Os livros de Jobe (conto de João Tomaz Parreira)

Jobe – porque os pais reconheciam no nome bíblico a história da paciência -, Jobe com «e» final, como o pronunciavam, assim se chamava o único filho do casal Paes.

A criança fora gerada e desenvolvida no ventre materno com muitos sacrifícios por parte da mãe e com resignação tranquila, em que a Fé e a ciência médica andaram juntas, nascera sob cuidados extremos e criada num lar que, a partir dessa altura, começou a ser alegre, gargalhadas à mais pequena alusão a uma coisa ou a uma palavra divertidas. A casa da família pretendia ser também um lugar de cultura, jornais, livros, conhecimento. Na sua infância, o tempo foi passando como na maior parte dos casos de filhos únicos, entre as paredes da solidão. A monotonia dos dias era suprida pela escola e pela nova conversa que o pai trazia para casa, um patamar vencido no mundo do comércio-era comercial de uma empresa de equipamentos de escritório-, uma bênção que custou a sair do universo da fé, mas que acabara por acontecer. Deus era mais um dos membros da família.

Jobe vivia a formular a vida que iria ter no futuro. Iria viver da espiritualidade, que a educação familiar lhe transmitiu, dosearia esta porém com algum razoável pragmatismo? – costumava perguntar a si mesmo, já adolescente. Embora uma coisa fosse certa, jamais iria pôr de parte o cordão umbilical.

Na esfera sombria do seu pensamento racional tinha, porém, algumas dúvidas. Não se sentia atraído pelo que vulgarmente se chama mundo, mundivivência.

Como jovem vivia, aos olhos dos outros, uma austeridade pouco normal, sem desvios ao ensino bíblico. A sua atracção era outra, o pessimismo ao qual misturava espiritualidade.

– Tudo me acontece- afirmava.- Mas cada tribulação reforça minha paciência.

Achava-se, por causa do nome que carregava, como alguém cheio de resignação.

Jobe, na cama, costumava olhar os riscos da luz sombreada que se instalavam no tecto, mal ligava o candeeiro. Recostado a uma almofada, pegava na Bíblia e relia a história do patriarca. Jó era a sua referência e já se temia que fosse obsessiva.
O menor problema ou revés, via-o sempre na óptica de uma necessidade suprida, não por se solucionar, mas porque tinha o ensejo de o acrescentar ao rol das atribulações. Jobe via nestas os seus particulares cilícios.
– Ainda me falta suportar muito, depois disto- disse, certa noite, pretendendo assim minimizar a última dificuldade contraída e testemunhar, com a frase, aos seus interpeladores.

Um dia fez uma coisa estranhíssima. Preferiu mesmo inopidamente desempregar-se, para suportar esse estigma social e financeiro.
-Uma qualidade destas de desapego às coisas materiais não se obtém facilmente hoje em dia – dissera-lhe um colega, que desejava no fundo compreender.
-Um espinho na carne- afirmara nessa conversa ocorrida no ano passado.,- Às vezes é necessário mantê-lo activo- concluiu de um modo veemente.

Esta solidariedade para com o relato agónico do apóstolo Paulo, cuja leitura da vida de igual modo o entusiasmava, era, de certo maneira, inconsciente. Recusava-se a admitir que pode haver uma idolatria da tribulação e que ele próprio a cultivasse.
-Não, nem tão-pouco por sentimento de vaidade- contestou, certo dia, a uma jovem amiga, com quem conversava frequentemente no fim das reuniões da igreja.

Recusava-se a encaixar, pelo menos no seu caso, que haveria o orgulho ou a vaidade espiritual.
Na religião tradicional que não seguia, a que chamava «a da grande Babilónia», frase que lera de Lutero, havia os exemplos dos religiosos que se infligiam sacrifícios voluntários, se chicoteavam ou se cingiam sobre a pele com cordões ou cintos ásperos com puas para mortificar a carne e penitenciar de todos os pecados.

