Rangel tinha razão

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No capitalismo do consumo vendem-se significações e emoções. (Byung-Chul Han, Psicopolítica, Relógio d’Água, 2015)

 

Está a caminho de ser concretizada a profecia de Emídio Rangel sobre a capacidade de a televisão “vender” até um presidente da república. Rangel era um dos melhores conhecedores da comunicação social em rádio e televisão, tendo explicado em tempos que ela não vendia só sabonetes, tinha potencial para fazer o mesmo com um candidato a Belém.

É o que está a acontecer agora, com a candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa (MRS), o candidato que vem de longe, com uma década de comentário político semanal em horário nobre, em canais generalistas e com bastante tempo para perorar sobre a vida política, sem contraditório.

MRS, a ser eleito, sê-lo-á pela notoriedade que dez anos de televisão lhe conferiram, não pelas suas ideias políticas. Grande comunicador, a vencer, vencerá pela capacidade de sedução. O capitalismo de consumo em que vivemos distingue-se por vender emoções via comunicação social. Não é por acaso que MRS está a fazer uma campanha baseada em emoções e não em causas ou ideias.

Assim, grande parte do eleitorado não vota em programas ou propostas políticas, mas sim em pessoas que lhe suscitam alguma simpatia, alguma emoção ou significação. Veja-se o aumento tendencial do político-espectáculo (Reagan, Berlusconi) e do populismo (Chavèz, Putin, Trump).

Mas há pelo menos dois outros grandes equívocos nestas presidenciais. O primeiro é a ideia de que MRS protagoniza uma campanha independente dos partidos, como se não estivesse filiado no PPD/PSD desde 1974, nem tivesse sido eleito inúmeras vezes por aquela formação política, à qual, aliás, presidiu. E como se não tivesse passado os últimos dez anos a defender as suas cores políticas nas televisões e a atacar os adversários, internos e externos.

O segundo equívoco é considerar Belém como o topo duma carreira partidária, razão porque a classe política tende a rechaçar qualquer outsider. Mas esta ideia procede dum pensamento aristocrático-republicano, de inspiração monárquica, sendo muito pouco democrática. No fundo, o que se pretende é que o presidente saia da elite política e não do conjunto da sociedade. A excepção tem sido os militares. Eanes, porque estabilizou o país no pós-revolução e Soares Carneiro como testa-de-ferro da direita e negativo político do primeiro.

De resto, a recusa desse elitismo não significa que parte das candidaturas não passe de vaidade pessoal, a roçar o ridículo.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 15/01/16.

 

 

 

 

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