O fim da linha

 

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É pau, é pedra, é o fim do caminho. (Tom Jobim)

 

Uma das coisas que considero mais curiosas nas recentes comemorações dos quarenta anos do 25 de Abril de 1974, foi poder verificar a noção clara que o poder de então tinha, de que o regime estava bloqueado, a viver os seus últimos tempos e à espera de um golpe de estado. Só não sabia quando iria acontecer. O levantamento das Caldas, a 16 de Março, só viria a confirmar essa percepção.

Foi isso que disse Pedro Feytor Pinto, o director dos serviços de informação de Marcello Caetano, que mediou a entrega do poder nas mãos de Spínola há quarenta anos, no Quartel do Carmo. Foi assim, também, com o testemunho de Ana Maria Caetano, que o afirmou, revelando o sentimento do pai, de quem era muito próxima, e a quem acompanhava, substituindo a mãe nas visitas oficiais.

Tudo isto apesar das encenações desesperadas do regime, como a apresentação de cumprimentos da famosa “brigada do reumático”, uns quantos oficiais generais que já pouco ou nada mandavam, e a célebre ida do presidente do Conselho ao estádio de Alvalade ver o Sporting-Benfica.

Soube-se agora que a Pide comprou milhares de bilhetes para a bancada central, e os distribuiu a fiéis do regime, de modo que, quando o alto-falante anunciasse a presença do governante no local irrompessem em aclamação. Supõe-se, também, que o próprio Caetano nunca soube desta manobra, pelo modo como descreveu o acontecimento nas suas memórias.

Apesar destas encenações, o regime estava podre e caiu de podre. Até se pensava que a ala mais à direita, encabeçada por Kaúlza de Arriaga, estaria prestes a tentar um golpe, por achar Marcello Caetano demasiado mole.

O isolamento internacional e escândalos domésticos, como o ballet rose, debilitavam o regime por dentro, assim como o beco sem saída em que se tinha transformada a Guiné. Mas também o escandaloso massacre de Wiriyamu, em Dezembro de 1972, em Moçambique, denunciado por religiosos italianos que ali exerciam o seu múnus e que escandalizou o mundo civilizado, ou a audiência papal concedida por Paulo VI aos líderes dos guerrilheiros que combatiam as forças portuguesas em África, em Julho de 1970, antes de uma importante conferência em Roma, e que terá constituído o ponto de viragem de toda a guerra com Portugal, na opinião de alguns observadores.

Por tudo isto e muito mais é que é difícil compreender os saudosistas do antigo regime, esgotado, falido, sem voz no concerto das nações e condenado a desaparecer. Por alguma razão Portugal saiu à rua em massa naquele inesquecível 1º. de Maio.

 

 Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 9/5/14.

 

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