Por razões evangélicas abominava tais atitudes, porque se orientavam para supostamente se adquirir a salvação. A sua teologia era outra, conhecia o valor do Sacrifício de Jesus Cristo, que Este era o único mediador entre Deus e os homens.
Portanto, o seu desejo de tribulações não ia por esse caminho, mas as mesmas serviam para enriquecimento da sua paciência. Mas não sabia por vezes onde estava, nem a que distância disto ficava a sua fé. Nesses dias, uma dor moral assenhoreava-se do seu rosto com uma facies piedosa.

Depois de fechar um livro, Quando a corda se rompe, no capítulo sobre as más notícias acerca de um mundo decaído, mas que a seguir viriam notícias ainda piores, pôs-se a olhar para a atmosfera onde visualizava uma corda. O sindroma da corda partida, o enfrentar todos os tipos de problemas, bateram na sua couraça de paciência.
-Gosto das cordas que se rompem, e de enfrentar as coisas mais difíceis do mundo- ripostou Jobe com a cabeça erguida e um gesto de punhos a expressar valentia, numa aula do instituto.
-O homem, depois de Adão, é originado de um conflito. É o nosso destino e significado como seres humanos, estarmos sempre preparados para uma corda que se parte e nos lança no chão da dificuldade- reflectiu, certa noite, num retiro juvenil religioso.
Parecia estar descoberta uma nova ontologia.

Falar com Jobe dava-nos sempre a impressão de estarmos perante um rochedo sobre o mar, indefeso face às intempéries, quando o mar se levanta, conseguia manter o veludo verde, brilhante, da sua vegetação. Parecia sentir prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias.

Houve outro livro que ocupou, durante algum tempo, as interpretações sobre o que se poderia abater em forma de tentação sobre o crente.
A Tentação do téologo Bonhoeffer alimentava as preocupações e interrogações de Jobe. Particularmente a passagem «há duas grandes interrogações na vida do homem: uma indaga a respeito de Deus e a outra trata de pão; e as duas perguntas têm ciúmes uma da outra».
-Uma verdade, em todo o caso, na qual se consubstancia toda a vida do homem.- disse para si próprio, audivelmente.
«A luta pelo pão» – e acrescentou esta frase aos apontamentos que tomava sobre o assunto- «é que traz toda a espécie de mortificações e de angústias».

Ninguém, do seu círculo de amizades, via a coisa tão tragicamente como Jobe. Amigos e condiscípulos, com o pensamento menos labiríntico, conseguiam aplicar às suas vidas uma observação do salmista «nunca vi desamparado o justo, nem a sua semente a mendigar o pão», e não punham nisso nenhum dramatismo.
-Mas para mim é um problema- dizia Jobe constrangido.

Embora poucos concordassem com a sua opinião sobre, por exemplo, uma das atitudes frequentes de Jobe, que consistia em orar por tribulações a fim de provar a sua fé, a verdade é que ele insistia em fazê-lo. – O irmão não quer provar a sua fé, quer antes enaltecer a sua paciência, e tal coisa é incorrecta- disse-lhe, no final de uma manhã de domingo, um dos pastores da igreja, enquanto caminhavam– Nem sequer pedir paciência, porquanto o Jobe está a pedir implicitamente tribulação.
– Não devemos nem podemos declarar a fé em Deus, rogando atribulações, dificuldades ou angústias para a nossa vida.- acabou por dizer-lhe, já na porta da sua residência, o irmão Luís Couto.

Em casa, o quarto de Jobe tinha uma mesa redonda, em cima da mesma estavam sempre alguns livros, e, aguentando a passagem de um dia para o outro, rosas como uma extensão vegetal da pequena jarra de vidro.
Jobe dizia que a mistura da suavidade das pétalas com a rudeza dos espinhos, personificava a sua vida.
João Tomaz Parreira

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