“Die Schuld”

 

 

 

O termo alemão significa “a dívida”. Mas também pode ser traduzido por “a culpa”.

Acontece que, quando dizemos “estou em dívida com”, queremos significar “estou em falta com”. A dívida é assim um termo incómodo, que apela a sentimentos de culpa.

Até na famosa oração do Pai Nosso os fiéis pedem a Deus “perdoa-nos as nossas faltas”, ou pecados, mas algumas traduções bíblicas substituem a palavra “faltas” por “dívidas”, “assim como nós perdoamos aos nossos devedores”.

Não admira, assim, que a cartilha ultraliberal europeia tenha cavalgado a semiótica do termo quando aborda a questão da dívida soberana. Associar a dívida dos países a uma questão moral, carregando na culpa, até se compreende em parte. O problema é que a responsabilidade ou culpa da dívida dos países não se pode assacar aos cidadãos, mas sim aos governantes, responsáveis pela escolha e execução das políticas que levaram os estados a essa situação. Quando muito, cabe aos cidadãos a responsabilidade de terem elegido os governantes que seguiram tais políticas.

Acresce que todos os países funcionam hoje com dívida, mercê dos investimentos necessários ao desenvolvimento, só que ela terá de ser mantida em níveis comportáveis e adequados ao crescimento das respectivas economias. O que não aconteceu em Portugal nem em outros países europeus, tanto por falta de crescimento económico como pela crise do sub-prime, que contagiou não apenas as finanças mas a economia real. Contudo há uma razão ainda mais forte que justifica essas dificuldades: a arquitectura do euro.

A moeda única já provou que só funciona para as economias fortes, sendo penalizadora das mais débeis. Temos uma moeda única mas não temos uma política financeira e fiscal única. Temos um banco central europeu, mas só há pouco tempo começou a comprar dívida, para combater a especulação dos mercados financeiros.

As economias europeias mais débeis, privadas da capacidade de desvalorizar a sua moeda, estão de mãos atadas, à mercê dos mais fortes, a quem interessa esta situação, pois só têm a ganhar com ela. Todos sabemos o quanto a banca alemã tem lucrado com a política de austeridade imposta aos periféricos.
Quando se associa a dívida à ideia de culpa, para vergar os povos, convém não esquecer que há alemães presos por corrupção (nos negócios dos submarinos), que a Volkswagen levou a cabo uma das maiores vigarices da história industrial europeia. Ou seja, os alemães ou outros europeus não têm qualquer superioridade moral sobre os povos do Sul.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 20/10/15.

 

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1 comentário a ““Die Schuld””

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