Se és meu amigo, deixa-me ser livre

“Liberdade” e “amigo” têm a mesma raiz indo-europeia. (Byung-Chul Han, Psicopolítica, Relógio d’Água, 2015)

Acho muito curioso que alguns “amigos” sabem sempre o que é melhor para nós. Sabem como devemos falar, vestir-nos, educar os filhos, aonde ir e quando, e até, pasme-se, acham que nos devem ensinar o que devemos escrever nos blogues e redes sociais. Eles é que sabem.

Criticam-nos porque devíamos escrever sobre isto ou aquilo em vez de escrevermos sobre o que nos apetece. É extraordinário.

Esta ideia de alguém saber o que é melhor para o outro radica numa longa e nefasta tradição de relações humanas, que se caracteriza pelo pouco respeito pela pessoa do outro, incluindo a sua inteligência, sensibilidade e desenvolvimento.

Se as pessoas fossem tão competentes a dirigir a sua própria vida como a tentar direcionar a vida dos outros, então teríamos um mundo extraordinário de paz, progresso e felicidade.

Há uns anos, uma amiga dizia-me que costumava ser muito crítica com a forma como algumas amigas suas educavam os filhos, mas agora que chegara a sua vez de também ser mãe, já não sabia bem o que fazer. Pois é, a velha distância entre a teoria e a prática é longa.

Os termos “liberdade” e “amigo” procedem de uma mesma raiz indo-europeia. Isto significa que ambos os conceitos são irmãos. Ao contrário do que muitos pensam, ser amigo é respeitar a liberdade do outro, aceitar o outro mesmo quando segue um caminho que não seria o nosso, se fossemos nós a escolher. Mesmo quando o outro escolhe mal e vem a arrepender-se, o amigo está lá para o consolar, com a mesma amizade de sempre, o que não impede de lhe dizer: “Eu tinha-te dito que isto podia acontecer”.

Ser amigo não é virar costas a alguém só porque não seguiu o nosso conselho, não nos deu ouvidos e procurou guiar-se pela sua própria cabeça, tentando ser autónomo. Pelo contrário, o que não é verdadeiramente amigo tenta controlar a vida do outro, arroga-se a pensar em seu lugar, a estabelecer com quem ele se deve dar, o que deve fazer, não fugindo à tentação de manipular o outro. Ora, isto não é amizade. É controlo e falta de respeito pelo espaço e autonomia da pessoa.

A sociedade portuguesa está eivada de paternalismo. Por vezes nas relações de amizade, mas também na política. Gostamos que alguém pense por nós, que seja nosso “amigo” e faça o “sacrifício” de nos governar. E depois andamos a queixar-nos de que nos estão a roubar e maltratar todos os dias. Já devíamos saber que as coisas não podem funcionar assim.

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 6/11/15.

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