
“This hour in history needs a dedicated circle of transformed non-conformists. The saving of our world from pending doom will come not from the actions of the conforming majority, but through the creative maladjustment of a dedicated minority.”
(Martin Luther King, Jr.)
“O Cristianismo não tem, e não professa ter, um programa político detalhado para aplicar o “faça aos outros o que quer que os outros lhe façam” numa determinada sociedade, num dado momento. E nem poderia ter. O Cristianismo destina-se a todos os homens de todos os tempos, e o programa que convém a um lugar ou tempo não conviria a outro. De qualquer modo, não é assim que o Cristianismo exerce influência. Quando diz que devemos dar comida ao faminto, não nos dá lições de arte culinária.
Quando diz que devemos ler as Escrituras, não nos dá lições de hebraico e grego, nem mesmo de gramática da nossa língua. O Cristianismo nunca pretendeu substituir ou anular as artes e as ciências humanas; é antes como um director que as colocará convenientemente em suas funções como uma
fonte de energia que lhes dará uma nova vida, se elas tão somente se colocarem à sua disposição.”
(C. S. Lewis, “A moral social”, Cristianismo Puro e Simples)
Tenho para mim que a chamada Maioria Moral, uma criação de alguns líderes evangélicos norte-americanos e tele-evangelistas mediáticos, estimulados pelo reaganismo dos anos oitenta, de braço dado com os neoconservadores republicanos, é que está por detrás do drama do Iraque, de Abu-Graib, de Guantànamo, e do bushismo de má memória.
O antigo presidente Carter lembra, num dos seus escritos, “Uma das mais bizarras misturas de religião e governo é a fortíssima influência que alguns fundamentalistas cristãos têm na formulação da política dos Estados Unidos para o Médio Oriente” (Os Valores em Perigo – a crise moral americana, Quidnovi, 2006).
Como poderá então a Igreja intervir na sociedade contemporânea?
Tradicionalmente é pela via exclusiva do trabalho espiritual e pessoal, numa separação rígida entre Igreja (povo de Deus) e Sociedade (povo descrente). Esta separação denuncia quase sempre a falta de preparação dos cristãos para uma intervenção social minimamente eficaz.
Este separatismo humano e social, pseudoespiritual e pseudosantificador, que os afasta de todas as manifestações sócio-culturais das sociedades em que estão inseridos, retira-lhes o discernimento da filosofia predominante e a autoridade, já que quem se põe à parte não pode ter depois uma voz audível.
As antigas proibições de assistir a qualquer espectáculo público de massas, fosse ele de carácter artístico (teatro, cinema, concerto musical, fado), desportivo (futebol, ciclismo, automobilismo), ou de outra índole (tourada, circo, baile), ou mesmo manifestações culturais mais reservadas (exposições de artes plásticas), retiravam os fiéis da praça pública, do múnus social, estigmatizando-os perante aqueles de quem se deviam aproximar, de modo a poderem ser sal e luz, no cumprimento da missão do Evangelho.
Por outro lado, e segundo a análise invulgarmente lúcida do pastor Elienai Cabral Jr.,demonizou-se o princípio do prazer: “Em algum momento e por alguma razão que não me cabe agora, acatamos a ideia castradora de que os nossos prazeres são desprazeres para Deus. O nosso mundo, concluímos, um lugar perigoso e disposto para nos prejudicar e condenar ao inferno eterno. Nele, temos que nos portar com a mesma tensão dos guardas nocturnos em ruas perigosas. Descontrair é abrir brechas para entrada destrutiva de imaginários inimigos. O rigor paranóico enfeia os nossos crentes.”(Porque os evangélicos são tão crentes, mas tão feios?, Blog do Elienai Jr.).
Ronald Sider, em entrevista à revista Cristianismo Hoje, afirma que: “No último meio século, os evangélicos têm dado muita ênfase aos pecados individuais, como adultério e imoralidades sexuais. Nessa época, eram os liberais que falavam do pecado social, como os sistemas econômicos injustos. O que eu disse no meu livro Cristãos em tempo de fome é que a Bíblia fala dos dois tipos de pecado, o individual e o social, mas que os evangélicos tendem a personalizar o pecado. É lógico que, teologicamente, somos valorizados enquanto indivíduos, que precisam tomar uma decisão pessoal e desenvolver um relacionamento individual, íntimo com Deus. Mas a sociologia nos ensina que o ambiente onde vivemos também determina quem somos. Afinal, nossas atitudes também são afetadas pelo que nos cerca. Tanto a sociologia quanto a Bíblia nos mostram a importância de mudarmos o indivíduo e também a sociedade.”
