Em tempos de crise torna-se imprescindível que, como diria Camões, «valores mais altos se alevantem»

 Foto: Luís Filipe Estrela.

Na foto, com a presidente da CMS, Maria das Dores Meira, Viriato Soromenho Marques (prémio Social/Cultura), Carmo Jardim, representante do director-geral da Auroeuropa, António de Melo Pires (prémio Economia), Carlos Rafael Fidalgo, director de O Setubalense e Pedro Venâncio, em representação do seu filho, ausente no estrangeiro, nadador Tiago Venâncio (prémio Desporto).  

Fui convidado a discursar na cerimónia de entrega dos prémios “Personalidades Setubalenses”, por ocasião do 157º. aniversário do jornal “O Setubalense”, onde colaboro há décadas, e também para entregar um dos prémios. Aqui se transcreve a intervenção:

Saúdo:

A Senhora Presidente da CMS,
O Senhor Director do Jornal “O Setubalense”
Os Senhores Laureados ou seus representantes,
Os Senhores Jornalistas, Trabalhadores, Colaboradores e Anunciantes deste jornal, e
Todos os Jornalistas presentes,

Minhas Senhoras e meus Senhores,

As comunidades humanas são feitas essencialmente de memórias e de pessoas.

Essas memórias podem apresentar-se na forma documental, monumental, ritual ou de usos e costumes, isto é, a cultura de um povo.

As memórias remetem para franjas, eventos e momentos de um passado que se tornou relevante e marcou a identidade desse povo, mesmo quando são negativas, como é o caso dos dois conflitos mundiais desencadeados na Europa, durante o século passado, e que integram o património histórico dos povos europeus, muitas vezes condicionando-lhes ainda hoje o presente e mesmo o futuro.

Setúbal, que começou por ser um povoado surgido nas margens alagadiças do rio, tem uma história imensa atrás de si. Desde os primórdios, passando pela urbe romana (Cetóbriga?) e pela presença árabe (Xetubre?), sofrendo assim influências multiculturais que só enriquecem os seus pergaminhos.

Setúbal foi a sua Mouraria e a lenda da moura encantada, a sua Judiaria e a Gafaria.

Setúbal foi os seus maiores, como Bocage, Luísa Todi e Calafate, padre Joaquim Silvestre Serrão, D. Pedro Fernandes Sardinha, D. Gonçalo Pinheiro, frei João Pinheiro e frei Agostinho da Cruz, que apesar de não ser natural de Setúbal, aqui faleceu. Vasco Mouzinho de Quevedo, Manuel Maria Portela e Fran Paxeco, ou os músicos Frederico do Nascimento, Gomes Cardim e Plácido Stichini e os pintores Morgado de Setúbal, João Vaz e Pereira Cão. Mas Setúbal foi também e principalmente as gerações de pescadores, salineiros e almocreves anónimos que a construíram.
Diz o Professor José Hermano Saraiva, com alguma graça, que Setúbal nasceu do Sado, tem Cetóbriga por avó remota e Alcácer do Sal como parenta de quem herdou a fortuna.

Em 1248 já se dizia missa em Santa Maria da Graça. O seu foral, concedido pouco depois por Paio Peres Correia, faz uma alusão aos «valiosos serviços que os setubalenses lhe prestaram na conquista do Algarve». Mas podemos recordar ainda a sua condecoração com o título de “notável vila” em 1525; o Forte de S. Filipe, que foi decidido construir em 1583 para defesa da barra; a sua sardinha, premiada com uma menção honrosa na exposição de Paris, em 1855; o moscatel de Setúbal, lançado entretanto por José Maria da Fonseca e que veio a tornar-se famoso; a sua elevação a cidade e mais tarde a sede de distrito; a antecipação que fez da implantação da república e a adesão popular ao 25 de Abril de 1974.

Ora, o futuro fundamenta-se com os subsídios das memórias do passado, mas constrói-se sobretudo com as contribuições das pessoas do presente, que de alguma forma afectam a dinâmica da vida quotidiana da comunidade, lhe recriam o seu imaginário colectivo e se integram num sentido de devir. Nuns casos, tais contributos funcionam como força motivacional, noutros como exemplo, e noutros casos puxam pelo orgulho identitário das suas gentes, e pelas suas energias vitais, permitindo-lhes o sonho. Razão tinha o nosso Sebastião da Arrábida, o Gama, quando profetizava: «Pelo sonho é que vamos».

