Recordando Cavaco na hora duma despedida sem qualquer encanto

Foi-se embora de vez, da vida política (espera-se!), o pior presidente da república desde 1974, que o regime do Estado Novo considerava seu afecto. Recordamos um dos episódios mais tristes dos governos do Sr. Silva.

Cavaco homenageia o homem a quem há 20 anos recusou pensão

por Bruno Roseiro, Publicado em 10 de Junho de 2009
Cavaco Silva vai depositar um coroa de flores junto à estátua de Salgueiro Maia, em Santarém.

Quando, esta manhã, Natércia Maia olhar nos olhos do Presidente da República, há-de lembrar-se do primeiro-ministro que, há 20 anos, recusou conceder a Salgueiro Maia uma pensão por “serviços excepcionais ou relevantes prestados ao país”. Cavaco Silva que hoje, às dez da manhã, vai depositar uma coroa de flores junto à estátua do capitão de Abril, há-de lembrar-se da polémica provocada por ter concedido a dois inspectores da PIDE, António Bernardo e Óscar Cardoso, a pensão que negou a Salgueiro Maia.Em 1988, o militar solicitou ao governo uma pensão “por serviços excepcionais prestados ao país”. O pedido recebeu apreciação positiva – e até obrigatória – do conselho consultivo da PGR que, em Junho de 1989, por unanimidade, declarou que “muito do êxito da revolução se ficou a dever ao comportamento valoroso daquele que foi apodado de Grande Operacional do 25 de Abril”.

O parecer enviado a Cavaco Silva e Miguel Cadilhe, então primeiro-ministro e ministro das Finanças, respectivamente, ficou amarrado a um silêncio que durou três anos. Em 1992, a recusa é revelada porque se fica a saber que Cavaco Silva “tinha concedido pensões por serviços relevantes prestados ao país” a dois inspectores da PIDE. Um deles estava entre os que fizeram fogo sobre a multidão que estava na rua António Maria Cardoso – causando os únicos mortos da revolução.

 

 

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A revelação provocou uma onda de indignação no país: Francisco Sousa Tavares escreve, no “Público”, críticas violentas que acabam em tribunal – as palavras do escritor irritaram os juízes do Supremo Tribunal Militar – e dois meses mais tarde surge a mão de Mário Soares.

O Presidente escolhe então o dia das Forças Armadas para condecorar Salgueiro Maia com a Ordem Militar de Torre e Espada. A honra concedido a título póstumo – Salgueiro Maia morreu a 4 de Junho de 1992 – era a única condecoração que podia dar direito a uma pensão.

Cavaco Silva vai estar hoje frente-a-frente com o passado, perante um militar que juntou quatro presidentes da República no dia do funeral.

Fonte: Ionline, Bruno Roseiro, publicado em 10 de Junho de 2009.
A hipocrisia política por vezes tem contornos maquiavélicos. Ler aqui. 
 
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