O cartaz e o que lhe subjaz

 

Por norma, não gosto de escrever textos de reflexão “a quente” porque o estado emotivo não é bom conselheiro quando se quer abordar qualquer tema (mesmo os mais fracturantes e/ou polémicos) de forma construtiva, consistente e bem fundamentada. Arriscamo-nos a tornar-nos iguais ao alvo da nossa crítica e acabamos por não contribuir para um debate inteligente. Todo este intróito por causa de um cartaz atribuído ao Bloco de Esquerda, relativo à adopção de crianças por casais homossexuais e recorrendo a uma figura estilizada de Jesus Cristo, alegando que ele também teve dois pais.

Parece que à hora a que escrevo já uma das dirigentes do Bloco, a saber, Marisa Matias, se distanciou da iniciativa do cartaz, considerando-o um “erro”. Dando de barato que devemos sempre desconfiar das reais intenções dos políticos, admitamos a sinceridade da dirigente bloquista. De facto, o cartaz não é apenas um erro, como um tremendo tiro no pé. Bem sabemos que o Bloco se caracteriza por defender causas fracturantes e polémicas, algumas de duvidosa aplicação e contributivas para um real avanço da sociedade e dos valores que a devem reger. Isso, contudo, não impede que tenha direito a expressar as suas opiniões, uma vez que as ideias combatem-se com ideias. E parece-me que o Bloco, talvez inebriado pela conquista do Poder a reboque do Partido Socialista, se esqueceu desse princípio elementar. É que, utilizando uma frase popular, “para vender o meu peixe, não preciso de dizer mal do peixe do vizinho, nem de o achincalhar”. E foi isso que o Bloco fez. É verdade que Jesus Cristo, enquanto figura histórica e personagem incontornável no mundo do pensamento, não é nenhuma “vaca sagrada” e que, por causa disso, é passível de crítica. Mas a crítica tem de se basear sempre no respeito pela pessoa, pela verdade histórica e centrar-se no debate das ideias. O respeito pelo Outro é indispensável para que tenhamos direito a ser ouvidos e, por consequência, respeitados também. Ora, o Bloco mais do que desrespeitar os crentes na doutrina e na figura de Jesus Cristo, desrespeitou-se a si próprio. Que valor me merece uma instituição que não tem respeito por si própria? É que se eu não me respeito a mim próprio, os outros não devem esperar que eu os respeite.

Um segundo aspecto parece-me também claro. Sendo o Bloco um dos grandes defensores da laicidade do Estado (com a qual concordo) e da separação dos poderes temporal e espiritual ou, por outras palavras, Estado e Religião não se devem misturar, é o primeiro a falhar na defesa desse princípio. A laicidade não é sinónimo de falta de valores nem de discriminação em relação aos que não lêem pela mesma cartilha que nós. Sabendo o Bloco a posição axial ocupada não apenas pela figura histórica de Jesus Cristo, mas fundamentalmente pelos seus princípios doutrinários na vivência de muitos dos cidadãos (que não têm de ser necessariamente filiados em alguma instituição de cariz cristão, tendo inclusive muitos votado no Bloco), utilizar a figura de Jesus Cristo fora do contexto é não apenas um desrespeito aos crentes, mas um insulto à inteligência.

É que, em rigor, a afirmação de que Jesus teve dois pais apenas é verdadeira e comprovável no plano doutrinário. Ou seja, como todo e qualquer homem, teve um pai e uma mãe, no caso concreto, José e Maria, com base nos relatos neotestamentários. O outro pai a que o cartaz se refere é uma verdade doutrinária que apenas como tal tem de ser entendida. Ou seja, o cartaz refere-se a dois níveis de realidades: o histórico e o religioso. Para quem quer manter a separação entre Estado e Religião, parece-me que há aqui qualquer categoria intelectual por parte do autor do cartaz em profundo débito. Como popularmente se diz, o Bloco perdeu uma bela oportunidade para estar calado.

(Jorge Pinheiro, via Facebook)

Advertisements

3 comentários a “O cartaz e o que lhe subjaz”

  1. De facto Jesus Cristo não é nenhuma “vaca sagrada” Ele é a uma Pessoa Sagrada, no verdadeiro sentido da palavra, irrepreensível, não profanado pela corrupção humana, logo não é passível de critica. O impio desconhece que a essência no Cristão é o próprio Cristo “…já, não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim.” Gálatas 2.19-20. A revolta dos cristãos nada mais é que a revolta de Cristo neles. Cuidado impenitente, pois te pões debaixo da ira de Deus tentando corromper o incorruptível. Apesar da tua ineficácia não serás tido como inocente.

  2. Com todo o respeito muito vaga a sua argumentação. Como cristão em nada me afeta o cartaz do BE pois nada tem a ver com o meu Deus e o meu Cristo. mais uma das incoerências daqueles que dizendo-se ateus vivem falando de Deus. Enfim….

  3. A afirmação do cartaz, apesar de misturar dois planos distintos não deixa de ser verdadeira. Jesus teve efetivamente dois pais.
    O que não se entende, para além do desrespeito óbvio pelas convicções alheias que nem sequer, neste caso, se colocam no plano político, é a finalidade da triste ideia. É que se Jesus teve mesmo dois pais, não é menos verdade que nenhum deles era homosssexual!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s