As mulheres sauditas

FAISAL AL NASSER/REUTERS

 

A Arábia Saudita é um regime de monarquia medieval que só tem subsistido devido a dois factores essenciais: o petróleo e o apoio dos Estados Unidos, como aliado no Médio Oriente.

Acontece que o preço do petróleo tem estado em baixa persistente, nos mercados internacionais, o que está a rebentar com a economia dos países que dependem excessivamente dessa receita. Vejam-se os casos de Angola, da Venezuela e dos países árabes em geral, alguns dos quais já tiveram de aumentar o preço de venda dos combustíveis aos seus cidadãos, coisa impensável até há pouco tempo.

Como se sabe, a política externa americana tem-se pautado há muito pelo controverso princípio de que o inimigo do nosso inimigo, nosso amigo é, e o regime saudita tem contado com o apoio americano na região, mesmo sem respeito algum pelos direitos humanos.

Há pouco mais de um mês realizaram-se as primeiras eleições em que a Arábia Saudita permitiu que as mulheres pudessem votar e ser eleitas, mesmo com inúmeras restrições. Apesar do sufrágio se destinar apenas ao preenchimento de cargos locais pouco relevantes (p.e. gerir a recolha de lixo e cuidar de jardins), o seu simbolismo é muito forte, até porque muitas mulheres se conseguiram eleger.

As candidatas sauditas não podiam expor as suas ideias directamente aos homens, em campanha, nem foi permitido que o seu rosto figurasse nos cartazes, em linha com a tradição vigente de elas precisarem da autorização de um homem para tomar várias decisões na sua própria vida. Mas nem isso limitou o número de candidatas, sendo que a percentagem de eleitoras superou largamente a dos homens que foram às urnas, numa proporção de oito para cinco.

Todavia, esta triste realidade ainda persistente no século vinte e um, não nos deve fazer esquecer do que se continua a passar em Portugal, um país europeu, onde a mulher ainda luta pelos seus direitos, pela sua dignidade e muitas vezes pela sua vida, tendo em conta os altos índices de violência masculina sobre as mulheres, e sobretudo os números impressionantes de crimes passionais perpetrados por homens sobre as suas companheiras, actuais ou antigas.

O problema é o mesmo: resquícios duma mentalidade patriarcal e medieval, que não se coadunam com o princípio republicano da igualdade de direitos entre cidadãos livres, independentemente do seu género.

Nenhuma religião pode justificar hoje, em caso algum, a menorização da mulher, seja do ponto de vista da tradição ou da doutrina. Se assim for, tal religião não serve para nada.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 5/2/16.

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