Insegurança social

 

Há coisas que ainda me fazem pasmar.

Um centro paroquial de Castro Daire foi multado pela Segurança Social em 5025 euros por levar comida à casa de 52 pessoas, quando apenas estava autorizado a fazê-lo a 30. Mas esta aberração assume contornos verdadeiramente kafkianos, porque, pouco tempo depois, “o centro foi autorizado pela Segurança Social a apoiar até 90 utentes, com os mesmos meios e a mesma verba – mas a multa não foi perdoada.” Não dá para entender. Primeiro a instituição é multada por apoiar pessoas a mais, mas logo a seguir a Segurança Social autoriza-a triplicar o número de utentes apoiados, embora com a mesma verba e quadro de funcionários?

Mas há mais. Segundo o Correio da Manhã, outro centro social, em São Pedro do Sul, “foi multado em 6300 euros pela Segurança Social, porque apoiou mais seis pessoas do que estava acordado. A ajuda devia ser para 30 pessoas, mas o Centro Paroquial ajudou mais seis.”

Ou seja, estas instituições decidiram apoiar mais alguns utentes do que o número constante do acordo firmado com o Estado, mas fizeram-no às suas custas, suportando todas as despesas inerentes. Qualquer dia o cidadão comum ainda é multado por dar uma côdea ou um copo de leite a um pobre…

A meu ver esta aberração e outros tantos problemas da Segurança Social têm a sua origem em duas questões.

Por um lado o excesso de “técnicos de secretária”, pouco conhecedores da realidade social das populações que supostamente deveriam servir, cheios de teorias, normas e regulamentos, e com uma visão desfasada da realidade. Sempre que surge uma situação nova preferem deixar cair do que trabalhar com atitude de serviço público, criatividade e bom senso, de modo a ir ao encontro das necessidades.

Por outro lado temos uma perniciosa perpetuação da partidarização da estrutura. De cada vez que muda o governo lá muda a direcção de quase todos os serviços, colocando-se nesses lugares quem pouco ou nada entende do sector, sem experiência na área. Esta prática dá origem a fenómenos perversos, como a influência exagerada dos quadros superiores, que são quem toma grande parte das decisões, mas sem se responsabilizar por elas, um pouco à maneira da famosa série televisiva “Yes, Prime Minister”.

Quando se penalizam instituições por dar de comer a quem precisa (“pessoas que não têm ninguém, que não sabem ler, não sabem escrever, nós somos as únicas pessoas que eles veem diariamente.”), e logo a seguir se permite que o número triplique, embora sem mais um tostão, alguém anda a gozar com o pagode…

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 22/4/16.

 

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