Estupidificação geral

 

Etimologicamente o termo “inteligência” significa escolher entre (inter-legere). Sendo assim, o inteligente não será o iluminado, o superdotado, o que acumula maior número de conhecimentos ou o que pressente o futuro, mas sim aquele que é capaz de fazer as melhores escolhas, face às opções que tem diante de si a todo o momento.

Mas para poder ser inteligente (ou desenvolver a sua inteligência), como se vê o indivíduo tem que poder fazer escolhas, correr o risco de falhar, isto é, de não ser capaz de fazer a melhor opção. E para isso acontecer tem que dispor de liberdade de escolha.

Mas quando olhamos para os conteúdos televisivos, por exemplo, começamos a compreender que não são escolhidos a pensar em promover a inteligência dos espectadores. Nos mesmos dias e às mesmas horas temos o mesmo tipo de programas, seja de informação, seja de carácter desportivo, seja de entretenimento. Os canais concorrem uns com os outros, através de formatos muito semelhantes, o que dificilmente possibilita a escolha de quem vê. As diferenças não são estruturais nem de objectivos, mas apenas de “clima” ou desempenho. No caso dos programas de comentadores de futebol, alguns deles são verdadeiramente execráveis, carregados de agressividade e parece mesmo que a ideia é ofenderem-se e andarem à estalada uns com os outros, se possível.

Como são quase todos muito maus, pergunta-se: promovem a inteligência dos cidadãos? Claro que não. E porquê? Porque, ao serem emitidos nos mesmos dias e às mesmas horas não permitem a liberdade de escolha, logo, o exercício da inteligência. Portanto, promovem objectivamente a estupidificação das pessoas.

Vejamos os programas da manhã e tarde, supostamente feitos a pensar em domésticas, reformados e desempregados. A massa de que são feitos é a mesma: exploração da desgraça alheia, populismo, pieguice, crendice, muita publicidade, promoção descarada de actores, jornalistas e outras figuras assalariadas da estação, chamadas de valor acrescentado e, pelo meio, alguma informação útil. Há verdadeira opção de escolha? Obviamente que não, porque o formato e os conteúdos são extremamente semelhantes. Sendo assim, não há espaço para a inteligência de quem vê. O mesmo se poderia dizer da maior parte das novelas.

O velho e estafado argumento de que se dá às pessoas o que elas gostam e querem é perigoso. Esse nivelar por baixo vai acabar por fazer da televisão uma coisa para velhos e analfabetos. As novas gerações estão a trocá-la pela internet. E fazem muito bem.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 11/12/15.   

 

 

 

 

 

 

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1 comentário a “Estupidificação geral”

  1. Sim. Aqui no Brasil os programas de TV são rudes e as novelas cheias de glamour de sabão (só fazem bolhas). Não podemos negar que o entretenimento é bom, mas nada inteligente a falta de opção.

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