Dois caminhos

 

Cada vez me convenço mais de que as populações só ganham com um governo de proximidade. Ou seja, quanto mais distante estiver o poder dos locais onde se fazem sentir as suas decisões, mais tende à indiferença pelas necessidades das suas gentes ou à usurpação da sua dignidade e direitos.

Daí que se encontrem por esse país fora excelentes autarcas de todos os partidos, ao mesmo tempo que se vêm passar pelo governo da república autênticas personagens de opereta, incompetentes, corruptas e até sinistras.

É comum dizer-se que uma das grandes conquistas da democracia portuguesa é o poder local. E com razão.

Embora nem sempre se consiga ver de imediato o resultado das políticas nacionais, que devem ter um horizonte alargado no tempo, a verdade é que não é fácil governar, entalado entre uma Europa sem rumo e um mundo globalizado e dominado pelo grande poder financeiro corrupto.

Nessa medida, as pessoas tendem a avaliar menos as propostas políticas, ou mesmo as equipas que se apresentam a votos, mas cedem quase sempre à tentação dos sound bites dos meios de comunicação, que, como se sabe, muitas vezes estão capturados por interesses privados.

O facto de alguém que se apresenta aos eleitores se dar a trabalho de elaborar cenários macroeconómicos e fazer contas, parece que não tem valor face à demagogia, à mentira e à política da irracionalidade, que faz do medo o seu instrumento preferido.

Por um lado é mais cómodo não ter que avaliar propostas, porque isso exige algum esforço pessoal. Dá trabalho. É mais fácil ir com a cara deste ou daquele, com a sua maneira de falar. Ou então seguir o grupo social em que estamos inseridos e que quase determina a obrigação de votar A ou B.

A grande questão que se coloca nestas legislativas é simples. Qual o caminho que queremos seguir? O dos que nos vendem a ideia de inevitabilidade, do conformismo, com o aumento inusitado da pobreza, a destruição da classe média e de toda uma geração de jovens cheios de potencialidades, a quem resta fazer as malas e procurar forma de vida lá fora, ficando nós com o ónus de ter investido na sua formação?

Ou a capacidade e a combatividade que nos permitam lutar por um caminho diferente, mais justo, menos penalizador para os socialmente mais fracos, que valorize mais as pessoas do que a economia, que puxe pelas energias do país e traga esperança?

Ou seremos um país que já sofre a síndrome de Estocolmo, pois acabou por aceitar o seu raptor, já simpatiza com ele e aceita continuar sequestrado?

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 18/9/15.

 

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