Refugiados: entre a indiferença e o choque

 

 

A fotografia duma criança síria morta, numa praia de Turquia, devolvida pelo mar, tem chocado o mundo. Também me parece que não se deve abusar dessa foto, embora se tenha tornado icónica em poucas horas. Mas se calhar o mundo precisa mesmo é de ser chocado e abanado.

Para não cair na tentação de relativizar esta autêntica desgraça humana, que é a saga dos refugiados e migrantes que se dirigem à Europa, tento colocar-me na pele dos protagonistas.

Tenho um neto com três anos, a mesma idade do Aylan. Imagino que seriam os pais dele que tinham de fugir da sua terra, Kobane, por causa das atrocidades do Estado Islâmico, depois de já ter perdido 16 membros dessa mesma família, que combatiam aquele grupo jihadista, e que a minha filha se lembrava que tinha uma cunhada a viver no Canadá.

Depois de tentar emigrar para aquele país, pelas vias legais, via rejeitada a sua pretensão, com o pretexto oficial de que não havia certeza de que a sua família fosse mesmo refugiada. Teriam pago então uma quantia vultuosa a um traficante para terem lugar num barco. Mas tinham sido enganados.

Finalmente, já no desespero, encontraram um barco pelos seus próprios meios, agarraram nos filhos de 3 e 5 anos e tentaram chegar por mar em direcção à Europa, para voltar a tentar emigrar legalmente, mas agora a partir daí. Tentavam chegar à ilha grega de Kos, mas entretanto morriam todos no mar, excepto o pai. Entretanto, a polícia turca detinha quatro sírios suspeitos de estarem envolvidos na organização desta viagem, da qual resultou na morte de pelo menos 12 pessoas, incluindo 5 crianças.

Não sei nem quero saber qual a sua religião ou opções políticas. O que me interessa é que são seres humanos tal como eu. E isso basta para os considerar meus próximos.

O Canadá reagiu à desgraça, da mesma forma que a Europa costuma fazer, ao retardador. Depois que o naufrágio se tornou público, o Canadá ofereceu asilo ao pai sobrevivente, Abdullah, mas ele terá rejeitado a oferta, visto que agora quer voltar a Kobane, enterrar a família e morrer junto dos seus.

Se uma praia pejada de cadáveres (o irmão de Aylan, que também tem nome, Galip, jazia a uns cem metros de distância dele) não chega para despertar a consciência europeia, nem a tentativa do governo pró-fascista húngaro de enganar os migrantes enviando-os para campos de refugiados em vez de os deixar passar (o que veio a fazer mais tarde, por pressão internacional), nem os milhares de mortos no Mediterrâneo, então é porque a Europa está morta nos seus “delitos e pecados”, leia-se, entregue aos cifrões, sem um pingo de humanidade.

Estamos perante uma crise humanitária tremenda e uma crise de migrantes como nunca desde a II guerra mundial. Portugal foi e é um país de emigração. Deu “novos mundos ao mundo”, foi pioneiro na chamada globalização, no século 15, e foi assim que se fez grande. Hoje estamos reduzidos a um continente europeu anquilosado, uma espécie de família brasonada a viver das glórias do passado, alegremente a caminho da falência.

Bem sei que esta onda migratória e de refugiados representa alguns perigos. Por isso mesmo, saibamos separar as águas, ajudar quem precisa e defender-nos desses perigos.

As diferenças religiosas e outras, quaisquer que sejam, não podem impedir o exercício da misericórdia. Recomenda-se a leitura atenta da chamada parábola do bom samaritano. Aquele que era diferente, que não tinha qualquer obrigação de solidariedade, que tinha todas as razões para virar a cara para o lado, foi o único que manifestou compaixão. Não fotografou, não falou aos jornais nem nas redes sociais. Agiu. Fez tudo o que podia.

Cristianismo é isto. O resto é só religião balofa e bafienta. Ou desculpas de mau pagador.

 

Fonte: José Brissos-Lino, Setúbal na Rede, 8/9/15.

 

 

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Um pensamento em “Refugiados: entre a indiferença e o choque”

  1. Não gosto do que se está a passar,e a vários niveis,mas como uso dizer: O pontapé no cú é o electrochoque do pobre,talvez assim os acomodados acordem porque a coisa vai ficar preta para os lados da Europa.

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