A porta da traição

 

O escritor Mário de Carvalho descreve a paixão suicida do conde de Fróis, que o leva a uma morte inglória, na defesa inútil duma tal praça de S. Gens, que nem no mapa vinha, face aos exércitos coligados de Espanha e França, em pleno século dezoito, e vem-nos lembrar convenientemente que “em todas as muralhas há uma porta da traição”.

A história dos povos está repleta de episódios de traição. Desde os tempos bíblicos, que evocam a traição de Dalila, mulher de Sansão, no período dos Juízes em Israel, ou a traição de Absalão contra seu pai, o rei David, querendo roubar-lhe a coroa, até a Judas Iscariotes, que traiu o Mestre por trinta moedas de prata. A traição parece assim fazer parte da condição humana. As pessoas traem outras, a quem devem lealdade, por dinheiro, por ambição, por inveja ou ciúme. E não só.

A vida política está repleta de exemplos de traidores. Miguel de Vasconcelos foi porventura o mais badalado na história lusa, e acabou mal, defenestrado pelos revoltosos no famoso episódio de restauração da soberania portuguesa, no séc. XVII.

Também nas relações humanas a traição está mais presente. As pessoas traem o cônjuge por prazer ou por outra motivação qualquer, destruindo as vidas à sua volta, seja do parceiro, parceira, dos filhos ou de outros familiares, e prejudicando-se a si mesmos também, tantas vezes.

O que leva então ao acto de traição? Que contabilidade permite arriscar uma sementeira de dor, sofrimento, desilusão, destruição e perda? Em nome de quê?

Alguns perguntam porque motivo Jesus de Nazaré terá escolhido Judas de Qeryoth para o círculo mais íntimo dos seus discípulos, se sabia – já que era o Filho de Deus – que aquele homem o iria trair mais tarde e entregar à morte? A resposta é simples. O Mestre da Galileia chamou os que entendeu, investiu neles por igual mas nunca lhes retirou a capacidade de escolha, de decidir o seu caminho a cada momento. Não pode haver aliança entre duas pessoas sem que a liberdade de cada uma delas esteja intacta.

Eu não posso obrigar ninguém a amar-me. Por isso o amor é um risco permanente, mas é isso que faz dele o que é. Uma coisa única na vida. Ou seja, o elevado prazer de saber e sentir que somos amados por alguém, mas não por obrigação ou interesse. Apenas amados.

Alguns serão dignos desse amor, outros não. É a vida. Mas tal não significa que se deva desistir de amar alguém. Tal como não se deve nunca desistir de viver, pela mesma razão – a vida é um risco. Mas é isso mesmo que a torna empolgante.

 

 Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 4/3/16.

 

 

 

 

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