O embuste educativo

MICHAELA REHLE. REUTERS.

MICHAELA REHLE. REUTERS.

 

Mais uma vez somos confrontados com o ranking das escolas em Portugal. Desta feita as privadas ocupam os primeiros trinta lugares do ranking do ensino secundário e a primeira pública, a Secundária do Restelo, só aparece no 34º. lugar. Parece existir um reforço progressivo das privadas, já que as públicas ocupam apenas oito dos cinquenta lugares de topo, quando no ano anterior eram onze.

Só que as coisas nem sempre são o que parecem. Com efeito, há diversas escolas privadas a fazer batota, isto é, a inflacionar as notas internas dos seus alunos, que contam 70 por cento para o acesso ao ensino superior. A inspecção do ministério comprova-o, já que teve de averiguar diversas denúncias nesse sentido, o que “permitiu corrigir situações ao nível da avaliação interna”.

Mas o pecado original deste tipo de rankings é que não toma em linha de conta o enquadramento social dos alunos, nem o contexto sociológico. As privadas escolhem os seus alunos – em matéria de comportamento ou de capacidades pessoais – mas a escola pública, por ser inclusiva, está impedida de o fazer. Logo, não se pode comparar o incomparável.

Alunos que vão para a escola com fome, que pertencem a famílias desestruturadas ou de baixo nível cultural, que passam frio no Inverno por falta de roupa adequada, ou porque nas instalações escolares não há aquecimento, não poderão manter os níveis de atenção e disposição para o processo de aprendizagem nas aulas, nem contarão com o apoio familiar que os ajude a melhorarem e sistematizarem os conhecimentos adquiridos em ambiente escolar.

A verdade é que são as escolas públicas que recebem em geral os alunos de meios sócio-económicos mais desfavorecidos e cujos pais têm níveis de escolaridade mais baixos. Ora, a investigação em Economia da Educação comprova que, apesar das excepções, “o nível de escolaridade dos pais é uma determinante fundamental dos resultados escolares dos filhos.”

Ana Balcão Reis, co-autora da investigação e professora na Nova School of Business and Economics, esclarece que as privadas “têm a possibilidade de mexer no corpo docente, de escolher os alunos que querem e em termos de organização da própria escola têm mais capacidade de definir os seus recursos e reforçar uma determinada disciplina, por exemplo. Ainda que a autonomia nas públicas tenha aumentado um bocadinho, estas têm sempre a limitação dos recursos disponíveis e que é muito maior do que no sistema privado.”

Sendo assim, o ranking vale o que vale. E neste caso vale pouco.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 18/12/15.

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