Temos consciência de que uma medalha, uma distinção ou um prémio como este, correm sempre o risco de alguma injustiça. Acontece com todos os prémios, desde os relevantes Nobel aos famosos Óscares de Hollywood, passando pelas condecorações da república portuguesa, entre outros.

Não poucas vezes fica a ideia de que esta ou aquela distinção é imerecida por quem a recebe, ou que havia outras personalidades cujo contributo à sociedade justificaria muito mais recebê-la. Devo dizer que não é o caso vertente, de todo. Este prémio parece-me muito bem entregue a qualquer uma das personalidades que hoje aqui se distinguem.

Acresce que, no caso presente dos prémios “Personalidades Setubalenses”, atribuídos por um jornal, não se vislumbram à partida quaisquer interesses particulares ou de grupo, que pudessem eventualmente enviesar a sua justeza e transparência.
Até porque “O Setubalense” é muito mais do que um jornal, é uma instituição da cidade e concelho com 157 anos de existência, que sobreviveu a diferentes regimes, da monarquia à república, passando pela ditadura militar e pelo Estado Novo, de má memória, até ao actual regime democrático.

Sendo assim, saúdo os laureados, crendo que eles se podem justamente sentir honrados pelo valor desta distinção e de quem a atribui.

É com iniciativas como esta que os setubalenses podem lutar contra uma espécie de “maldição” com que alguma comunicação social nacional, com particular responsabilidade para as televisões, se refere lamentável e persistentemente à nossa cidade. Já não é o velho princípio do «homem que mordeu o cão» que preside à orientação editorial, no que toca a Setúbal. Parece que todo o crime do país, toda a droga, todo o acidente e tudo que é negativo e destrutivo desceram aqui nos últimos quarenta anos.

Há que continuar a dizer a esses arautos da desgraça o que é Setúbal. Setúbal é o rio, a baía, o estuário do Sado, a Arrábida, as suas instituições, a sua cultura, o seu notável associativismo, as suas figuras históricas de ontem e as suas gentes de hoje, de que muito nos orgulhamos.
É preciso fazer-lhes saber que a cidade e o concelho contam com um património histórico, cultural, político, desportivo, ambiental e artístico significativo.

Ao contrário do poeta do “Rio Azul”, que queria guardar Setúbal «inteirinha só para si», nós queremos mostrá-la ao mundo. E por vezes, tal como ele, também «temos pena de não a saber cantar».

Sendo assim, Setúbal precisa cada vez mais de honrar os seus valores. Em tempos de crise torna-se imprescindível que, como diria Camões, «valores mais altos se alevantem».

Qualquer um dos vencedores deste prémio, apurados dentre um grupo inicial de vinte cidadãos, tanto na categoria de Economia (o director-geral da Autoeuropa, António de Melo Pires), como no Desporto (o nadador Tiago Venâncio), como na área Social/Cultura (o professor Viriato Soromenho Marques), são pessoas que se distinguiram em diferentes áreas de intervenção, alcançando mesmo um estatuto nacional e internacional, e a quem Setúbal muito deve.

Parabéns, portanto, a “O Setubalense”, por esta iniciativa e pelo seu aniversário. Não posso deixar de recordar neste momento o seu director de muitos anos, Dr. João Carlos Fidalgo, um saudoso amigo precocemente desaparecido.

E parabéns sobretudo aos laureados pelos seus valiosos contributos, aqui reconhecidos por via deste prémio.

Que viva Setúbal!

Muito obrigado.

Brissos Lino

Palavras perdidas (1000)

“O que Obama defende é o seguro obrigatório para todos, uma alternativa ao sistema público dos europeus e dos canadianos. E os juízes deram-lhe razão, com a surpresa a ser o voto de John Roberts, nomeado por George W. Bush e que os conservadores consideram agora ter traído o seu campo.

Mas a verdadeira traição é a do milionário Romney: quando foi governador do Massachusetts aplicou um modelo de saúde pública semelhante ao que Obama quer em todo o país, mas como só vencerá as presidenciais se mobilizar ao máximo a parte mais reacionária da América, hoje dá o dito por não dito.

Esperemos que a saúde da economia americana (8,2% de desemprego) não trame Obama e que este trate é da saúde ao rival a 6 de novembro.”

(Leonídio Paulo Ferreira, DN)