O cavalo e o burro

 

Ilustração de Frances Barlow, metade do século XVII.

A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, há dois mil anos, constitui um dos episódios mais significativos da vida do Nazareno, relatado por todos os quatro evangelhos canónicos.

Ele andara por toda a parte a fazer o bem – tinha acabado de operar a ressurreição do amigo Lázaro – e chegava agora ao coração do judaísmo, sendo aclamado de forma espontânea pelo povo, que lhe reconhecia a virtude.

Uma passagem messiânica do profeta Zacarias já previa o pormenor do jumentinho cerca de quinhentos anos antes: “Regozija-te muito, filha de Sião; exulta, filha de Jerusalém; eis que vem a ti o teu rei. Ele é justo, e trás a salvação; ele é pobre e vem montado sobre um jumento, sobre um potrinho, filho de uma jumenta” (9:9). De facto Jesus entra na cidade entusiasticamente aclamado como Ungido de Deus, porém sentado no tal “filho de uma jumenta” (como dissera o profeta), em vez de num garboso cavalo branco.

Na tradição do Médio-Oriente, o jumento é um animal que simboliza a paz, ao contrário do cavalo que representa a guerra. Quando um rei chegava montado num cavalo, certamente desejava a guerra, mas se viesse num jumento procurava a paz. Portanto, a entrada de Jesus Cristo em Jerusalém simbolizaria a sua chegada na condição dum “príncipe da paz” e não um homem de guerra.

Mas como era de esperar tal recepção e agitação popular suscitou a inveja e o ciúme da classe sacerdotal judaica, altamente corrupta à época e politicamente comprometida, que viu naquela figura um irritante rival e um perigoso desafiador do sistema religioso caduco estabelecido na Judeia.

De facto o Domingo de Ramos marca liturgicamente o início da Paixão de Cristo, que representa a parte final do seu ministério público e da sua missão terrena, à qual se entregou voluntariamente, segundo o testemunho das Escrituras.

A propósito dos primeiros dias do novo presidente da república, dei comigo a pensar que por vezes mais vale sentarmo-nos no “burro” dos afectos, da proximidade, da simpatia e da presença, do que no “cavalo” da secura, da distância, do afastamento e da rigidez de quem se leva demasiado a sério. Mas isso sou eu a pensar…

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 18/3/16.

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