A geringonça e a traquitana

 

Nada é mais fácil do que se iludir, pois todo o homem acredita que aquilo que deseja seja também verdadeiro. (Demóstenes)

 

O nosso grande produtor de soundbites, mais conhecido por Paulo Portas, baptizou com sucesso a aliança parlamentar de esquerda de apoio ao governo minoritário do PS, de “geringonça”, na esperança de que não resistisse dois dias, ou que o então inquilino de Belém não empossasse António Costa, o piloto da dita cuja. Como se sabe não aconteceu nem uma nem outra das coisas, mas a geringonça ficou.

Reza o dicionário que, no sentido figurado, geringonça será uma “coisa malfeita, uma obra armada no ar, uma caranguejola”. Mas quem nomeou a coisa andava de traquitana (ou antes, de submarino, diriam as más-línguas). E a verdade é que a geringonça lá se vai aguentando, enquanto a traquitana foi ao ar.

Traquitana significa “carro desconjuntado e reles, carripana, coisa de pouco valor, bagatela”, entre outros mimos.

Pois bem, a PAF já ficou pelo caminho. A nova liderança do CDS quer descolar de vez deste PSD passista, já que não pode mais usufruir os benefícios do exercício do poder e não quer continuar a ser muleta do alheio, pois corre o risco de voltar a ser o partido do táxi.

Mas a líder do CDS quer descolar igualmente da liderança carismática de Portas, porque ele foi, na prática, o suporte da política do “ir além da troika”, do “ai aguentam, aguentam!”, do “emigrem, se faz favor”, e do “não sejam piegas”. Todas as suas autoproclamadas linhas vermelhas foram ultrapassadas e nem é bom falar na célebre demissão irrevogável… Cristas está a traçar um novo perfil, com inteligência, de modo a não ser confundida com o seu criador, como convém.

Por outro lado vão-se ampliando as vozes contra Passos, dentro do PSD, muito embora o facto de ter sido o partido mais votado nas últimas legislativas não permita ainda ataques em campo aberto. Neste momento os críticos estão a sugerir que Passos saia, mas daqui a pouco vão exigir que se vá embora. Ele e a sua trupe.

A lógica passista, que ninguém entende, é pintar o que resta da traquitana com uma cor apelativa – vulgo, social-democracia – para iludir alguns fregueses, mas ainda não entendeu o verdadeiro problema. É que bem pode mudar a cor que a carripana não vai sair do chão sem mudar a estrutura e sobretudo o condutor.

Até a esperança dum reforço vindo de Belém se vai esfumando. Já se percebeu ali que a traquitana tem que ir ao estaleiro, para renovação. Não se trata duma questão estética mas estrutural.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 1/4/16.

 

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