A santa aliança

"Família e amigos": cartoon de António para o Expresso.

“Os interesses particulares fazem esquecer facilmente os interesses públicos.” (Montesquieu)

 

O país ficou chocado com o voto contra dos deputados da nação, que inviabilizaram as moções de condenação da farsa jurídico-política que constituiu o recente julgamento dos dezassete activistas angolanos em Luanda.

A direita (PSD e CDS) uniu-se ao PCP a fim de inviabilizar uma posição do parlamento português, numa espécie de santa aliança, esta sim, a verdadeira geringonça.

A atitude política destes partidos foi da maior hipocrisia, porque destituída de critérios claros e inteligíveis. Os comunistas, que no passado contaram entre eles com inúmeros presos políticos, durante o regime salazarista-marcelista, esqueceram agora a solidariedade que seria devida a estes jovens, que se encontram na mesmíssima condição. Ou melhor, que estão em condição muito pior, porque os comunistas portugueses conspiraram mesmo contra a ditadura, mas os activistas reuniram-se para… ler um livro em conjunto. Não estavam na clandestinidade, não puseram bombas nem distribuíram panfletos subversivos.

Como Daniel Oliveira notou, é estranho que o PCP tenha invocado o princípio da soberania, neste caso, mas que o tenha esquecido tão facilmente no caso da Ucrânia.

Por outro lado, PSD e CDS alegaram que as moções de PS e BE sobre a farsa do julgamento em questão, constituiriam uma ingerência nos assuntos internos de Angola, mas a verdade é que não hesitaram em condenar idênticas farsas em Cuba, por exemplo. Ou seja, o PCP admite a existência de presos políticos em Angola e convive bem com isso em nome da identificação ideológica com o MPLA. Mas o caso de PSD e CDS ainda é pior, porque o faz em nome dos interesses financeiros e dos negócios.

O dia da rejeição destas moções, em nome dos argumentos invocados por estes partidos, é um dia de vergonha para os representantes dos portugueses na Assembleia da República. Estou convicto que o povo português lamenta este processo kafkiano, esta farsa, este atentado à democracia.

Mas isto comprova igualmente que os deputados não têm voz própria, estão demasiado acomodados para manterem a espinha direita, ou têm rabos-de-palha, que é como quem diz, ligações a interesses empresariais, económicos e financeiros inconfessáveis. De resto, o caso gritante de atropelo à ética política de Maria Luís Albuquerque, a senhora swape, só vem confirmar o facto.

Senhores e senhoras parlamentares, saibam que eu senti vergonha de vós.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 8/4/16.   

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