A razão das harpas estarem nos salgueiros no Salmo 137 (inédito de J.T.Parreira)

RIVERS (2)

E se eu cantar quizer
Em Babylonia sujeito,
Hierusalem, sem te ver,
A voz, quando a mover,
Se me congele no peito;

Luis de Camões

Ao longo de séculos de hermenêutica, de mimésis e criatividade poética (Camões ou San Juan de la Cruz) sobre o Salmo 137 – na Septuaginta indicado como da autoria de David -, não chegamos a descobrir  a verdadeira razão que está diante dos nos nossos olhos no verso imortal “Nos salgueiros que lá havia (na Babilónia) pendurávamos as nossas harpas”  Porquê?

Levou-se tanto tempo a pensar que as harpas nos salgueiros eram como frutos que estiveram sempre lá, ou porque os hebreus perderam a inspiração,  a Fé, a religiosidade judaica, a destreza da criatividade musical, ou por uma razão meramente social, porque estavam a fazer greve de zelo contra os opressores.

Mas as harpas estavam penduradas quando eram preciso que estivessem.

Não vou pendurar-me na discussão do tempo verbal – o pretérito imperfeito-, mas sim, na atitude resultante do pedido profano dos babilónios. A expressão de uma consequência inevitável.

A razão está no próprio texto poético do salmo:

“pendurávamos nossas harpas (…) pois (ou porque) os que nos levaram cativos nos pediam canções”.

Do ponto de vista da teologia do Velho Testamento, está aqui espelhado o exclusivismo judaico, a rejeição da mistura, da aculturação no plano religioso.

No campo da sintaxe,  quer nas versões em português, quer no grego  (óti, no início do verso 3 da referida Septuaginta)  ou no hebraico,  a conjunção “porque” está a ligar a frase e a justificar  a acção precedente.

Mas os cânticos de Sião eram sagrados, e se entoados, seriam o canto do Senhor em terra estranha.  E o respeito pelas coisas sagradas,  jamais poderia conduzir os hebreus  a conspurcar o  Nome de Deus nas terras do exílio.

Em última análise, poderemos aceitar que se tratou de uma greve de zelo espiritual, por causa da beleza santificada dos Cânticos.

© J.T.Parreira

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