O poema “Fátima” de Ievgéni Ievtuchenko

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Poeta que se desdobrava em gestos quando declamava os seus poemas. A sua gestualidade sublinhava no ar as palavras fortes que usava. Às vezes eram poemas medíocres, como aquele “Amor em Lisboa”, em que fala da ponte Salazar e de beijos sob a ponte de betão(?), outras vezes – a maioria- grandes poemas como o célebre Baby Yar, que descreve a matança de judeus ucranianos pelos nazis na II Guerra Mundial: “Nenhum monumento supera o Babii Yar. / A pedra sepulcural é uma pura lágrima.” 

A sua poesia que nunca obedeceu aos padrões estéticos estalinistas, o realismo socialista centrado sobre a Revolução de Outubro e o povo heróico da II GG, foi muitas vezes sancionada pela crítica porque ora condenava o sistema soviético, ora exorcizava o anti-semitismo russo como no poema de 1961 acima citado: “Eu sou hoje tão remoto / como todo o povo judeu.”
Assim, transformou-se no principal porta-voz dos desejos de renovação na URSS. Como consequência acabaria em 1989 por dar suporte aos governos de Gorbachev e Yeltsin, no período pós-soviético. Mas, duas décadas antes, em 1967, esteve em Portugal.


O poeta Fernando Assis Pacheco assinalou assim a sua passagem por Lisboa, onde o poeta soviético deu um recital que ficou famoso e deu origem a um pequeno livro (na imagem), primeiro porque estávamos sob o regime salazarista, depois porque Ievtuchenko era irreverente. Assis Pacheco conta que o poeta veio a convite das Publicações D.Quixote e da sua gerente Snu Abecassis e que no cocktail festivo que decorria em casa da futura companheira de Sá Carneiro, o poeta russo-soviético emborcava tintos atrás de tintos (uma “reserva Dão preciosíssima”). E diz também quem eram as personalidades presentes: Fernando Namora, Vergílio Ferreira, José Tengarrinha, José Cardoso Pires e outros.
A irreverência lúcida e nada diplomática do autor de Baby Yar, Pearl Harbor(novela) ou Autobiografia Prematura, estes editados pela D.Quixote, acabou por deixar marcas num poema fortíssimo que resultou da sua ida à Cova da Iria, em pleno Maio desse ano de 1967.
O que o poeta contemplou, di-lo de uma forma rude mas deixando entrever uma ternura poética revelada nas palavras. As categorias da gente que passa no poema, as qualificações partem do olhar do poeta sobre o que vai ocorrendo como sinal dito de “enorme fé”: “tristes camponeses”, povo que se arrasta “de joelhos ligados”, “pastores de rebanhos”, “os ideólogos de andar de rastos” que “não pensam tirar os seus filhos da cruz”. ©

J. T. Parreira

Antologia da Poesia Soviética Russa-II, Col.Horizonte de Poesia, D.Quixote, 1984. Trad. de Manuel de Seabra.

Antologia da Poesia Soviética Russa-II, Col.Horizonte de Poesia, D.Quixote, 1984. Trad. de Manuel de Seabra. Facebook de J.T.Parreira.
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