O estertor do macho latino

 

Portugal continua marcado pela criminalidade violenta a nível doméstico. Só no ano passado cerca de 30 mulheres foram assassinadas pelos maridos, namorados ou ex-companheiros, nalguns casos com verdadeiros requintes de malvadez. Sem contar outras tantas tentativas de homicídio. Uma vergonha.

O sentimento de posse parece estar na base desta anormalidade. O macho entende-se como proprietário da fêmea. Por um lado acha que pode fazer com ela o que quiser, incluindo maltratá-la física e psicologicamente, e por outro, entende que os demais machos não podem nem sequer olhar para ela.

Se virmos bem, esta atitude parte duma condição de fraqueza.

O ciúme, especialmente se for doentio, nada mais é do que um disparate accionado pela insegurança, e que se vira, em última instância, contra o próprio, com elevados custos ao nível da auto-estima, medos e sentimentos negativos, um cocktail que roça a paranoia.

Mas é também uma evidência de profundo egoísmo. O marido ciumento vive centrado em si mesmo e nunca nas necessidades e felicidade da companheira. Raciocina em circuito fechado. Leva-se demasiado a sério, como se o mundo girasse à sua volta. Trata a companheira como um objecto e teme ser roubado.

O macho latino funciona com mentalidade medieval. Não gosta da afirmação das mulheres na sociedade, nem da sua emancipação. Olha para as mulheres dos outros mas não gosta que os outros olhem para a sua. Classifica as mulheres em dois grupos: as esposas extremosas e as galdérias. Não está preparado para viver neste mundo. Talvez se desse bem num regime como o da Arábia Saudita – onde as mulheres pouco mais são do que objectos – à luz das legislação iníqua que ali vigora, onde não podem sequer conduzir um carro e onde só agora puderam apresentar-se a eleições locais.

Até mesmo os religiosos têm uma boa parte da responsabilidade neste estado de coisas, pois produziram uma teologia machista, chegando a distorcer as Escrituras nesse sentido.

O macho latino é uma espécie em vias de extinção. É fatal que desapareça em poucos anos. As conquistas das mulheres pela sua dignidade pessoal e social foram avassaladoras no século passado. À medida que a mulher deixou de estar confinada ao lar, funcionando apenas como parideira, mãe e dona de casa, e se começou a afirmar no espaço social – até aí uma coutada exclusiva dos machos – provou ser tão capaz como os homens.

Os assassínios de mulheres pelos companheiros, que temos vindo a assistir, representam o último estertor do macho latino.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 8/1/16.

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