A segunda via de intervenção no todo social é entrar no jogo político-partidário, normalmente criando partidos ou movimentos de opinião que enfatizem os aspectos distintivos da sua filosofia. Desgraçadamente vão quase sempre só pelos aspectos de uma moralidade questionável, dando de si uma imagem de sectarismo, intolerância e falta de compaixão, que não é justa nem verdadeira.
Quando digo “moralidade questionável” refiro-me a coisas como esta, que pessoalmente não posso aceitar. Que um cristão seja contra o aborto, em toda e qualquer situação, desde o momento da concepção, e simultaneamente a favor da pena de morte. Considero até escandaloso que a vida de um embrião tenha mais valor e dignidade do que a de um ser humano adulto, independentemente das circunstâncias.
Tal como não posso aceitar que se envie alegremente um mancebo para uma guerra longínqua, apenas para defender grandes interesses económicos, atribuindo assim a essa vida muito menos valor do que a de um embrião.
Mas a intrepidez verbal e sonora tantas vezes revelada atrás de um púlpito de igreja transforma-se rapidamente em cobardia social, na defesa dos nossos pontos de vista em linguagem perceptível e comum, despida de jargões religiosos.
Dou um exemplo. Recebi há algum tempo a seguinte mensagem de um amigo, por correio electrónico:
“Caros amigos
Há alguns dias escrevi um artigo para o Expresso abordando a questão da homossexualidade, em particular, os casamentos gay. Em 64 comentários, apenas um evangélico abriu a boca, uma senhora de Espanha e mais 62 insultos de alguns homossexuais e lésbicas furiosos.
A minha pergunta é simples: Até quando ficaremos sentados comodamente no sofá enquanto outros dão o corpo às balas. Ou será que estes assuntos são irrelevantes fora das paredes do templo?
http://clix.expresso.pt/do-armario-a-heterofobia=f532991
Abraço
JPM
3/9/09”
Esse evangélico solitário que “abriu a boca”, curiosamente, fui eu…
Temos, assim, que a Igreja vacila entre o conformismo, fechada sobre si mesma, e uma tentativa de intervenção trôpega e desajustada. Mas não haverá outra forma de sermos luz numa sociedade caída?
As lições da História
Que tipo de intervenção teve a Igreja no passado? Sinteticamente pode dizer-se que, ou tomou o poder, ou fez aliança com ele.
Em artigo anterior (“A Idade Ontológica da Igreja”) defendi que a história do Cristianismo se poderia reduzir a três momentos. Uma fase de implantação e luta pela sobrevivência, uma fase de exercício do poder temporal e agora resta-nos um tempo de Ser.
Desgraçadamente, para muitas mentalidades parece que ainda estamos a vacilar entre a primeira e a segunda, quando o mais importante é de facto ser Igreja em toda a sua dimensão, ao serviço de um Evangelho integral, que interpela o homem na sua totalidade, não apenas enquanto pessoa, mas na sua relação e interacção com os outros homens e no respeito pela Criação.
A Igreja necessita de encontrar novas formas de ser relevante na sociedade contemporânea, novos meios de comunicação da sua mensagem, novas maneiras de desempenhar o papel profético a que foi chamada. A mensagem e a razão de ser da Igreja são imutáveis desde há dois mil anos, mas foram diversas vezes descartadas em nome de outros valores. É urgente voltar a elas. A Igreja não pode deixar de proclamar Cristo e este crucificado e ressuscitado, mas só pode fazê-lo com eficácia se mudar a sua forma de estar, sem ceder à tentação de revisitar a História, ou seja, de voltar atrás, aos tempos da tentação do poder.
Compreende-se que a ideia de obter uma fatia de poder destina-se, em princípio, a influenciar o legislador e o governante no sentido de ir ao encontro dos princípios cristãos. Mas o que se tem visto nalguns países nem sempre é isso, antes pelo contrário. O que se vê é a tentativa de obter privilégios a partir do voto do povo crente (os “currais eleitorais”, como se diz no Brasil), e o fenómeno da corrupção tem sido tão ou mais grave entre os que, eleitos em nome da religião, fazem um percurso político nos centros de poder.
Conclusão
Pergunto: revê-se hoje a Igreja no Sermão do Monte, que consagra a verdadeira filosofia do reino, de carácter radical e subversivo? Ou pelo contrário continua a perseguir o exercício do poder, embora a pretexto das mais elevadas motivações, pelo menos na teoria?
Jesus Cristo não revelou qualquer atracção pelo Sinédrio ou qualquer outra forma de poder judaico ou romano. A sua influência foi sempre desenvolvida através da sua vida e ministério. Um ministério radical, subversivo, generoso, solidário e libertador. Que faria Ele hoje, no nosso lugar?
B. L.