Recordar o 25 de Abril num mundo que mudou

 

Só quem não vivia em Portugal antes de 25 de Abril de 1974, quem nunca tivesse saído daqui ou fosse muito pouco politizado não se alegraria com a queda da ditadura. Nesse dia o país entrou em regime de festa, passada a surpresa inicial.

Houve depois quem tentasse estragar tudo? É verdade. Mas isso é quase inevitável em qualquer processo histórico tão marcante quanto este.

A verdade é que Portugal estava isolado no contexto internacional, antes da revolução, tanto a nível dos Estados Unidos e da CEE como da ONU. Desde que o papa Paulo VI tinha recebido em audiência os líderes dos principais movimentos guerrilheiros em actividade nas colónias africanas, que o país perdeu o pé. A independência da Guiné-Bissau já tinha sido reconhecida por uma multidão de países e as guerras em Angola e Moçambique estavam num impasse, tendo os comandantes militares consciência de que seria impossível resolver os conflitos pela via militar.

Houve sacrificados? Houve, em particular os portugueses residentes em África, devido a uma descolonização demasiado tardia, mas também por causa das tentativas inglórias de tentar uma independência branca, ao estilo da Rodésia de Ian Smith, que nunca poderia resultar naquela altura do campeonato. E o livro-proposta-política de Spínola veio tarde e nunca poderia ter sido aceite pelo regime marcelista.

Aqueles que se queixam da classe política actual (eu incluído) não podem deixar de se lembrar que ela é fruto das circunstâncias políticas. É que o país não tinha elites preparadas para o governar, caindo o regime autoritário anterior. E é bom lembrar também  que o mundo não parou. Incompetência nacional? Veja-se o que vai por essa Europa fora. Corrupção nos governantes? Olhe-se para o mundo. Crise de liderança no país? Basta ler a imprensa internacional e ver o que se passa noutras paragens.

O mundo mudou em definitivo. Acabada a guerra, a censura e a PIDE, os grandes desafios à ética e à justiça já não são essencialmente nacionais mas à escala internacional, tanto a nível europeu como global. É aí que as nossas batalhas têm que ser travadas, pela liberdade e a dignidade da pessoa humana. E não é uma batalha menos difícil. De todo.

 

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