Florbela Espanca (Carlos Bottelho, 2008)
“Versos! Versos! Sei lá o que são versos…
Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz, cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma…”
(Versos, Poesia Completa, ed. Bertrand, 2009)
Ler os poemas de Florbela Espanca, hoje, passado cerca de um século, parece um exercício de estranho masoquismo. Com efeito, a escritora recorre de forma quase obsessiva a palavras e expressões nostálgicas, tristes e depressivas, e fá-lo na primeira pessoa, criando assim um ambiente poético cinzento, enquanto pinta constantemente o retrato abatido de uma alma sofredora e profundamente infeliz.
Toda a estética da morte está muito presente nos seus versos (cemitério, caixão, morrer, cova, túmulo, morta, esquife negro, mortalha, fria), o que se afigura surpreendente, à partida, tratando-se de uma mulher tão jovem.
A fatalidade e a falta de sorte (explicitadas quase de forma paranóica) são outras traves mestras dos seus escritos, como se o mundo inteiro se tivesse mancomunado contra ela, com vista a infligir-lhe uma dor insuportável:
“má hora em que nasci”
“tenho pena de mim”
“ficamos abraçados a chorar”
“nossas duas sinas tão contrárias”
“no fadário que é meu”
“neste penar”.
É claro que Florbela evidencia um forte sentimento patriótico, durante a Grande Guerra, escrevendo, em 1916, referindo-se certamente ao Corpo Expedicionário Português, a combater em França:
“Protegei os que andam pela guerra
A defender o seu torrão natal!”
Mas vai mesmo mais longe, quando afirma:
“A Pátria rouba os filhos, mas é mãe
A mãe de todos nós
Direito de a trair não tem ninguém
Ó mães nem sequer vós!”
Outras vezes recorre a imagens poéticas muito conseguidas, como no soneto “Neurastenia“:
“Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias,
Faz na vidraça rendas de Veneza…”
O tema central da sua obra poética é o amor não correspondido, e nisso não é original:
“Voltaram as andorinhas…
E tu não voltaste ainda!…”
Mas há também o tema da paixão, do amor, muito platónico, muito centrado em beijos e abraços.
“Eu quero viver contigo
Muito juntinhos os dois
O tempo que dura um beijo,
Embora eu morra depois.”
Mais do que isso, há um grito, uma espécie de súplica constante por amor, nos seus versos. Amor sem o qual a vida não faz sentido:
“Que viver neste mundo sem amar
É pior que ser cego de nascença!”
Florbela escreveu dois dos melhores sonetos de sempre, em língua portuguesa, os famosos “Amar” e “Ser poeta” (soberbamente musicados, aliás), que expressam bem os dois eixos da sua vida: as venturas e desventuras do amor que tanto ansiava – sendo que, sem ter alguém a quem amar e que correspondesse a esse amor, a vida não valeria a pena – e a complexa e dolorosa condição de poeta que foi a sua.
No dia de anos do pai dedica-lhe um poema sombrio e estranho, no mínimo:
“Por que em tu morrendo / Ficamos sem um abrigo”
“Mas se tu nos morreres / Somos três desgraçados”
“Pensa na batota / E não penses em morrer.”
O mais curioso é que Florbela tinha apenas nove anos de idade quando escreveu isto…
Filha ilegítima, de pai incógnito, só dezoito anos depois da sua morte veio a ser reconhecida como filha pelo seu pai, embora ele a tenha acarinhado desde sempre. Depois de casada sofreu um aborto involuntário, que lhe deixa sequelas físicas, e provavelmente emocionais. A sua vida amorosa é conturbada, e um novo aborto e um novo divórcio terão agravado o seu estado emocional e mental.
Literariamente influenciada por Balzac, Dumas, Camilo Castelo Branco, Guerra Junqueiro e Garrett, não admira que o fatalismo e a dramaticidade associados à vida madrasta que teve lhe tenham dado o tom para o quadro quase sempre cinzento que percorre a sua escrita. Chama, sintomaticamente, ao seu primeiro livro de poemas, Livro de Mágoas (1919).
Frustrada por não ser capaz de levar avante as suas gravidezes e não conseguir ter filhos, exprimiu assim o seu sentimento:
“Eu sofro pelas saudades
Dos filhos que nunca tive!…”, ou então:
“Ver descer sobre o ninho aconchegado
A bênção do Senhor em cada filho.”
Mas não deixou a poeta de se aventurar também pelos caminhos do erotismo, ainda que de forma tímida, como no soneto “A tua voz na Primavera”:
“Meus pequeninos seios cor-de-rosa,
Se os roça ou prende a tua mão nervosa,
Têm a firmeza elástica dos gamos…”
Os seus trinta e seis anos tumultuosos, inquietos e sofridos não resistiram ao diagnóstico médico de um edema pulmonar que a levou ao suicídio, conseguido à terceira tentativa, justamente no dia do seu aniversário. Uma história de vida trágica, agravada pela morte do irmão, falecido num acidente aéreo, desgosto do qual que ela nunca conseguiu recuperar.
É como se Flor Bela de Alma da Conceição tentasse espancar a dor crónica na sua vida, através da arte poética, numa espécie de exorcismo literário, mas sem sucesso. E por fim desistisse de tudo, como no soneto “Eu”, que começa assim:
“Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada… a dolorida…”
Se ao menos conhecesse a Graça divina, nunca Florbela Espanca teria escrito uma frase trágica como esta (“Quem?…”):
“És sorriso de Deus que não mereço…”
Sim, absolutamente de acordo. Uma frase que também define a sua poética que traduz «a estética da morte.
J.