O pântano

 

Só um louco ou inconsciente dá pulos de contentamento por um resultado eleitoral (seja ele qual for), quando 43% dos eleitores não foram às urnas, numa manifestação eloquente de mau estar ou desprezo pela democracia.

Quando vamos ter uma maioria de esquerda no parlamento e um governo de direita, a Europa está a viver uma crise estrutural e de valores e os corruptos andam à solta no país.

Quando a nossa dívida não parou de aumentar, meio milhão teve que se fazer à vida no estrangeiro, os números do desemprego estão mascarados por mais 100 mil pessoas que estão a fazer cursos que não servem para nada, a pobreza aumentou assustadoramente e há crianças a passar fome.

Quando a escola pública está a ser destruída para subsidiar os privados, quando a Saúde está de rastos e se prepara a privatização da Segurança Social.

Quando se cortam as pernas aos agentes culturais, enquanto se administram doses cavalares de imbecilidade e imoralidade nas televisões.

Quando a democracia é cada vez mais um simulacro formal, onde a liberdade de escolha e de afirmação da cidadania está cada vez mais limitada por um pensamento tendencialmente único.

O discurso do quem ganhou e quem perdeu uma eleição é demasiado infantil para uma democracia com 40 anos. É tempo de exigir à classe política uma avaliação do tipo: “O que fazer com o grau de confiança e responsabilidade que recebemos do eleitorado?”

Transformar derrotas em vitórias, derrotas próprias em derrotas alheias, ou meias-vitórias em vitórias retumbantes, só se for para enganar os parvos. Sejamos claros: o jogo ainda não acabou, porque não se reduz aos papelinhos contados no dia das eleições.

Nestas legislativas só haverá uma vitória do país (que é o que nos interessa) quando houver uma solução governativa estável. O resto não passa de soundbites e rebuçados atirados para animar as hostes. Como não me inscrevo em nenhuma força partidária, tal expediente não resulta comigo. O que me interessa é como fica o país. Se sai ou não do pântano.

Para já gostaria de dizer que há coincidências incríveis. Os nossos políticos faziam bem em ver o episódio de “Borgen” (RTP2) que curiosamente passou na noite eleitoral, intitulado “Election”. Pareceu-me premonitório, em parte.

Ou seja, numa democracia avançada uma situação política como esta resolvia-se no parlamento, com negociações entre os partidos, porque todos os votos têm valor. Está na altura de deixar de fazer da política futebol e começarmos a amadurecer, em termos democráticos.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 9/10/15.

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