Caiam lágrimas

Na Cidade Luz a noite fez-se negra. A morte e o terror irromperam de forma absurda, cruel e arbitrária. A perplexidade e a revolta apagam todas as luzes, calam todas as vozes, sufocam todas as lógicas de sentido e de esperança que buscamos na vida.

Sobram as lágrimas. Que caiam as lágrimas. Melhor lágrimas soltas do que palavras e atos de acusação equivocados e extemporâneos. Melhor lágrimas soltas do que revolta cega que não distingue vítimas de culpados.

Hoje renovou-se a manifestação cíclica de que a humanidade se mata a si mesma. A humanidade só o é se for una. Portanto, somos uma humanidade que não o é. A humanidade só será humanidade quando a  igualdade, a fraternidade e a liberdade se universalizarem e absolutizarem não nas constituições dos países ou nos pactos internacionais, mas nos corações de todos os homens e mulheres. A visão utópica que catalisou a revolução francesa traz sim indícios do que é ser humanidade, embora a concretização desse visão tenha sempre ficado aquém. Visão essa que hoje foi, mais uma vez, ferida e morta. Ferida e morta em salas de espetáculos, em esplanadas, ruas e avenidas da bela cidade. Ferida e morta porque parte da humanidade persiste na absolutização do ódio e porque parte da humanidade, em reação, persiste na absolutização da vingança, do olho por olho e dente por dente.

O que fazer? O que dizer? Como agir neste mundo onde o absurdo e até o diabólico parecem imperar?

As respostas esfumam-se sem chegar à tona. Não ultrapassam o nó que se forma na garganta, o aperto que dói no coração. Mas talvez seja melhor assim. Talvez seja melhor o silêncio. Que caiam apenas as lágrimas. Que delas se encha a noite negra, que delas se encham as nossas casas. Que caiam apenas as lágrimas. Que com elas se lave o sangue e as feridas das vítimas que são também nosso sangue e nossas feridas. Que caiam apenas lágrimas nesta noite escura em que percorremos com perplexidade a via dolorosa do luto, da ausência de respostas, da impotência.

Talvez venhamos a perceber que de uma outra Via Dolorosa já anteriormente percorrida resulta a única certeza que podemos ter: a certeza de que a vida é mais poderosa do que a morte; a certeza de que o amor, aparentemente fraco e impotente, vence o ódio; a certeza de que a humanidade verdadeira é possível pois o primeiro de entre os verdadeiros homens manifestou-se, enfim, na alvorada do terceiro dia.

 

Fonte: David Raimundo, Dear Sir, I Am.

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