos ou não pelo objecto da nossa adoração.

É evidente que não se pode exigir às pessoas aquilo que não têm e não podem dar, mas antes de tudo há que combater uma certa mentalidade que só gera mediocridade e falta de rigor na música que se faz para Deus.

Para lá de tudo o mais, a solidez de alguma música que se faz na igreja não devia ser encarada como um estilo ultrapassado, mas como um tipo de música que não se esvai por entre os dedos, como uma moda qualquer.
Continua Pedro Duarte: “Há centenas de anos atrás havia uma necessidade enorme de rigor formal na igreja, de criar algo que permanecesse por muitos anos. As sonoridades apontavam para um tempo sem tempo. O órgão que não necessitava respirar e que suportava as vozes. A arquitectura que nos fazia pensar que a estrutura das coisas não é uma mera utilidade formal…a estrutura estava ligada às proporções dos harmónicos…também. Enquanto isso cá fora, nas festas e romarias, o pessoal dançava e cantava as modinhas que entravam tão depressa no ouvido que nem tinham tempo de parar…a não ser no caixote do lixo de onde nunca deveriam ter saído. Era o tempo banal, tempo contado…às vezes ao tostão. Hoje temos o ‘lá fora’ ‘cá dentro’…dentro de nós, não de umas quaisquer quatro paredes.”

Percebo nesta opinião uma crítica justa ao excesso de ligeireza e superficialidade que tomou de assalto a prática musical de muitas igrejas evangélicas, todavia, também não podemos esquecer que, segundo Gruner, “Lutero, há quinhentos anos, santificou a música das ruas e acrescentou-lhe palavras religiosas”, e que ”Charles e John Wesley, há cento e cinquenta, tomaram a linguagem musical das tabernas inglesas e lhes acrescentaram palavras evangélicas.”(2) E porquê? Talvez porque a música de então fosse tão ritualizada que se tornara destituída de vida. Ora, o culto a Deus é uma expressão de vida. Vida comunitária de fé. Mas a verdade é que, no fundo, há tanta vida numa música popular como numa sinfonia.

Os bispos católicos de África puseram as mãos à cabeça quando correu a notícia de que o Vaticano queria proibir os batuques e as danças nas missas africanas. Um deles disse: “Mas como, se aquilo é a vida para os africanos?” Por outras palavras, como é que eles podem deixar a vida pendurada à porta dos templos?

Sete chaves para a música no culto

Gostaria de deixar, em jeito de síntese, sete áreas importantes para o desenvolvimento de boa música no culto a Deus, tendo como pressuposto que ela será feita por verdadeiros adoradores:

Liberdade. Sejamos livres para criar, livres para dar o nosso melhor, livres para inovar, até para surpreender e nos surpreendermos.

Autenticidade. Sejamos nós próprios, deixemos de andar a imitar outras pessoas, ministérios e culturas. Isso é um atentado aos dons, talentos e vocações próprias e à saudável e desejável diversidade no reino de Deus.

Qualidade. Sejamos exigentes. Se para nós qualquer coisa serve, para os outros não. E Deus merece o melhor, nada menos do que a excelência.

Adaptabilidade. Sejamos adequados à nossa realidade eclesial. Nós cantamos e tocamos para as pessoas. Não há maneira de servir a Deus a não ser através das outras pessoas. E essas pessoas, não o esqueçamos, enquadram-se em diferentes faixas etárias, e são portadores de gostos específicos e diversos.

Criatividade. Deus é Todo-criativo, portanto, o louvor que lhe é devido deve ser criativo. Ainda Pedro Duarte: “Deixemos entrar a criatividade, o bom gosto, aprendamos a fazer bem aquilo a que nos propomos, sejamos honestos e não tenhamos tendências de ‘macaco de imitação’, arrisquemo-nos a passar pelo deserto do papel em branco, a não ter palmas nem sucesso…e o equilíbrio virá por si só.”

Bom gosto. O mau gosto, ou a insensibilidade estética, podem estragar tudo. O nosso Deus é o Deus da ética e da estética. É dele que procede o Belo, e todo o serviço religioso tem uma estética. Não esqueçamos o culto no tabernáculo do deserto ou no templo de Jerusalém.

Espiritualidade. Deixei para último, propositadamente, a espiritualidade, por uma razão simples. Se as outras áreas estiverem satisfeitas, esta também o será de forma automática. Nós não temos que fingir ser ou querer parecer espirituais. Somos o que somos, pela graça de Deus.

(1)    Apocalipse 7:9,10.
(2)    Gruner, L. Crescimento contagioso da igreja, CPAD, Rio, 1984.

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