Bocage crente

 

 

Qualquer análise que se pretenda estender ao âmbito da religião ou da espiritualidade, centrada na vida e obra de Manuel Maria Barbosa du Bocage, corre o risco de ficar desde logo comprometida quase em definitivo. E há um conjunto de razões que o justificam.

Para começar, pela fama de boémio e brejeiro que povoa a ideia popular predominante sobre a personagem, depois devido ao facto de Bocage se revelar um simpatizante da Revolução Francesa e muitas vezes um firme opositor dos clérigos, e finalmente a consciência da sua produção literária, uma parte dela classificada como erótica, entre diversas outras questões. Qualquer destes aspectos parece arredar de vez a presença da ideia do elemento divino no universo pessoal do autor.

Porém, e apesar disto e de muito mais, a verdade é que Bocage cita Deus abundantemente nos seus versos, em linha, aliás, com outros autores da literatura clássica, e através deles se pode tentar perceber que a revolta que se sente nele não se dirige ao Todo-Poderoso mas sim às instituições eclesiais, aos homens que falam em nome d’Ele e em especial ao Tribunal do Santo Ofício, com o qual figuras tão relevantes da nossa história e literatura como o padre António Vieira já anteriormente tinham travado as suas acaloradas guerras.

Dentre todos os aspectos acima citados que se destacam na vida e obra do poeta, talvez seja a sua postura de permanente guerrilha com os homens da Igreja, num século em que esta ainda dominava a sociedade, que mais nos faz desviar o vate dos caminhos de espiritualidade. Ora o erro está exactamente aqui.

Bocage soube distinguir entre o seu conceito de Deus, o Deus da fé cristã, o Deus revelado e os religiosos contra os quais arremetia gostosamente, sabendo da sua hipocrisia e descobrindo-lhes as intenções pouco condizentes com os valores doutrinários, despojando-os das suas vestes eclesiais e desnudando-os, revelava a sua notória corrupção moral. Bocage exibe assim um sólido conceito do divino, muito embora, segundo Parreira (1979), já não se possa afirmar o mesmo do seu conhecimento e relação pessoal com Deus: “A verdade é que o vocábulo conhecer e conhecer Deus, tem na linguagem hebraica um significado espiritual que ultrapassa a mera morfologia ou a semântica do termo. Conhecer Deus, para o israelita, era executar os Seus mandamentos, fazer a Sua vontade. Era sentir Deus com a alma, o espírito e o corpo. Não apenas por frios mecanismos religiosos, estéticos e racionais.”

Ainda assim – surpreendentemente, ou talvez não – cremos haver um notório pensamento espiritual em Bocage, plasmado nos seus escritos, o qual importa considerar com algum cuidado e sem preconceitos.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 20/11/15.

 

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