O náufrago

Um conto inédito do poeta e escritor J. T. Parreira, colaborador especial do “Ovelha”:

 

Agarrou-se ao amor porque era mármore, uma pedra de mármore no meio do mar.

Não sabe ainda hoje o tempo que o sonho durou, nessa noite, das galerias do sonho sabe apenas que acordou com as mãos agarradas, num último gesto, à almofada.

A seda azul mostrava ainda que parecia ter havido uma luta, que só nos sonhos pode amarrotar o mármore.

O dia anterior tinha acabado com uma discussão bastante alterada com a rapariga. Parecia-lhe estranho ter discutido, porque gostava de Cora o bastante para perdoar.

Porém se o coração lhe lançava ao peito a taquicardia do perdão, os seus olhos estavam ainda no passado recente, do que vira, do olhar furtivo de Cora para o seu amigo Jorge.

A lembrança disso vinha-lhe por arrancos, nesse dia anterior ao sonho, o impulso foi mais forte. E disparou, bem podias ter disfarçado, os teus olhos só tinham um alvo…- e foi elevando a voz.

Cora, uma rapariga franzina, com um rosto oblongo em que a beleza se perdia apesar de uns olhos verdes, amava Baba, não pensava em mais ninguém, e foi isso que lhe pôde responder, quando veio à superfície daquele turbilhão de palavras torrenciais.

Disse mais, enquanto escondia os olhos diante do sol, para se não ver uma lágrima humedecendo a íris: – Estranho o tom elevado das tuas palavras, foi através do Jorge que te conheci….

-E então? – mais calmo, foi a minúscula frase que Baba consegui pronunciar.

Baba, descendente de indianos portugueses, costumava ser parco em palavras, mas desta vez os ciúmes fizeram-no exceder não só o tom, que era quase sempre suave, mas também a quantidade de palavras sem controle.

Depois deste destempero, Baba teve uma espécie de iluminação, a história do seu namoro com Cora era normal, havia um amor comum mas que os autonomizava, reservando o espaço de cada um até ao casamento, que se perspectivava para breve,
por essa razão pensou que  os ciúmes não poderiam afectar a relação.  Não seriam o sal do namoro, porque naquela ocasião salgou demasiadamente as coisas, mas eram o indício de que gostava muito de Cora.

Nunca a questionara sobre o passado para, como é costume dos ciumentos compulsivos ou psicóticos, encontrar contradições. Confiavam um no outro e sabiam que o passado de ambos se esboroara como uma névoa, era um buraco negro sem quaisquer poeiras sentimentais, agora só contava para eles o sol presente. Nunca precisara de perdoar. Agora que tinha desenhado na sua mente um esboço de traição, quando pensava que teria de utilizar esse dom que só o divino concede aos corações dos homens, hesitava.

Olhou o motivo do seu destempero, os olhos tristes, verdes de Cora, e, desta vez, não seguiu a trajectória dos mesmos. Preferiu olhá-los para o interior até ao coração de Cora, até à inocência. Arrancaria de lá, desse recôndito, para o que continuava a pensar ser necessário, o perdão.
– Perdão? Essa palavra tem sentido se houver pecado, transgressão. – disse-lhe Cora, e o argumento seguinte, desarmou Baba. – A inocência carece de ser perdoada?

Perdão onde não há culpa é como pedra mármore no meio do oceano, tenha as dimensões que tiver essa pedra, o volume denso das águas engole-a. A beleza do travertino ou do carrara perde-se no vazio profundo, a beleza do perdão torna-se fútil.
Subiam o túnel do Metro quando esta ideia o arejou.

Aquele sonho, naquela noite depois da tempestade que quase partira o cristal do seu amor por Cora, não fora escolhido por ele, – Uma coisa é certa, posso recordar o sonho, mas não o escolhi, disse.

A Cora disse que lera um dia, algures, que assim como não sonhamos nunca com a nossa própria morte, – o que é um resguardo do ser, comentou Cora, também não podemos escolher os sonhos que queremos, sejam maus ou bons, belos ou terríveis.

Mas o sonho viera por canais oníricos e que escapam ao conhecimento. Encontrara das profundezas do ser alguma porta, alguma debilidade, uma fragilidade qualquer no seu coração.
– Com certeza restos amargos da discussão desse dia anterior ao sonho, disse Cora.
– Discussão quase monólogo, disse Baba, rectificando contra si próprio.
– Monólogo quase trágico, disseram em simultâneo, acertando na situação.

Freud não explica tudo, nem mármores no meio do Atlântico. Nunca penetrou no mais fundo do Ser, na sua Essência, limitou-se ao Existencial.
Só Deus pode estar em ambos os lados, disse Cora, ao entrarem no sol, subindo do Metro. Não, Freud não pode, disse Baba; sim, disse Cora.

Aquiescendo à rapariga, Baba poderia dizer apenas como o amigo de Freud, Arthur Schnitzler em A História de um Sonho, que  lera recentemente numa edição popular,  «tive um sonho» e esse sonho confuso influenciara tanta coisa.

Ainda se ouviam restos desafinados de um Lou Reed de caverna, a dedilhar na guitarra do fundo do corredor Walk on the Wild Side.

J.T.Parreira

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1 comentário a “O náufrago”

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